Os nomes da identidade (1) Colette Soler

February 11, 2017 | Author: Sabrina Veiga Bonilha | Category: N/A
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171 CONFERÊNCIA

Os nomes da identidade (1) Colette Soler∗

Resumo A autora parte da tese psicanalítica segundo a qual o sintoma é o verdadeiro nome de identidade do sujeito, para tecer considerações acerca do nome e da nomeação. Após lembrar que, na função de nome próprio, todo nome tem seu sentido elidido, estabelece a distinção entre o patronímico, que é transmitido automaticamente, e o prenome, que é da ordem de uma escolha, trazendo consigo o estigma do desejo do Outro. Com base na teoria de Lacan, Colette esclarece, em seguida, a razão pela qual o nome do sintoma é um verdadeiro nome de identidade. Por fim, articula a função borromeana do dizer, argumentando que é o dizer do pai que une os laços do sexo e da geração, dizer que é uma função existencial, portanto contingente e pluralizável, e que pode até fazer lei, sem garantir a existência de uma lei do dizer. Palavras-chave: nome próprio, sintoma, identidade, Outro, referente. Abstract The author seeks the psychoanalytical thesis which says the symptom is the true subject’s identity name, to weave considerations about name and nomination. After remembering that in proper name’s function every name has it’s sense elided, she makes a distinction between the patronymic, which is automatically transmitted, and the prename, which is a choice that brings along the Other’s desire stigma. According to Lacan’s theory, Colette clarifies why the symptom’s name is true identity name. At the end, she articulates the borromean’s function of speech, believing that the father’s speech attaches the laces of sex and generation, this speech is a existential function, therefore contingent and plural and can even make low, without guarantying the existence of a speech’s low. Keywords: proper name; symptom; identity; Other; referring. Decidi centrar-me nas relações de identidade ao nome e à nomeação. Não vou partir do ∗

Psicanalista e doutora em psicologia pela Universidade de Paris VII. Idealizadora e membro fundador da internacional dos Fóruns e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Ex-docente da École Normale Supérieure e das Universidades de Paris VII e VIII. Autora de diversas publicações, e seus livros já foram traduzidos em diferentes línguas.

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172 zero, pois já existe uma tese em psicanálise segundo a qual o sintoma é o nome da identidade do sujeito, seu verdadeiro nome próprio. Embora não pretenda desenvolver a tese, vou deter-me em duas observações, aproximando-me, então, dela por meio de algumas considerações acerca do nome e da nomeação. Podemos encontrar um indício simples no fato de que determinados sujeitos conseguem mudar de nome por meio de suas obras. Mas o que é uma obra, senão o produto do laço entre um desejo e uma modalidade de gozo, entre os defeitos e as qualidades dos sujeitos? Do mesmo modo em que dizemos um Fragonard, o teorema de Gœdël, Zorro o justiceiro, dizemos também Jack o estripador, M. o maldito e, certamente, Joyce o sintoma. Basta, então, um único passo para se achar que uma análise almeja encontrar seu verdadeiro nome próprio. Mas isso quer dizer, também, que todo sujeito tem pelo menos dois nomes próprios: no sentido comum do termo, seu sobrenome, que tem sempre grandes ressonâncias subjetivas, e seu nome particular, aquele de seu sintoma. O patronímico é um nome recebido por meio da genealogia, um nome transmitido. Digamos que ele vem automaticamente do Outro. Aliás, patronymikos vem de pater e onoma, como se a língua registrasse a genealogia paterna. Contudo, sabemos que essa ligação com o pai não é assim tão geral, existem regras matronímicas de nomeação. Além disso, a prática da nomeação generalizada para todos os sujeitos é relativamente recente na história, pois durante um tempo realmente longo, desde a Grécia antiga, o patronímico era reservado às grandes famílias. Há também os casos atípicos, em que é o corpo social que nomeia, por exemplo, as crianças encontradas ou nascidas sob x. É como se a obrigação atual de declarar o nascimento, de fazer a inscrição obrigatória de cada criança no registro civil de nascimento, para além da função bem evidente de controle social, tivesse também uma função de acolhimento social de cada recémnascido, função de algum modo homóloga, no nível laico, à do batismo cristão. Diferentemente do nome comum cujo referente é geralmente uma classe de coisas, esperase do patronímico a indexação de uma, e apenas uma, existência independente de qualquer qualidade, a não ser a descendência. Nesse sentido, o patronímico não é um significante, pois tende a designar independentemente do sentido. É certo que um patronímico pode ter um sentido: senhor ou senhora Montenegro, Coelho, Costa (2) e, por que não, Soler, que, em sua língua de origem, reenvia ao sol, ao passo que, no ouvido dos franceses, é o astro rei! Porém, em todos os casos, o sentido é elidido em sua função de nome próprio. O prenome que se acrescenta ao patronímico é completamente diferente: ele não é transmitido automaticamente, mas inscreve uma escolha. Além disso, é sempre o estigma do desejo do Outro em relação àquele que acabou de chegar. Em outras palavras, um significado do Outro [s(A)] que traz consigo o rastro de seus sonhos e expectativas. E quanto de Vênus, de Ofélia, de Marilyn... A menos que seja a marca de seus lutos, quando é o prenome do filho que morreu, do avô de quem se sente falta ou o prenome composto que faz obstáculo ao sexo efetivo. Isso é tão claro para os sujeitos, que alguns decidem mudar de nome por conta própria, a despeito das exigências do Estado. A prática dos prenomes, até mesmo dos prenomes plurais, busca evidentemente aumentar o poder identificatório do patronímico. No entanto, este último brilha por meio da indigência de seu poder de discriminação. Provam-no a maior parte dos homônimos que se alinham nos anuários e a prática que consiste em mudar seu patronímico, quando é considerado ridículo, injurioso, quiçá, perigoso. A menos que seja apenas o que acontece em alguns lugares porque uma mulher se tornou esposa... Resumidamente, em sentido banal, o nome próprio é insuficiente para identificar, não consegue levar a cabo seu verdadeiro programa: identificar um, e apenas um, http://www.uva.br/trivium/edicao1/conferencia/os-nomes-da-identidade.pdf

