Olha o que eu te conto, Bilé

August 30, 2016 | Author: Luciana Custódio Aranha | Category: N/A
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Olha o que eu te conto, Bilé A vida de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes

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Olha o que eu te conto, Bilé A vida de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes

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Carlos Eduardo Uchôa Fagundes 3

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Copyright 2014 © autor Proibida toda e qualquer reprodução desta obra por qualquer meio ou forma, sem a permissão expressa do autor. Autor: Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Edição e revisão: Mouzar Benedito da Silva e Rosali Figueiredo Direção de Arte: Giseli Bueno Projeto Gráfico e Editoração: Elemento Design Impressão: BC Gráfica Créditos complementares: Título Independente/ Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Imagem de capa: Carlos Eduardo Uchôa (Filho) Ilustração Bilé: Laura Uchôa Crédito das fotos/ Galeria: Álbum de família. Demais imagens cedidas pelo Grupo de Escoteiros de São Paulo e por Raffaele Sgueglio/ Abilux. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Ficha Catalográfica feita pelo autor

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UCHÔA FAGUNDES, Carlos Eduardo, 1957 Olha o que eu te conto Bilé, a vida de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes. São Paulo - SP: Carlos Eduardo Uchôa Fagundes, 2014. 252p. ISBN 978-85-918108-0-2 1. Biografias, genealogia e insígnia. 2. Bibliografias de autores. Bibliografias individuais. I. Título. CDD: 920 CDU: 012

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Sumário Prefácio 1 | Carlos Eduardo Uchôa Fagundes, eu me apresento 2 | Origens e primeira infância na Fazenda Marilena 3 | O retorno a São Paulo 4 | Separação de meus pais, uma temporada de fome 5 | Parêntesis para Domiciano, meu pai 6 | De volta com Margarida, minha mãe 7 | Aventura inesquecível pelo sertão selvagem do Brasil 8 | Férias na Fazenda Morro Grande, a vez do sertão paulista 9 | Preparando-me homem 10 | Depois da viagem a Europa, o que fazer? 11 | A primeira fábrica, casamento e meu primeiro filho 12 | Protagonismo na vida brasileira: dirigente sindical 13 | Militância pelo empreendedorismo e a Ciência e Tecnologia 14 | De menino pobre a homem bem-sucedido 15 | Laura, a família e as novas gerações 16 | Minha última batalha Anexos - Galeria Anexos - Árvore Genealógica Reflexões, Poemas e Contos de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes

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Agradecimentos Agradeço à minha esposa Laura, aos meus filhos Carlos Eduardo, Laura Maria e Paola Maria, aos meus netos Giuliana e Lorenzo, e ao meu bisneto Ramiro pelo incentivo, apoio e entusiasmo que me transmitiram para a realização desta obra. Agradeço ao Mouzar Benedito e à Rosali pelo profissionalismo, pelo entusiasmo e dedicação com que reuniram os textos que escrevi e os que relatei, quando já não podia mais escrever. Agradeço também às minhas irmãs Maria Helena, Maria Stella, Maria Margarida e às minhas primas Ana Cristina, Ana Maria e Maria Lídia, que me ajudaram a recordar as nossas peripécias de infância. Agradeço ainda ao meu filho Carlos Eduardo, que com sua enorme cultura e sua excepcional inteligência, me ajudou a revisar os textos e cedeu um de seus quadros para a capa do livro. E por último, e mais importante, agradeço a Deus por ter me dado mais um fio de vida para que eu pudesse escrever parte da história de minha longa vida. Muito obrigado, Carlos Uchôa

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“O corpo vem em cascalho, mas a alma vem feliz.” Então, eu posso estar cansado, mas me mantenho ocupado e estou muito feliz.

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Prefácio Uma vida se constrói no dia a dia, caminho pavimentado pela forma como os indivíduos encaram os desafios que parecem inexoráveis à condição humana. Para uns, os obstáculos se convertem tão e somente em dureza, em sofrimento; no entanto, para outros, as dificuldades tornam-se maiores ou menores conforme a perspectiva com que olham para si próprios, acreditando ou não na sua capacidade de agir, e nas referências de valores das pessoas que lhes são próximas. Claro que existem vínculos afetivos e condicionantes sociais que parecem quase que irremediavelmente determinantes sobre a sorte ou o destino de alguém, mas o fato é que cada um redige um script próprio, trilha sua trajetória de maneira única, movido pela fé (ou pela falta dela). Em Carlos Eduardo Uchôa Fagundes testemunhamos uma daquelas histórias em que se vê, a cada dia, amanhecer uma pessoa obstinada, determinada a construir seu lugar no mundo, mesmo que em alguns momentos da vida, especialmente quando criança, as condições materiais e também afetivas houvessem lhe sinalizado que o melhor teria sido desistir. Ainda criança, pequenininho, sozinho, faminto e com frio, de uma fome que lhe doía as entranhas, Carlos Eduardo persistiu, venceu a timidez, a dor, o desamparo, se apegou na força de vida demonstrada pela mãe, e saiu à luta. Buscou abrigo, comida e trabalho, uma vida muito diferente de sua origem nobre, de avós graduados na Sorbonne (o materno) e na Universidade de Cornell (o paterno). Não se deixou vencer pelas dificuldades e revelou-se um garoto ativo, arteiro, que se apegou às brincadeiras de criança, à solidez das relações com os irmãos, à mãe e à família materna, às amizades, para reconstruir sua história. A trajetória é relatada aqui a uma interlocutora aparentemente imaginária, a menina Bilé, na verdade uma lembrança emblemática, extraindo das memórias de Carlos Uchôa uma biografia ímpar, marcada por extraordinária riqueza de detalhes, trajetória capaz de surpreender o leitor, tamanha a diversidade de interesses e experiências vividas por esse personagem real ao longo de 76 anos, completados em 7 de setembro de 2014. Bilé aparece nesta obra

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como um recurso narrativo, mas o fato é que houve sim esta menina, que fez parte da fase mais difícil da infância de Carlos Uchôa e que simboliza as grandes contradições de sua vida: ela, filha da empregada, tinha a acolhida, o amparo, o zelo, a comida, o abrigo do frio e todos os demais cuidados que faltavam, em demasia, ao filho do patrão. Mas, sem autocomplacência ou autopiedade, Carlos Uchôa relata a Bilé, nessas memórias, que nunca, em momento algum, deixou de batalhar pela vida. Passada a fase mais dura, partiu em busca de crescimento, estudo e formação, frequentando cursos técnicos desde o ginásio, tornando-se líder de escoteiros e protagonizando viagens fantásticas, como ao sertão brasileiro nos anos 40, com apenas 10 anos de idade, ou à Europa do pós-Guerra. E, sobretudo, sempre buscou empreender, transformando-se em um dos principais defensores no País das pequenas e médias empresas e da implantação de incubadoras. Quando bem jovem, não lhe bastou, por exemplo, tornar-se um funcionário bem-sucedido de uma multinacional; Carlos Uchôa tinha potencial para ocupar um lugar de protagonismo na vida empresarial e sindical brasileira ― por isso, deixou de lado um emprego almejado por boa parte dos brasileiros, arriscou, comprou sua primeira fábrica, laborou, passou muitas noites sem dormir, engajou-se no sindicalismo, buscou referências na Europa e Estados Unidos, visitou empresas concorrentes, e teve papel marcante na feição que as entidades empresariais adquiriram nas últimas décadas. Foi inclusive um dos responsáveis pela estruturação do Ministério da Ciência e Tecnologia no Brasil. Atualmente, preside quatro entidades de projeção nacional: a Associação Brasileira da Indústria da Iluminação (Abilux) e Sindicato da Indústria de Lâmpadas e Aparelhos Elétricos de Iluminação no Estado de São Paulo (Sindilux), com mandato até 2015; e a Associação Brasileira de Administração (ADM) e Sindicato das Empresas de Administração no Estado de São Paulo (Sindaesp), cujos mandatos foram renovados, no final de 2013, para mais quatro anos. Temos desta forma um ciclo incomum, de alguém de ascendência nobre, de famílias das mais ricas do País, que viveu uma infância quase indigente,

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mas que virou o jogo até se tornar referência como profissional, dirigente, industrial, marido, pai e avô, sem abrir mão de aventuras como desbravar rios, matas e países. Carlos Eduardo Uchôa Fagundes encontra-se hoje acometido de uma doença incurável, por isso resolveu deixar nesta obra o relato positivo de alguns desses momentos marcantes de sua vida, como um estímulo àqueles que às vezes quase sucumbem à desesperança e sentem esmaecer a alma. Quem não se enfeita, por si se enjeita. (Frase que Carlos Uchôa costuma citar, de sua mãe Margarida) Os editores. Mouzar Benedito e Rosali Figueiredo

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1. Carlos Eduardo Uchôa Fagundes, eu me apresento Olá Bilé, sou aquele garotinho Carlos Eduardo, que você conheceu bem pequenininho na Chácara do Jardim Paulistano, em São Paulo, onde eu morava com meu pai Domiciano e meu irmão Quido. Você pouco se misturava com a gente, sua mãe não deixava, porque você estava sempre arrumadinha, enquanto nós, meninos, éramos sujos, largados mesmo. Poxa, passaram-se quase 70 anos, nem imagino onde você esteja, que rumos tomou, mas quero muito lhe contar histórias incríveis, de como os limites daquela vida na chácara não foram suficientes para me enredar, pelo contrário, pareciam mesmo me expelir para a vida. Hoje, escrevo pouco, minhas mãos não permitem muito além de desenhar cada letra em separado, formando lentamente as palavras, e relato com dificuldade as minhas histórias, estou ciente do momento que vivo. Mas justamente por isso, me coloco a falar, começando por um episódio recente, ocorrido em dia 22 de outubro de 2013. Naquele dia faríamos a comemoração solene dos 80 anos de fundação do Sindilux, entidade que presido há 35 anos e que teve importância histórica no desenvolvimento da indústria nacional, tendo sido um dos sindicatos fundadores da FIESP1. Eu me encontrava nervoso por aqueles dias, tenso pela minha situação atual, com uma doença que gradativamente limita meus movimentos, minha respiração. Esta data de outubro iria coroar toda essa trajetória de oito décadas do

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Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo.

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sindicato e de todo pessoal que trouxe a entidade até aqui. Eu teria que fazer o discurso, lançaríamos um livro comemorativo dos 80 anos. O Sindilux foi criado pelos irmãos Morvan Dias de Figueiredo e Nadir Dias de Figueiredo, que ajudaram a fundar a FIESP. A Federação tem um busto de bronze do Morvan e outro do Nadir na sala de reunião. E eu sou o sucessor deles no Sindilux. O Morvan ficou uma gestão só, de três ou quatro anos. Então o Nadir assumiu a presidência, por 38 ou 40 anos, depois passou para o filho, Jorge Figueiredo, que morreu cedo. Então eu assumi, permanecendo até agora. Devo entregar o cargo na próxima eleição, em 2015. Nesse período do evento de 80 anos do Sindilux, eu tinha que resolver também se continuaria ou não na presidência da ADM e do Sindaesp2. Tinha que montar uma nova chapa, publicar os nomes até o dia 26 de outubro. Fiz uma reunião com a diretoria toda e nela ficou muito claro: o pessoal exigiu que eu ficasse mais um pouquinho, por mais um mandato pelo menos. Eu sempre tive muita responsabilidade e não queria ser um peso morto. Se fosse útil, tudo bem. Mas se estivesse prejudicando o sindicato, eu não queria mais. Então combinamos que eles fariam toda a parte externa e eu ficaria trabalhando praticamente pelo telefone. A ADM é uma sociedade civil sem fins lucrativos para defender os interesses da Administração. E o Sindaesp reúne as empresas de Administração no Estado de São Paulo. São muito importantes, pois o que falta ao Brasil é Administração, no resto, temos tudo. A nova diretoria assumiu no dia 27 de novembro e ficaremos lá até 2018. Tenho fé em Deus.

“Tenho uma vontade enorme de viver, e isso é que está me mantendo vivo” Os primeiros sintomas de minha doença começaram a se manifestar em 2007 ou 2008. Vieram como uma dorzinha de garganta, que fui combatendo com umas pilulazinhas, melhorava um pouco, mas aí vinha a dorzinha de garganta de novo, assim continuou um tempo até que se tornou insuportável. Fui a

Associação Brasileira de Administração (ADM) e Sindicato das Empresas de Administração no Estado de São Paulo (Sindaesp).

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um médico, que mandou a outro médico, que pediu um monte de exames, fiquei bom tempo nesse pinga-pinga entre exames e médicos, médicos e médicos, e ninguém descobria o que era. A doença foi diagnosticada somente em meados de maio de 2010, por um pneumatologista que desconfiou de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), mandou fazer os exames e a confirmou. Desde então, eu estou sobrevivendo acima do normal. Também conhecida como “doença dos neurônios motores”, a ELA é uma disfunção não hereditária, não contagiosa, autoimune, invasiva. Uma doença para a qual, por enquanto, a Medicina não conseguiu cura. E é muito rara, com diagnóstico muito difícil. Então, é degenerativa, fatal. Leva seguramente à morte. Na literatura que se vê, é uma doença em que - após o diagnóstico - o óbito ocorre entre seis a oito meses. Há casos em que não. O problema é que por ser de difícil diagnóstico, os médicos não a conhecem ainda, pouca gente conhece, quase não há remédio, tem pouca pesquisa. Existe uma Associação Brasileira da ELA - a Abrela; e há um médico especialista, o Dr. Acary Souza Bulle de Oliveira, que está me tratando. E eles conseguiram fazer um convênio com o SUS, porque a doença, atingindo a parte da garganta, afeta primeiro toda a musculatura respiratória. Somos obrigados então a ficar com uma respiração acessória durante praticamente o dia todo. Isso é feito com um aparelho que custa razoavelmente caro, e o que eles conseguiram - a Abrela e o médico - foi que o governo cedesse esse aparelho, que fica em casa, sob supervisão do próprio SUS. Uma vez por mês vem uma fisioterapeuta ver se está tudo direitinho. O aparelho tem um chip que marca o tempo de uso, a pressão ingerida e tudo mais. No meu caso, ele está aferido para expandir 28 libras de pressão a um volume de mais ou menos um litro, mil mililitros, para se viabilizar o ar que essa máquina nos joga para o pulmão e se aspira. Um litro de cada vez e com 28 libras de pressão! É bastante forte! Com isso você mantém uma respiração acessória. Os remédios que existem são o Riluzol [substância ativa], que atua como neuro-protetor, e o Citrato de Tamoxifeno, que é usado inclusive no tratamento de câncer de mama. Essas são as medicações que se têm para “a doença em

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si”. Até agora não surgiu nenhuma outra. Os demais cuidados vêm da fisioterapia, boa alimentação e de medicinas alternativas. Se puder fazer, tudo pode ajudar, como acupuntura, reflexologia, que é o que eu faço. Na verdade eu tenho uma vontade enorme de viver, e isso é que está me mantendo vivo. Eu faço fisioterapia e essas medicinas alternativas, tomo religiosamente todos os remédios, e faço periodicamente todos os exames. Então meu caso é um pouco fora da norma, porque já são cinco anos que eu estou com essa doença.

Posso ser útil até como cobaia Logo que tive o diagnóstico, fiz uma carta propondo ao Dr. Acary que eu pudesse me tornar uma espécie de cobaia. Falei para ele que estaria disponível para o caso de se criar um grupo de estudo que fizesse as experiências possíveis comigo, para que servisse como referência. Então, de certa forma, meu caso tem sido acompanhado nesse sentido. No texto citei também a doação de órgãos, porque o meu corpo ainda está bom, funciona tudo. Se algum órgão puder ser útil para outra pessoa eu estaria disposto a doá-lo. É isso, mais ou menos. O que ocorreu depois da doença? A ELA é uma doença degenerativa que vai matando a gente a cada dia, a cada minuto. É uma doença que atinge a musculatura motora como um todo. Começa a afetar todos os músculos do corpo, especialmente da respiração, das mãos, braços, pernas, vai te exaurindo aos poucos. Há muita dificuldade de respirar, te dá uma canseira enorme fazer qualquer exercício, qualquer coisa, inclusive conversar, falar. Mas sou muito realista para essas coisas. Tive um câncer de próstata, e o médico foi acompanhando. Quando a próstata chegou a um determinado diâmetro, ele disse: “Vou tirar o material para fazer biópsia”. Depois me chamou e disse: “A biópsia é positiva”. Era um câncer pequeno, mas já estava começando na próstata. Falei: “Tá bom, doutor, quando é que a gente opera? Vamos marcar para amanhã a operação”. Eu não queria fazer quimioterapia, radioterapia, ficar naquele sofrimento brutal: “Já tira de uma vez e tudo bem”. Eu estava com boa saúde, enfrentei o assunto de peito aberto.

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Foi lá, tirou, fiquei perfeito, não tive mais nada. Faço regularmente o exame de PSA, dá zero, zero, zero. Eu me livrei completamente do câncer, na hora. Isso não me deixou sequelas. Graças a Deus. Com a ELA é a mesma coisa. O que vou fazer, dar um tiro na cabeça? Não vou fazer isso. Vou continuar até onde der, vou lutar com todas as forças que eu possa ter. Só que o câncer tem muito mais recursos do que a ELA. São pouquíssimos doentes no mundo inteiro, então a pesquisa é muito pequena. Repito: é uma doença que não tem cura, autoimune, ninguém sabe de onde vem nem como vem. Então eu só tinha duas alternativas: ou me desesperar e ficar uma pessoa chata, horrível, resmungona, chorona, uma má companhia; ou eu aceitar a ELA como sendo mais um aprendizado pelo qual tenho que passar. E ela está me ensinando bastante. Aceito a doença, mas sem me entregar. Luto todos os dias para ir tocando a minha vida. Com isso deu tempo até agora de direcionar as coisas para os meus filhos, transferir todo o patrimônio a eles, estou fazendo uma retirada de cena mais tranquila. O problema da doença é que dá sempre um terrível mal-estar, umas dores horrorosas no corpo inteiro quase que o tempo todo. Eu não posso viver à base de analgésicos, tenho que aprender a viver com a dor. Dói todo o tempo, todo momento. Qualquer esforço, por pequeno que seja, é muito difícil. Escovar os dentes, por exemplo, ô! É uma coisa! O médico disse que a situação é como se estivesse correndo uma maratona, está sempre cansado. Imagine se, no fim de uma maratona, você tivesse que pular um obstáculo, é quase a mesma coisa, é muito difícil. Mas tenho fé em Deus. Ele sabe o que está fazendo. Para mim o que trouxe é isso: que a gente não pode tudo. Eu sempre fui um homem muito otimista e forte, continuo sendo otimista, continuo sendo forte, mas também não estou entregando os pontos. E também estou pronto pra ir... Como digo: já comprei o bilhete, a passagem, só estou aguardando Deus me dizer: “O dia é hoje”. Aí eu vou... Esse é o meu ponto de vista sobre essa coisa. E com isso eu permaneço à frente dos cargos nas entidades. Já a fábrica, que é uma coisa mais trabalhosa, difícil, passei adiante. Transferi as fazendas e as demais propriedades a uma

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empresa de administração de meus filhos, então eles cuidam. Continuo com a presidência das entidades, porque é uma forma de ser útil e estar vivo ainda. Isso alimenta a vida.

Lampa Era um domingo de outono, por volta de 11h30, minha mulher e meu filho tinham ido à missa, eu estava sozinho em casa. O céu estava nublado, a cidade cinzenta, fazia um friozinho de 13oC, que nos convidava a ficar na cama. Eu sofria de “ELA”, Esclerose Lateral Amiotrófica, e por isso tinha muita dificuldade de andar e respirar. Usava uma máscara de respirar que me insuflava um litro de ar com 28 libras de pressão diretamente nos meus pulmões. Por isso passava a maior parte do tempo na cama, deitado de barriga para cima, com os braços cruzados sobre o peito e coberto até o pescoço, mantendo os olhos fechados, porque a máscara os incomodava muito. Estava deitado e, como sempre, com os olhos fechados, quando senti um golpe no peito como se fosse um murro. Abri os olhos e vi ao lado da minha cama um homem pardo, de cabelos pretos e olhos castanhos, que me olhava com perplexidade, e depois de um tempo me perguntou: “Carlão?”. Fiz que sim com a cabeça. Olhando-o melhor e reconhecendo sua voz, perguntei-lhe: “Você é o Lampa?”, e ele me respondeu: “Sim, eu sou”. Vi nos seus olhos um turbilhão de pensamentos que, alimentados por toda a cocaína ingerida, o transformava num caldeirão de sentimentos: medo, dó, compaixão, ingratidão, perplexidade, angústia, desespero, alucinação... Num gesto repentino, arrancou o punhal manchado de sangue do meu peito e com as duas mãos cravou-o no seu próprio coração. Após um infinito silêncio, caiu de joelhos ao lado da minha cama. Seus olhos pareciam me pedir perdão. Como uma torre, desabou para o chão.

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Fiquei desesperado, sem saber o que fazer. Aí me lembrei de que antes de sair para a missa minha mulher havia deixado o telefone portátil na mesinha de cabeceira, para alguma emergência. Com enorme esforço consegui discar 190 e expor o sucedido. O telefone deslizou para o chão e eu perdi a consciência. Quando acordei, um médico me explicava que o punhal tinha resvalado pelo osso do meu braço e penetrado na carne do meu peito, sem ter atingido nenhum órgão vital e, embora tenha perdido muito sangue, não corria risco de vida. Olhei para o chão e vi o Lampa como uma ilha circundada de sangue que tingia de vermelho os tacos do assoalho. Lembrei-me do dia em que o Lampa apareceu lá na fábrica pedindo emprego. Era quase um menino, tímido, inseguro, desconfiado, e mal conseguia olhar para a gente. Apesar de tudo isso, resolvi dar-lhe uma chance e o contratei como aprendiz. O tempo foi passando e o Lampa foi se soltando, porque percebeu que nós o tratávamos como homem, como gente, com consideração e respeito. À medida que sua autoestima crescia, ele ia liberando a sua verdadeira personalidade extrovertida e alegre, e quando ele chegava parecia que uma luz se acendia e a claridade aumentava. Por isso o apelidamos de Lamparina, que nós, os mais íntimos, abreviamos para Lampa, ao que ele atendia com certo orgulho. De repente o Lampa sumiu sem deixar rastros nem vestígios. Ficamos imaginando que os seus antigos colegas o haviam cooptado novamente. O certo é que nunca mais se soube do Lampa até hoje. O crime e as drogas ganharam uma nova batalha. Até quando? Crônica de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes (01/05/2013)

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2. Origens e primeira infância na Fazenda Marilena Bilé, sou filho de famílias antigas, tradicionais. Papai Domiciano veio dos Uchôa Fagundes e, mamãe Margarida, dos Rego Freitas3. Papai e mamãe conviviam com os jovens dessas famílias, que foram se casando entre si. Naquele tempo, primeiras décadas do Séc. XX, eles se encontravam no Piratininga, um clube de jogo localizado no centro da cidade, e no Jockey Club. E também nas reuniões da sociedade, onde se conheceram e se casaram. Mas mamãe já trabalhava, assim como algumas de suas irmãs, porque seu pai, João Evangelista do Rego Freitas, e a mãe Edméa Ribeiro dos Santos Camargo de Andrade (Vasconcellos) não tinham mais dinheiro, apesar de donos de uma grande fazenda, a Morro Grande, na região de Rio Claro, interior de São Paulo. Meu avô materno era um homem muito culto, instruído, educado, gentil, teve uma educação refinada, era formado em Sociologia pela Sorbonne (Paris). Falava, perfeitamente, francês e várias outras línguas.

Também os Souza Queiroz são parte importante da formação da família de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes. Dados sobre essas origens encontram-se registrados em três obras, são elas:

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Álbum de Família: Souza Queiroz. Texto: Luiz Roberto de Souza Queiroz e Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Junior. Coordenação: Maria Cecília Brotero Pereira de Castro. Edição da Associação Barão de Souza Queiroz de Proteção à Infância e à Juventude/ Instituto Ana Rosa, São Paulo, 2007; Família Souza Queiroz, de 1874 a 2004. Produção: Luiz Roberto de Souza Queiroz. Coordenação: Maria Cecília Brotero Pereira de Castro. Edição da Associação Barão de Souza Queiroz de Proteção à Infância e à Juventude/ Instituto Ana Rosa, São Paulo, 2004; e, Os Mendonças das Alagoas. Ensaio Genealógico Luso-Brasileiro. Antonio Horta Correia. Edições Artlandiabooks, Lisboa, Portugal, maio de 2011.

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Ele era também um homem bonito, havia sido muito rico. Apelidado de o Conde de Monte Cristo, tinha uma carruagem negra, com três parelhas de cavalos negros. Vestia uma pelerine negra, com uma cartola negra e passava longas temporadas em Paris. Pelo lado de papai, o meu avô Euclydes de Almada Fagundes também era um homem muito culto, formou-se em Engenharia Agrícola na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e era um empreendedor nato, um empresário de visão e entrou muito nos negócios da família, abrindo várias frentes, fazendas, indústrias e muitas outras atividades. Ele montou a indústria de louças pioneira no Brasil, a Santa Catharina4, que foi sem dúvida a maior do país na época, pois chegou a ter mil funcionários. Casou-se com Adélia Tamandaré Uchôa, também de família muito antiga e tradicional. Tiveram quatro filhos, entre eles, Domiciano. Depois do casamento de Domiciano com Margarida, vieram cinco filhos: Maria Helena, Euclydes, eu (Carlos Eduardo), Maria Stella e Maria Margarida. Nossas famílias, a partir da geração de meu pai e minha mãe, passaram por muitos problemas econômicos, de sucessão, e aí valeu aquele ditado: “Pai rico, filho nobre, neto pobre”.

Com a crise, mudança para a fazenda Houve muitas crises, e muitas nuvens negras passaram por sobre toda economia. Foi a partir da crise de 1929, principalmente, que nossas famílias ― que tinham muito café ― foram praticamente à ruina. O café se desvalorizou muito e a situação econômica foi horrível. E aconteceu também que, do lado de meu pai, vovô Euclydes morreu muito cedo e não teve um sucessor à sua altura, aí o patrimônio familiar foi todo dilapidado. Do lado de minha mãe, logo depois da crise de 1929, ela e as irmãs se mu-

Permaneceu com a família até os anos 30, mesmo depois da morte precoce de Euclydes. Foi adquirida pela IRFM (Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo).