173 indivíduo. A impotência dos patronímicos repercute de fato as dificuldades inerentes à definição do que é um nome próprio em sua relação ao referente, que vou chamar de “o nomeado”. Acreditamos nomear alguma coisa que “há” (3). Lembrem a história da gênese: depois de ter criado cada uma das coisas, Deus lhes deu um nome. Mas, se nomeamos o que há, um referente portanto, surgem imediatamente muitas questões. Este “há”, como distingui-lo dos demais? Dito de outra forma, como identificá-lo em sua unicidade? Será que é mesmo alguma coisa que existe? Pois é bem possível falar daquilo que, tal como Pégaso, não existe, ou existe apenas no imaginário. Vem daí o anseio, o voto de Willard Quine, ao visar a uma “imunidade ontológica”, que não especula sobre a existência e se restringe à questão da identidade: este “há”, o que ele é? Estas questões, que simplifico o máximo que posso, deram lugar a elaborações lógicas que merecem ser consideradas. Desde “A system of logic”, John Stuart Mill assinalara que, com o nome, denotação e conotação se tornam disjuntas. Grosso modo, as elaborações posteriores se distribuem segundo duas vias. Uma delas, a chamada via das teorias descritivistas, que começa com Russel e se prolonga notadamente com Frege, Searles e Strawson, advém da teoria das descrições de Russel. Consiste em ligar a função do nome próprio a uma descrição que fixe uma propriedade essencial do referente, ou um feixe de propriedades. Eis um exemplo fornecido pelo próprio Russel: Sir Walter Scott, o autor de Waverley. Ou, ainda, o exemplo de Kripke, Nixon, Presidente dos Estados Unidos em 1970, ou Hitler, o homem que mais matou judeus. Vemos que se trata de completar o patronímico com um traço que identifique uma singularidade que permita alcançar, sem possibilidade de confusão, o Um da identidade. Não esqueçamos que, embora sejam questões de lógica abstrata, nem por isso deixam de ter um alcance bem concreto, como sempre em casos iguais a estes. Pensem, por exemplo, na investigação policial em que é impossível dispensar os traços distintivos, que permitem uma identificação sem equívoco. A carteira de identidade, por exemplo, ela procede, independe das práticas descritivistas, ela que acrescenta ao patronímico uma série de traços: data e lugar de nascimento etc., e, ainda, como se diz, um signo particular para designar algumas marcas corporais, como as impressões digitais, que não são do sujeito, mas do corpo, assim como o DNA que, aliás, as suplantou. Essas tais marcas, há outras mais ambíguas, entre corpo e sujeito, que foram procuradas primeiramente na frenologia, em seguida na escritura, onde a grafia faz rastro singular infalsificável, especialmente na assinatura. Até mesmo com a ciência, as frequências da emissão vocal para além do acento audível e, por que não acrescentar, o estilo inimitável e insabido (insu) detectado pelo olho feminino que Lacan evoca em seu seminário com “os chinelos do professor”. Ao contrário, a outra via visa eliminar toda conotação. Kripke é seu representante mais eminente e mais inovador e, especialmente em "Naming and necessity", de 1972, ele tenta clivar o nome próprio de toda propriedade identificadora, de todo traço de singularidade, para transformá-lo naquilo que ele nomeia como um puro “designador rígido”, que isola o referente de todo e qualquer sentido. Vê-se que é bastante difícil chegar a um nome de identidade sem propriedade. O enunciado singular da pura existência é fonte de problema e, neste ponto, é bem difícil permanecer na psicanálise. Detenho-me um instante nos primeiros desenvolvimentos de Lacan sobre o nome próprio, tal como figuram em “Subversão do sujeito e dialética do desejo” (LACAN, 1960/1998). O nome próprio designa o que de um ser não está identificado e não é identificável pelo significante. Se o sujeito é identificado pelos significantes que assume, estes, contudo, são apenas representantes que não dizem o que ele é, digamos assim, em si mesmo, fora da representação. Resta então um http://www.uva.br/trivium/edicao1/conferencia/os-nomes-da-identidade.pdf