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daram de São Paulo para a fazenda delas, a Morro Grande, que era muito grande, chegou a ter 1,5 milhão de pés de café, fruto ainda das sesmarias, das heranças antigas, especialmente da tia Sinhá e da vovó Edméa, que era irmã da tia Sinhá. À medida que as meninas cresciam, elas foram retornando para São Paulo, cada uma num emprego, conseguindo manter-se aqui na cidade. Um pioneirismo, porque as moças de família naquele tempo normalmente não trabalhavam. Mas os Rego Freitas eram muito realistas, muito avançados, com os pés no chão, e conseguiram todos ter bons empregos em São Paulo e se estabelecer de volta aqui, com uma vida mais simples, mais de classe média. E papai, que herdou toda aquela fortuna com os pais e os tios, foi só perdendo uma coisa, perdendo outra, e no final, eles também mudaram para a Fazenda Marilena, perto de Garça, num município que hoje se chama Lupércio, homenagem a Lupércio Fagundes, um dos irmãos Fagundes, que abriram toda aquela região. Lupércio era primo do papai. Nós mudamos. Eu nasci em São Paulo, na Pró-Matre, mas ainda pequenininho, usando fralda, fui morar nessa fazenda, distante na época 24 horas daqui. Íamos de trem até Marília, e lá pegávamos um Ford 1929 para irmos à fazenda, passando pela estrada de terra da Serra de Ocauçu [hoje substituída pela BR 153]. Ela tinha 370 alqueires, e era tudo café. Quando começavam a abrir as terras, quando derrubavam o mato e tocavam fogo, aí plantavam arroz e milho, um pouco espaçado, e plantavam melancia junto. Eu era pequeninho, o arroz, quando estava começando a cachear, era mais alto do que eu. Então eu ia meio por baixo do arroz, pegava aquelas melancionas fresquinhas pelo orvalho da manhã... Uma delícia. Minha irmã Stella nasceu na Fazenda Marilena, e o parto foi lá mesmo. Mamãe contava episódios interessantes desse parto, dizendo que o médico estava absolutamente bêbado naquele dia e que quem acabou fazendo o parto foi uma ajudante de parteira que tinha na fazenda. Mas Stella

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nasceu e correu tudo bem, e se tornou uma linda menina e uma bela moça. Alguns episódios na fazenda aconteceram quando eu era bem pequeninho. Disseram-me e eu vi fotos depois, que a mamãe me colocava de fralda na frente, no terreiro, para tomar sol. Uma vez comecei a gritar e ela veio toda esbaforida para ver o que tinha acontecido, eu levantei o dedinho e falei: “Mamãe, mamãe, mamãe”. Tinha uma formiga, uma saúva, me pegou a ponta do dedinho gordo de neném, e estava sangrando. Ela tirou a saúva, desinfetou o dedo e me levou para dentro. Outra vez que eu estava lá, tomando aquele solzinho, apareceu uma cobra, uma cobrona ― imagine um terreiro bem limpo, sem nenhuma folha e aparece um bicho, uma cobra toda se torcendo, andando pelo terreiro ― e eu, pequeninho, fiquei entusiasmado com aquilo, comecei a engatinhar para pegar a cobra. Um primo, o Luisinho Fagundes, estava na varanda, deu um tiro na cabeça da cobra. Matou a cobra! Aí me levaram para dentro, acho que nunca mais me deixaram sozinho no terreiro.

Lembranças de um lugar agradável A fazenda era muito boa, de terras novas e muito produtivas, e ficava à beira de uma estrada, sua cerca era toda de ripas de madeira, com a ponteira cortada, era tudo muito caprichado, muito bonito. A casa era bem grande, toda de madeira, já ficando com um tom cinza, de madeira exposta ao tempo, e tinha um terraço em praticamente toda a volta da casa. A casa era erguida sobre pilotis, de forma que tinha um porão embaixo, para ela não ter contato direto com a terra. E tinha então sala, cômodos, quartos, banheiro, cozinha... O banheiro era gozado, porque era apenas para tomar banho. Ele ficava perto da cozinha, tinha uma bacia, então se esquentava a água no fogão a lenha na cozinha, se colocava na bacia, e ali mamãe dava banho na gente. Os adultos também tomavam banho, quando possível, naquela bacia. Para “fazer as necessidades” havia um galpãozinho perto do pomar,

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a casinha com a fossa embaixo, e você fazia as necessidades diretamente na fossa. Então para “fazer necessidades” você tinha que sair de casa, de noite, de dia, quando fosse, para poder ir lá. No fundo da casa havia um galpão bem grande, alto, onde tinha o poço que alimentava a casa de água potável. E nesse galpão tinha forno de fazer pão e também tinha todos os equipamentos de lavoura, como arados e vários arreios de animais. Tudo isso era guardado ali. Do lado direito de quem olha a casa, tinha os terreiros de café, enormes, todos eles ladrilhados com tijolo, repartidos, e ao fundo dos terreiros ficavam os silos. O café, depois de seco, era transportado para esses silos e recebia mais um período de secagem e aí depois eram ensacados e vendidos. Do lado esquerdo tínhamos um grande pomar, muito caprichado, com muitas frutas de várias espécies, o papai era muito caprichoso. Não tinha sequer uma folha no chão, que era todo de terra batida. Ele era muito exigente. Na cerca que dividia essa sede com a estrada, tinha uma tora do lado esquerdo de quem olha da casa, uma tora enorme, e nós então sempre subíamos naquela tora e ficávamos olhando para a estrada, brincando lá em cima, fazendo da tora uma espécie de observatório. Ao lado da cerca havia também não sei quantas leiras de abacaxi. Com toda aquela plantação ali, a gente sempre conseguia um abacaxi madurinho para comer. Atravessando a estrada, do lado direito tinha a casa do administrador. Naquele tempo era Seu Farello, como chamavam, italiano. Ele e a mulher adoraram minha irmãzinha Stella, e ela vivia lá com eles. A gente brincava, depois, que a Stella era “filha” do Seu Farello. E ele tinha um jardinzinho na frente da casa, com várias flores, mas também sempre plantava cenouras e outras coisas gostosas. Às vezes a gente arrancava essas cenouras da terra e comia.

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Um “porém” que me incomodou Ainda depois da estrada, do lado esquerdo ficavam os currais, onde se cuidava do gado, e tinha uma coisa curiosa, que eu nunca vi depois em nenhuma outra fazenda, que era um curral bem alto, de tábuas lavradas, bem lisas e praticamente indevassáveis. Esse curral era redondo e tinha uma porta pela qual eles introduziam os touros e eles ficavam ali dentro lutando. Tinha uma arquibancada por cima, eles assistiam a briga, a luta dos touros, e faziam jogos, apostavam que touro ia ganhar, quantas chifradas davam, quantos coices, quem caia primeiro, qual sangraria primeiro. Era um absurdo, eu já achava isso desde pequeno5. Nunca mais vi essa arena em lugar nenhum, foi a primeira e última vez que eu vi isso.

Brincadeiras típicas da fazenda Depois dos currais tinha o pasto dos bodes, com um bodão branco, de cavanhaque curto, bravo pra chuchu. Toda vez que entrávamos lá, ele vinha correndo e “pumba!”, dava chifrada na bunda da gente até derrubar. Era divertido porque íamos provocar o bode, e ele “pof!”, batia na gente, não sei como não machucava. E lá embaixo tinha uma mina onde às vezes íamos tomar água ou brincar, uma mina de onde escorria um barro preto, mas a água era boa. Naquela região a água era toda meio salobra, não era uma região de águas puras, mas assim mesmo dava para a gente tomar. A fazenda tinha algum gado, embora fosse basicamente de café. Tinha um cafezal maravilhoso. Numa venda, os colonos podiam comprar os gêneros de primeira necessidade, depois pagar no fim do ano com sua participação na safra do café. Lembro também que o cafezal era muito bem cuidado, e muito produtivo. Então, na época da colheita, se faziam aquelas montanhas enormes de café no terreiro, que eles, à noite, amontoavam, cobriam com lona, para proteger do sereno, e de manhã esparramavam tudo de forma a ir sempre movimentando e virando os grãos, para que secassem por igual. A tourada, corrida de touros, é tradição antiquíssima em Portugal e Espanha. Essa tradição foi enriquecida nos Açores, de onde provêm os Fagundes.

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Nós íamos brincar naquelas pilhas em algumas noites, especialmente noites de lua, ou logo de manhã, quando eles tiravam as lonas de cima. A gente subia engatinhando por aquelas pilhas de café, que pareciam pirâmides, e descia escorregando de lá de cima até embaixo. Era uma delícia, uma diversão. Gostávamos de “catar filipe”. “Filipes” eram grãos de café grudados entre si, duas sementes juntas. Brincávamos de “passa filipe”: a gente ia cumprimentar alguém, ou ia falar com alguém, e passava para a mão dele aquele filipe, e falava “passa filipe!, passa filipe!”. A pessoa que o recebeu era obrigada a dar um presente para quem passou. Na hora em que eles estavam ensacando o café, nos silos, que eram enormes, tinha uma escadinha, e eu e meu irmão gostávamos de subir lá no alto e ficar deitado em cima do café. Quando embaixo os operários abriam a bica, o café começava a girar, como redemoinho, e a gente então girava junto com o café e ficava rodando, planando em cima do café, mas rodando, rodando, rodando, e era também um divertimento muito bom. Um dia, o meu irmão Quido, apelido do Euclydes, em vez de querer rodar no sentido horizontal, cismou de rodar no sentido vertical, e o café foi engolindo ele, engolindo ele... e ele foi quase morrendo sufocado. Eu fiquei desesperado, comecei a gritar lá de cima, eles fecharam a bica, subiram lá e puxaram meu irmão já de dentro do café, porque estava quase morrendo afogado dentro da pilha, que praticamente engoliu ele. Então essas eram as traquinagens. Eu me recordo quando era tempo de colheita do algodão que também tinha lá. E depois havia colheita de arroz, a gente ia cedinho andar no arrozal, procurando melancias ainda fresquinhas pelo orvalho da manhã. Era uma delícia. O amendoim era colhido com planta e tudo, pois é uma raiz, e os colonos pegavam aquele amendoim para secar no terreiro, depois guardavam lá nesse galpão grande, atrás da casa. Quando assavam pão ou alguma outra coisa, eles torravam o amendoim, e muitas vezes torravam com o pé e tudo. Então a gente pegava aquele pé de amendoim e amarrava na cintura, ficava aquela penca de amendoins caindo como se fossem cachos de uva, caindo do lado das pernas da gente. Íamos andando, passeando e pegando aqueles amendoins e comendo. Também era muito divertido.

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No pomar tinha inclusive campo de bocha, churrasqueira, essas coisas, e era ali que a gente passava muitas horas do dia subindo naquelas árvores altas, naqueles cajueiros, naqueles pés de manga, naquelas coisas que eram nossa vida. Lembro também que uma vez nós fomos para uma colônia da fazenda, eram poucas casas, e ali apareceu um circo, fizeram aquelas representações e tudo. Quando a gente voltava de charrete para a fazenda, tinha uma subida grande, de terra vermelha, o condutor da charrete, apressando o cavalo ou burro, e aí se rompeu o peitoral, a charrete “blumpt”, se soltou e virou de costas, e nós caímos e rolamos por aquela ladeira de terra batida, de terra vermelha. Ninguém se machucou, mas foi muito divertido.

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3. O retorno a São Paulo Mas aí, Bilé, começamos a ficar em idade escolar e mudamos para São Paulo, para uma pensão. Se não me engano, chamada pensão Bassi, onde hoje é o Shopping Center Paulista. Ficamos lá algum tempo, e na ruazinha pequenininha ao lado, Santa Ernestina, moravam minha tia Maria e o tio Chicão. Na Rua Desembargador Eliseu Guilheme, antiga Rua do Bispo, onde tem hoje o HCor (Hospital do Coração), moravam, um pouco para a frente, numa casa, a tia Lúcia, irmã de meu pai, e o marido dela, tio Lalito, que era meu padrinho. Ao lado morava a vovó Adélia, vovó Adelinha, e com ela tio Nenê e tio Rui. Nós íamos muito a essas casas, ficávamos um pouco com o tio Lalito “assistindo” jogo de futebol pelo rádio. Na casa da vovó Adelinha, ela pegava a gente no colo e fazia “cló cló cló cló cló”. Vovó Adelinha era dessas velhas aristocráticas, cabelo já grisalho meio cinza, sempre com coque, com porte ereto, e o tio Nenê tinha um problema de saúde desde nascença, acredito que tivesse Síndrome de Down.

Vila Mariana: um tempo de poucas lembranças Dessa pensão fomos para uma casa na Vila Mariana. Quando as pessoas cantam “se esta rua, se esta rua fosse minha, eu mandava, eu mandava ladrilhaaaaaar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, para o meu, para o meu amor passaaar”, eu sempre associo essa música àquela casa na Rua Morgado de Mateus. Uma coisa que me lembro é que havia um quintalzinho, onde minha mãe e meu pai gostavam de ficar cantando e nós brincávamos em volta. Numa noite o Quido me chamou, e nós descemos para a despensa, onde se guardava arroz, feijão, milho, porque se comprava tudo isso a granel, ou às vezes vinha da fazenda. O Quido descobriu onde o meu pai guardava as be-

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bidas. Então ele me chamou de noite: “Vem cá, vou te mostrar um negócio”. Ele era muito arteiro. Nós descemos, abrimos umas garrafas, nem sei do que, só que era uma bebida forte, talvez conhaque, e começamos a beber, beber, beber... Depois ouvimos gente descer e nos escondemos, eu debaixo de um móvel e ele debaixo de outro. Nossos pais ouviram o barulho que fazíamos, desceram e viram aquela bagunça. Começaram a nos procurar e nos acharam absolutamente bêbados, entrando em coma alcoólico. Tivemos que ser levados às pressas ao pronto-socorro. Outra lembrança da casa da Vila Mariana é uma cicatriz que tenho até hoje: pisei numa lata de sardinha, ela me cortou o pé e mais uma vez fui levado ao pronto-socorro.

Uma chácara em pleno Jardim Paulistano Depois mudamos para uma chácara, uma chácara grande, bonita, que tinha no Jardim Paulistano, na Rua Capitão Antônio Rosa. A casa sede era bem grande, não sei se era de algum parente, de algum primo do papai, que cedeu para nós morarmos. Então, papai, mamãe e nós cinco irmãos, fomos para lá. Lembro que a rua já era asfaltada, tinha o muro de frente para ela, uma grade toda de ferro batido, e um portão grande, para entrada de automóvel. Do portão, tinha uma ladeira que descia até a casa, que ficava mais ou menos no meio da chácara, um pouco mais para o fundo que para a frente. Do lado direito tinha um grande pomar, com muitas frutas, inclusive pé de marmelo. E lembro bem desse pé de marmelo. Do lado direito uma ala bem grande de árvores, de pés de caqui, um caqui pequenininho, docinho, vermelhinho, era uma delícia. Depois tinha uma floresta de taquara. A gente fazia umas trilhazinhas pelo meio desse taquaral e brincava ali de pegador, de esconde-esconde. E para baixo tinha um riozinho. Recordo muitas vezes que papai e mamãe ― papai era sempre muito caprichoso ― mandavam as empregadas colherem jabuticaba, punham numa bacia grande, a gente sentava nos degraus da entrada da casa, e ficava ali a família a tarde toda chupando jabuticaba. De vez em quando ele falava: “Olha aquele papel lá! Quem vai buscar? Quem vai buscar ganha uma jabuticaba!”.

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E assim ele fazia também a gente ir limpando e catando os papéis e tudo o que jogavam pela porta da chácara. Ele sempre quis tudo muito bem arrumado. Lembro-me dessas vezes em que isso aconteceu com bastante ternura.

Mamãe, carinhosa mas brava Às vezes, mamãe era muito brava, o sangue lhe subia rápido. Uma vez o Quido e eu aprontamos alguma coisa ― criança apronta mesmo e nós éramos crianças sadias e muito levadas ― e ela entra no nosso quarto, com a mão para trás: “É meninos, vocês foram lá, o que vocês fizeram?”. E foi se aproximando com aquela cara dela que a gente já conhecia, de cor e salteado. Quando ela tirou das costas a mão segurando uma cinta, o Quido, jovem, imediatamente pulou a janela e eu me enfiei debaixo da cama. Ela começou a dar cintada no ar, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá... aí nós morremos de rir. E ela acabou achando tanta graça que também riu. Então, deu tudo em pizza aquela cintada. Não apanhamos e acabamos rindo.

Mamãe e minha bronquite asmática Desde pequeno eu sofria de muita bronquite asmática. Tinha uma dificuldade enorme de respirar, e sentia muito, muito, muito mal. Quando minha mãe ainda estava conosco na chácara, o médico da família era o tio Bentinho. Formado na Alemanha, era um desses médicos extremamente rigorosos, das coisas extremamente corretas, e aplicava métodos às vezes bastante radicais. Na época não existia basicamente tratamento para asma ou bronquite asmática. A bronquite asmática ou a asma, hoje se sabe, é uma doença autoimune, que vem do próprio corpo. Tem a tendência que se cure depois com a puberdade e a maioridade. Mas eu sofria muito e minha mãe aplicou algumas vezes um ou outro tratamento que o tio Bentinho preconizava na época. Eu me lembro de uma dessas vezes, e foram várias. Eu estava passando muito mal no quarto, ela me levava pro quarto dela, tirava a minha roupa, deixava só com calçãozinho, e sentava na cama. Nesse quarto tinha a cama, os criados-mudos e o armário, e eu sabia que em cima daquele armário eram

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guardadas as temíveis varas de marmelo com as quais, naquele tempo ainda, nós éramos muito ameaçados. Papai tinha um capricho danado com elas, e algumas vezes que a gente fazia uma reinação, ele dava umas chicotadas na perna só pra gente saber o que era bom. Mais tarde isso piorou muito. Então mamãe pegava essa mostarda, mostarda amarela, essa que a gente passa nos sanduíches, nas comidas alemãs, e untava bastante bem, passava bastante mostarda no meu corpo inteiro, nas costas, no peito, em todo lado. Aí me amarrava, me embrulhava num lençol branco, bem apertado. Depois amarrava também com o próprio lençol os braços, e em cima dos lençóis, ela enrolava ainda um cobertor, me pegava no colo e me apertava nos braços para que aquilo tudo ficasse bem apertado, bem quente. Minha mãe sempre foi muito obediente aos médicos e cumpria a rigor o que eles falavam, especialmente o tio Bentinho. Eu ficava, no início, ali nos braços dela, olhando para cima do armário, com aquelas varas de marmelo. Eu tinha medo de chorar, mas no fim não aguentava mais, explodia num choro de berros e lamúrias, e contorções, gestos de desespero, porque aquilo queimava tudo, parece que eu estava sendo jogado numa churrasqueira e sendo tostado aos poucos. É uma coisa horrível o tanto que queima, que dói, e o que a gente berra por causa disso. Talvez a cura estivesse naqueles berros, naquela força que o pulmão e o aparelho respiratório tinham que fazer. Sei que de tanto berrar, chorar, suar, eu acabava ficando exausto, completamente exausto, aí ela desenrolava o cobertor, o lençol, punha um agasalho em mim, e me punha embaixo de um colchão, em cima do outro, porque era muito frio. Eu ficava meio desmaiado, meio já fora de mim, exausto, acabava dormindo e miraculosamente acordava basicamente curado. Era horrível, mas minha mãe fazia por bem, eu tenho certeza. Mas era uma tortura, talvez até desumana, se fazer com alguém, especialmente uma criança. Tudo deu certo no final.

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4. Separação de meus pais, uma temporada de fome Veja Bilé, nessa época já convivíamos com você na chácara, e as coisas começaram a ficar mais difíceis. Certo dia, não sei se era sábado ou um domingo, estávamos sentados à mesa da sala, uma mesa grande, papai sentava numa cabeceira, mamãe sentava na outra, e a gente dos lados. Havia no meio da mesa uma travessona enorme de camarões, e a gente estava louco para comer os camarões, mas eis que papai deu um murro na mesa e falou: “Eu já falei que não quero comer em mesa que parece uma porcaria, essa toalha tá toda mal passada, toda mal arrumada, eu não quero isso, já falei que não quero!”. Era uma toalha de linho branco, da minha avó. Deu um murro na mesa que os pratos pularam. Ficamos pasmos. Aí minha mãe, do outro lado, deu também um murro na mesa e falou: “Então você fica aí com sua toalha amassada mesmo que eu vou embora, tô cheia!”. Levantou da mesa, pegou a Margozinha, que era minha irmã caçulinha, pela mão e abriu a porta, desceu a escada e foi embora. Minha irmã Lena já percebia alguma coisa, saiu correndo atrás, segurou na outra mão dela, e eu me lembro de que eu, Quido e a Stella ficamos. Lembro-me de ver a mamãe, a Lena do lado direito, e a Margozinha do lado esquerdo, subindo aquela ladeira, abrindo o portão e indo embora. E aí nós voltamos para a mesa, começamos a comer aqueles camarões que estavam bons, meus pais brigavam sempre, a gente achou que seria mais uma briga. Só que não foi. A mamãe ficou com a Lena e a Margot. Eu, a Stella e o Quido ficamos lá com ele, na chácara. Esse dia da briga é uma coisa que está “fotografada” pra mim, desde criança. Papai estava decepcionado. Ele tinha medo dela. Ela sim, era brava. Ele era

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tido como bravo, e a mamãe era pacífica, mas estourava. Ele a respeitava. Elas foram subindo, ele foi atrás gritando, falando... Ficamos os três ali, em cima da escada, olhando um pro outro... Aí lembramos: “O camarão, o camarão!”, e corremos para dentro, pra comer o camarão. Mais tarde é que percebemos o que tinha acontecido. À noite é que sentimos: “Cadê a mamãe? Cadê a mamãe?”. “Mamãe não vem mais”. Aí foi quando a gente começou a ficar sozinhos na chácara. Nós chorávamos muito, todos os dias. E quando chorávamos, ele batia. Não podíamos nos lamentar com ele, que ele ficava bravo. Aí começou a epopeia, as três crianças vivendo sozinhas, eu, meu irmão e minha irmã. Nós três ficamos basicamente abandonados, porque meu pai continuou com a mesma vida, saía às duas horas da tarde e voltava às três ou quatro da manhã, já tendo bebido bastante nas festas.

Na chácara sem nossa mãe, tempo de fome Papai não cuidava de nada da gente, saía de tarde, ia embora para a cidade, voltava às três ou quatro horas da manhã. Aí dormia até meio dia, uma hora, e ia embora de novo. Com isso, a gente não tinha assistência nenhuma, nem nada. Lembro-me que às vezes ele dava umas festas ou almoços e trazia uns amigos dele. Tinha um gordão que mal cabia no sofá. Eles pegavam aqueles frangos assados, aquelas coisas gostosas, o gordo comia um ou dois frangos assados inteiros, assim como se não fosse nada. Eu ficava olhando: “É, esses caras comendo tudo hoje, essa farturona, amanhã nós não vamos ter nada pra comer”. Uma vez tentei pegar um frango e esconder, mas fui surpreendido e tomei umas bolachas, pressão forte do meu pai, acabei não conseguindo. Mas, então, a gente não tinha comida suficiente. Tínhamos, Bilé, duas empregadas, sua mãe Isabel e a Cida, sua tia mais nova. Você, Bilé, era uma menininha de uns cinco ou seis anos talvez, era um pouco mais nova que a gente, uma negra bonita, mas muito metidinha, muito invocadinha, usava papelotes, sua mãe era caprichosa, fazia-lhe sempre esses papelotes, cada lacinho de uma cor, e você ficava se achando muito bonita,

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era toda coquete, e vivia infernizando a vida da gente. Mas aonde a gente ia, Bilé, você queria ir atrás, e sua mãe não deixava. Bilé, você foi sempre um marco pra gente, e embora fosse tão pobre, porque sua mãe era empregada, vivia bem melhor que nós, que fomos absurdamente ricos. Sua mãe Isabel era encarregada de cuidar da gente, e a comida que nós tínhamos pra comer era sempre a mesma coisa, que eu comparo a uma lavagem. Eu nunca soube se o papai deixava dinheiro e Isabel o usava para outra coisa, ou se não deixava nada e o que sua mãe podia aprontar era aquilo: ela punha um caldeirão de água para ferver, picava umas rodelinhas de cebola, e depois pulverizava por cima um pouco de fubá. A gente tomava aquela sopa rala de fubá, mas ao menos era coisa quente e um pouco salgada, que dava certo alívio. Durante o dia, nós andávamos pela chácara catando frutas e almeirão, que era uma verdurinha nativa. Tinha dia que a gente ia às divisas do fundo da chácara, havia uma sebe, uma leira de ciprestes, e nós subíamos nos ciprestes. E a gente ia pulando de um para outro, procurando ninho e às vezes achava um de pardal, de tico-tico ou de rolinha, e comia, chupava aqueles ovinhos do passarinho, porque acho que o nosso corpo precisava de um pouco de proteína. Muitas vezes à noite fazia muito frio, frio demais. Ainda no tempo da mamãe ela ensinou a dormir dois numa cama só e colocar o colchão da outra cama por cima. Às vezes eu dormia na mesma cama com o Quido, eu e ele com o colchão por baixo, e outro colchão por cima. Nessa época, meu pai ainda tinha dinheiro. E foi torrando. Para nós não tinha para nada, nem comida.

Catando e vendendo ossos e vidros Outro episódio de que me lembro é o de que, naquele extremo abandono em que vivíamos, a gente catava ossos e pedaços de vidro nos lixos da redondeza e vendíamos no ferro velho, para comprar doces na vendinha perto dos fundos da chácara.

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A gente ia pegando os ossos e os cacos de vidro e ia colocando nuns caixotes grandes que tinha no porão da casa. Quando juntava uma quantidade razoável, nós íamos a um ferro velho, o homem vinha, pesava aquilo, comprava aqueles ossos velhos, cacos de vidros, garrafas quebradas. Com aquele dinheiro, a gente saía correndo, passava pelo portãozinho do fundo, e íamos a essa vendinha onde comprávamos doces, que a gente comia com voracidade, uma fome danada. O doce preferido era geleia de mocotó, e não sei por que, mas acho que era porque tinha bastante proteína, e parece que o corpo pedia. Mas o dinheiro não dava para comprar toda a quantidade que precisávamos e íamos pondo um monte de geleia de mocotó dentro do pulôver da Stella. Eu tenho certeza que o português sabia que estávamos levando mais do que pagamos, mas não sei se depois ele cobrava do meu pai, ou se não cobrava, ou se tinha pena e tanto dó daquelas crianças ali, tão sujas e tão abandonadas. De qualquer forma, veja o que a pobreza e a miséria fazem. Vai nos induzindo, aos poucos, ao instinto básico de sobrevivência. Se nós continuássemos por aquele caminho, certamente nós estaríamos numa situação diferente da de hoje. Então é de se notar que “a necessidade faz o ladrão”. Muitas vezes é a pura verdade, por isso temos compaixão com algumas pessoas que furtam, e muitas vezes alguém pega um pacote de bolachas para comer, é castigado, maltratado, surrado, e severamente repreendido. Outros roubam bilhões e acabam saindo ilesos. Isso também é verdade.

Febre e desamparo Uma ocasião o Quido e a Stella pegaram impingem na cabeça e tiveram que fazer rapar o cabelo todo. A gente puxava o cabelo com aquelas mechas, aquela montanha de fios; a cabeça deles ficou tão lisa, tão lisa como a bunda de um nenezinho, e aí eles pintavam com aquele azul de metileno, tudo azul, e a gente brincava que eles pareciam uma cebola azul. Certo dia eu vinha da escola ― estudava no Grupo Escolar Godofredo Fur-

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tado ―, acho que houve vacinação nos estudantes e que a vacina me deu muita reação. Cheguei em casa muito mal, nem entrei em casa, já me deitei na grama ao lado da cozinha e fiquei tomando um pouco de sol, para ver se esquentava, porque eu estava tremendo, tremendo, tremendo de febre, de calafrios, sem ninguém para olhar por mim. Fiquei ali com uma sensação muito ruim, muito ruim mesmo, pensei que ia morrer. Aí fui andando devagar até o poço, que estava destampado, o sol a pino, olhei aquela água reluzente, brilhando lá embaixo, me deu uma vontade enorme de pular naquela água geladinha, e provavelmente nunca mais voltar. Mas não fiz isso, fui até em casa e deitei na cama. Esperei, até que depois a Isabel acabou aparecendo com aquele prato de gororoba, com aquela lavagem de fubá com cebola, mas passou isso também. Depois melhorei.

O tapete persa virou ringue O tempo em que eu fiquei na chácara parece que foram cem anos, mas na verdade foram alguns meses. Eu tinha 6 anos e meio ou 7 anos, lembro que havia entrado no grupo escolar. Eram poucas as pessoas que iam lá em casa. Depois que a mamãe foi embora, o papai chamava os amigos para almoços, jantares, aqueles almoços de domingo que não acabavam mais. Nesses almoços de domingo... Na sala tinha um tapete persa, papai me obrigava a ficar de calção, e o meu irmão também, punha luvas de boxe e fazia a gente lutar. Aquele tapete persa era o ringue. Quem saísse do tapete perdia. Eu era fortinho, mas meu irmão era dois anos mais velho. Ele me batia. Eu tinha pena de bater no meu irmão. Eu não queria brigar, mas o papai obrigava a gente. Esse gordão e os outros amigos dele ficavam torcendo, incentivando, parecia briga de galo. Só que eram os filhos dele que estavam brigando. Era uma coisa cruel. E saía sangue... Tenho o nariz quebrado até hoje. Aquilo foi uma coisa que doeu muito para mim.

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Proibido reclamar da fome Nós passamos muita fome e hoje eu sei exatamente o significado da fome, a dor do estômago, aquele mal-estar, aquela fraqueza, era uma coisa horrível. Algumas vezes a gente conseguia sair para a casa de minha mãe, que morava na Rua da Consolação, 3388, já no final da via. Nós íamos da chácara para lá a pé, para visitar mamãe. Geralmente ela não estava em casa, estava a minha tia Sinhá, o vovô João, e aproveitávamos para comer alguma coisa. Não sei como papai ficava sabendo disso, mas quando ele chegava de madrugada, acordava a gente. Na chácara tinha um pé de marmelo, e seus galhos eram varas fininhas, que pareciam relhos. Ele era caprichoso, tinha um feixe de varas de marmelo em cima do armário. Então, punha aquilo em cima da mesa e dizia: “É, ontem vocês fugiram, então eu vou ensinar pra vocês o que acontece quando um menino foge de casa”. Mandava que eu e o Quido tirássemos a roupa ― a Stella já tinha ido embora para ficar com a minha mãe ―, pegava aquela varinha e batia na gente. Nós aprendemos que quando ela bate no pinto dói muito. Então a gente virava de costas e ele batia das costas até o calcanhar, batia muito na bunda. Nós chorávamos muito e nos enfiávamos no meio de dois colchões, um embaixo e outro em cima, um consolando o outro da dor, do sofrimento. Ficávamos cheios de vergões.

O caquizeiro e a queda do Quido Houve uma coisa engraçada naquele período em que matávamos a fome com frutas da chácara. Numa ala que tinha muitos caquizeiros, mas já eram velhos, antigos e altos. O caqui dava sempre nas pontas dos galhos, então a gente tinha que subir no caquizeiro, ir com muito cuidado até a ponta do galho para pegar a fruta e não cair. Eram caquis vermelhinhos, tinha alguns pés de caqui chocolate e de outros caquis já bem madurinhos, e aquilo era uma coisa deliciosa, nunca me lembro de ter comido fruta tão gostosa assim na minha vida. Um dia eu estava lá em cima e o Quido também, e aí ele viu um caqui lindo, maravilhoso, bem na pontinha do galho, e foi lá pegar. Quando pisou no último galho, ele quebrou, e o Quido... “brereummmmmm”! Caiu de lá de

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cima. E caiu tão gozado, de barriga no chão, que estava bem seco, então saiu poeirinha dos lados dele, da barriga, das pernas, tudo, eu achei muito engraçado e comecei a rir lá de cima. Tive um ataque de riso no alto da árvore, olhando o Quido lá embaixo no chão. Ele ficou uma fera, bravo, bravo, bravo, e quis subir na árvore para vir me bater. Mas estava todo dolorido e não conseguiu. Então eu desci da árvore para ajudar meu irmão a ir para casa, para passar um remediozinho nas esfoladuras, que não eram nada de grave.

Os ciganos Tudo isso se passou num período bastante curto. Entretanto, talvez, para a ideia de uma criança, alguns meses possam parecer anos, ou até décadas, ou até bem mais. E havia outro lado, bastante rico, muito movimentado. Na Rua Joaquim Antunes havia muitos terrenos baldios e, num deles, um dia apareceu um acampamento de ciganos. Os adultos diziam para nós: “Cigano rouba criança. Não pode sair na rua”. Aquilo aguçou nossa curiosidade e fomos chegando para ver o acampamento, que era enorme, com tendas grandes. Meu irmão era um lindo garoto, de cabelos loiros ondulados, olhos bem verdes, rosto bonito. Todo mundo parava na rua para vê-lo. Era lindo. Eu e a minha irmã Stella éramos mais moreninhos e mais feinhos. Então as três crianças foram chegando, uma cigana viu, nos levou pra dentro do acampamento e começou a cuidar da gente. Dava bolo, dava doce, ensinava a cantar, punha vestidos bonitos e flores nos cabelos da Stella. Era uma delícia como eles cuidavam da gente. Nós brincávamos com os ciganinhos, aquelas brincadeiras de crianças, foi uma coisa maravilhosa. Toda tarde fugíamos para o acampamento deles. Adorávamos os ciganos, e eles também gostavam da gente. Mas aí a Isabel ficou sabendo, morreu de medo, contou para o meu pai, e meu pai peremptoriamente proibiu a gente de ir lá. E a proibição dele era realmente para ser seguida, porque senão vara de marmelo em cima! E lembro que também a Isabel nos apavorou com a história de “cigano rouba criança”, e depois, do “homem da capa preta que passava na rua, pegava as crianças”

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para a gente não sair da chácara (era uma referência aos leprosos que usavam uma roupa preta para ficar separados das outras pessoas). Mas isso pouco adiantava também. Até hoje, quando vejo um acampamento de ciganos, me dá um enternecimento, uma recordação boa.

Traquinagens no esgoto Naquele tempo havia um riozinho na divisa da chácara, na verdade era uma boca de lobo, que a partir daquele momento começava a correr a céu aberto. E onde caía a água do tubulão, se formava uma lagoa, e a gente ia nadar nessa lagoa. Muitas vezes saíamos da água e tínhamos que catar as larvas do corpo, eu do Quido e ele do meu. Eram larvinhas brancas, de cabeça vermelha, mas havia outras totalmente vermelhas. Às vezes nós entrávamos pela boca-de-lobo, que tinha um tubo com mais ou menos um metro e meio de diâmetro. Entrávamos por ele, depois por um mais fino e chegávamos ao bueiro, na rua. A gente ficava dentro do bueiro, olhando a rua, mexendo com as pessoas, que ficavam olhando e não sabiam o que era. Aí nós pegávamos uma meia de seda, de mulher, enchíamos de papel, pegávamos uma linha 24, daquelas de empinar papagaio, amarrávamos a meia e púnhamos lá do outro lado da calçada. Ficávamos dentro do bueiro segurando a ponta da linha. Quando ia passando uma senhora, a gente começava a puxar aquilo. Parecia uma cobra grande, um bicho, e a mulher gritava, saía gritando. Quando procuravam ver quem fez aquilo, a gente saía pela boca-de-lobo, lá longe... Aquilo apavorava todo mundo. Era homem, mulher... Às vezes vinha uma família com várias pessoas, a gente puxava... Ninguém via a linha, só via aquele “bicho”, e era uma correria danada. Isso era divertido, muita aventura. Depois a gente voltava e mergulhava lá na boca do lobo, se limpava e voltava para casa.

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Exibição inesquecível Anexo à casa, ficava o quarto das empregadas. A Cida, uma irmã mais nova da Isabel, ia lá também. Era uma negra linda, uma escultura. Tinha a cozinha, uma área com um murinho e depois o quarto das empregadas. Uma vez eu estava sentado na escada e de lá dava para ver o banheiro das empregadas. Eu cheguei da escola, estava um calorão, sentei num degrau da escada e fiquei ali. Foi quando eu vi a porta do banheirinho em frente semiaberta e escorrendo uma água por baixo. Falei: “Ué, o que será que está acontecendo que essa água está escorrendo?” A porta se abriu mais um pouquinho, e vi dois olhões me olhando. Continuei sentado na escada para ver o que ia acontecer. A porta foi mais um pouquinho aberta, os olhos se tornaram marotos, olhos com um sorriso malandro nos beiços. Era a Cida que ‘tava’ tomando banho, seu corpo negro, jovem ― ela tinha 19 ou 20 anos ―, um corpo escultural, lindo, e ela tomando banho, e aquela água escorrendo pela sua pele negra brilhava, fazia aquele brilho. Ela pegou um sabonete, começou a se ensaboar, e aquela espuma branca fazia cachoeira e pingava pelos seus mamilos, mamilos entumecidos, escorregando pela barriguinha lisa, e entrando por uma floresta de pelos negros. Ela passava a mão naquela espuma branca que escorria pelo seu corpo negro, as pernas bem torneadas, lavava no meio das pernas, depois virou, abriu um pouco mais a porta, depois virou um pouco mais de trás e começou a lavar o bumbum também, esfregando com delicadeza aquelas carnes protuberantes. Aí, com aquele olhar específico, com aquele sorrisinho maroto, ela fechou a porta. Um pouquinho depois eu acabei ouvindo uns gemidozinhos, uns gemidos, e depois de mais um pouco uma gargalhada estridente. Uma gargalhada de pura alegria e de felicidade. Saí correndo porque fiquei com medo que ela viesse me bater por eu estar ali olhando ela tomar banho. Enfiei-me no meio de uma moita de taquaras, eu era um molequinho, fiquei assombrado. Ela sabia que eu estava olhando, fez aquilo de propósito. Esse foi um episódio que também marcou.

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Um tema que não podia ser lembrado A Isabel tinha um irmão um pouco mais velho do que eu, o Dito. Uma vez, eu cheguei da escola e estava sentado nesse murinho, o Dito veio lá e nós começamos a conversar. Aí eu falei pro Dito: “A professora falou hoje na escola que os negros foram escravos”. “Foram nada!”, ele gritou. “A professora que falou”. “Foram nada!”. E quis me bater. Eu pulei do muro e saí correndo. Eu nunca podia imaginar... Senti naquele momento a revolta que aquele menino tinha por aquela condição de seus antepassados terem sido escravos. Ele ficou tão moído que queria me encher de porrada. Se eu não corresse, ia apanhar pra caramba. Aquilo machucou muito ele. Eu não fiz de propósito, para mim era um comentário cultural.

Expulso da escola por ser sujo e feder Estávamos abandonados na chácara, eu fazia cocô nas calças, sem tomar banho... Era um menino muito maltratado, cabelos desgrenhados... Abandonado! O que a gente ia fazer, com 6 ou 7 anos? Ia me cuidar, escovar os dentes, tomar banho? Isso uma criança naquela situação não faz mesmo... Eu estudava no Grupo Escolar Godofredo Furtado, na Rua João Moura. Eu tinha que ir para escola de manhã. Lá, colocaram a minha carteira perto da janela e em volta de mim tinha três ou quatro carteiras que não eram ocupadas. Estava fedendo tanto que nem os garotos do grupo escolar aguentavam. Como eu era uma avis rara, a turma me cercava na rua, me empurrava pra um, dava um tapa aqui, outro dava um tapa ali, no meio daquela rodinha. Até que eu era fortinho, e tinha umas aulas de boxe com meu pai, acertava um ou outro, quando me perseguiam eu encarava e eles voltavam, mas tinha briga quase todo dia. De vez em quando eu pegava um no recreio, debaixo da escada, socava o cara direitinho para ele não me encher mais o saco. Lembro que naquele tempo a professora tinha uma régua larga e grande, de madeira, com 50 centímetros de comprimento, e mandava na cabeça da

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gente, batia mesmo. “Seu burro!”... Castigava assim. Uma vez ela foi me bater, eu tirei o corpo fora, ela bateu com a régua na carteira e quebrou a régua dela. Aí é que ela ficou me odiando mesmo: “Esse bicho aí, no meio dos outros...”. Aí é que ela forçou a mão pra eu cair fora da escola. Foi falar com a diretora e ela me expulsou do grupo escolar. Fui expulso por ser o aluno mais sujo, mais maltratado do grupo escolar... Depois que eu fui expulso, a minha mãe foi falar com a diretora, que era colega dela, e a diretora falou: “Margarida, como você deixou o seu filho chegar nesse ponto?!”. Aí a mamãe explicou aquela história da separação... A diretora ficou muito penalizada, disse: “Isso é impossível!”. Então a mamãe falou: “A senhora não podia dar uma cartinha por escrito?”. A diretora fez a carta, a mamãe levou ao juiz, que deu a nossa guarda a ela na hora. Então nós saímos da chácara e fomos para a Rua da Consolação, 3.388. A expulsão acabou sendo uma bênção. Uma coisa que tinha que acontecer para eu cair fora daquele “inferno” em que estava vivendo. Aí fui pro “paraíso”, que era a Consolação, 3.388. Depois eu voltei para a mesma escola, lavadinho, limpinho, penteadinho, cheirosinho. A mamãe cuidava, a tia Sinhá cuidava...

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5. Parêntesis para Domiciano, meu pai Bilé, não sei que lembranças você tem de meu pai Domiciano, mas o fato é que ele sempre foi orgulhoso de sua família. Ele, quando estava com a mulher e os filhos, era o rei do mundo. Tinha um sentimento de afeto muito grande, pela família, pelos filhos. Ele foi um pai bom. Minha mãe nunca deixou que a gente odiasse meu pai pelo que se passou, pelas dificuldades todas. Eu nunca tive sentimento de ódio contra o meu pai, de rancor, de mágoa. Tenho mais um sentimento de que ele foi alguém fora do seu tempo, do ponto de vista educacional. Ele foi educado para uma época que não era a dele. Ao contrário do seu pai e tios, ele não fez faculdade, mas na Revolução de 32 ele foi capitão, major... Teve uma vida aventureira. Quando era rapazinho, foi para o sertão, com o tio Chicão, Francisco Brasileiro (seu cunhado), e com os outros tios. Fizeram a Bandeira Piratininga, entraram pelos sertões, chegaram à Serra do Roncador e ao Xingu... Garimpou diamante, teve umas coisas assim. Quando voltamos a São Paulo papai continuou a vida dele, de boêmio, ele ia para a cidade encontrar os amigos e queria que a minha mãe fosse junto com ele. Mas minha mãe tinha que trabalhar e trazer algum sustento, então ela não aguentava trabalhar e à noite ter que acompanhá-lo na vida noturna. Isso foi gerando atritos até um ponto em que ela não aguentou mais e se separou. Aí houve aquela cena, dela da minha mãe subindo a ladeira com a Lena numa mão e a Margozinha na outra, e aquele período de fome e abandono. Mas com tudo isso nós nunca odiamos meu pai. O sentimento que eu tenho

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sobre meu pai é que ele era um homem bonito, alto, moreno, forte, olhos verdes, super-educado, um príncipe, um gentleman... Mas um homem fraco. Bebia e se ancorou na bebida. Aí veio o período da decadência dele, em que ele ficou vagando sem rumo, afastado da família. As surras não me deixaram marcas, eram contingências, a gente sentia dor, mas o que eu ia fazer? A minha mãe, uma heroína, teve esse dom... Nunca se comportou como mulheres que numa situação dessas punham os filhos contra o pai: “Aquele canalha, aquele maldito, aquele sem-vergonha, aquele ruim... Se não fosse isso vocês não estavam passando fome. Eu quero comprar uma roupa, vocês não têm roupa porque ele não trabalhou...”. Mulher faz isso, mas ela nunca fez. Cada vez que a gente ia falar mal dele, ela cortava: “Ele é seu pai, tem que respeitar ele como pai”. A gente adorava o papai, contava aquelas coisas, aquelas histórias, para nós ele era o super-homem, tinha um ego muito grande. Quando jovem, morava num palácio na Avenida Paulista, tinha um monte de empregados, aquela coisa toda. Na fase em que ele viveu pobremente, pois saiu da chácara, eu já tinha voltado para mamãe. Enquanto ele estava na chácara, tinha algum rendimento, alguma coisa. Tinha a fazenda. Depois, não tinha quem o apoiasse. A minha avó já tinha morrido. Tinha uma irmã, a tia Lúcia, que era casada, com dois filhos, e cuidava do irmão, o Euclydes, que era Down ― como já contei no começo dessas memórias. Não tinha quem cuidasse do meu pai, então ele começou a ficar doente do pulmão. Foi internado pela mamãe num sanatório no Jaçanã, a gente ia visitá-lo, depois ele acabou mudando para o Hospital Clemente Ferreira, no Jabaquara. Lá, ele era conhecido como “o fazendeiro”, contava os causos dele, das fazendas... Depois, precisou fazer uma cirurgia no coração e o levaram para o Hospital Santa Cruz, na Vergueiro. Ele fez a cirurgia lá, não gostou do trato, fugiu e voltou pro Clemente Ferrei-

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ra. Era um homem machão, sertanista, mas teve uma complicação e morreu. Tinha 48 anos. Eu estava noivo, então devia ter 20 anos. Minha mãe dava alguma assistência a ele, ajudava. Eu estava começando a trabalhar. Mais um pouquinho e a gente poderia tê-lo apoiado mais, porque a Lena já trabalhava e o Quido também. Mas o salariozinho daquele tempo era pouco, e a gente saía caro, porque minha mãe tinha cinco filhos. Tinha também a tia Sinhá, que era solteira. E tia Lulu, Maria de Lourdes, também solteira. Era uma família grande, oito pessoas. Então essa história toda... Eu não tenho isso de dizer “que desgraça!”. Nunca ocorreu isso para nós. Meu pai vinha algumas vezes na casa da mamãe e era muito bem recebido, só que não dava para a gente conviver com ele mais. Eu acho que a minha mãe gostou dele até no último dia, como homem, teve amor por ele. E ela foi muito sábia, porque a gente podia ter ficado culpando meu pai. Seria um peso para eu carregar o resto da vida. Mas não! A gente tinha até orgulho do papai, que era um homão bonito. Quando a gente ia visitá-lo no sanatório, ele contava aquelas histórias de fazenda, de fazendeiros e das coisas antigas, e era interessantíssimo. Ele era uma pessoa finíssima, todo mundo adorava ele. Só que, com o problema da bebida, ele foi decaindo.

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6. De volta com a Margarida, minha mãe Como já lhe disse Bilé, sair da chácara e ir morar com minha mãe na casa da Rua da Consolação, foi como sair do inferno e ir ao paraíso. Depois do episódio de minha quase expulsão do grupo escolar, veio o período em que minha mãe conseguiu reunir toda família de novo e nós ficarmos juntos, a mamãe, os cinco filhos, mais a tia Sinhá, o vovô João, e a tia Lulu na casa do número 3.388. A felicidade era muito grande de estar voltando para perto da mamãe. Foi uma heroína. Ela se desquitou aos 32 anos, com cinco filhos, trabalhou arduamente, tinha dois empregos, um de manhã, no SESI, outro à tarde, no Estado, na área de assistência social, ela foi assistente social de presídios, e corria risco de vida prestando assistência social aos presos e às famílias dos presos, e à noite fazia serviços de tradução. Era exímia datilógrafa e tinha um português maravilhoso. Fazia cópias, traslados e traduções, com perfeição. Então, com esses três salários, ela conseguia manter a casa. E era ajudada pela tia Lulu, que era irmãzinha caçula dos noves irmãos. E tia Sinhá era irmã de minha avó, era uma senhora, bem senhora, mas uma senhora das antigas, por isso o nome dela Sinhá, que na verdade era Augusta Ribeiro dos Santos Camargo de Andrade. Então essa tia-avó foi basicamente quem acabou de nos criar. Ela era muito econômica, austera, mas muito amorosa. A casa tinha dois quartos grandes na frente, uma sala grande, depois um quartinho menor no fundo, cozinha, banheiro e uma areazinha de serviço. Tinha um quintal enorme, os terrenos eram profundos naquela época. Na parte dos fundos morava outra família, que entrava por um corredorzi-

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nho do lado. A gente fazia mil e uma coisas nesse quintal. Fazia horta, fizemos uma construção que depois chamamos de Clube da Caveira, aonde só iam meninos, depois fizemos uma parede que quase caiu na cabeça da gente. Era muito divertido esse nosso quintal. Tinha um abacateiro bem alto, um pessegueiro também muito alto, e subindo nesse pessegueiro nos possibilitava pular pros fundos dos quintais vizinhos, e aí sim, nos quintais vizinhos tinha bastante fruta, e a gente acabava surrupiando algumas. No quintal do vizinho sempre tinha um pêssego mais bonito que o nosso, laranja... A casa dava para a rua, e tinha um portão que servia às duas casas. Para a casa do fundo, ia-se por uma passagem estreita, independente. A nossa casa era a principal. Na parte de trás, tinha uma escadinha que dava para esse quintal grande. Foi um lugar em que nós vivemos intensamente. Mudaram-se para uma casa em frente à nossa o tio Pérsio com a tia Olga, os filhos deles todos ― o Humberto, Edméa, Vera Helena, Luiz Fernando ― e no quarteirão de baixo foi morar a tia Alba, que tinha Cassinho, Maria Lídia, Américo (Meco) e Alcino (Tatu). Então nós morávamos perto desses primos e a minha casa vivia cheia de gente, como sempre. Eu fui readmitido no Grupo Escolar Godofredo Furtado e consegui terminar o curso lá, o que me valeu bastante, durante muito tempo depois na minha vida. E nessa casa da Consolação tínhamos uma liberdade grande. Eu me lembro de que no tempo da Segunda Guerra Mundial havia os períodos de blackout, e era preciso que a gente tampasse as janelas todas com pano preto, não saísse na rua, ficasse lá dentro à noite. Mas nós tínhamos uma liberdade bastante grande, mesmo porque ninguém segura cinco crianças em casa, mais os primos e mais os amigos. Entre eles uma família de franceses que morava perto, na vilazinha que tinha quase em frente de casa. Era a família Monet, com os filhos Daniela, Gabriel e João Paulo, que tinham mais ou menos nossa idade. Ficaram muito amigos da gente. O vovô falava em francês com eles, e eles gostavam muito. Madame Simone, que era a mãe deles, vivia lá falando com eles, e o Jacques Monet era um grande arquiteto, ele fez toda reforma ou construção do aeroporto Congonhas e do Hotel Othon em São Paulo.

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Cachorros, burro e arara Tínhamos mania de cachorro. A gente ia pegando tudo quanto é cachorro que tinha na rua e trazendo para casa. Às vezes vinha aquele bando de dez, doze, quinze cachorros! E tia Sinhá ficava louca: “Não aguento isso, essa porcariada de cachorro!”. Até que um dia nós vimos um burrinho, um burrinho solto na rua, e o trouxemos pra casa. Só que para chegar no quintal tinha que atravessar pelo meio da sala. A porta da frente comunicava com outra porta que dava com o quintal do fundo. Quando Sinhá viu aquele burro no meio da sala, andando naquelas tábuas do chão, “troc, troc, troc, troc”, entrou em desespero: “Eu vou embora, não quero ficar aqui, onde já se viu casa cheia de cachorro, de burro, ainda tem uma arara aí que me atormenta!”. Nós acabamos levando o burro embora, mas conservamos uma boa matilhazinha de cachorros. E a gente tinha uma arara azul, com peito amarelo, muito bonita, mansinha, ela era como uma guardiã da casa, avançava nas pessoas que não conhecia. Mas era mansinha com a gente, podíamos fazer o que quiséssemos com ela. Vovô era paralítico, havia tido um AVC e ficou paralítico da perna para baixo, então ele ficava num sofá, e ao lado do sofá, em cima da cabeça dele tinha uma vidraça. A arara conseguiu subir nessa vidraça, quebrou os vidros e fez ali o poleiro dela, ficava naquele poleiro, acima e ao lado da cabeça do meu avô. Quando meu avô ia comer, punha-se então uma tábua em cima do sofá, a toalha e o prato, e ele pegava a comida com as próprias mãos. Ele tinha uma barba branca, cabelo branco, olhinhos azuis, e parecia o D. Pedro II. Ele punha a comida na boca e caia muitos grãozinhos de arroz, de toda a comida naquela barba branca. E aí a arara já sabia: descia do poleiro dela, pulava no ombro do vovô e começava a catar aqueles grãozinhos de comida da barba dele. Eu acho que ele adorava, porque era uma espécie de cafuné que ela estava fazendo nele. Ele também era muito paciente. Ficava num quarto, e nós todos dormíamos naquele quartão onde estava todo mundo. No quarto dele tinha uma cama meio hospitalar, e toda noite a gente tinha que levá-lo para a cama. Às vezes

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a minha irmã a Lena, que era mais forte, pegava o vovô de um lado, nós pegávamos do outro e o levávamos praticamente no colo, porque não tinha cadeira de rodas, dessas facilidades. Imagine criança como a gente tendo que cuidar do avô, mas fazíamos com boa vontade, e até como brincadeira.

Xepa da feira A minha mãe trabalhava, e a tia Sinhá praticamente criou a gente. Ela era daquelas senhoras antigas. O nome Sinhá vem do fato de ela ser a Sinhazinha da Fazenda Morro Grande no tempo dos escravos. Lembro que vinham negras visitá-la, que foram escravas dela, libertas por ela. Conviveram com tia Sinhá quando crianças. Elas vinham com grande respeito, falavam como grandes amigas, como colegas. Enfim, a tia Sinhá era muito austera, muito correta, honesta, sabe? Aquelas velhas assim... Nessa época, na casa da Rua da Consolação, nós fomos muito felizes. Era muito alegre a nossa vivência, mas a parte econômica era difícil. Como fazer para alimentar aquele monte de crianças, com uma fome voraz? Naquela idade a gente comia muito. Tudo que se ganhava, não dava. Tia Sinhá ia à feira sempre na hora da xepa. Às vezes catava alfaces, tomates, esse tipo de coisa que eles praticamente jogam fora, e às vezes comprava montes de saldos mesmo, baratinho, trazia pra casa, tinha a pachorra de limpar tudo aquilo, escolhia as partes melhores para dar para a gente comer. No açougue o açougueiro já sabia: quando limpava a carne, o filé mignon ou outra carne, ia guardando naquela muxiba do lado, não sei se ela comprava ou se o açougueiro dava para ela. Eu sei que era uma coisa de dar água na boca quando ela punha aquela muxiba na frigideira, começava a fritar aquilo, vinha um cheiro delicioso, depois a gente sentia até nó nas tripas de vontade de comer. A gente misturava com arroz, com feijão, e comia deliciosamente, sempre dando um gostinho diferente. Na medida em que o tempo passou, as coisas foram melhorando e mamãe conseguiu comprar alguns móveis. Uma das cenas que eu me recordo até hoje é que, quando eu entrei na casa pela primeira vez, vi uma sala grande, um assoalho todo de madeira encerada, sem nenhum móvel, absolutamente

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nenhum móvel. No centro da sala tinha um caixãozinho de cebola, como único móvel do ambiente. Isso é um retrato da nossa pobreza naquele tempo, mas mamãe, com espírito forte, alegre, nunca se deixou abater, lutou, lutou, lutou e lutou Nós éramos muito pobrinhos, mas tinha algumas coisas até engraçadas. Entre as pessoas que iam lá, tinha o Joca, que era um primo da tia Sinhá. Quando nasceu, pingaram nitrato de prata em excesso no olhinho do bebê e ele ficou cego desde pequeno. Ele ia toda quinta-feira lá para jantar com a gente e passava praticamente a tarde toda. Tinha o João Ribeiro da Silva, que também vinha uma vez por semana, e a gente sempre tinha que ter o ovinho pro João Ribeiro da Silva, ovinho estalado que ele gostava. Às vezes a gente não comia ovo no mês inteiro, mas para ele sempre tinha.

Um cego, uma surda e um paralítico Uma coisa interessante de que também me lembro é de que naquele tempo não tinha telenovela, não tinha televisão, não tinha nada. Tinha radinho, e nós tínhamos conseguido então um radinho pequeno, marronzinho, de plástico marrom, acho que era RCA Victor. Tia Sinhá era surda, o Joca era cego e vovô João paralítico, e os três punham o radinho ali na sala, e sentavam em volta ouvindo aquelas novelas. E aí você imagina três velhos ― naquele tempo eles eram velhos, com 70 anos, cabelos brancos ― ouvindo novela de rádio. Precisava um som muito alto para tia Sinhá poder ouvir. Uma surda, um cego e um paralítico ouvindo as novelas e chorando, chorando... Choravam de lágrimas nos olhos, era uma cena até comovente.