174 x. O nome próprio não é precisamente um significante que representa o sujeito, mas índice do que há nele de “impensável”, daquilo que é dele, mas não passa no significante. Em Freud, os dois nomes deste impensável são libido e pulsões. Em Lacan, primeiramente, desejo e gozo, depois, o nó borromeano específico, que define um ser falante. De modo que o nome próprio é nome da coisa e não do sujeito. E quando Lacan diz que o neurótico tem horror a seu nome, que não quer saber nada do que ele é como coisa, ele reformula o que Freud chamava de defesa neurótica, esta distância em que se fica do real, graças ao significante. De todo modo, o nome do sintoma é um verdadeiro nome de identidade, pois nomeia a partir de uma e apenas uma singularidade. É o que acontece com os exemplos que evoquei no início. Isso me conduz à renomada, a palavra que se usa para dizer a celebridade. O fato de ser famoso (fama) reenvia a uma segunda operação de nomeação, ao “fazer-se um nome”, quando já se tem um. O nome de renome consegue aquilo em que o primeiro fracassa, ou seja, indexar juntos uma existência e seus traços de unicidade, enodando o patronímico à singularidade distinta. É difícil considerá-lo como um simples “designador rígido”, que denota uma existência sem conotar absolutamente nada de sua especificidade. Mais do que isso, ele é o único que pode fixar a identidade singular. Como chamar essa singularidade, quer se manifeste nas obras ou nos feitos espetaculares, bons ou maus, senão singularidade sintoma? Sob a condição, evidentemente, de considerar a última elaboração de Lacan que nomeia sintoma, não a anomalia, mas a função que enoda e mantém juntos corpo, gozo e inconsciente. Renomear-se, então, tem sempre uma função borromeana, por meio da qual um sujeito assina com sua assinatura infalsificável. Joyce é a prova. Há, para ele, no entanto, uma especificidade de seu nome de sintoma – deixando de lado a genialidade. Lacan não disse Joyce, as línguas, ou "l'elangua" (4) como ele se expressa em seu seminário de 18 de novembro de 1975. Isto seria nomeá-lo por sua relação sintomática com a linguagem, de estilo principalmente maníaco. Com “Joyce o sintoma”, ele nomeia não o sintoma que ele tem, mas que ele é, ou seja, o fato de “realizar-se como sintoma” (LACAN, 1975/1987, p.35), com tudo aquilo que a expressão “realizar-se” implica de tempo e esforços mantidos assintoticamente em direção a seu ser sintoma, este ser sintoma que, para ele, consiste em encarregar-se da função borromeana, até o ponto em que ela supre a carência do pai. Isto feito, ele acrescenta um nome à série dos nomes do pai: “o filho necessário” (LACAN, 1975/1987, p.34), que não cessa de escrever-se e que renomeia “o espírito incriado de sua raça”. Gostaria de interrogar em que Lacan se apoia, em 1975, quando desliza do Nome do pai ao Pai do nome, porque não creio que seja apenas o gosto pelos jogos de palavra que o tenha inspirado. O “fazer-se um nome”, que aparentemente deixa todo o peso do nome no próprio sujeito, não deve enganar-nos quanto à inexistência da autonominação, o que quer dizer que um nome próprio, embora sintoma, é sempre solidário a um laço social. Vejam o homem dos ratos. Podemos dizer que rato vem do seu inconsciente como o nome de um gozo alocado em sua relação fantasmática com a dama e o pai, mas foi preciso Freud para designá-lo como homem dos ratos e lhe dar, assim, seu nome de ingresso na análise. Do mesmo modo, Joyce o sintoma é Lacan quem nomeia. Aliás, o mesmo acontece com o nome que ele se deu primeiramente: o artista, que precisou ser confirmado pelo público, digamos, pelo século. Sem este laço, ele teria sido apenas o megalomaníaco que Yeats percebera ao encontrá-lo no início de sua juventude. Em todos os casos, é necessário que aquilo que vou chamar de oferta à nominação para designar a inscrição do sujeito seja recebida por um Outro. É o mesmo que dizer que o nome está à mercê do encontro incalculável. Ele então participa da contingência – exatamente como o amor. Quem dispõe do poder – pois é um poder – de nominação? Desde que a contingência entre em jogo, o poder de nomear está relativamente disperso. Pensem na injúria odienta. É uma http://www.uva.br/trivium/edicao1/conferencia/os-nomes-da-identidade.pdf

175 tentativa de forçar as coisas na direção do nome de gozo, sem verdadeiramente fazer nome, pois é imediatamente recusado. Há também os nomes de indignidade impostos, que vêm do Outro sem que haja consentimento, como M. o maldito. É, sobretudo, o amor que nomeia. Esse tema atravessa o ensino de Lacan. Ele começa na noção de palavra plena alojada na intersubjetividade: “quando chamo aquele com quem falo pelo nome, seja este qual for, que lhe dou (...)” (LACAN, 1953/1998, p.301), ele me responderá, já que “só existe amor por um nome” (LACAN, 1962-63/2005, p.366). Os poetas o perceberam há muito tempo, já citei Claudel em Partage du midi, “Se me chamas por um nome que tu sabes e que eu ignoro (...) não poderei resistir”. O amor que nomeia eleva o anonimato do objeto, causa de desejo à unicidade eletiva do laço. Vemos, assim, até que ponto o nome é concedido. Mas não fixa em nada uma propriedade do nomeado. Pensemos, também, em Marguerite Duras, com “ton nom de Venise dans Calcutta désert” (teu nome Veneza na Calcutá deserta) etc. É certo que há outros tipos de nomeações: aquelas que são feitas a partir das “propriedades” do nomeado que constituem competências. É assim que se nomeia para um cargo ou para retribuir um mérito (dizemos ordem do mérito). São nomeações socializadas e socializadoras que inscrevem o ser identificado no laço social. Quando, ao contrário, é o amor que nomeia, as propriedades do nomeado não são convocadas: o nome que se recebe não é o nome de sintoma do amado, mas do amante, nome do objeto sintoma que eu sou para o outro. O “tu és minha mulher” o dizia claramente. Esses nomes falam mais daquele que nomeia que do nomeado. Aliás, é por isso mesmo que eles podem ser recusados. Impõe-se, aqui, uma clínica diferencial entre os sexos. Conhecemos esses homens que recusam o nome, especificamente o nome que eles devem dar. Como diz Lacan, para eles, o amor dispensa o dizer, pois eles se contentam com o próprio gozo. Do lado das mulheres, não existe amor sem dizer, prevalece a demanda da fala que nomeia. Aliás, foi por isso que se instituiu essa particularidade das mulheres, pois elas passam a usar o patronímico do Um de que elas são sintoma. Era assim, pelo menos, que acontecia entre nós, antes que a livre escolha do patronímico começasse a ser autorizada com as evoluções do casal e da família. O que é que especifica o Pai que nomeia? O dizer de nominação tem função borromeana. Ele enoda as três consistências, e correlativamente prende o real em um nó social, imaginário-simbólico. De um só golpe “ele faz nó e nós” (5), se posso dizê-lo. O dizer do pai tem a especificidade de não limitar-se ao dizer do amor heterossexuado. Como este último, ele nomeia o objeto-sintoma, uma mulher, mas seu meio-dizer lhe acrescenta este outro objeto, que é a descendência desta mulher-mãe, enlaçando, assim, entre eles os laços do sexo e os da geração – estes laços de que os progressos atuais da ciência nos fazem pensar que não estão tão inscritos na natureza a ponto de não poderem ser desfeitos. Era esta a tese de Lacan em 1975 (LACAN, 1974-75, lição de 21 de Janeiro). Vê-se que, ao colocar a père-version (6) do pai no princípio da árvore genealógica, ele visava apenas o meio-dizer que faz com que a nominação paterna seja disjunta da bipolaridade dos sexos. Portanto, deixava de lado paternidades reivindicadas hoje em dia, como as homossexuais, quer sejam de homens ou de mulheres. Os nomes do pai anunciados no plural combinam bem com o que ele formula em seguida: a função do Pai passa por um dizer. Ora, o dizer é uma função existencial, portanto, contingente, então, pluralizável. Ela pode se inscrever por meio de um significante no singular - o significante do Nome do Pai que Lacan nunca recusou -, mas não é uma função significante. Os Nomes do pai no plural são os nomes dos diferentes dizeres que a função comporta. A mulher, o homem mascarado de Wedekind, e eu acrescentaria, graças a Joyce, o filho necessário. Conhecemos o interesse que Lacan teve por Wedekind, atribuindo-lhe, inclusive, uma perspicácia http://www.uva.br/trivium/edicao1/conferencia/os-nomes-da-identidade.pdf