O ‘Estalo de Vieira’ Meses depois que fui para a casa de minha mãe, na Rua da Consolação, ela voltou a ser chamada pela diretora do Grupo Escolar, a professora Carolina. Que se manifestou a minha mãe, dizendo: “Olha Margarida, já que somos muito amigas e teve todo aquele problema com seu filho Carlos Eduardo, eu quero dizer o seguinte, ele não está conseguindo se alfabetizar, tem um bloqueio nele, ele não assimila de jeito nenhum, até hoje não conseguiu se alfabetizar, é um problema e eu queria que você acompanhasse isso mais de

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perto”. Então mamãe disse: “Pode deixar, vou olhar por ele”. E um dia ela me chamou, sentou no sofá, me pegou no colo, fez uma porção de agradinhos, me deu uns beijinhos, e disse: “E agora nós vamos ver essa cartilha aí pra você aprender a ler”. Fiquei prestando atenção como ela falava, ela me explicou o beabá, o “ba, be, bi....”, essas coisas, aí eu falei: “Ah mãe, então é assim!”. E comecei a ler quase fluentemente. Eu chamo a isso de uma espécie de ‘Estalo de Vieira’6, pois de uma hora para outra eu consegui aprender a ler. Credito isso à questão de como a gente necessita de amor, carinho, compreensão, essa é mais uma coisa que devo a minha mãe.

Aprendendo a ganhar dinheiro Ainda morando nessa casa uma vez deu um surto de caxumba e nós ficamos internados no quarto por vários dias. Nossa, que farra a gente fazia naquela cama! Pulava cama, pulava isso, minha mãe era brava. E nós tínhamos as turmas de bairro, tinha tudo isso. Nesse tempo eu comecei a aprender a ganhar algum dinheirinho. Eu era habilidoso, fiz uma caixinha de engraxar sapato. A casa da Rua da Consolação ficava entre a Oscar Freire e a Lorena. Para baixo já era o Jardim Europa, a City, então eu pegava a caixinha de engraxate, ia àquelas casas chiques, tocava a campainha e perguntava se tinha algum sapato pra engraxar. Às vezes tomava um pega, às vezes não tomava, às vezes pegava um monte de sapatos para engraxar, sentava debaixo de uma árvore e engraxava tudo. Fazia um dinheirinho e ia embora. Eu fazia papagaio muito bem, era muito bom com as taquarinhas. Ia ao campinho, lá embaixo, vendia pros amigos e ganhava um dinheirinho. Então eu já tinha desde pequeno um tinozinho aí para conseguir um dinheirinho e com isso comprar bala, sorvete, e algum material que eu precisasse para escola até.

‘Estalo de Vieira’ é uma antiga expressão popular que designa a “súbita compreensão” de algo que parecia muito nebuloso. Sua história está vinculada ao Padre Antônio Vieira, conforme crônica disponível em http://www.recantodasletras.com.br/humor/2048028.

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Nós tínhamos também outra estratégia, pegávamos o bonde pro centro e parávamos em frente do cine Excelsior ou do cine Marabá, e ficávamos ali, abrindo a porta dos carros, dos táxis, como uma gentileza, e sempre acabávamos ganhando uma moedinha. A gente dava um jeito de não pagar o bonde, então com aquele dinheirinho ia comer cachorro quente e outras coisas. Uma vez abri a porta de um carro que parava e quem sai lá de dentro?! Seu Domiciano Uchôa Fagundes, meu pai! “O que você está fazendo aqui, moleque? E você aí?”. Ele viu toda a turminha, ficou uma fera, nós desandamos a correr e sumimos no mundo. Mas eu já não morava na casa dele, então ele foi se queixar para minha mãe, que a gente estava fazendo aquilo. E ela falou: “Muito bem, os deixe aprenderem a ganhar dinheiro, ué!”. Depois, numa ocasião, mamãe trabalhava no SESI [Serviço Social da Indústria], tinha o Armando de Arruda Pereira e o Diniz. O Armando se candidatou a prefeito de São Paulo e o Diniz se candidatou a deputado e montaram o escritório eleitoral na Rua Barão de Itapetininga. A mamãe dava, ali algumas horas de expediente para ganhar mais um extrazinho, e levava o Quido e eu para ajudar lá com as cédulas. Nosso serviço era pegar os envelopes e colocar as cédulas dentro, pois naquele tempo boca de urna era feita com envelopezinho, de uma forma elegante etc. Ainda não existia a cédula única. Cada candidato tinha que fazer suas cédulas, com seu nome e o cargo a que concorria. As cédulas eram colocadas na urna dentro de um envelope. A gente passava dias ali fazendo aquele serviço, depois outros pequenos serviços, levando coisas ao correio e trabalhando naquele comitê eleitoral, ganhando algum dinheirinho, e no dia da eleição fazia boca de urna. Mas o que me lembro mesmo era daqueles belíssimos sanduíches de presunto com queijo que davam pra nós naqueles dias! Que delícia! Eu adorava trabalhar lá por causa do sanduíche. Esse foi, talvez, meu primeiro emprego regular. Provavelmente eu tinha nove anos, por aí. Era um empreguinho temporário, mas com certa responsabilidade.

Bolo de feijão Foi um tempo muito auspicioso, que a gente ia para o campinho, jogava bola ― nós nunca fomos muito de futebol, mas jogávamos beisebol, taco,

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amarelinha e muitos outros jogos; fazíamos guerra, guerrilha, um monte de brincadeiras muito interessantes, muito divertidas, no campinho que tinha na Rua Oscar Freire. Na esquina havia uma padaria, onde a gente comprava sorvete e tudo mais. Às vezes nós íamos a uma praça mais embaixo, no fim da Consolação, onde tinha um jardim grande com um gramado bonito, e brincávamos muito ali também. E tínhamos nossos carrinhos de rolimã, tinha o tempo de empinar papagaio, tempo de balão... Na época de São João íamos correr atrás de balão. Quando podavam as árvores da rua, aqueles galhos ficavam vários dias ali, demoravam a retirar, então a gente pegava e fazia cabanas, fazia tocas, fazia trilhas, fazia uma verdadeira cidade embaixo daqueles galhos de árvore. Ao lado de nossa casa tinha uma tinturaria, e morava o Arthur, um japonês da nossa idade que ficou muito amigo da gente e às vezes trazia um pouco de “bolo de feijão” para nós. Nunca gostamos muito daquele negócio de “bolo de feijão” e das comidas japonesas que eles faziam, mas tínhamos amigo francês, tínhamos amigo japonês, e assim por diante.

O ginásio na Escola Técnica Depois fomos crescendo, e eu acabei o Grupo Escolar, minha mãe quis então me matricular na Escola Técnica, para aprender um ofício e ao mesmo tempo fazer o ginásio. O Quido e eu fomos fazer o exame na Escola Técnica Federal de São Paulo, na Rua Apa. Nós fizemos o exame, e quando foi para ver o resultado, eles chamaram uns meninos e colocaram numa fila, chamaram outros meninos e colocaram na outra fila. Então meu irmão, que estava na fila de lá, começou a me gozar: “É, você repetiu, você não ficou!”. Começou a me gozar e gozar. Naquela época eu, coitado, era tímido, estava triste ali. Mas no final, a fila dos reprovados foi a dele, e não a minha! Ele acabou não podendo cursar Escola Técnica Federal, e mais tarde mamãe arrumou para ele um lugar no SENAI, que ele cursou durante algum tempo.

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Minha birra com a máquina de escrever Aprendi muito naquela ocasião, mas ao ver minha mãe tão cansada, tão desesperada, com o trabalho e tudo mais, e à noite naquela máquina... Ela escrevia muito bem, perfeitamente bem, e ficava batendo à máquina... Eu peguei uma raiva daquela máquina de escrever, que eu nunca mais consegui bater à máquina. Toda vez que vou digitar na máquina, sinto uma coisa....

Um único homem em toda a vida! Mamãe era linda, não é por ser minha mãe... Era linda, uma moça cheia de vida, muito alegre, muito bem educada. Ela ficou desquitada, o que naquele tempo era uma coisa pejorativa. Desquitada, naquele tempo, era quase sinônimo de mulher de programa, vamos dizer assim. E ela ficou desquitada com 32 anos, na flor da idade. A vida inteira, ela nunca teve outro. Não se casou mais. Nunca mais. Chegou a voltar uma vez com o meu pai. A tia Sinhá, que era daquelas senhoras antigas falou: “Escândalo!!! Fugiu com um homem. Onde já se viu!”. Meteu a boca no mundo. E continuou: “Fugir com um homem!”. Minha mãe respondeu: “Mas é meu marido”. E ela: “Assim mesmo, não pode fugir!”, aquelas coisas de antigamente. E nem tinha fugido, continuamos na mesma casa da Rua da Consolação, ele só passava lá alguns fins de semana. Mas também não durou nada. Enfim, ela tentou uma reconciliação, mas não deu certo, porque o papai continuou com aquela vida dele, e ela não aguentava. Imagine um homem bêbado todos os dias! E as crianças passando necessidade...

Maior patrimônio: alegria de viver A casa da Rua da Consolação era alugada. Do patrimônio que era do meu pai não tinha sobrado nada. Do lado da minha mãe, restava ainda uma fazenda a que já me referi, a Fazenda Morro Grande, que era remanescente de uma sesmaria da nossa família, em Rio Claro. Era uma fazenda muito grande, tinha 2.104 alqueires, chegou a ter um milhão e meio de pés de café. Foi uma fazenda de escravos, e tinha senzala.

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Antes foram vendendo uma fazenda, outra fazenda... Ficaram com a Fazenda Morro Grande, que era histórica e importante. Na crise de 1929, a fazenda produzia muito café, mas não tinha para quem vender, então tomaram dinheiro emprestado em banco para poder arcar com os custos fixos, mas não aguentaram muito tempo. Houve uma demanda. O banco, cobrando, penhorou a fazenda. Essa causa demorou muitos anos, acabou faltando dinheiro para pagar o advogado, e ele, o Margarido, combinou receber sua parte em terras. No final, acabaram ganhando a ação, mas para pagar o banco tiveram que vender outra parte do que sobrou. Ficou ainda outra área de terra, que foi dividida entre os nove irmãos. A terra era manchada, com partes melhores e partes piores, e como naquele tempo eu já conhecia bem o terreno, escolhi uma parte que tinha cinquenta alqueires, foi o que nós conservamos até hoje. Como era terra fraca, recebemos uma quantidade maior. A tia Maria quis lá perto do rio, terra de massapé, então ficou com vinte alqueires e os outros todos venderam para o tio João do Rego Freitas, por um valor qualquer. O tio Antônio falou que não queria dinheiro, queria uma televisão, e o tio João comprou uma televisão e deu para ele. Televisão em preto e branco. Enquanto corria o processo, nós tínhamos a posse da fazenda. O tio João, que era o caçula, ficava lá, tomando conta. Não tinha dinheiro para tocar e arrendava para o Dote Canelo e seus irmãos, que punham boi e tocavam. Mas a sede era nossa, a gente ia lá. O Jorginho Margarido pegou a casa que era dos peões, reformou, fez uma linda casa, com tapete persa e tudo, e ficou lá também. Era o filho do advogado. O Joãozinho do Rego, que era solteiro, e o Jorginho Margarido, que era casado, mas boêmio pra chuchu, tiveram ali uma vida muito boa. Nas férias, íamos para lá. A Fazenda Morro Grande era rica, daquele estilo de fazendas coloniais imponentes, a sede era enorme. Depois a mamãe transferiu essa terra para nós, seus cinco filhos. Só que aí ela teve um período com doença muito grande, uma úlcera, de tanto trabalhar ficou muito depauperada, teve que arrancar três quartos do estômago. Era

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um tratamento caro, muito difícil na época. Então nós vendemos dez alqueires desses cinquenta e ficamos com quarenta. Ela fez a transferência para nós, filhos, oito alqueires para cada um. E agora eu e a Laura transferimos esses oito alqueires para os meus três filhos. É o único pedaço da fazenda que ainda está em nosso nome. Esses quarenta alqueires estão todos plantados com cana, a usina explora, está bem cuidado. E dá uma pequena renda anual. Mais tarde, a mamãe comprou um terreno no Jardim Europa e fez uma casa financiada pela Caixa Econômica. Foi nessa casinha que nós moramos depois, muito tempo, na Rua Professor Artur Ramos. Ela sempre foi muito alegre. A minha casa era uma bagunça, sempre porteira aberta. Meu pai às vezes ia lá. Sexta e sábado, era bailinho, gente entrando, gente saindo, aquele monte de primos... A gente se dava bem. Depois eu vendi a casa e comprei um apartamento para ela. Sobrou dinheiro, ela aplicou e somava esse dinheirinho na renda dela. Ela viveu até 91 anos. Desde os 30 ela era doente, mas foi aguentando a mão. E Margarida morreu como viveu, alegre!

Margarida morreu Margarida morreu como viveu. Alegre. Na noite em que foi para o hospital, as enfermeiras vestiram-lhe um avental branco, ela se achou bonita – uma princesa – e se pôs a dançar com elas. Na manhã seguinte fomos avisados que ela estava na U.T.I. e fomos todos para lá – muita gente, como ela gostava. Margarida me fez prometer que no momento final eu não a deixasse sozinha, deveria segurar sua mãozinha. Deus quis que eu pudesse pagar a promessa. Quando entrei na U.T.I., segurei sua mão. Ela me deu um ligeiro aperto, reconhecendo a minha presença.

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Quando ela já queria ir embora, eu lhe pedi: “Não vá ainda, mãezinha. Dom João Evangelista já vem vindo para te dar os últimos sacramentos”. João – João Evangelista – era o nome de seu pai. Quando Dom João se retirou e fiquei só com meu filho, Dom Eduardo7, mamãe me deu um leve aperto de mão, um breve suspiro e se foi. Vi a fumacinha branca saindo de dentro do seu peito, em direção ao Céu e pedi para que fosse bem recebida “lá”. No vaso da sala as margaridas murcharam. No túmulo branco elas floresceram como pequenos sóis com centro dourado e as pétalas brancas para alegrar o ambiente. Te amo muito, Margarida.

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Ver nota 22, na pág. 137.

7. Aventura inesquecível pelo sertão selvagem do Brasil Vou lhe contar aqui, Bilé, aquela que talvez tenha sido a maior aventura da minha vida, e que só um tio como ele poderia ter feito: o sertanista e escritor Francisco Brasileiro, membro da Academia Paulista de Letras. Ele era casado com a minha tia Maria do Rego Freitas, irmã da minha mãe Margarida do Rego Freitas. Ele fazia parte da turma de rapazes que andavam juntos, iam para o sertão. Eram o tio Chicão, meu pai, tio Cássio de Campos (filho do governador Carlos de Campos), o sertanista Hermano Ribeiro da Silva8 e outros. Alguns deles acabaram casando com as irmãs Rego Freitas. Tio Chicão era um sujeito incrível. Muito alto, com quase dois metros de altura, um narigão... Ele tinha um amor enorme pelo nosso País. O nome dele era Francisco Rodrigues Pillagallo e mudou o nome para Francisco Brasileiro, porque queria ser brasileiro. Colocou no filho mais velho o nome de João Araguaia, em homenagem ao rio. O outro filho ia se chamar Francisco Tocantins, mas a minha tia não deixou. Tal era o amor que ele tinha pelas coisas do Brasil. Então, era um homem destemido e muito forte. Nunca vi um atirador como ele. Quando íamos acampar na praia, em Iporanga ele jogava uma latinha de massa de tomate para cima, pegava o revólver e dava seis tiros nela... Não errava. Era muito bom atirador e um líder de verdade. Ele conhecia muito o sertão e não sei o que deu na cabeça dele de fazer uma Morto precocemente a partir de uma malária contraída na expedição Bandeira Anhanguera, que ocorreu na Serra do Roncador (MT e PA), de 1937 a 1938.

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viagem para levar os filhos ― o João Araguaia, o mais velho, a Ana Maria, que tem a minha idade, e o Chiquinho, que era quase dois anos mais novo. Eu e meu irmão Quido quisemos ir também e minha mãe, meio loucona, falou: “Então vocês vão”. E fomos. Eu tinha 10 anos, era pequenininho. Foi uma viagem memorável, em 1949.

A emancipação das calças curtas Nessa época, no grupo escolar, o pessoal caçoava muito de mim porque eu tinha as pernas já começando a ficar peludas e a minha mãe achava que eu não devia usar calça comprida, dizia que eu ficaria parecendo office-boy, e que menininho nobre inglês usava calça curta. Então, eu não devia usar calça comprida. Quando chegou o momento dos preparativos da viagem, meu tio aconselhou que levasse calça comprida e camisa com manga, por causa dos mosquitos e outros bichos. Um dia ela chegou em casa, na Rua da Consolação, abriu um pacote em cima da mesa e tirou uma calça de brim cáqui... Quando vi aquela calça comprida tive um ataque de choro. Chorei, chorei, chorei... de emoção ao ter a permissão de usar calça comprida. Minha mãe me abraçou e choramos juntos. Ela disse: “Eu não sabia que era tão importante pra você”. Foi uma emoção forte para mim.

Começa a aventura Fomos de avião a Goiás, um Douglas, DC-3, o C-47 da Força Aérea Americana. O avião saiu de São Paulo e aterrissou no aeroporto de Goiânia, que era uma pista de terra, levantou uma poeira danada. E foi a primeira vez que nós andamos de avião, um deslumbramento aquela coisa toda. Em Goiânia, ficamos num hotel na Anhanguera, um hotelzinho simples, e no dia seguinte fomos dar um passeio. Goiânia ainda não tinha nada, era uma cidade absolutamente começando. Mas era uma cidade planejada, plana. Ela tinha alguns predinhos de dois e três andares, o resto era tudo terreno baldio. A cidade estava no início mesmo, as ruas eram de terra, pareciam de uma cidade do Oeste americano. No dia seguinte, bem cedinho, pegamos um caminhão, devia ser um Ford daqueles antigos. Fomos na carroceria,

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junto com todas as tralhas e a bagagem, em direção a Santa Leopoldina, que hoje se chama Aruanã. Só que praticamente não tinha estrada. A gente ia meio que pelo cerrado, por umas batidas, gastamos quase dois dias para chegar a Santa Leopoldina. Éramos quatro meninos, uma menina e o tio Chicão. Depois se juntou a nós o Weber, um sertanista como ele. Ficou até o fim com a gente. Santa Leopoldina fica na barranca do Rio Araguaia, que para mim é uma das coisas mais lindas do mundo. Ali ainda havia, na época, destroços de navios, uma aldeia dos Carajás, que já eram pacificados. Vimos uma festa que teve lá... Mas antes disso, voltando um pouco atrás no tempo, lembro-me de pegarmos o caminhão e irmos até Goiás Velho, onde dormimos num hotel de tropeiros, que na verdade era um rancho com piso de chão batido. A gente estendia as coisas e dormia lá. Gostamos de Goiás Velho, que era uma joia colonial, autêntica, tinha acabado de perder o status de capital. Havia aquelas pontes sobre o Rio Vermelho, rio que tinha muito ouro. Meu tio filmou parte da viagem, filme do qual recuperei um trecho em vídeo. E havia uma cena lá em que eles davam muita risada de mim. Em Goiás Velho havia chafarizes onde o pessoal ia buscar água, com piso de azulejo português. Eu fui chegando, escorreguei e levei o maior tombo da paróquia, meu tio filmou e o pessoal riu de mim a viagem inteira, lembrando-se do meu tombo.

O percurso no Araguaia a bordo de uma “piracicabana” De Goiás Velho seguimos para Santa Leopoldina, na barranca do Rio Araguaia. Lá pegamos uma piracicabana, que era como chamavam as catraias, enchemos de tralha, nos aboletamos em cima e fomos descendo o rio, acampando nas praias. À tardinha nós acampávamos, o tio Chicão matava um mutum ou um pato para comermos. Capivara tinha de monte, mas ele não gostava. Flechava uns pintados. Então sempre tinha comida local. Levávamos trempe e cozinhávamos. A gente comia gostoso. De noite fazíamos um buraquinho na areia ― ela era amarela e grossa ― aí ficava quentinho, púnhamos a lona e deitávamos em cima.

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Muitas vezes eu ainda fazia pipi na “cama”, mas era quentinho, eu não levantava. No Araguaia chegava a fazer 44 graus durante o dia e à noite chegava a zero. Você ia levantar de manhã e “crá-crá-crá”, havia aquela camadinha de gelo, de geada, em cima da loninha com que a gente se cobria. O meu tio sempre tinha o cuidado de pegar um tição, ia à beira da praia e fazia um sinal. Não sei se era uma mandinga, um aviso, alguma coisa para proteção, mas toda noite ele fazia. Aí passava a lanterna no rio, quando via dois olhinhos brilhando atirava no meio. Era jacaré. Não pode deixar jacaré muito perto, que podia vir de noite e pegar nas pernas e nos arrastar para o rio. Era muito comum acontecer isso. Onça não era problema. Outro problema era a arraia. A gente tinha que andar no rio arrastando os pés no fundo, para não pisar nela. Arrastando os pés, se encostasse nela, ela fugia. Você pode me perguntar aqui, Bilé, se eu sentia medo. Na verdade, eu nunca tive medo... Só uma vez. Conto isso depois.

Jacaré psicodélico A gente pescava. Às vezes pegávamos pirarara, quase do tamanho da gente. Pescava com linhada, não tinha vara, não tinha linha de nylon. Uma vez meu tio me ensinou direitinho, eu sou muito prestimoso, fiz um lançamento maravilhoso. Ele perguntou: “Cadê a ponta da linha?”. Eu não tinha pisado na ponta da linha e ela se foi. Perdi a linhada. Ele ficou meio bravo comigo. A gente ia acampando de noite e navegando de dia. O meu irmão e a minha prima Ana Maria ficavam como polos elétricos, um positivo outro negativo, viviam brigando o dia inteiro. Saía faísca! Uma vez eles estavam brigando, meu tio pegou a zinga [vara comprida com que se impulsiona embarcação pequena], que era bem grande, ergueu pela ponta e ameaçou bater nas crianças lá no outro lado do barco, na popa. Só ameaçou, não bateu. Descendo o rio, uma determinada noite achamos um bando de jacu-cigano, o tio Chicão matou um, nós fomos numa galheira, fizemos um anzol grande e deixamos lá. Na manhã seguinte tinha um jacaré, mordeu a isca e ficou preso. Era um jacaré de uns 3 metros, não era dos maiores, mas era bem

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taludo. Nós arrastamos o jacaré para a praia, imobilizamos. Fincamos estacas, imobilizamos as pernas, imobilizamos o rabo. O perigo do jacaré não é a boca, é o rabo. A batida do rabo te quebra uma perna. A gente tinha mais medo do rabo do que da cabeça, mas amarramos o rabo, a cabeça, imobilizamos o bicho. Meu tio teve aquela pachorra dele: pegou latinhas de tinta esmalte de várias cores e pincéis. Aí pintamos cada gomo do jacaré de uma cor. Pintamos o jacaré inteirinho, ficou um jacaré todo colorido, bonito. E soltamos o bicho. Ele, assustado, pulou no rio e foi embora. Eu só queria saber o que os outros jacarés e os índios pensaram dele!

O ataque dos Xavantes Em outra tardinha, a gente estava descendo o rio e procurando lugar para acampar, fazer fogo, nadar um pouco, pescar, cozinhar e preparar para dormir. Estávamos perto da margem do lado de Mato Grosso. Aí meu tio aflito gritou: “Vira, vira, vira!”, mandando o cara que estava pilotando voltar o barco. O cara obedeceu imediatamente, virou para o meio do rio e veio uma saraivada de flechas. Os Xavantes eram bravos naquele tempo, matavam mesmo. Meu tio percebeu que eles estavam lá, era só a gente desembarcar que eles viriam em cima e liquidariam com a gente. Eu, que tinha apelido de Gordo, devia ser um piteuzinho para eles. Foi uma saraivada de flechas, mas caímos fora. Meu tio foi muito esperto e salvou a gente. Pegamos outro rumo e chegamos à ponta da Ilha do Bananal, que é a maior ilha fluvial do mundo. Nunca vi tanta gaivota9. Elas faziam ninho na areia. O bicho é bravo. Para proteger o ninho, ataca a cabeça da gente. Em seguida entramos pelo braço direito do rio, chamado Javaés, nome de um povo que ainda era bravo. Esse braço é mais estreito. Descemos por ele, chegamos a uma aldeia, meu tio fez a aproximação, pegou um monte de espelhinhos, colares, sabonetes ― que eles adoravam, cigarros, e nós permaNota dos editores: gaivota é uma ave marinha, mas em Minas Gerais, por exemplo, chama-se de gaivota o andorinhão-de-coleira. Deve ser a essa ave que o autor se refere, que é menor do que a gaivota marinha.

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necemos ali uns dois dias. Lá, comi uma carne de caça tão bem temperada, nunca vi coisa igual. Muito gostosa.

Festa do Aruanã Tomávamos sempre banho no rio. Com o sol, eu ficava muito moreno, da cor dos índios. Ainda passava óleo de babaçu. Tinha o cabelo preto, bem liso. Ficava parecendo um indiozinho. Para ir a uma roça dos Javaés, tínhamos que atravessar o rio nadando e pegar uma trilha. Aprendi uma coisa que a gente aprende só vendo: o índio pisa com um pé na frente do outro, ao contrário de nós, que pisamos com os pés abertos. Então a trilha da gente é larga e a deles é estreita. Numa outra viagem eu percebi isso: vendo uma trilha estreita já disse: “Aqui é trilha de índio”. Seguimos por ela e chegamos a uma aldeia. Um simples detalhe. Passamos uns dias na aldeia e fizemos uma boa amizade com os índios. Comemos com eles, demos presentes, foi muito agradável. Voltamos subindo o rio, chegamos de novo na ponta da Ilha do Bananal e descemos pelo canal principal, à esquerda da ilha, até uma aldeia chamada Santa Isabel. Era uma aldeia Carajá bem grande, e tinha um posto do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que depois foi substituído pela FUNAI. Tivemos nessa aldeia a oportunidade de ver uma coisa inusitada, a Festa do Aruanã10. Era uma festa muito rica, com roupas originais. Os índios carajás eram muito habilidosos. Faziam cocares ― que chamam laretô, e lori-lori, uma espécie de touca trabalhada, feita de penas. Eu trouxe a São Paulo um laretô e um lori-lori. A festa do Aruanã foi esplendorosa, maravilhosa. Uma cena que eu nunca esquecerei e provavelmente nunca mais ninguém verá, porque, com o tempo, foram faltando materiais, os índios já foram relaxando, então não é a mesma coisa. Eu vi uma festa de Aruanã original mesmo! Nessa região, a única coisa chata que tinha era um peixinho parecido com o lambari, que ficava mordendo os peitinhos da gente. Chamava “huguinho”11, 10 Aruanã é o nome brasileiro para a principal festa do povo Carajá, coincidindo sempre com a lua cheia. O nome da festa, segundo os próprios Carajá, é Idiaso. 11 Nota dos editores: Após pesquisar catálogos sobre nomes populares de espécies de peixe disponíveis na internet, essa espécie não foi localizada. Há alusão a uma espécie de cágado (“tartarugas de água doce”) conhecida como “huguinho”.

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esse peixinho chato. O resto era muito bom. Mas eu comi nessa aldeia uns peixes muito gostosos. Os índios punham o peixe numa grelhinha alta, com fogo brando embaixo. E iam regando o peixe com água e ervas maceradas, aquilo dava um gosto maravilhoso à carne. Depois abriam o peixe, tiravam a barrigada e iam comendo o peixe por dentro. Eu comi uma piranha! Ninguém gosta de piranha, mas estava deliciosa, bem assada. Eles tinham um jeito de preparar as coisas que as deixavam muito gostosas.

Corrida de pirogas Depois dessa parada, subimos o rio de novo. E subir ali era bem mais difícil. Muitas vezes, para economizar gasolina, a gente usava o remo. Às vezes, onde o rio era mais raso, a zinga, uma espécie de vara que empurra o barco. Uma vez chegamos ao lago do Luiz Alves, que era um morador de lá. Esse lago desembocava no Rio Araguaia. Entramos pela vazante, tinha um portinho e a fazenda dele. O tio Chicão matou duas capivaras para levar, porque nas fazendas da região eles davam capivara para os cachorros. É uma carne dura. Tio Chicão deu esses presentes ao Luiz Alves, nós ficamos na casa dele um pouquinho, margeados por uma lagoa de água bem escura. Um problema do Araguaia era a piranha de papo vermelho, com um palmo ou mais de comprimento. E ali houve uma cena muito interessante. A piranha de papo vermelho era um peixe já grandinho, com uma boca voraz, devorava um boi em minutos. Ela ficava nas águas de remanso, então evitávamos tomar banho lá, a gente tinha medo de lagoa e água parada justamente por causa das piranhas. Mas no Luiz Alves tinham umas piroguinhas12. E nós resolvemos fazer uma corrida de pirogas, fui eu e o Chiquinho em uma, o Quido em outra. Queríamos ver quem remava mais rápido. E aí a piroga do Quido virou no meio do lago e começamos a gritar: “Piranha, piranha, piranha!”. Eu nunca vi ninguém nadar tão depressa como ele, acho que ele nadou só com os dedos dentro da água, ele veio voando, chegou e aterrissou “esbafhhh” num portinho de areia que havia lá. Então foi uma coisa marcante da viagem.

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Nota dos editores: um tipo de embarcação feita de um só tronco de árvore escavado a fogo.

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“Fomos crianças e voltamos homens” A região do Araguaia era muito deserta, a gente passava dias e dias sem ver ninguém, mas às vezes via alguém triste naqueles ranchos. Vi um dia meu tio aplicar injeção num bebezinho que era só pele e osso, coitado. Havia gente morrendo de fome e doença, como malária. Tinha muito peixe ali, mas não havia força para pescar. Nessa viagem foi tudo por conta de meu tio, foi um passeio instrutivo que me serviu para o resto da vida. Aí a gente voltou para Aruanã, pegamos o motorista do caminhão, retornamos a Goiânia e depois a São Paulo. Foi uma viagem fantástica, maravilhosa. Anos depois, éramos maiorzinhos, eu tinha uns 14 anos, resolvemos ir outra vez, com um grupinho de garotada. Na primeira viagem ficamos uns 45 a 50 dias, foi deslumbrante, a coisa mais maravilhosa do mundo, fomos crianças e voltamos homens. Era época de férias de junho-julho, foi uma lição de vida conhecer outras pessoas, aqueles usos e costumes, um mundo que estava desabrochando, o início de uma civilização. O Araguaia era muito rico, havia muitas tribos indígenas que frequentavam aquela região, então as culturas eram muito diversas. E o rio em si era muito piscoso, proporcionava muita caça. Nas épocas da cheia, ele ainda chega a ter 10 km de largura, um riozão. Mas um rio manso, gostoso, especialmente no encontro do Rio das Mortes com o Araguaia, o das Mortes mais sujo, o outro menos. Você viajava no barco e via praticamente um zoológico inteiro pelas margens. Pássaros de todas as cores, como colhereiras, aves de todo jeito, enormes, além de onças. O tio Chicão às vezes pegava uma lata de querosene, soprava e fazia “oooouuuuhhh, oooouuuhhhh”, que nem o esturro da onça. E em pouco tempo vinha o som de resposta do outro lado: “ooooouuuuhhhh, oooouuuuhhh”. Ficava uma serenata de onça. Isso era de noite. Era lindo. Deitávamos na praia, aquele céu que nunca vira igual, estrelado, límpido. Ficava imaginando aquelas estrelas, o que teria lá em cima.

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Na segunda aventura pelo Araguaia, o ouro brotava das barrancas Retornamos já maiores ao Araguaia. Fui eu, Marcelo, Marcos, Cassinho... No total, éramos uns oito ou dez molecões. O tio Chicão não nos acompanhou. Éramos grandes já. Eu estava com uns 14 anos, só que tinha pouco dinheiro, quase nada. Tinha uma espingardazinha calibre 22, que ao apertar o gatilho vinha com três falhas antes de eu conseguir atirar, o cano era todo torto. Meus primos levaram arma boa, mas eu não tinha. Fomos até Goiânia, pegamos um caminhão, que fez o mesmo trajeto. Às vezes o motorista parava e saía correndo pelo meio do cerrado. A gente apeava e saía correndo atrás dele. Entrávamos então todos naqueles pés de cajus, madurinhos, e comíamos. Nessa viagem, mais para frente, topamos com um afluente do Rio Vermelho, era uma baixadinha. Passamos o riozinho e em cima do barranco vimos uma casa em que morava uma mulher. Era um ranchinho. Morava a mulher e uma filhinha. Ela ficou encantada com nossas panelas de alumínio: “Me dá uma panela dessas, eu preciso de uma panela. Eu queria tanto uma panela dessas...”. “A gente não pode dar a panela, nós estamos viajando, vamos precisar dela”. Mas com o coração mole acabamos cedendo, demos uma ou duas panelas para ela. O argumento dela: “Então me vende a panela”. A gente não quis. “Você aceita ouro?” “Ouro?” Nossos olhos brilharam. “Tá bom”, ela disse. Então pegou a menina e levou consigo um enxadãozinho velho e uma bateia. Na beira do rio, começou a bater o enxadãozinho no barranco, a menina pegava a terra e bateava um pouco, catava as pepitinhas de ouro e punha num vidrinho de remédio. Quando chegou ao meio do vidrinho de remédio, perguntou: “Isso aqui dá, moço?” “Dá! Dá!” Nós ficamos encantados de ver, a facilidade que tinha de achar ouro, era como se fosse a um “banco” buscar “dinheiro”. Ela ia à beira do rio catar ouro para pagar. Por que não exploravam? Porque não era comercialmente explorável. Num outro riozinho, eu mesmo peguei um pouco de terra de aluvião, pus na mão e apareceu um grãozinho de ouro. Havia bastante na região. Aquilo era deslumbrante para a gente.

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Pisando em ovos Quando chegamos ao Aruanã, acampamos por lá. Na verdade, ficamos numa espécie de hotel bem mixuruca. A vilinha era pequena. Fomos arrumar uma embarcação, procurar um piloto para descer o rio. Era preciso um piloto experiente, porque o Araguaia tinha muito toco, muita tranqueira. Um toco podia furar a embarcação ou quebrar a hélice, então era preciso um piloto que conhecesse as vazantes, os canais e as corredeiras. Ficamos um tempo por lá. Meus primos, mais velhos que eu, começaram a se engraçar com as índias. Aí um índio chegou ao João e pediu satisfação. Meu primo tinha transado com a mulher do índio, prometendo dar um facão para ela. E o índio foi perguntar por que ele não tinha dado o facão!? O marido veio cobrar o facão e ele teve que dar, porque o índio era forte. Foi coisa de molecada. Eu vi lá a filha de um farmacêutico alemão bem loiro de olhos azuis, casado com uma índia. Era uma moça linda. Tinha a pele cor de mel, cabelos alourados, olhos bem verdes, era linda! Fiquei encantado com ela. Como dá um resultado bonito essa mistura de alemão com índio! Fica uma coisa deslumbrante, maravilhosa! Dessa vez, já na volta, eu tinha tido um estrepe no pé, uma espinha de peixe, e estava com o pé enfaixado, dolorido. Estava meio no estaleiro. Mas um dia, estávamos no Aruanã esperando condução, organizaram um jogo de futebol num campinho, com os índios de um lado e os brancos do outro. Não tinha mais ninguém, me mandaram ser juiz. Eu não entendia muito de futebol. Com o pé enfaixado, sem poder me movimentar, eu ficava no meio do campo olhando. Quem reclamasse mais eu apitava. Acabou não dando morte, mas chegou bem perto, porque o juiz era uma droga! “Impedimento!”, quem gritava primeiro eu apitava. Gol. Não sabia nada. Eu não gostava muito de futebol. Então, como juiz fui uma negação, mas pelo menos ninguém se matou, não deu briga.

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Desolação: o cenário começa a mudar Nessa viagem fomos somente a Santa Isabel, não chegamos ao Javaés. A região já estava bem deteriorada. Os índios mais relaxados, esculhambados. Deu dó ver aquilo, uma pena! Os índios têm cultura, têm tudo, e já estavam sendo destruídos na cultura deles, só querendo pinga, fumo. “Pinga! Pinga!” Eles ficavam atrás de todo mundo pedindo pinga. Era uma coisa desoladora. Eu fui de cozinheiro no barco. Uma vez o barco parou numa ponta de praia, o pessoal desceu, eu fiquei na embarcação, de repente ouvi um barulho, olhei e pertinho tinha uma bruta onça pintada me olhando. Olhei pra ela, ela olhou pra mim, não sei se ela ouviu algum barulho, virou e foi embora. Fiquei cara a cara com a onça, mas não tive medo. Outra vez, na ponta do Bananal, peguei uma vara de uma árvore bem flexível, mas muito forte. Numa ponta eu amarrei um monte de sebo e de carne. Veio então um cardume de piranhas, eu jogava aquilo no rio e puxava de uma vez, vinha um monte de piranha grudada naquele sebo e caía na praia atrás de mim. Eu punha de volta, puxava de novo. Num instantinho consegui um montão de piranhas. A gente não gostava de piranha porque é um peixe de muito espinho, mas você vê como elas são vorazes! A minha pior empreitada foi no dia do aniversário do Marcelo, que acompanhou a gente nessa viagem. Ele se tornou meu cunhado. Era dia 12 de janeiro, me parece. Eu tinha prometido para ele uma sopa de tartaruga. Pegamos um tracajá (uma tartaruga amazônica de carne muito apreciada), tinha que matar. Ô, meu Deus! Para matar, tinha que pegar uma taquarinha bem fina, enfiar no pescoço do animal, para chegar até o coração e matar. Que coisa dolorida, meu Deus! Como eu sofri para fazer aquilo! O tracajá se esperneava e eu não acertava o coração dela. Eu me lembro até hoje daquela cena miserável, mas acabei fazendo uma sopona da qual a turma se recordou por muito tempo. Até morrer, o Marcelo me falava: “Eehhh... Aquela sopa de tracajá que você me fez! Uma delícia”. Às vezes a gente pegava ovos de tracajá na praia. Tinha muito. Fazia batido com açúcar e comia.

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Fome de caça Afora o episódio do tracajá, nessa viagem, ao contrário da primeira viagem, praticamente passamos fome de caça. Tinha aqueles patões gordos em cima das árvores todo mundo fazia uma descarga de artilharia neles, mas não caía nada. O pato olhava pra gente e saía voando, como se estivesse gozando da gente. Não acertávamos nada. “Mas era tão fácil!” É que o tio Chicão era um exímio atirador, e acertava todos os tiros. A gente descarregava a arma e não acertava nada. Na primeira viagem, era possível escolher o cardápio, que o tio Chicão dava conta. “Vamos comer o que hoje?” “Um pintado?” Ele ia ao rio e flechava um pintado. O pintado fica parado no fundo da água, mas a água distorce. E quando você joga a flecha, ela também distorce, por causa da corrente. Então tem que calcular a profundidade também. E índio não erra, não. E o tio Chicão também não errava. Eu tinha dó dos pirararas, um peixe tipo bagre, mas do tamanho da gente, grande! Mas não ataca gente. Eles pegavam pirararas e os largavam estendidas na praia, não gostávamos da carne dela. Pura burrada! Lá tinha também uma ave que parecia um peru, de tão grande, o mutum. E tinha o pato. Pombos, essas coisas, a gente nem ligava. Tinha o jacu, ou seja, havia as carnes preferidas.

“A coisa mais burra que já vi na vida” Na segunda viagem, uma vez vi uma cena bastante insana. Um grupo foi a uma praia e começou a atirar. Aí outro grupo gritou: “Vocês estão atirando em nós.” “Não estamos.” “Estão.” Aí começou um tiroteio, a coisa mais burra que já vi na vida. “Você atirou em mim, eu atiro em você.” Gritei: “Gente, para com isso! Alguém vai morrer aqui! A troco de quê?” Fiquei bravo. Era o menorzinho, mas consegui colocar um pouco de ordem na turma. Deu uma loucura nos caras. Eles tinham espingardas 22, de repetição, com um monte de tiros. Mas foi uma viagem muito válida também, de 30 ou 40 dias. Tirando esse episódio, foi muito divertido, era risada o dia inteiro. Eu tinha acabado o ginásio, ia estudar eletrotécnica no colegial. Para mim, pessoalmente, a primei-

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ra viagem abriu um horizonte fantástico, conheci outras culturas e estabeleci essa ligação com a natureza, a cultura do índio, a comida, as pinturas. Eles me pintavam também, caprichavam. Outra coisa era a vastidão do País. Você passava dias e dias sem ver ninguém, nem um vestígio de gente. Aquilo era um eldorado, com um potencial magnífico. Na segunda viagem teve uma cena interessante também. Atravessamos para o lado de Mato Grosso pra ver se caçava uma queixada, e entramos cerrado afora. Vai daqui, vai dali, bebemos toda água. Acabou a água. Aí começou a sede. Encontrei um pau com mel de jataí, deu para tomar um pouco de mel e saciar um pouco. Conseguimos matar uma queixada e trouxemos pendurada num pau. Mas o Marcelo, que era daqueles caras meio nervosinhos, ficava: “Não aguento mais a sede. Tô com a garganta seca. Vou morrer”. Fazia um teatro! Chegamos a uma cacimbinha, com água verde e ele pulou nela, bebeu bastante, sentou e... “puah!”, vomitou tudo. Aquela água estava salobra, parada, cheia de micróbios, não dava para tomar. No máximo que podíamos fazer era tirar dela um pouquinho, coar num lenço e molhar os lábios, mas ele caiu de cara. Como entrou, saiu. E nós ficamos caçoando dele a viagem inteira.

Conluio entre jacarés e botos Nessas duas incursões ao Araguaia, ficávamos completamente desligados do mundo. Meu tio Chicão foi doido inteiro de levar a molecada de 9 e 10 anos para o sertão. Já pensou se caísse um menino no rio? Era perigoso. Outra lembrança bem interessante da viagem com o tio Chicão foi ver um cerco de peixes por botos e jacarés. Eles foram cercando, forçando os peixes a irem em direção à praia. Tio Chicão jogou a tarrafa no meio desse monte de peixes cercados e pegou tantos deles que a gente não conseguia puxar a rede. Foi muito interessante. Os jacarés e os botos colaboravam entre si, cercando os peixes, aí comeram o que quiseram e depois foram embora.

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Tio Chicão Sertanista e escritor, tio Chicão é assim descrito pelo jornalista Ricardo Muniz13: “Se fosse um pai de família como qualquer outro, levaria filhos e sobrinhos pequenos para passear na praia. Mas Francisco Brasileiro (1906-1989), o Chicão, reuniu cinco crianças – os três filhos e mais dois sobrinhos – e, partindo de São Paulo em julho de 1949, enfiou-se sertão adentro até topar com o Rio Araguaia. Foram caçar, nadar e visitar índios javaés e carajás, em um giro que durou 40 dias. Se fosse uma família convencional, provavelmente a ideia de levar fedelhos para os confins do País teria sido rechaçada com veemência por mães indignadas. Mas não se tratava de uma família comum. Não só a ideia foi aprovada, como Ana Maria, filha de Chicão, ficou responsável pelo diário de viagem, tarefa que cumpriu espantosamente bem, considerando que tinha apenas 10 anos de idade.” Autor de 15 livros, como os clássicos Urutau e Outros Contos, Jurupari e Na Serra do Roncador, os dois primeiros lançados em 1948, ele conquistou prêmios literários, teve papel ativo na Academia Paulista de História, no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e na Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater, além da Academia Paulista de Letras e União Brasileira dos Escritores. Mas foi no sertão que fez história, tendo participado de incursões como a Bandeira Anhanguera, de 1937, que desbravou a Serra do Roncador, em Mato Grosso, a qual estabeleceu contato com os índios Xavantes. Fundou ainda cidades em Goiás e Mato Grosso. Financeiramente, tio Chicão vivia como corretor de imóveis, mas quem sustentava a casa, na verdade, era a minha tia Maria, que trabalhava desde mocinha e era alta funcionária do Estado. Ele ganhava alguma coisa com a corretagem, tinha amigos donos de corretoras. Foram eles que “descobriram” Iporanga, praia paulista localizada na ilha de Guarujá, compraram toda a

13 Na reportagem “Chicão, um apaixonado pelo Brasil”, publicada originalmente no Jornal O Estado de S. Paulo, em 12/11/2006, p. A29, disponível no site http://www.comtudo.com.br/materia.php?id=53.

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área e formaram o loteamento que está lá até hoje. Mas ele escrevia bastante e tia Maria fazia a correção do texto, ela era muito boa em português.

Espírito bandeirante Em seguida, quando me tornei escoteiro, essas viagens com tio Chicão ajudaram muito. Por isso é que eu sempre fui monitor, chefe de tropa, guia, eu sabia dessas coisas de mato. Nós éramos, vamos dizer, filhos de bandeirantes, porque tivemos essa coisa de natureza, sertão, viagens. Sertão para nós era sempre um fascínio. Como fomos muito cedo para o sertão ― e mesmo antes, porque fomos criados na Fazenda Marilena e a família tinha ainda a Fazenda Morro Grande, em Rio Claro ―, então sempre tivemos um apego muito grande à terra, às coisas da natureza. Nós sempre fazíamos explorações. Uma coisa que fazíamos e não custava muito era, por exemplo, pegar um ônibus até o bairro de Santo Amaro, de lá seguíamos pelos trilhos do trem até Engenheiro Marsilac, no extremo Sul de São Paulo, e então entrávamos na mata e descíamos a Serra do Mar. Íamos de mochila. Uma vez chegamos de noitinha em Engenheiro Marsilac. “Onde vamos dormir?”, perguntávamos. Havia umas pilhas de dormentes na beira da ferrovia e nós decidimos: “Vamos dormir lá em cima, que é mais quentinho”. Subimos e começamos a armar nossas coisas para dormir. De repente veio uma turma do acampamento oficial da ferrovia: “Vocês não podem ficar aqui. Quem são vocês? São bandidos! Vamos matar todo mundo! Vamos fazer e acontecer”. Estavam apavorados com a gente. “Não, moço. Nós somos uma garotada, estamos aqui aventurando, não tem nada de mal.” Aí pegaram meu facão: “Estão armados! Olha aqui um facão!”. “Claro, vou entrar no mato sem um facão?”, protestei. Aí outro achou a bainha: “Não é só esse, não! Tem outro aqui. Cadê o facão desse daqui?”. “O facão ‘desse daqui’ é esse aqui. Você põe um dentro do outro, fica um só.” Aí, enfrentamos a situação e continuamos a descida da serra.

Enfim, o dia em que senti medo A gente seguia pela ferrovia, a Santos-Jundiaí, até chegar a um riozinho e continuar por ele até o final, já na Baixada. Uns iam mais à frente, outros mais

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atrás. Numa ocasião eu queria ver uma paisagem e fiquei para trás. Aí entrei num túnel, que era em curva. Estava absolutamente escuro, não se enxergava nada. Eu ia tateando pelos trilhos para poder chegar do outro lado. Mas aí vinha subindo um trem e eu estava no meio do túnel. Encostei-me à parede, mas estava de mochila, ela é que se encostou à parede, eu fiquei para frente. Eu não sabia a distância que o trem passaria da parede. Pus a mão na parede, aquele limo frio. E o trem vinha chegando, com aquela fumaceira. Era trem a carvão e jogava fagulhas. Era uma fumaceira danada, um barulho infernal, aquela umidade que tinha e eu sem saber se estava próximo do trem ou não, se ele ia me pegar ou não. Ele veio, passou, um monte de fagulhas pegaram na minha roupa, me queimaram. E toda aquela fumaça, aquela falta de ar! Nessa hora, eu acho, imagino que tive um pouco de medo. Passou o primeiro vagão e me aliviei: “Agora é só ter um pouco de paciência”. Quando passou o último vagão, voltei para o meio da linha e saí correndo, fui sair na outra ponta correndo. Aí a turma pegou no meu pé, ficou caçoando. Eu queria me livrar daquilo. Esta foi a cena em que senti medo na minha vida, tinha 12 ou 14 anos.

Uma cobra em minha cabeça Éramos muito aventureiros, vivíamos fazendo essas viagens. Nós descíamos aqueles despenhadeiros da Serra do Mar, uns barrancos danados. Em uma dessas descidas, em um lugar tinha uma pedra bem fininha. Veio o Gilson, que estava atrás de mim e disse: “Para, para, para...”. Em cima da minha cabeça havia uma cobra enrolada. Ele pegou um facão e “pááá”! A cobra caiu, e continuamos descendo... Você não sabe o duro que é dormir na Serra do Mar nos dias de chuva, tudo nublado. Não dá para acender fogo, não dá pra fazer nada. Você tem que dormir molhado. Tem que pegar um pau grande e lavrar até chegar a um cerne um pouco mais seco para tentar fazer um foguinho. Uma vez resolvemos derrubar um palmito, com facãozinho, mas aqueles palmitos não levavam a nada. Demorávamos horas para pegar um palmitinho pequeno. E aí dormir naquele molhado com um monte de mosquitos, pernilongos, era uma coisa muito desesperadora.

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Aí fomos descendo. Chegamos a um lugar em que eu vi uma trilhazinha. Pelo tipo que vi, uma trilha estreita, disse: “Isso é trilha de índio, não é de branco, não!”. Aí ficou aquilo: “É de índio”. “Não é de índio. Aqui não tem índio”. Eu continuei: “Fiquem atentos que é de índio”. Fomos andando e o Marcos Celidônio, que era um cara muito gozador, de repente deu de cara com uma aldeia e todo sério levantou o braço direito e disse: “Uuooohhh”, que nem nos filmes americanos. Eu falei: “Ô, Marcos, deixa de ser burro. Esses caras não são americanos. São brasileiros”. Ficamos nessa aldeia de índios Guarani, na cabeceira do Rio Branco, que desemboca em Itanhaém. Mas nós decidimos não ir para Itanhaém. Tinha uma linha de força que cruzava ali e saía em Mongaguá, e nós quisemos seguir por ali, subindo e descendo morros muito inclinados. Aí tinha um índio que resolveu vir com a gente: “Quero cachaça. Quero cachaça!”. A gente subindo um morro e aquele índio enchendo o saco. No meio do morro não aguentamos mais e resolvemos: “Vamos dormir por aqui mesmo”. E o índio continuava: “Quero cachaça. Quero cachaça! Quero cigarro...”. A gente não podia nem fazer fogo, porque estava numa serra seca. Estendemos os sacos de dormir e ficamos lá mesmo. No dia seguinte saímos cedinho, o índio já tinha desistido. Aí saímos num lugar maravilhoso. Do outro lado, quando termina a serra, para chegar à praia havia um mangue enorme, um pantanal mesmo. E ali é todo de plantação de banana. Encontramos um cacho de banana amadurando, que deve ter ficado da colheita, e come banana! Aí um joga uma casca no outro, fizemos uma guerra de banana. Banana pra lá, banana pra cá. Havia um trenzinho para colheita de banana e nós fomos andando pelo trenzinho e chegamos à casa de um japonês, que deu abrigo pra gente. Ficamos num galpão, passamos a noite lá, e no dia seguinte continuamos viagem para chegar à praia. Só que fomos passear com um barco que o japonês emprestou, por aqueles canais, tudo feito por escravos. Canais maravilhosos, naquele sertão. Um sertão com água cristalina, límpida, e aquele bananal com trenzinhos para recolher bananas. Um lugar lindo de ver. Muito bicho, muita caça, muita cobra.

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A volta na companhia de uma cobra coral Voltávamos a São Paulo de trem. Nessa viagem, um amigo nosso, o Daniel, pegou uma cobra coral. Gostou da cobra e ficou com ela. Pôs no bolso. Chegou ao trem, soltou a cobra no chão e foi a maior correria. Trouxemos para São Paulo, com aquela ideia: é cobra coral não venenosa [falsa coral]. Chegamos ao Instituto Butantan e o cara disse: “Uuhhh... Vocês conseguiram uma raridade!”. “Por quê?” “Essa é uma coral corallinus [Micrurus corallinus]. Se ela te morder, você está morto. Não existe nem soro pra ela”. Aí é que deu apavoramento. Ele trouxe no bolso, punha na mão, a deixava andar no chão, pegava. Assim aprendi: a corallinus tem as marcas bem definidas. As outras têm as marcas borradas, com anéis. Outra viagem que fizemos por Paranapiacaba, seguimos pelos trilhos do trem, por aqueles viadutos compridos, altos pra chuchu, em que só passava o trem, e a gente ia pelo dormente. Um companheiro nosso, o Davis, que usava uns óculos grossos ― seu pai era presidente o IBC, Instituto Brasileiro do Café ―, pisou num dormente podre, que caiu. Davis, que tinha uma cara meio de americano, meio desengonçado, ficou preso pela mochila no dormente de trás. Ficou com as pernas balançando. Tinha uns cem metros de profundidade. Foi aquela correria, fomos ajeitando, ajeitando e o tiramos de lá. Era aventura mesmo. Outra vez que fui para lá com outros amigos, não sei por que deu algum problema, resolvemos voltar, mas não tinha trem, e também não tinha onde dormir. Então resolvemos: “Vamos falar com o delegado, ele deixa a gente dormir na cadeia”. Fomos lá, ele deixou, mas disse: “Mas vou trancar, hein?”. “Tudo bem, desde que o senhor abra de manhã.” Passamos a noite lá. Porque lá é um frio desgraçado, uma umidade que você não aguenta. Se tiver uma cadeinha para dormir, até que fica gostoso!