176 superior à de Freud em matéria de sexo. Ele retoma a questão dos plurais de um modo que merece que nos detenhamos. O Pai, diz ele, tem tantos e tantos nomes que nenhum lhe convém, não tem nome próprio, senão o nome de nome de nome, ou seja, o nome como existência. Nesta afirmação, o Pai designa a função, pois, no que concerne a um pai, aquele que sustenta a função com sua père-version, este tem um nome próprio, como todo sujeito. Então, e o nome de nome de nome do Pai-função? Ao reduzir esta tríade, podemos aplicar o jogo lógico que Deleuze aplica ao nome da canção de Lewis Caroll em seu livro Lógica do sentido. Pai é um nome; Nome do pai é um nome de nome; e todos os nomes deste nome de nome, A mulher, o homem mascarado etc., constituem a série dos Nomes do pai no plural. Isso equivale a dizer que, embora o dizer existencial possa fazer lei, até mesmo lei de aranha quando se trata do supereu, nem por isso existe lei do dizer. O dizer paternal que nomeia é, então, sobretudo, epifânico, como já o formulei. Ele redobra as injustiças da natureza com os acasos de sua emergência, mas sua contingência o desconecta dos avatares da família conjugal. Tradução: Vera Pollo Notas: (1) Conferência pronunciada em Rennes, no dia 31 de março de 2007. A presente conferência teve lugar no Pólo Oeste da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, a título de atividade preparatória para as jornadas que versaram sobre o tema “A identidade em questão”. (2) No original : Boulanger, Meunier, Beauregard, cuja tradução literal seria: Padeiro, Moleiro e Belolhar. Optamos por substituí-los por patronímicos mais comuns na língua portuguesa. (N.T.) (3) No original : “il y a” poderia ser traduzido também por “existe”. Optamos por manter uma maior proximidade sonora. (N.T.) (4) No original : “l’élangue”. Palavra criada por Sollers e retomada por Lacan, na qual o termo langue (língua) funde-se a l’élan (o elã, o movimento súbito e espontâneo, o impulso, a expansividade). Cf. Nota de rodapé da versão brasileira de O Seminário, livro 23 : o sinthoma. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2007, p.12. (5) A autora faz um jogo de palavras entre nouant, enodante e nou(s)ant, que condensa o pronome pessoal da primeira pessoa do plural : nous, nós. (N.T.) (6) Termo homófono a perversion, perversão, unindo os vocábulos père, pai, vers, em direção a, e version, versão. (N.T.)

REFERÊNCIAS LACAN, J. (1987) “Joyce le symptôme II”. In: Joyce avec Lacan. Paris: Navarin, 1987. ________ (1953/1998) “Função e campo da fala e da linguagem”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ________ (1960/1998) “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ________ (1962-63/2005) O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ________ (1974-75) O Seminário, livro 22: RSI. Inédito. MILL, J. S. A system of logic: ratiocinative and inductive. London: John W. Parker, West Strand, http://www.uva.br/trivium/edicao1/conferencia/os-nomes-da-identidade.pdf

177 1884. KRIPKE, S.A. Naming and necessity. San Francisco: Wiley-Blackwell, 1972.

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