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8. Férias na Fazenda Morro Grande, a vez do sertão paulista Olha Bilé, durante dois séculos, a Fazenda Morro Grande foi de nossa família, como já lhe disse lá atrás. Vem desde o tempo das sesmarias e, em minha época de criança, ela se encontrava em disputa no Judiciário, tinha uma parte que era inalienável. Essa situação levou muitos anos. Assim, quando garoto, não se sabia exatamente que destino ela teria e a família resolveu arrendá-la para os irmãos Canello ― Dote e Chiquinho. Eles arrendavam e punham gado lá, umas três mil cabeças. Eram 2.104 alqueires. A Morro Grande foi uma fazenda muito rica. A sede era em estilo colonial, grande, com vários quartos e tudo mais, vinte cômodos, bem alta, com pé-direito imenso, tudo de alvenaria, de primeira, com cantos arredondados. Era uma casa senhorial mesmo, rica. Chegou a produzir muito café, tinha várias colônias para tratamento do café, mas na minha época já estava bastante abandonada. Ela tinha um pomar muito grande, bonito, com figueiras enormes, que davam uma sombra deliciosa, além de mangueiras centenárias, era uma beleza. Tinha uma “curralama”, um conjunto de currais muito bons, que ficavam do lado direito da casa. E tinha um jardim muito bonito, como se fossem os jardins franceses ou coisa parecida. Do lado esquerdo havia os terreiros de café, mais pra baixo a tulha, e era tudo com estrutura de pedras, paredes muito bem feitas, construções maravilhosas, do tempo dos escravos. A água vinha de cima da serra, a fazenda ficava na meia encosta dessa serra,

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tinha uma visão ampla, bonita, de todo o cerrado, de toda a mata, das plantações... A água vinha por tubos, para uma caixa d’água que abastecia a sede, e outra que ia para o local onde se fazia a lavagem do café. Depois o café escorria por bicas de pedra lavrada até os terreiros para secar. Além da sede principal, tinha outra bem grande atrás, que era a casa dos peões e tinha uma escola mantida por minha mãe, minhas tias e por professoras de lá. Era para lá que a gente ia durante as férias, a partir do tempo em que tínhamos mudado da chácara para a Rua da Consolação. Pegávamos o trem da Paulista em São Paulo, descíamos em Rio Claro e seguíamos num caminhão até a fazenda. Ia um bando de tias e primas. Minha mãe, minhas tias, muito alegres e brincalhonas, e vinte e tantos rapazes e meninas, primos e mais alguns convidados. Era maravilhoso. Quem morava lá, da família, era o tio João, o caçula. O Jorginho Margarido e sua família ficaram companheiros do tio João na fazenda. Era um tio muito liberal, até irresponsável, deixava a gente fazer de tudo. A gente aprontava, corria perigo, era uma coisa de louco. Como a fazenda estava sub judice, um dos novos donos, o filho do advogado que receberia parte dela como pagamento da ação, tinha uma casa lá, e passava temporadas nela. Era a casa dos peões, que ele reformou e fez uma bela morada, em estilo colonial, muito bem feita, com tapete persa, gramofone e tudo o mais a que tinha direito. A mulher dele era a Daisy, uma senhora muito bonita, que tinha uma irmã também muito bonita, por quem o Quido ficava muito entusiasmado...14. 14 Segundo depoimento de Maria Helena, a Lena, irmã mais velha de Carlos Uchôa, as idas à Morro Grande aconteciam principalmente nas férias de final e começo de ano, onde ficavam por três meses, pois as aulas, naquela época, somente iniciavam em março. “Também íamos à festa de São João”, disse. A fazenda fica no município de Santa Cruz da Conceição, que teve origem em uma encruzilhada da estrada de terra que ligava os municípios de Pirassununga e Rio Claro. E na hora do retorno, “ficávamos todos chorando, abanando a camiseta, ninguém queria ir embora. Minha tia Alba, que faleceu há dois anos, em véspera de fazer 100, e que era encantadora, irmã de minha mãe, levava as crianças. Tia Sinhá e meu avô também iam. Já a tia Olga era chata, a vida inteira foi chata, se trancava depois do almoço no quarto, para dar sobremesa para os filhos. Mas meu tio Pérsio, seu marido, irmão de minha mãe, era encantador” [em depoimento aos editores, em janeiro de 2014].

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Personagens da Morro Grande Uma velhinha que morava na fazenda e cuidava da casa, fazia comida, era a Nhá Dita. Ela tinha dois filhos, o “Vardemá” e o Orides, que eram da nossa idade. Mais gente pra brincar! Lembro de que a fazenda tinha muito gado e também uma tropa grande de cavalos. Eram necessários muitos peões e muitos cavalos para tocar o gado, já que havia pastagens bem longe. Entre os peões, o Antenor era o capataz. Um cara legal, bem-humorado. Tinha também o Zé Preto e o Mário. O Zé Preto era muito alto, de pernas finas, montava num burrinho pequeno e quase que seus pés se arrastavam no chão, e isso era motivo de muitas caçoadas. Ele era domador também. No mangueiro principal, ao lado da casa, um mangueiro grande, tinha um cocho de sal e um bebedouro ao lado. A água do bebedouro escorria para baixo do cocho de sal e fazia uma lama preta de quase um metro de profundidade. Um dia o Zé Preto estava domando um cavalo, que pulou, pulou, pulou... e jogou o Zé Preto de cabeça dentro dessa lama. A gente o viu atolado lá, só as pernas pra fora, balançando. Correram e o tiraram de lá. A gente nunca se esqueceu dele por isso. O Mário era um peão muito bem apessoado, usava um chapéu de feltro cinza, tinha uma roupagem bonita, calça culote, era um sujeito muito dócil, afável, educado. Ele tinha duas habilidades, uma delas era trabalhar com couro. Trançava couro, fazia arreamentos, cabrestos, guaiaca, laços e tudo mais. Ele às vezes nos ensinava a mexer com couro. À noite, normalmente, a gente ficava embaixo de uma figueira enorme, ao lado da casa, acendia uma fogueira, sentava nas raízes da árvore, ele tocava violão e cantava modas de viola, aquilo era uma coisa deliciosa. A gente reunia aquele bando de garotada e ele ficava cantando, era um encanto para nós. Lembro-me de uma noite em que o Dote [um dos irmãos Canello], que arrendou a fazenda, não se incomodava que a gente usasse os cavalos dele, mas sempre que podia ele usava a gente para ajudá-lo a levar o gado. Então

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eu, o Quido, o João e o Cassinho montávamos nos cavalos e íamos separar gado, tocar o gado por aquele cerrado, era uma delícia. Às vezes fazíamos até pequenas viagens a cavalo. Muitas vezes o Antenor, que era o capataz, separava um lote de garrotes, chegava lá no curral de baixo, onde não tinha pedra, o chão era de areia mais ou menos fofa, pegava um garrote, amarrava uma corda no sovaco e mandava a gente montar. Teve uma vez que montei num garrote meio grande, ele pulou, pulou até que eu caí, mas caí por cima dele. Aí ele pisou na minha barriga. “Desgramado!” Fiquei três dias de cama, perdi três dias de férias por causa daquele garrote. Mas era muito divertido. Cada tombo! Os peões, então, se divertiam.

Ponteiro: uma aventura que exigia coragem Uma vez estava muito seco e o Dote quis dar um banho no gado. Então fomos ao pasto do Pavão, eu vi uma quantidade bem grande de gado, umas setecentas cabeças. A gente foi apertando, apertando o gado até chegar à água, numa lagoa. Era para dar um banho no gado. Então tinha que ter um ponteiro que ia na frente do gado, fazendo o burro ou o cavalo entrarem na água a poder de espora... Quando a gente sentisse que o animal perdesse o pé e começasse a nadar, tínhamos que pular do burro ou cavalo e segurar no rabo dele. Ele ia puxando a gente. A gente olhava para trás e via aquele monte de chifres, do gado que vinha nadando atrás. Aquilo dava um friozinho no estômago. E quando a gente sentisse o burro pisar em terra firme de novo, tínhamos que imediatamente subir nele, pela anca mesmo, pelo rabo, porque se você ficasse a pé em terra, o gado ia te pisotear. Ele saía da água naquela correria e você podia ser morto pisoteado. Então tinha que pular no burrinho e sair na frente do gado e entrar um pouco no cerrado. Aí vinha aquela boiada... Como todos éramos exímios nadadores, essa era uma prova de “ser macho”. Quer ser macho? Vai ser ponteiro lá na Água Bonita, pra ver como é gostoso.

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Trote para novatos Entre nós havia alguns citadinos, que andavam pior a cavalo. O gado normalmente faz uma trilha e muitas vezes a gente ia a galope atrás do boi, ele virava na trilhazinha e o cavalo virava atrás. Às vezes um cavaleiro, no caso um primo mais bobinho ou um amigo, saía direto, não conseguia parar em cima do cavalo, aterrissava de bunda no areião lá na frente, era muito divertido. Ninguém queria montar numa mula chamada Mococa, que tinha pelo de rato, era “chuim” ― como dizíamos do animal que tinha a orelha cortada ― e só fazia o que ela queria. A gente pegava um novato e dava a Mococa pra ele andar. Só que ele não andava nada, a Mococa fazia o que queria. A gente ia pra um lado e a Mococa ia para o outro, o cara não conseguia fazer com que ela fosse para o mesmo lado que nós. E tinha um cavalo que era o xodó do meu tio, um cavalo inteiro, muito bravo, muito arisco. Era um cavalo preto, com uma estrela na testa. Eu andei só uma ou duas vezes nele, mas era bonito...

“Creolina”, moleque danado Uma vez minhas primas levaram um menino que morava lá, filho da empregada, era um negrinho vivo, esperto. Tinha os olhos e os dentes bem brancos, o resto era tudo preto, raça pura, bonito, um belo de um rapaz. Ele era muito arteiro. Um dia a gente estava no curral, ele aprontou alguma e nós corremos atrás dele: “Vou te pegar! Vou te pegar!”. Mas ele sabia que na forquilha que sustentava o coxo de sal tinha uma lata de creolina, naquele tempo usava-se creolina para passar em bicheira de boi. Ele pegou a lata de creolina e gritou: “Vem, vem que eu taco isso aqui em vocês”. “Taca nada!” Ficou aquele “taca-não taca”, ele encheu a gente de creolina. Aquilo arde! Ficamos ardidos e fedidos e tivemos que pular dentro da caixa d’água do bebedouro. Dali pra frente ele passou a ser chamado de “Creolina”, ninguém lembrava mais o nome dele.

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Meninos das cavernas As tias eram muito alegres. A tia Alba inventava passeios todos os dias. Pegava os menorzinhos e levava nesses passeios. Um dia ela ia à mata, outro dia na cascatinha, outro dia na represa, e sempre inventava umas brincadeiras. Tinha uma brincadeira que a gente gostava muito. Como a fazenda ficou um tempo meio largada, tinha uma voçoroca grande que a gente chamava de barroca. As furnas formavam uma espécie de canyon, por onde passava uma aguinha. A terra era vermelha, um pouco arenosa. Nós subíamos pelas paredes dessa erosão e abríamos buracos, fazíamos cavernas dentro da terra. Cada um fazia uma caverna. Nós tínhamos descoberto no porão um jogo de camisas de futebol do antigo time da fazenda. Eram camisas de manga comprida. Pegamos uma peça cada um, fomos pra barroca, ao lado dela tinha uma moita de taquara, tiramos a roupa boa que usávamos, pegamos aquela camisa, passamos por baixo das pernas, amarramos na cintura, deixando o resto cair pra frente do corpo, e aquilo parecia uma veste de homens das cavernas. A gente acabava sempre sujando bastante ali, ficávamos vermelhos de terra. Era divertido. E não foi diferente com as antigas camisas de futebol. Mas Deus é grande: aquilo podia desbarrancar a qualquer momento e soterrar a gente lá dentro. Eram cavernas grandes, sem estrutura nenhuma, sem calço nem nada, e a terra não era consistente. Quando voltávamos para casa, todos vermelhos de terra, e íamos tomar banho, tinha um banheiro só, e a água quente era de uma serpentina que vinha do fogão a lenha. Quando o fogo se apagava, não tinha água quente. Então os primeiros tomavam banho quente, os outros ficavam no banho frio mesmo. Era um de cada vez. Tinha uma moça levada pelos primos, uma loirinha linda, não me lembro do nome dela. Ela estava lá se trocando, no meio do taquaral, eu e o João passamos e a vimos lá. Ela já tinha pelos púberes, parecia uma aranhazinha. A frase “aranha tem veneno” virou um segredo meu e do João. A gente falava isso, ficavam curiosos, mas nunca contamos pra ninguém o que era.

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Festas grandiosas e gostosas Uma coisa interessante é que meu avô se chamava João Evangelista e, quando ele era vivo, organizava enormes festas no dia de São João15. Naquela época as férias escolares eram em junho e não em julho, e pegávamos essas festas. Uma semana antes da festa já começava a chegar aquela romaria de gente. Ele comprava um carroção cheio de fogos de artifício. Era uma festa enorme, matava uns vinte bois, uns vinte leitões, uns cem frangos, era uma fartura danada! Erguia o mastro, tinha quadrilha, violeiros, sanfoneiros, tinha baile na tulha até amanhecer, fogueiras enormes, concurso de assar churrasco, a fazenda ficava cheia por vários dias, porque tinha gente que vinha de longe e tinha que ficar lá.

Cobra na “tia chata” Uma vez nós estávamos passando o Natal lá, era um monte de gente, e tinha tia Olga, que era do tipo que queria as coisas direitinho, e lá era uma bagunça total. Para nós, ela era “a chata”. E como ela era chata, a gente vivia aprontando para ela. A sala de jantar era enorme, e tinha uma mesa também enorme. Ela jantava sempre mais ou menos no meio da mesa. Um dia a gente estava nadando no ribeirão da colônia e encontramos uma cobra papa-pinto, aquele tipo de cobrinha verde, pegamos o bicho e logo veio a ideia: “Vamos dar um susto nela”. Na hora do almoço, todo mundo sentado à mesa, puseram a cobra nos pés dela e alguém gritou: “Uma cobra! Olha uma cobra!”. Ela quase teve um infarto, caiu da cadeira, jogou tudo pra cima, e a cobra saiu “correndo”, quiseram matar... Mas era uma cobra que não fazia nada. A tia Olga quase morreu do coração, queria bater em todo mundo, falou brava: “Façam fila que eu vou bater em todo mundo”. “Vai bater nada!”, saímos todos dali. Teve outro ano que fomos passar o Natal na Morro Grande e as mulheres queriam fazer uma árvore de Natal, mas não tinha pinheiro. Pegaram bam-

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Comemorado em 24 de junho.

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bus e formaram uma árvore, decoraram com algodão, com velas, com umas bolinhas que levaram, ficou até bonita, grande, ia até o teto. A árvore foi secando e no Dia de Reis16, acenderam as velinhas para fazer a comemoração, a árvore pegou fogo e foi um corre-corre... Quase queimou a casa inteira, mas foi muito divertido.

Pequenos Tarzãs Nós também gostávamos muito do pomar, tinha árvores antigas, principalmente pés de manga espada, que eram altos, grandes. A gente subia nas mangueiras e fazia uma casa lá em cima. Cada primo tinha uma prima, que era como se fosse a “mulher dele”. Na minha casa, com a Maria Lídia, fizemos um fogão, fizemos comidinha. Uns levavam pras casas dos outros... Só não podia descer no chão, pôr os pés na terra, tinha que ser pulando de galho em galho, chegava à casa do outro, convidava pra ir à dele, fazia comidinha, era muito gostoso17.

Fim da alegria A casa tinha um anexo com banheiro, a cozinha, a despensa e depois um depósito para guardar coisas de madeira, batedeira de queijo... Comprava-se tudo a granel, tinha sacos de açúcar mulatinho, que era como se chamava o açúcar mascavo. E tinha canecas feitas de lata de óleo com uma alça. A gente levantava cedo, pegava uma caneca dessas, passava na despensa, punha um pouco de açúcar mascavo e ia para o curral, onde o “retireiro” tirava leite em cima, direto na lata. Ficava aquela espuma quentinha, com açúcar mascavo. Nossa! Tomar aquilo ali era uma delícia. As galinhas eram criadas soltas e a gente catava ovos. Quem catasse ovos tinha direito a um, então a gente fazia muita gemada. 16 Comemorado em 6 de janeiro, data que marcou a visita dos Três Reis Magos ao menino Jesus, recémnascido. 17 Em depoimento, a irmã mais velha de Carlos Uchôa, Maria Helena, conta que foi sua mãe Margarida quem os ensinou a subir em árvore, ainda bem pequeninos, quando moravam na Fazenda Marilena, em Lupércio. Paciente, Margarida ia lhes ensinando a pisar com cuidado de galho em galho, um pé de cada vez, para que sentissem segurança e não caíssem.

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A Nhá Dita fazia as coisas que a gente gostava, e uma dessas coisas era canjica. Nós tínhamos que ir ao paiol, escolher o milho, catar os milhos brancos, debulhar tudo, tirar a pele e o germe, quebrar, peneirar... e ela fazia aquela baciada de canjica! Era bom demais! Um dia em que a gente estava tão animado, as coisas iam muito bem, eu tinha tomado meu leitinho com açúcar mascavo, estava brincando com o Quido e mais uns primos na sombra de uma árvore, veio o Jorginho Margarido: “Ô Gordo, vai pra casa se arrumar que nós vamos embora”. “Como? Nós não queremos ir embora, queremos ficar, ainda temos muito tempo de férias.” “Não! Vai se arrumar. Nós temos que ir embora. Seu avô morreu, nós temos que ir embora!” Puxa! O avô que a gente adorava! Só porque a gente era menino ele podia dar a notícia desse jeito? Achei tão ruim, fiquei tão sentido que até hoje não esqueço. Então viemos embora todos chorando pra despedir do vovô. Enfim, a fazenda Morro Grande, para nós todos, os primos, especialmente do lado dos Rego Freitas, é uma coisa que a gente jamais vai esquecer.

Rescaldo do fim da Morro Grande: ainda valeu Quando foi vendida a Morro Grande, houve aquela divisão e a mamãe ficou com cinquenta alqueires, o Potreiro. A fazenda era dividida em partes, como a Carvoeira, o Guarantã e o Potreiro... O tio João ficou com a Carvoeira e a Guarantã e foi comprando os outros pedaços dos outros tios. Ficou com uma fazenda boa, trezentos e poucos alqueires. No Potreiro não tinha nada, na Carvoeira tinha a casa do Zé Pinheiro, um português que falava com sotaque pesado, era um típico português, casado com a Pina. Ele tomava conta da fazenda do tio João e ao mesmo tempo tocava, plantava milho, mandioca, o que desse. Numas férias, eu estava em São Paulo, o tio João veio resolver alguns problemas e ia voltar pra fazenda. Me chamou: “Ô, Gordo, não quer ir pra fazenda comigo?”. Respondi: “É já”. Falei com a mamãe, ela deixou e eu fui com ele. Mas era para ficar um dia ou dois e voltar. Fomos lá pra Carvoeira, antigo

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pedaço da Morro Grande. Fui com ele ver o gado, dar uma rodeada no gado, como diziam. Contar as cabeças, ver quantos bezerros tinham nascido, se tinha alguma bicheira pra curar... Quando foi na hora de voltar, ele vira pra mim: “Por que não fica aqui com o Zé mais uns dias?”. O Zé disse: “Tudo bem, doutor João. Ele pode ficar. Eu tenho muito prazer em ficar com ele aqui”. Eu nem tinha levado roupa, só levei uma muda, mas disse: “Então eu fico”. E fiquei na casa do Zé Pinheiro. Era uma casa de taipa. As telhas eram daquelas feitas no joelho, chovia mais dentro do que fora, tinha só a sala e mais dois cômodos e a cozinha. Era uma casa pequena. Arrumaram uma cama pra mim. Era uma cama de varas, um catre, cada vara de uma grossura, ficava desigual. Então ele pegava um saco de aniagem18 e enchia de palha de milho. Punha aquele colchão em cima da cama de varas e a gente dormia em cima da palha de milho. Dava uma coceira desgraçada, a noite toda, mas a gente não queria nem saber.

Roçando o arrozal do Zé Pinheiro O Zé Pinheiro, como bom português, prático, falou: “Quem come na minha casa também tem que trabalhar”. Falei: “Vamos lá!”. Ele estava plantando um arrozal lá no Potreiro, terra de minha mãe. Plantava mandioca também. Esse arroz era alto, bonito, tinha uns pés de melancia no meio, uns pés de quiabo também. A gente levantava mais ou menos às quatro e meia da manhã, tomava um cafezinho aguado, com um pouco de açúcar, chegava na roça e começava a trabalhar. Lá pelas oito e meia ou nove horas era o almoço. Cada um levava seu caldeirãozinho com arroz, feijão, um ovo ou carne, comia aquela comida fria mesmo, descansava um pouquinho e voltava a capinar. Um filho dele disse: “Pai, ficar o dia inteiro carpindo arroz!”. Com jeito nós o convencemos: “Ô, Zé Pinheiro, porque você não faz o seguinte: marca um eito e a gente faz. Quando terminar o eito a gente fica 18

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Capa feita de linho para embalar fardos.

livre”. O português não era bobo e pensou: “Essa molecada vai ficar o dia inteiro tapeando, sem fazer nada. Se eu der o eito eles vão fazer e depois cuidar da vida deles, mas o serviço está feito”. Então ele marcava tantas ruas de arroz pra capinar e chegar terra no pé. A gente pegava e largava o pau: “Vamos que vamos!”. Quando era por volta de meio-dia ou meio-dia e meia, a gente tomava café. Era um café trazido numa garrafa de cerveja. A gente tomava aquele café com uma broa ou um pedaço de pão e depois, com mais um pouquinho de trabalho, terminava o eito. Aí nós saíamos pelo cerrado, íamos pescar curimbatá no ribeirão, roubar melancia na roça do vizinho, caçar passarinho, e chegávamos em casa já escurecendo. Era chegar em casa, lavar os pés, comer a matulinha, jantar... Era arroz, feijão, um pedaço de carne ou um ovo, e tinha verdura. O português gostava de verdura, tinha uma horta. Não tinha pomar, mas no mato tinha ingá e outras frutas. Os filhos dele eram o Ari, o Neném, o Jair e um bando de meninas. O Jair esteve aqui em casa um dia desses. Ele se lembra de uma coisa até hoje. Em certas épocas dava enchente. Uma vez o rio encheu e foi levando ele. Eu mergulhei, fui nadando atrás até pegar o Jair e jogar para a beira do rio. Até hoje ele fala que eu salvei a vida dele, e que salvei também a enxada. Salvei a enxada junto.

Cachaça braba Teve uma vez que o Zé Pinheiro foi buscar pinga num alambique numa cidade ali perto. Fui com ele. Era um alambique de barro. A gente saiu de madrugadinha, três e meia da manhã, ia a cavalo, com garrafões amarrados como se fossem alforjes. Chegamos ao alambique cedinho. “E aí, a pinga tá boa?”. Tinha uma canequinha na pingadeira do alambique, era de pingo mesmo. O vapor condensa e vai pingando aquela pinga forte. Eu sei que tomava uma pinga, tomava outra, até chegar a hora de voltar. E aí, quem é que parava em cima do cavalo? Era um tal de cai pra lá, cai pra cá, para pra conversar com um, para pra conversar com outro... Chegamos de noitão em casa. Todos os dias ele tomava um gole. Mas essa busca de pinga foi muito divertida.

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Valeu, Zé Pinheiro! Essa temporada que eu passei na casa do Zé Pinheiro foi de muito aprendizado, de muito ensinamento. Eu me lembro de uma vez que estava dentro de casa, veio um vendaval, um tornadinho, vi uma árvore perto do rio ser arrancada inteirinha, com raiz e tudo. Parecia até que tinha sido arrancada por uma mão de gigante. Fiquei impressionado. A criançada chorando e eu até me divertindo com aquela chuvarada toda. Foi a única vez que passei uma temporada com o Zé Pinheiro, e foi de maneira inesperada. Mas aprendi muitas coisas com eles. Aprendi a reconhecer plantas, madeiras... Aprendi na prática. Foi uma vivência e tanto.

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9. Preparando-me homem Apesar de todas essas diversões nas férias, Bilé, ao longo do ano pegávamos duro. Mamãe continuava trabalhando bastante e eu tinha que me virar, dar um jeito de encontrar um caminho na vida. Por isso consegui entrar na Escola Técnica Federal para cursar o ginásio. Lá, passávamos primeiro por várias oficinas, e tínhamos uns dois meses em cada oficina, para depois fazer a opção. Fiz estágios na oficina de tornearia mecânica e ajustagem, depois na área de fundição, marcenaria, cerâmica, serralheria, cestos e móveis de vime. Esses estágios me deram uma visão de várias profissões, e acabei optando pela fundição. Eu me tornei um bom aluno, bom porque gostava do que fazia, era habilidoso, sempre tinha muita facilidade com as mãos. Produzíamos peças durante o ano todo, em chumbo, latão e bronze. Depois dávamos acabamento, cinzelávamos, envernizávamos, deixávamos prontinho. Fazíamos às vezes molduras de madeira. No fim do ano, organizávamos uma exposição e as pessoas compravam essas peças. Com esse dinheiro, depois a gente comprava matéria-prima para trabalhar durante o ano outra vez. Consegui comprar várias peças, que dei para meus parentes; pra tia Sinhá, um Santo Antônio bonito; cinzeiros de bronze para mamãe, crucifixos e outras coisas. A peça mais interessante que fizemos, talvez, foi um sino de bronze, acho que era para tocar nota dó. Era grande, tinha mais de um metro e meio de altura e a liga de bronze era especial, devia entrar ouro e vários outros componentes. Foi um trabalho lindo, não sei onde foi parar esse sino depois, se foi para algum órgão público ou se ficou lá mesmo. Dessa escola tenho muitas lembranças agradáveis; a gente entrava de manhã e saía basicamente à noite. Tínhamos um cafezinho da manhã, almoço, lanche da tarde. Ela foi muito importante para mim, me deu experiência depois para o resto da vida. Lá tive uma equipe muito boa e bons amigos. Havia um vigilante ― ‘Seu’ Erasmo ― bem apessoado, bem vestido, seu

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guarda-pó era sempre branco, alvíssimo. Era um homem negro, usava uma gravata bonita, sapatos engraxados, então, ele exigia que a gente andasse também nos trinques, embora o uniforme da escola fosse uma calça de brim cáqui, uma camisa comum tipo polo, e um blusão também cáqui. Mas ‘Seu’ Erasmo exigia que a gente estivesse sempre bem passadinho, arrumado, e que, especialmente os sapatos, estivessem muito bem engraxados. Por isso eu carregava sempre um equipamentozinho ― uma escova de sapato e uma latinha de graxa, que mantínhamos no armário, porque a gente, quando trabalhava na oficina, usava macacão, depois voltava e, às vezes, tomava um banho, depois vestia a roupa. Havia muita poeira na fundição, muita fuligem, então, geralmente, tomávamos banho para ir para casa.

Fugidas até a Rádio Nacional (risos com Carlos Nóbrega, Ronald Golias e Sílvio Santos) ‘Seu’ Erasmo também era muito divertido, contava piada, fazia cara de mau, mas, na verdade, era uma pessoa muito boa. E na hora do almoço, a gente comia rápido para poder ter um descansozinho; o pessoal ficava pelo pátio, tomando sol; outros iam ver um pouco da lição, e outros, como eu e uma turminha mais ágil, pulávamos o muro do fundo, bem alto ― a escola era toda trancada nesse tempo, não se podia sair na rua durante o expediente. Mas a gente pulava esse muro, ia lá à Rua das Palmeiras, na Rádio Nacional, onde havia o programa do Manoel da Nóbrega. Tinha ainda o Ronald Golias, mais o filho do Manoel da Nóbrega, e o único peru que fala: o Sílvio Santos. Ele estava começando a vida como locutor naquela rádio, e então apresentava o programa. Íamos ao auditório, a gente se esborrachava de rir com as aventuras do Asa Negra, aquelas ‘bobajadas’ que o Carlos e Manoel da Nóbrega e o Ronald Golias falavam. E o Sílvio Santos também colocava a colherzinha dele na hora dos intervalos, era muito divertido. Daí a gente saía correndo para escola, pulava o muro de novo, e quem estava embaixo do muro? O Erasmo, ‘Seu’ Erasmo, o ‘delega’ (‘delegado’)! E ele falava: “Mas vocês são malandros mesmo, vou matar cada um!”. Mas ficava por isso mesmo, e aí tínhamos que contar as piadas para ele. Foi muito divertido, lembro com satisfação, alegria, esse período bom da minha vida.

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Naquele tempo eu tomava o bonde Angélica, depois tinha que tomar outro bonde, mas às vezes, em vez de tomar esse segundo bonde, vinha a pé para casa, descia a Consolação, desde a Avenida Paulista até em casa, com isso também economizava uns dinheirinhos. Meus primos falavam: “Pô, você sempre tem um dinheirinho chacoalhando aí no bolso, por que, como é que faz?”. “Ué, você aprende a fazer, a andar a pé e não paga o bonde!”, eu dizia. Eu andava a pé e, com isso, exercitava a saúde e economizava uns ‘niqueizinhos’ muito preciosos.

Vivência com os escoteiros Tudo começou quando, em uma tarde de sábado, estávamos já na casa nova de minha mãe, na Rua Prof. Arthur Ramos 111, no Jardim Europa. Eu estava conversando, contando piadas, com vários primos, quando entrou um jovem na sala, uniformizado, roupa azul clara de brim, com um belo cinturão de couro, camisa de manga curta, muitos distintivos, uma calça curta, além de meia até quase o joelho. Usava um quepe de oficial da Marinha e disse que era amigo de alguém que havia recomendado que ele fosse até lá conversar com a gente. Apresentou-se como Roberto da Rocha Pereira, natural de Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, muito falante, bem apresentável, simpático; vinha nos convidar para fundar uma Patrulha de Escoteiros do Mar junto à Associação São Paulo de Escotismo, a Associação nº 1, a segunda mais antiga do Brasil. Ele jogou um monte de conversa para cima da gente, nos entusiasmamos e, com isso, ficamos de ver o local e participar de nossa primeira reunião. Acontecia na Rua Curitiba, no parque infantil, onde havia a reunião normal dos escoteiros de terra, com seu uniforme cáqui, chapéu de abas largas e três pontas em cima, formando várias patrulhas. Quando chegamos lá, eu e alguns primos, vimos a primeira a reunião das patrulhas, depois da própria tropa. Acompanhamos para entender como funcionava, eu achei muito bacana e comecei a frequentar. Formamos a Patrulha Gaviões do Mar ― eu, o Chiquinho (meu primo Francisco do Rego Freitas Brasileiro), o José Diogo Rego Freitas Themudo (filho da tia Selma e do tio Alberto). O Chiquinho trouxe colegas dele, do Colégio Santa Cruz, como o José Eduardo Lemes Salvatore (que trouxe seu irmão Luiz Eduardo Lemes Salvatore e, depois, o

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Johnny ― João Alves de Lima). Depois vieram o Wolfgang; o Tom Mix ― Thomas Craft; Décio Mazucatto; Agnelo Sagesi e muitos outros. A patrulha foi se consolidando, fomos crescendo, aprendendo e procurando, nas competições da Associação, ser sempre os melhores e primeiros. Acabei sendo o monitor da patrulha, o Roberto era o chefe. Meu papel era incentivar o pessoal, fazer com que todos tivessem um empenho eficiente. Com isso a gente ganhava basicamente todas as competições. Nossa maior concorrente era a Patrulha Raposa, que tinha como monitor o Eduardo Carvalho e, submonitor, o Christian. Tínhamos que suar um pouco a camisa para ganhar deles. Estilos de liderança completamente diferentes, o Edu chegava ao acampamento, pegava um livro e ficava na rede dizendo: “Hei, você faz isso, e você faz aquilo...”. Sempre pedia para alguém armar a rede dele. Eu, ao contrário, punha minha mochila no chão e colocava todo mundo para trabalhar comigo. Eu fazia junto. Mais tarde fiquei sabendo que esse sistema em Administração se chama stakanovismo. Alexey Stakhanov era um homem monstro, muito forte, um russo que trabalhava nas minas de carvão, por três ou por quatro pessoas, um trabalhador muito competente, produtivo. Com isso obrigava a sua equipe a fazer o que ele fazia, então era um tipo de liderança que se chamou em Administração de stakanovismo. Eu era mais dessa linha, ajudava a fazer e fazia junto, não era de ficar só mandando fazer. Assim a gente conseguia sempre ser o mais eficiente.

“O corpo vem em cascalho, mas a alma vem feliz” Pelas atividades normais dos escoteiros, nos reuníamos toda semana, geralmente aos sábados à tarde, na Rua Curitiba, no parque infantil. Já não tinha mais nenhuma criança, o parque era todo liberado para nós. Um parque grande, tinha bastante área verde, salas onde a gente podia se reunir, e tinha um cantinho para cada patrulha fazer o cadastro de seus troféus e relíquias. A primeira parte do encontro era a reunião da patrulha, a gente aprendia muitas coisas, o ideal de servir, o manual de escoteiro ― que foi publicado pelo Baden Powel, fundador do escotismo, e aí tinham muitas lições de vida, de higiene, segurança, de campismo, de conservação da natureza, e de que o

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escoteiro tinha que fazer boas ações: ser correto, honesto, leal. Foi um aprendizado muito importante para mim, vivenciei isso intensamente. Tínhamos os jogos também. Jogos de disputa, de vários tipos, e, depois, os acampamentos. Íamos acampar em vários locais; um lugar que a gente ia muito era na Serra da Cantareira, que chamávamos de campo-escola. Era um lugar belíssimo, no meio de uma mata, e a gente tinha que acampar, fazer nossos jogos, as atividades e, depois, quando saíamos, ninguém tinha que perceber que por ali passara alguém. Tínhamos que deixar a natureza como ela estava antes. Era uma noção de conservação de meio ambiente já muito intensa desde aquele tempo. Com isso, aprendíamos a identificar as espécies, a dormir em barraca, acender fogo, apagar fogo, fazer fossa para guardar o lixo. E as competições eram maravilhosas. E à noite a gente fazia o fogo de conselho, onde, então, armávamos uma fogueira enorme, e nos sentávamos em volta, cantando e fazendo esquetes, apresentações. Contávamos casos, piadas, era uma delícia. Ficávamos até que as pessoas saíssem já com sono para as barracas. No dia seguinte, a gente acordava com o alvorecer, e começava outra vez as tarefas do dia. Muitas vezes a gente voltava do acampamento muito cansado, exaurido de tanta atividade, de tanta coisa. E a gente vinha pelos trilhos da mata, cantando uma coisa que dizia mais ou menos assim: “que o corpo vem em cascalho, mas a alma vem feliz”. Então era isso, voltávamos sempre muito entusiasmados desses acampamentos.

O primeiro veleiro no “mar” de Guarapiranga Como escoteiros do mar, tínhamos algumas atividades, mas, no nosso caso, não era no mar, era mais difícil o acesso, mas sim na Represa de Guarapiranga. E aí na represa conseguimos um antigo depósito de barcos no Clube Inglês, junto à barragem. A represa era muito importante, tinha o Clube Inglês, o Iate Clube Alemão, que depois proporcionou grandes iatistas, recordistas e ganhadores de competições internacionais, inclusive de olimpíadas. Mas era um local bastante difícil para velejar, porque tinha ventos que viravam a toda hora, neblina, tocos, baixios, ondas, tinha de tudo um pouco na Represa de Guarapiranga, o que fazia com que o velejador tivesse que ter muita habilida-

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de para não virar o barco e não sofrer um acidente. E para ganhar velocidade, ganhar rapidez, competitividade. E aí nós, nisso que chamamos de a nossa “base”, nesse galpãozinho no meio de uma floresta de eucaliptos já bastante antiga, passávamos o sábado, domingo, e íamos à represa e tal. Eu já trabalhava nesse tempo, consegui ir juntando, juntando, consegui comprar um barco, um veleiro Síguel, um dos maiores que havia na represa, mas sem cabine, sem nada. A gente então usava esse barco para velejar e fazer as incursões na Represa de Guarapiranga. Atravessávamos o primeiro lago, o segundo lago e o terceiro lago, aí já entrávamos, basicamente, naquele tempo, num quase sertão. As margens da represa eram de mata virgem, não tinha nenhuma habitação, e nas margens a gente via veadinhos, capivaras, uma série de animais. O que era muito bonito, com garças, colhereiros e todo tipo de pássaros também. Ancorávamos numa pequena baía, isso já quase com o crepúsculo, e algumas vezes descíamos para a terra, fazíamos uma fogueira para esquentar, para fazer nossa comida, e depois a gente voltava ao barco e, aonde tem a retranca, a gente jogava uma lona em cima e armava como se fosse uma cabine. A gente se alojava da melhor forma possível e dormíamos ali. E, certamente, nos primeiros raios de sol, já estávamos acordados. Fazíamos e tomávamos o café quente, e depois nosso desjejum, e aí nós passávamos a fazer alguma atividade própria dos escoteiros do mar. Muitas vezes desenvolvemos uma espécie de armadilha (‘covo’), com garrafa de vinho, miolo de pão e rolha, para pegar milhões de lambaris, que ficavam loucos por causa daquele pedacinho de pão e iam entrando na garrafa. Aí a gente erguia a garrafa, destampava, jogava no balde, tampava e punha na água de novo. Com isso, em pouco tempo, pegávamos uma quantidade razoável de peixinhos, que depois fritávamos, era uma delícia, uma coisa maravilhosa. Depois voltávamos para a “base”, tínhamos toda a faina de cuidar do barco, de limpá-lo, e alguns sábados e domingos a gente ia para fazer a manutenção, pintar, polir os metais, cuidar da vela, deixar secar. Então tudo isso eram fainas que a gente fazia como os próprios marinheiros, assim aprendíamos todos os tipos de nós, de sinalização, sinalização Morse, sinalização por bandeiras, código internacional de bandeiras e tudo o mais.

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Bife ao molho de remela Também fazíamos acampamentos fora, e uma vez nós acampamos num sítio do Paulo Maldonado de Arruda Botelho, o Biquinho, em Itanhaém. O sítio era grande, mas tinha uma casinha de madeira bem pequenininha, acampamos então na mata que ficava atrás das dunas que andam. Para chegar à praia tinham umas dunas grandes, a gente subia as dunas e saía já na praia. Cada patrulha pegava, escolhia um espaço e armava o seu acampamento. Depois fazíamos jogos. E um dos jogos era o assalto do acampamento da patrulha que a gente escolhesse. Nós resolvemos atacar a Patrulha Raposa, que era sempre a nossa rival. Lembro que agente foi engatinhando, se arrastando por baixo da vegetação, e estávamos prestes a atacar, quando uma planta de espinho enfiou na minha perna esquerda quatro dedos acima do joelho. Eu não podia me mexer, estava completamente imobilizado, e não tinha o que fazer, nem como chamar. Fui puxando a perna, puxando a perna, e aí aquele espinho foi me rasgando, rasgando a perna, e abriu um talho de mais ou menos uns dez centímetros, o sangue começou a escorrer bastante, e, depois, eu me soltei do espinho e daí nós invadimos o acampamento e ganhamos a disputa. E aí tinha como tratar, pegar o estojo de primeiros socorros, para cuidar daquele corte. É uma grata lembrança quando eu olho para minha perna e vejo a cicatriz ainda hoje. Sempre me recordo daquela sensação maravilhosa da disputa, da urgência daquela questão do jogo mesmo, e a lealdade dos companheiros e, depois, como era muito legal agente participar de tudo aquilo. Nesse acampamento passamos vários dias e chovia, chovia muito, não tínhamos muito que fazer com aquela chuva. Cozinhar era difícil, porque agente tinha que acender o fogo na grelha, com a madeira toda molhada, tinha que descascar, tirar os paus, toda a parte externa para chegar um pouco mais no cerne onde estava um pouco mais seco, para poder cozinhar. Mas, assim mesmo, fazia muita fumaça, e aquelas nuvens baixas de cerração impediam que a fumaça dispersasse. E aí meu primo Zé Diogo estava fritando os bifes, numa frigideirona cheia de bifes, e ele mexendo naqueles bifes, e aí eu olhei para ele e ele sofria de escorrimento, de coriza, e aquele nariz dele parecia uma torneira pingando em cima da frigideira. “Ai meu Deus”! Dei um jeito de tirar ele de lá, e continuei fazendo os bifes, não podia dizer para

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os amigos o que tinha acontecido, mas na verdade comemos bife ao molho de remela de Zé, de Zé Diogo, e até que estava bom... Mais tarde eu contei para eles e não tinha o que fazer, tivemos que dar risada. E aí o apelidamos de Zé Biquinha, porque o nariz dele parecia uma bica. Esses foram alguns episódios que eu vivi, sempre com muito companheirismo, com muita vontade.

Doce no Pão de Açúcar Nas reuniões que a gente ia aos sábados, na Rua Curitiba, a única condução era tomar um ônibus na Rua Augusta, então caminhávamos de lá até chegar ao Parque do Ibirapuera, que fica bem próximo. E algumas vezes a gente saía da reunião e subíamos uns dois quarteirões da Av. Brigadeiro Luiz Antonio, para ir ao Pão de Açúcar comer um doce. E muitas vezes quem nos servia, ou quem estava no caixa, era o próprio Valentim dos Santos Diniz, pai do Abílio dos Santos Diniz, que é sem dúvida o maior dono de rede de varejo do Brasil. Então, o Abílio tinha mais ou menos a nossa idade, mas nunca foi escoteiro conosco. O Sr. Valentim tinha sempre muita deferência com a gente, por que ele gostaria que o filho também tivesse participado do movimento. Foram anos muito interessantes com essa rotina de reuniões, acampamentos, atividades entre nós, atividades entre associações, e entre patrulhas, que às vezes também ocorria. Tivemos um evento importante em São Paulo, que foi a comemoração do Quarto Centenário, em 1954. Fizemos um grande acampamento de patrulhas, um acampamento internacional ― vieram patrulhas de escoteiros de praticamente todo o mundo ―, e aí nós fizemos, em Interlagos, um grande acampamento aonde tínhamos esse intercâmbio com vários escoteiros do mundo todo. Foi uma coisa deliciosa, lembro que para assinalar as horas foi montado no acampamento um sino do encouraçado São Paulo. Era um sino muito grande, acho que deveria ter um metro e meio de altura, e foi colocado numa trave de madeira, como se fosse uma trave de campo de futebol. E nós, Gaviões do Mar, fomos encarregados então de assinalar a hora do acampamento. A cada meia hora tínhamos que bater o sino. Duas badaladas uma hora inteira, uma badalada era meia hora. Tínhamos então uma atividade que percorria todo o campo.

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Nesse acampamento fizemos um navio com muito bambu, aquele bambu Brasil grosso da região. Nós cortamos o bambu e fizemos como se fosse o desenho de um navio, e por fora umas estacas. Colocamos um pano de brim branco, todo fechado, fizemos um portaló, uma entradinha no meio da parte de baixo, fizemos ainda um fogão suspenso, que a gente chamava de caldeira do navio, mas onde a gente cozinhava. E na parte de cima, colocamos todos os bambus, como se fosse um assoalho de bambu, a aí armamos as barracas, que era aonde agente dormia e passava as noites. Fizemos os mastros, enfeitamos com todo o código internacional de bandeiras. E aí tivemos uma rata: recebemos o Comodoro, comandante do Distrito Naval, pois Roberto era muito bom nessas relações, pegou o Comodoro, levou lá, e aí nós os saudamos e coube a mim fazer aquele com o apito dos marinheiros ― “aí a a aí aa aí aa aí aaa”... Era para dar 19 salvas, e acabei dando 21 salvas, que era o máximo das salvas permitidas, mas só dá para presidente da República! Então cometi uma rata, mas talvez no fundo ele tivesse ficado até lisonjeado por ter tido uma homenagem maior do que efetivamente merecia.

Ainda o IV Centenário Depois do acampamento internacional de patrulhas, tivemos também a função de ajudar nos festejos do IV Centenário. Então, nos apresentamos como intérpretes ― alguns falavam bem inglês, outros falavam alemão, outros francês, alguns italiano. Usávamos um distintivo de intérprete daquela língua e a gente ficava pelo parque ajudando os estrangeiros com informações, dando alguma ajuda sempre que possível. Também foi muito, muito importante, muito gratificante. Aí foi passando o tempo e veio então a preparação do Jamboree19.

Jamborees são acampamentos internacionais de escoteiros e guias/bandeirantes, que se realizam periodicamente, o maior dos quais é o Jamboree Mundial. Há ainda Jamborees Regionais, como o Panamericano ou o Europeu, e Nacionais (também chamados de Acampamentos Nacionais). O Jamboree surgiu na mente do fundador do Escotismo, o inglês Lord Robert Stephenson Smyth BadenPowell, após a Iª Guerra Mundial.

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Viagem ao Jamboree, uma excursão à Europa Haveria um Jamboree na Inglaterra em 1957, seria uma coisa muito grande, porque aconteceria exatamente no berço do escotismo. Foi lá que Baden-Powell desenvolveu toda filosofia dos escoteiros. Fomos então nos preparando, preparando, preparando, e aí veio uma vontade imensa de eu ir, só que eu não tinha recursos. Não tinha poder econômico, não tinha como fazer isso. Na verdade, eu ‘tava’ trabalhando, mas ganhava muito pouco, mas consegui com o pai de um amigo meu que o grupo comprasse o meu barco. Com esse dinheiro pude ir para o Jamboree. E aí foi uma coisa muito bonita, os preparativos foram emocionantes, e eu pelo menos tinha muito pouco dinheiro. Naquele tempo praticamente não existia avião ainda, então fomos de navio. Saí de São Paulo mais ou menos em princípios de junho, assim que terminaram as provas, e voltamos ― eu pelo menos, no fim de outubro. Embarcamos num navio francês que se chamava Louis Lumiére. Era um barco grande para aquele tempo, todo com casco preto, e as partes internas todas brancas, era bonito até. E aí nesse navio nós estávamos em um grupo ― eu, o Paulo Maldonado, o Biquinho, o Christian e várias outras pessoas. Também tinham outras patrulhas, o pessoal do Grupo Carajás, de outros grupos de escoteiros, e depois um que entrou no Rio de Janeiro. Aí éramos em 12 ou 13 escoteiros.

Lisboa e Paris, primeiros destinos Eu já era guia nesse momento, havia sido monitor e depois subi um pouco de degrau, e como guia tinha várias outras obrigações. Foram doze dias de travessia no Atlântico, travessia essa muito agradável, porque nós fomos direto para Lisboa, os navios paravam em Lisboa. Desembarcamos de manhã e ficamos quase até a noite praticamente. E quando já era noite, estávamos na murada do navio, o chefe João Mós trouxe um saco desses de papel cáqui, como se fosse de supermercado, cheio de cerejas madurinhas, e nós fomos comendo aquela cereja e vendo quem cuspia mais longe o caroço no Rio Tejo. E aí enquanto o navio se afastava nós víamos aquele crepúsculo maravilhoso, passamos pela Torre de Belém, cuspindo aqueles caroços de cereja.

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Foi muito interessante, muito legal, só que no dia seguinte quase ninguém conseguiu sair da cabine, tanta dor de barriga. Uma disenteria incrível. Depois fomos para Le Havre, um porto da França, e de lá pegamos um trem para Paris. Em Paris ficamos num colégio que nos cedeu algumas instalações, eu nunca passei tanto frio na minha vida! Nossa, como já era frio naquele momento, já em junho hein, que deveria ser muito quente, mas pegamos dias muito frios. Também visitamos Paris, eu me encantei com a cidade, achei maravilhosa, tinha toda uma recordação de meu avô que havia se formado ali, vivido ali alguns anos, o avô João, formado na Sorbonne, que nos contava histórias francesas e falava sempre de Paris. Eu pelo menos tinha uma afinidade grande por Paris desde quase criança.

No Jamboree, encontro com quatro jovens de Liverpool (futuros Beatles) De Paris pegamos o trem até Calais, ainda na França, e atravessamos para Dover (Inglaterra), de onde fomos já para o campo onde devíamos acampar ― era o Acampamento Internacional de Patrulhas e ficava em Sutton Park, um parque de caça da rainha, enorme, uma reserva florestal na verdade. Cada patrulha tinha seu lugar para acampar, nós armamos nossas barracas onde era devido, então participávamos de todas aquelas comemorações e atividades que eram propícias do Jamboree. Era um Jamboree que reunia praticamente todas as nações, não sei se alguma nação da face da terra não estava ali representada. Era muito eclético, uma confraternização maravilhosa, aquela vivência que havia entre todos nós. Lembro que a rainha Elizabeth e o príncipe Phillip foram visitar o acampamento e eu estava ali, eles passaram bem pertinho de mim, um metro e meio talvez. E a rainha e o príncipe eram bem jovens ainda. Passaram numa carruagem bonita, muito simpáticos, foram cumprimentando e saudando a todos nós. O escotismo na Inglaterra era muito bem considerado. Recordo que entre os cariocas, um deles, meio moreninho, fazia um sucesso danado com as meninas. E as meninas vinham de noite chamá-lo na barraca para fazer não sei o quê, e aí ele, assanhado pra danar, ia embora, e eu tinha medo de que aquilo pudesse comprometer a imagem do Brasil. Eu ficava bastante apreensivo com isso, cheguei a conversar com ele muitas vezes, mas ele natu-

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ralmente tinha as razões dele e não queria saber disso. E um dia, eu tenho essa visão bem gravada, passando num acampamento dos ingleses, havia dentro de uma barraca um grupo de jovens tocando uma música fantástica, e eu tenho certeza absoluta que eles eram os Beatles, nem eram conhecidos, estavam tocando aquela música muito, muito agradável, com poucos instrumentos, mas um som muito agradável. Eles eram cabeludinhos, já daquele jeito que passamos a conhecê-los, um usava óculos de aros grossos. Então eu vi os quatro e, anos mais tarde, ao ver imagens dos Beatles, falei: “Esses eram aqueles rapazes que estavam cantando naquela barraca”. Fiquei com a sensação mesmo de ter visto os Beatles antes de eles praticamente serem os Beatles, antes de terem aquele sucesso, aquela representatividade. Foi muito especial.

Um salto maior: mochileiro na Europa O acampamento em si foi um sucesso de organização, de confraternização, foi espetacular. Só que era muito pouco para a minha sede de conhecimento, de aventuras. Eu não estava satisfeito. Embora tivéssemos viajado pela ilha toda ― fomos à Escócia, a Gales, a várias cidades do interior, fomos recebidos por vários prefeitos. Saímos em vários jornais lá da Inglaterra naquele tempo como delegação brasileira, mas isso ainda não me satisfazia, eu queria realmente conhecer a Europa um pouco mais. Aproveitar a oportunidade porque eu não sabia quando iria tê-la outra vez. Então, combinei com o Christian ― ele era parte de uma família nobre alemã, e a mãe, de uma família nobre italiana ― de ficar os dois pela Europa. Conversamos com os chefes, trocamos ideias e tal, e acabamos conseguindo uma prorrogação de nossa passagem e, com isso, ficamos. Despedimo-nos deles em Londres, e lembro que estava muito ruim ali, com aquele fog, temperatura baixa, umidade excessiva, eu estava muito gripado, indisposto, com uma sensação de querer morrer até. Era um clima muito áspero para mim. Aí nos despedimos deles, pegamos o trem, fomos para Dover e de lá atravessamos o canal para Oostende, na Bélgica. Eu pisei na Bélgica e sarei, fiquei completamente bom. Aquela gripe, mal-estar, aquela coisa toda foi embora. Então vestimos nossas mochilas com a bandeira do Brasil pequeninha

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pendurada atrás, e fomos caminhando pelas estradas, começando aí nossa grande aventura. Nós tínhamos muito pouco dinheiro, então não podíamos nos dar ao luxo de pegar o trem, ou ônibus, então íamos pelas estradas e pedíamos carona. E aí fomos entrosando, acabamos entrando para aquele clube da juventude ― o Jeunesse. Essa organização proporcionava um espaço para que viajantes como nós, sem dinheiro e com muita vontade, pudessem ficar uma noite, um dia ou dois dias, pelo menos abrigados. Esses “hotéis da juventude”, via de regra, eram um galpão grande, onde você tinha um piso e banheiros, e umas bancadas onde podia pôr seu fogareirinho e esquentar um chá, sua comida, sua lataria, o que fosse. Então a gente armava, pegava nosso saco de dormir, nosso sleeping bag, e aí eu tinha comprado um sleeping bag maravilhoso, naquela loja de saldo de guerra que naquele tempo tinha muito em Londres. Era de um tecido especial de seda, com revestimento interno com penas de papo de ganso, que eram muito pequeninhas, muito leves, e muito quente. A gente podia dormir na neve com aquele sleeping bag. Então me enfiava dentro de meu sleeping bag e apoiava a cabeça na mochila e dormia tranquilamente.

Conhecendo a devastação da 2a Grande Guerra Mas nem todo lugar tinha clube da juventude. Então fomos de Oostende até a capital belga, Bruxelas, e seguimos então, já aí se falava o francês e o flamengo; este a gente não entendia nada. O Christian falava bem alemão, uma palavra ou outra ele podia entender, mas quando se falava flamengo a gente não entendia nada, só quando se falava francês dava para entender alguma coisa. Em Bruxelas ficamos uns dias, vimos a célebre estatuinha daquele menininho fazendo pipi naquela esquina, vimos o que era possível em Bruxelas e continuamos nossa viagem. E acabamos chegando à divisa com a Alemanha já quase noite. Acho que era Liege e aí nós ficamos, nosso benfeitor nos deixou na entrada da cidade, fomos entrando e aí tinha um caminhãozinho enguiçado no meio da rua, fomos ajudar a empurrar e depois o cara perguntou o que podia fazer por nós. E nós: “Precisamos só de um lugar pra dormir”. E ele: “Em casa não tem, mas a gente tem lá um sótão onde

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guarda o feno pro gado, se vocês quiserem ficar lá, podem ficar”. Então subimos aquelas escadinhas em cima do sótão, estava cheio de forragem, aí abrimos nossa última lata de goiabada e comemos um pedaço cada um, e dormimos até o dia seguinte, para continuar a viagem. Aí atravessamos Aachen, na Alemanha, fronteira com a Bélgica e a Holanda. E aí eu tive uma das cenas mais cruas, mais cruentas que já vi na minha vida, terríveis. A cidade era fronteira com a Bélgica, e havia sofrido muito com a guerra. A guerra tinha terminado em 1945, nós estávamos em 1957, portanto doze anos depois a cidade ainda estava completamente destruída. Sabe como você faz a implosão de um prédio hoje? Exatamente aquilo, a cidade estava completamente implodida. As máquinas limpavam as ruas, um pedacinho, só que mal dava para passar duas pessoas ou às vezes um carro, e o resto era tudo escombros, escombros, escombros, escombros. Aquilo me deu uma angústia muito grande, eu fiquei muito triste de ver como o homem pode ser tão bruto, tão bárbaro, tão feroz. Nunca me esquecerei desta cena que vi em Aachen. Em Londres, a gente via também, quarteirões e quarteirões destruídos, mas pelo menos lá tinha tapumes, e a gente não via completamente a destruição. As ruas estavam limpas e o tráfego era normal, a cidade tinha uma vida normal. Mas em Aachen não, era escombro, só escombro. Nossa! Não tinha pedra sobre pedra. Que coisa horrível!

Refeição com vista para o Reno ― a mais saborosa de toda vida! Aí fomos descendo, queríamos descer o Reno, tínhamos um dinheirinho para pagar a passagem da barca, e aí fomos parando numa cidade, parando em outra. Em Colônia, lembro-me da catedral e de sua parte de trás, que tinha como se fosse um porão, onde funcionava um restaurantinho bem humilde, mas que dava vista pro Reno. Eu e o Christian resolvemos comer ali, estávamos com muita fome. Pedimos uma salada de batata com salsicha e acho que eu nunca comi algo tão gostoso na minha vida até hoje! Que salada de batata deliciosa, que salsicha deliciosa, que vista linda, que tarde agradável, que chope gostoso! Nossa! Fiquei maravilhado de ver aquilo. Depois continuamos a nossa viagem, fomos de naviozinho, na verdade, um

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barcão! Aí lembro que encontramos um grupo de garotas no barco e, quando disse que era brasileiro, uma delas falou:

― É, imagino, duvido que você seja brasileiro, de forma alguma! ― Por que não sou brasileiro? ― Porque você não tem bafi, não tem bigode. ― Ué, mas tem brasileiro sem bigode também, ué! Foi uma discussão e tal e ficamos muito amigos delas, que foram agradáveis com a gente naqueles momentos que passamos juntos, durante a viagem. Então passamos por Loreley, que era uma pedra grande que se projetava para o rio Reno, e aí nessa Loreley, diz-se que as sereias vêm cantar de noite. Então era pedra encantada, a Loreley. Muito bonita por sinal. Descemos até a bifurcação com Koblenz, e aí ficamos em Koblenz uns dias, pegamos uma época importante, a época da vindima. A Alemanha faz muito vinho, mas especialmente vinho branco, então aquelas colinas tinham muitas videiras e esse vale do Reno é encantador. Porque a cada 100, 200 metros, tem um castelo, cada castelo mais bonito que o outro. Era lindo, lindo aquele vale do Reno. Em Koblenz se produziam vinhos, então quando você passava por uma casa que tinha uma vassoura com o cabo enfiado na terra, e as cerdas pra cima, significava que eles estavam vendendo vinho, fazendo então a degustação com o vinho daquela safra. E aí a gente, com a maior cara de pau do mundo, entrava lá, degustava, degustava, e não comprava nada, e aí ia para outra degustação, degustava, degustava, assim nós tomamos um monte de vinho, foi uma delícia. Aquele vinho branco, uns melhores, outros piores, mas achava todos bons. Foi interessante, muito bonito.

Festa da cerveja e do cabrito Em uma tardezinha chegamos num lugarejo bem pequenininho, já na borda da Floresta Negra, e aí tinha uma estaçãozinha de estrada de ferro, era o

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único lugar onde podíamos ficar no vilarejo. A estação tinha dois bancos de madeira, eu fiquei com um, o Christian ficou com outro, e nesses bancos a gente então acampou. E aí conversa vai, conversa vem, ficamos sabendo que naquela noite haveria uma festa da cerveja nos bosques, lá em cima. E eles chamavam de Eine Bockbierfest, uma festa do cabrito e da cerveja. Acabamos indo lá, subimos a montanha por um trilhinho bem pequeno, e lá em cima eles fizeram uma clareira, montaram os galpões, nesses galpões havia bandinhas tocando músicas bem típicas, e todo mundo vestido a caráter. Nós já estávamos mesmo de calça curta e, então, já ‘tava’ meio a caráter também, de meia. Nessa clareira tinha muito chope e também algumas comidas, salada de batata, salsichas e presuntos, essas coisas, e todo mundo bebia, bebia, bebia e bebia, e dançava, dançava, dançava, dançava. E depois ficava todo mundo meio bêbado, ou bastante bêbado, conforme o caso. E para descer lá de cima da mata, em geral, eles iam caindo, tropeçando, rolando, e é por isso que era festa do cabrito. Quer dizer, como os cabritos que vêm pulando serra abaixo. E foi muito linda essa visão.

Aventuras a ‘la Pintacuda’ em plenos Alpes Saímos então desse vilarejo e começamos a andar, andar, estradinha, a gente ‘tava’ morrendo de sede, não tinha água pela vizinhança, mas encontramos um pequeno barzinho numa esquininha da estrada e fomos pedir um copo d’água. O alemãozão olhou bem para nós e deu dois chopes, aquele chope que vem espumante numa caneca de um litro. Nós pusemos a caneca nos lábios e sorvemos inteirinha, tomamos inteirinho aquele chope gelado, gostoso, e aí agradecemos e continuamos. Pegamos uma carona com um alemão ― suíço, alemão, não sei ―, num fusquinha azul clarinho, o Christian foi na frente, eu no banco de trás, as mochilas no outro lado no banco. Esse sujeito dirigia como um Pintacuda20, louco de pedra! Aquelas estradinhas estreitas e ele entrava com tudo, na contramão, e ia cantarolando, cantando ― “ieeeee, e vraummmm”. Pau naquela máquina! ― Eu sei que nós subimos todos os Alpes, e lá em cima as geleiras eram eternas, as pistas completamente geladas, o carro mal se 20

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Carlo Maria Pintacuda, piloto de corridas italiano, morto em 1971.

mantinha na estrada, e ele pau na máquina, metia o pé fundo no acelerador e tchau e bênção! E aí a gente via aqueles precipícios enormes de cada lado, e falávamos: “Seja o que Deus quiser, ele não vai querer morrer, então ele não vai querer me matar né!”. Era um cara louco de tudo. Até que chegamos lá embaixo, do outro lado dos Alpes, na divisa com a Itália, onde permanecemos um pouco. Depois entramos no País pelo lago de Como, era muito bonita essa região também. Daí seguimos diretamente para Livorno, mas aí fomos de trem.

Dormindo em cama nobre A família do Christian estava em Livorno, ele tinha muito receio de me levar com ele, mas eu disse que ele não iria ter nenhum problema comigo. Chegamos finalmente em Livorno, num lugar que eles chamam de Pinetta ― uma floresta de pinheiros ―, e no meio dessa floresta tem uma casa bem grande, é praticamente um palácio, e aí estava toda a família dele. A avó ― a principessa ― Margherita ―, condes, marqueses, tanta nobreza junto. Fui admitido como amigo do Christian, e na hora do almoço a principessa Margherita sentava na cabeceira da mesa, ao lado dela o conde, sobrinhos e toda a família, gente mais jovem também, uma mesa bem grande. Ao servirem a comida, a principessa falou: “Mas olha como ele come bem!”. Significa que eu não sou um bugre, não nasci no sertão, aí disse: “Vou precisar explicar aqui, a gente também era de família muito antiga, tradicional de São Paulo, do Brasil, tinha ascendências antigas e nobreza também”21. Aí todos começaram a me ver de uma forma melhor, menos como se fosse um bichinho exótico, um bugre da selva amazônica. Isso nos deu mais liberdade, e ela colocou à nossa disposição um jovem, mais ou menos da nossa idade, não me lembro do nome dele. Ele ficou nos ajudando em tudo o que podia. E aí descobrimos que eles tinham um barco, então falei: “Vamos velejar”. E ele, todo cuidadoso, tentou dizer “não, isso você faz assim...”, com medo. E eu disse: “Você pode deixar que disso a

Os avós paternos e maternos do autor pertencem a famílias muito antigas, cujas genealogias são conhecidas desde os séculos VIII, X e XI. Eles tiverem sempre uma posição de destaque na história de Portugal e do Brasil.

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gente entende”. Entrei no barco, pus o leme em posição neutra, o Christian não conhecia muito, mas eu fui explicando o que ele tinha que fazer, aí nós saímos velejando pelo Mediterrâneo, e foi uma coisa deliciosa. O barquinho era um tipo olímpico, mais ou menos como o star, ele velejava bem, uma vela só, sem buja, e nós então velejamos por aquelas baías. Aí descobrimos que as meninas pegavam o veleiro e iam lá pra fora para tomar banho de sol por inteiro, para ficar com o corpinho inteirinho queimadinho. Então a gente vinha sorrateiramente, e dava uma bela espiada naqueles corpinhos ao sol. Era muito agradável viu! E aí elas ficavam bravas, começavam a atirar água na gente, mas a gente sumia, todo mundo ia embora. Era muito divertido. Esses dias foram encantadores. Quando saímos de lá, eles tinham que desmontar o acampamento, já era término de férias deles, então o Conde de Brisighella nos convidou para ir à casa dele, no Castelo dele. E nessa cidadezinha, que já era mais ao Norte, mais ao lado do Adriático, um pouco para baixo de Veneza, ficamos naquele palácio, muito bem conservado, com aquelas paredes, pinturas, quadros, estátuas, aquelas coisas divinais. Ele tinha uma filha mais nova que a gente, e essa filha tinha uma professora inglesa, toda sardenta, cabelo meio avermelhado, cor de cebola, menina chatinha pra ‘daná’. Lembro que ela ficou sempre meio assim com a gente. Uma vez levamos uns discos, de samba, de músicas brasileiras, tocamos lá, pusemos na vitrola, colocamos para tocar, estávamos gostando ― eu e o Christian, mas ela fez uma cara de enfado tão grande que acabamos tirando o disco fora, não ouvimos mais.

Uma rata com o conde em Veneza Em Brisighella o conde produzia vinhos, andávamos por aqueles vinhedos, maravilhosamente bem cuidados, a casa era um espetáculo, era realmente um palácio. Mas eu tinha muita vontade de conhecer Veneza, e ele então fez a gentileza de pegar a gente e levar pra lá. Ficamos no hotel Rialto, bem pertinho da praça San Marco, e de noite ele nos convidou para ir à praça San Marco tomar uma cassata. E aí sentamos num café grande e bem servido, talvez um dos mais chiques da praça. Ele mandou colocar as mesas de comprido, dando as costas para o bar, e todos nós tínhamos a visão daquela

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Piazza San Marco, e com a igreja de fundo, com orquestras tocando músicas maravilhosas, de violino, piano, estava maravilhoso. Então nos serviam uma cassata que vinha praticamente em uma bandeja cheia de sorvete de várias qualidades, e com vários tipos de biscoitinhos, petit fours, uma maravilha. Eis que nesse momento a lua nasce um pouco atrás, mais à direita da San Marco ― quase que dava um pouco para ver um pouco a parte do grande canal ―, uma lua imensa, uma lua cheia, esplendorosa, parecia um balão no céu. Iluminou toda a praça com aquela luz avermelhada, bonita, aquela igreja, aquele som, aquela companhia, o conde, as condessas, parecia um lugar de sonho. Maravilhoso, deslumbrante. Eis que o conde me pergunta: “Sei stanco?”. “Sim, sim, muito, muito, muito”, respondi. Sei que acabamos de tomar a cassata, ele pagou a conta e fomos todos embora. Chegamos ao hotel, nos recolhemos ao quarto, e eu falei: “Hoje é o dia do meu aniversário, completo 19 anos, hoje é dia 7 de setembro de 1957. Com 19 anos, nesse lugar maravilhoso, deslumbrante, eu vou dormir agora! Não, acho que vou descer e dar uma voltinha”. Avisei o Christian e fui dar uma voltinha, fiquei ali pela praça, fui escutar música, olhar o canal, estava deslumbrado. Quando voltei para o hotel, fui dormir. Mas no dia seguinte, o Christian falou:

― Você viu o que fez? ― O que eu fiz Christian, o que foi? ― O conde perguntou se você estava cansado, você falou ‘muito, muito, muito’. Pô, ele apressou todo mundo, para todo mundo comer e ir embora, para você descansar, e aí você pega e vai passear?

― Ah, desculpe, eu não entendi isso. Entendi se eu estava contente, feliz. E aí fui me desculpar com o conde, mas foi uma rata das ratas, das ratas. Talvez a rata maior que eu já tenha cometido na vida, mas mesmo assim valeu, foi muito bonito.

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Sozinho em Paris Nesse período que passamos lá, o Christian resolveu ficar mais um pouco na Europa, e aí eu tinha que vir embora, porque minha passagem estava marcada para dali alguns dias mais. Então fui embora de trem, e parava um pouquinho aqui, um pouquinho ali. Parei na Côte D’Azur, pude ver Mônaco, Monte Carlo, todas aquelas cidades litorâneas lindas, uma costa maravilhosa. Fui sozinho ― só eu e Deus ―, peguei o trem e continuei até Paris. Desci na Gare de Lyon, se não me engano, e aí tinha o endereço de um albergue Jeunesse, e fui atrás, tinha que tomar o trem outra vez, era um subúrbio, uma espécie de São Bernardo do Campo ou Mauá. Cheguei ― era um albergue pequeno ― e me apresentei, consegui o lugar, dormi lá. Não sei exatamente quantos dias eu fiquei em Paris, mas foram vários, talvez mais de uma semana. Eu levantava cedo, pegava o trem, descia novamente na Gare Du Nord, atravessava a rua, tinha um bar-restaurante que eu tomava uma xícara de café com leite, com croissant, aí eu ficava pela cidade, Quartier Latin, ia visitar os museus, as bibliotecas, ia visitar todos os pontos importantes de Paris. E era sozinho. Eu e Deus, como já falei. E aí tive um sentido de liberdade como jamais senti na vida. Entrei numa livraria que era um sebo, gostava muito de livros já naquele tempo, e comecei a folhear livros. Fui me interessando e acabei comprando um. Saí com o livro lendo pela rua, e aí tinha a Place De La Concorde, com aquele monumento no meio, onde sentei num degrau. Estava um dia lindo, céu azul, ar fresco, e aquela cidade passando em volta. E eu sentado naquele monumento me sentia absolutamente livre. Naquele instante eu não devia nada a ninguém, não tinha que dar satisfação para ninguém, na verdade, eu não era ninguém, era eu mesmo. Isso foi muito libertador, sempre fui uma pessoa muito tímida, recatada, mas aí eu me senti absolutamente livre, livre, livre, liberado de tudo. Foi bonito, porque continuei lendo, lendo, lendo, e depois pensei: “Poxa, mas como tô lendo bem em francês!”. Então fui olhar o autor, era do José Mauro de Vasconcelos ― Rosinha, minha canoa: “Ah, bom, eu tô lendo em português, não em francês!”. Mas assim mesmo valeu, foi uma sensação de liberdade, sabe? Não tinha ninguém que me conhecesse, nenhum parente, nenhum amigo, não tinha que prestar conta a ninguém, não falar

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com ninguém, eu era absolutamente livre. Passei esses dias de liberdade, a plena liberdade em Paris, foi maravilhoso.

Retorno ao Brasil na companhia de uma revolucionária Depois, de volta, peguei o trem outra vez, fui para o Havre, e no Havre embarquei no Charles Telier, um navio igual ao Louis Lumière, da mesma companhia, o casco todo preto e a parte de cima toda branca. Um navio grande, eu entrei sozinho neste barco. E aí tinha comprado um livro de eletrotécnica na Itália, um belo livro ― acho que tenho ele até hoje ―, então vim estudando-o pelos doze dias de travessia do Atlântico. Logo que embarquei, uma menina ― com os cabelos lisos, um pouco castanho aloirado, quase até a cintura, usava um rabo de cavalo bem liso, uma bela moça ―, se acercou de mim, aí ficamos amigos. Ela estava viajando sozinha, era chilena, chamava Mireya Del Rios, e viajamos juntos sem que nada demais tivesse acontecido, mas a companhia foi muito interessante. Eu era desde sempre muito conservador, politicamente falando, sempre fui uma pessoa de centro, equilibrada, nunca tendendo muito nem para esquerda nem para direita. Eu não gostava dos extremismos, seja da direita, seja da esquerda. E ela, Mireya, estava vindo de um congresso da juventude na Rússia, na qual ela tinha sido formada, instruída, para liderar movimentos populares. E eu sempre discutia muito essa visão dela, uma visão completamente diferente da minha. Esses debates políticos foram tema de muitas horas de conversa. Acho que eu não a convenci, e ela também não me convenceu. Mas foi gratificante. Chegando a São Paulo, tempos depois, houve todo aquele clima revolucionário no Chile e tudo mais, e ela foi, eu imagino, pelo menos pelas fotos que vi, ministra do trabalho do governo Allende, mas nunca mais tive contato com ela. Acho que ela conseguiu subir nos escalões da política chilena, nunca mais soube dela, também não sei se depois foi presa ou morta, ou exilada, ou se existe ainda.

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10. Depois da viagem a Europa, o que fazer? Como você pôde ver até aqui Bilé, em um espaço de pouco mais de uma década, desbravei sertões brasileiros, fiz cavernas em fazenda paulista, incursões em represas, rios e matas da Serra do Mar, dormi em colchão de palha de milho, na praia do Rio Araguaia, em estações de trem na Europa, mas também em castelos italianos. E voltei da França com vontade de continuar conhecendo o mundo. Mas retornei primeiro à escola, estudava no Colégio Bandeirantes, Eletrotécnica, estava no 2º ano do antigo colegial, hoje Ensino Médio. Como a viagem com os escoteiros havia sido uma missão oficial, o MEC ― Ministério da Educação ― concedera um abono de faltas pra gente. Então, eu não seria reprovado pelas faltas, poderia ser reprovado pelo não conhecimento da matéria. Só que dei uma rachada, pedi para uns colegas cadernos, livros, estudei e acabei passando de ano sem nenhuma dependência. Então, do ponto de vista escolar, a viagem não fez nenhum mal, consegui não perder nenhum ano. Meu sonho era terminar esse segundo ano, o 3o ano da Eletrotécnica e também o 3º do colegial, para poder voltar a Paris. Eu já tinha deixado tudo mais ou menos arrumado, inclusive conversado com várias pessoas do campus na Sorbonne para eu estudar lá, gostava muito de Sociologia na época. Então, voltei e comecei a trabalhar de novo, para poder me manter. Eu tinha que trabalhar para pagar a escola, terminar Eletrotécnica e voltar à Europa para poder estudar numa universidade europeia, como meu avô. Eu já tinha o diploma de artífice de fundição da Escola Federal e agora queria o de Eletrotécnica e do colegial.

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Mas, em uma tarde de sábado, eu e um amigo, Leopoldo, estávamos no Clube Pinheiros, tomando um belo chope, no bar do tênis, quando passaram duas meninas bonitas, uma loira, outra morena. Aí, brincando, falei: “Você fica com a morena que eu fico com a loira, tá?”. “Ah tá”. Aí começamos a brincar com elas, a falar mal do Palmeiras [Carlos é são-paulino], elas ficaram bravas, e assim conheci a Laura. Não fui mais à Sorbonne, não fui mais para Paris, fiquei em São Paulo mesmo, cuidando da minha vida. Eu me apaixonei pela Laura, olhei pra ela, senti uma flechada, e continuo flechado até hoje. Era uma moça de família, uma moça boa. Tinha uma diferença que a família dela era rica, a minha era pobre. Mas para mim isso não era problema. A gente trabalha, ganha dinheiro. Era uma moça cuidada, requintada, filha única, neta única, sobrinha única, tudo único... Falei a Laura que ela poderia ser minha esposa única. Foi uma coisa de gostar mesmo, de entender que com aquela pessoa eu poderia construir uma vida.

Uma nova profissão, eletrotécnico O Colégio Bandeirantes era muito rigoroso naquele tempo, como até hoje, um dos melhores. A matéria básica era Eletrotécnica e tinha o professor Patrima, muito elegante, andava sempre com um terninho de risca de giz, tecido tropical inglês, com colete e gravata. Usava o cabelo bem liso, todo penteado para trás, baixinho. Era muito exigente, acho que nunca conheci uma pessoa tão sistemática como ele. O professor nos dizia que ia dar o diploma para nós, porque era o professor titular da cadeira de Eletrotécnica, como quem diz: “Não adianta nada vocês irem bem em Português, em Química, não sei o quê, porque o diploma quem vai dar sou eu”. Ele era muito rigoroso nas provas, na sua metodologia de ensino, e no fim do ano você fazia o exame do currículo inteiro, não queria saber se foi ele quem deu, ou outro. Ele queria saber se você era eletrotécnico, se ia receber o diploma de eletrotécnico. Então, para a prova, ele convocava dois alunos por noite. Naquele tempo não era permitido levar máquina de somar, nada, a única coisa que a gente podia carregar era uma régua de cálculo, eu tinha uma bacana, comprada na Alemanha, que mantenho até hoje. Afora ela, a única coisa que você podia ter era lousa e giz. No dia em que fui, meu exame demorou

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quase três horas e meia. O exercício que ele pediu para mim era: “Olha, tem uma corrente de água vinda de cima da montanha com tal desnível, com uma vazão aproximadamente de tanto etc., e você tem que projetar aí para ter energia”. Tive que fazer todos os cálculos, de vazão do rio, altura da barragem que eu podia construir, mais ou menos o tamanho do reservatório, calcular a conservação de energia, a potência presumível, que tipo de turbina eu deveria usar, toda a estação de elevação da corrente, a parte de transmissão de energia até chegar a uma cidade e, depois, a distribuição. Tinha que calcular também todas as perdas. Fui fazendo e enchendo toda a lousa de cálculos, diagramas, chegou a um ponto que quase não tinha mais espaço para escrever. Quando concluí, ele olhou muito seriamente para mim e falou: “Parabéns, Seu Fagundes, o senhor foi muito bem”. Eu atribuí isso àquele livro abençoado que eu tinha comprado na Europa e estudado na travessia de volta, no navio. Ele me deu toda essa grande visão, então, um pequeno “acidente” de um livro muda um pouco a vida da gente. Formei-me então em Eletrotécnica na escola mais exigente que havia em São Paulo. Mas nunca fui, assim, um bom aluno. Esporadicamente fui o primeiro da classe, mas esse não era o meu objetivo. O reconhecimento do professor Patrima foi uma coisa que me marcou, me deu um título que usei a vida toda.

“Bullying” num dos primeiros trabalhos No curso de artífice de fundição na Escola Federal ― aprendia de manhã as matérias do ginásio e à tarde tinha a oficina ―, a gente trabalhava numa fundição mesmo, para aprender a moldar, fundir, fazer liga, cinzelar, o ofício completo. Fui um excelente artífice, o que na verdade, fui a vida inteira, juntando a fundição e, depois, a eletricidade. Mas antes de trabalhar nesses ofícios passei momentos muito desagradáveis. Inclusive trabalhei no SESI. Nesse tempo, minha mãe era assistente social num centro de saúde na Barra Funda, na Rua Vitorino Camilo, era funcionária da Secretaria da Saúde. E à tarde ela trabalhava no SESI, na Rua Xavier

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de Toledo. À noite fazia traduções e trabalhos de datilografia, para poder sustentar a gente, manter a casa. E eu estava procurando algum trabalho, que ela conseguiu no SESI, no Departamento de Orientação Social (DOS), uma vaga de contínuo, que hoje é chamado de office-boy. Eu já estava no segundo ano da escola, entrando no terceiro, tinha viajado a Europa. A chefa do DOS era a Da. Carolina e, o subchefe, o Dr. Antônio Paulo. Fui lá para ser contínuo, era um rapagão bonito, todo interessado, e esse departamento tinha muitas moças, que me maltratavam de todos os modos possíveis. Mandavam ir à padaria comprar lanche, mas aí tinha que cortar o pão doce bem certinho pelo meio, não podia deixar quebrar o creme... “Não é isso que eu pedi, vai lá e devolve!”, diziam. Ora, como é que eu ia voltar numa padaria apinhada de gente, na Praça do Patriarca, falar que estava errado e queria devolver? O cara ia querer me bater. Foi um período muito ruim, em que eu fiquei muito triste. A carga que eu tinha que carregar era tão pesada para ter aquele dinheiro, que foi um período bastante infeliz da minha vida. Imagina, em uma única sala havia umas trinta mulheres e só um homão bonito, elas azucrinaram mesmo, eram ruins pra caramba. Caçoavam de todo jeito, mandavam entregar as coisas em lugar errado, eu chegava, batia com a cara na porta e voltava. Criavam mil coisinhas e depois ficavam dando risadas, caçoando... É o que chamam de bullying hoje... Eu ficava numa mesinha, de braços cruzados, sem ter o que fazer. E sempre tive energia, sempre fui um homem de fazer as coisas, e aquilo foi mexendo comigo. Comecei a procurar emprego e vi num jornal um anúncio bem pequeninho, que pedia um estudante de eletrotécnica e tinha a possibilidade, inclusive, de fazer estágio no exterior. Foi sopa no mel! Ir para o exterior fazer meu estágio!

Fábrica Alta Segurança: o despertar da veia empreendedora Pedi licença para a chefa e fui ver o emprego. Ficava num escritório na Rua 24 de Maio. Cheguei lá e encontrei um austríaco de cabelos vermelhos, senhor já, de idade, com a pele branca, cheia de sardas vermelhas. Comecei a conversar com ele ― Alois Satsinger ―, ele falava com sotaque, mas houve

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uma grande empatia entre a gente, e ele me convidou para conhecer a fábrica e ver se eu aceitava ser um aprendiz. A empresa ficava na Rua Álvaro Rodrigues, no Brooklin Paulista. Era pequena, numa casa antiga, ele fez alguns barracões no quintal. Só que ele tinha sido um grande funcionário, um técnico da Siemens Halske, divisão da empresa alemã que fazia toda a parte de instrumentação: processos de automação industrial, medição e controle de temperatura, meio ambiente, tudo isso. Ele queria tentar expandir sua pequena fábrica. Eu cheguei lá, conheci sua mulher, Dona Erna, uma alemã gordona, meio baixinha, fumava pra chuchu, não tirava o cigarro da boca, mas era alegre, expansiva. Dava risada, falava mal o português. Simpatizei com ela. Aí veio o Bernard, filho dele, mais vermelho ainda, com pintinhas vermelhas na cara inteira, falando mal, com mais sotaque que o pai e a mãe. E a filha Ingrid, mais bonita, novinha. Mas para o serviço que ele tinha anunciado, acabou contratando outra pessoa, o Konrad. Eu fiquei com uma parte e o Konrad com outra. Como eu estava fazendo Eletrotécnica, ele me deixou com uma parte do final do processo de produção, de aferição e de novos projetos. A fábrica produzia pirômetros, aparelhos de medição de temperatura, umidade, pressão, vazão. Então, por exemplo, o trabalho da gente era automatizar o processo industrial. Na época, tivemos que idealizar todo o sistema de controle da temperatura da linha de produção de esparadrapos da Johnson’s de São José dos Campos. Os limites de temperatura das máquinas eram muito tênues, uma variação pequena punha fogo em tudo, e variação para menos não dava a aderência adequada ao esparadrapo e ocasionava interferência na pele. Então o processo era bastante crítico, tinha que ser bem preciso. Pegávamos todas as informações dos eletrodos, trabalhávamos no controle dos medidores que acionavam as caldeiras, os maçaricos, para manter o calor regulável. Era um processo eletromecânico, automático, mas com um maçarico acionando. Isso funcionou tão bem que a Johnson’s acabou fazendo várias máquinas aqui e exportando para vários lugares do mundo, e era tecnologia nossa, da fábrica que se chamava Alta Segurança. A empresa era bastante respeitada, pequena, mas importante. Trabalhava com uma tecnologia bem avançada para a época, produzia aparelhos muito confiáveis, robustos, fortes, muito bem feitos.

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Bom e de tecnologia nacional, mas não servia aos grandes Mas Alois Satsinger tinha pouca estrutura, pouco capital, dependia de bancos, e certamente a Da. Erna não era a administradora mais perfeita do mundo. Como outras pequenas empresas, vivia, como se diz, da ‘mão pra boca’. Mas para se ver como era uma empresa importante, há um episódio que merece registro. O Brasil estava se industrializando e havia condições fantásticas, porque toda a indústria depende de aparelhos de medição, seja de temperatura, umidade, pressão, controle de caldeiras e de processos produtivos de uma forma geral. E a gente era muito bom nisso, acabei me tornando muito bom nisso. No fim, eu ― um molecão ― era considerado um dos melhores técnicos do Brasil nessa matéria, então eu corria as fábricas para regular os aparelhos, fazer os projetos. Os equipamentos da Alta Segurança eram tão bons que um dia fui visitar a refinaria da Petrobras em Cubatão, percorri com o engenheiro todas as instalações, e vi que todos os aparelhos de controle eram importados. E falei para o engenheiro:

― Pô, a gente tem um produto aqui tão bom quanto esses, por que vocês não usam os nossos?

― É porque se acontecer qualquer problema, nós estamos usando ‘o melhor do mundo’ e a nossa responsabilidade estará garantida ― disse. Na verdade, não era isso, eles compravam um pacote e vinha tudo pronto, e tinham que engolir todo o pacote. Mas foi gozado que, nessa visita, depois de nossa conversa, fomos a um laboratório de aferição ― porque esses aparelhos de medição também têm que ser periodicamente conferidos ― e neste lugar vi que eles usavam o nosso equipamento para fazer os testes. “Pô, o meu aparelho serve para aferir o dos outros, mas não serve para trabalhar na linha?” Nessa época eu nem tinha completado 20 anos.

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Locutor, carreira abortada Trabalhava em período integral, 44 horas por semana. Pagava escola, o que sobrava dava para minha mãe. Quando estudei na Escola Técnica Federal, era o dia inteiro, eu não trabalhava. Depois fiz uns trabalhinhos, inclusive na Rádio Eldorado. Aqui, vale um parêntesis, antes de eu prosseguir com a história da fábrica Alta Segurança. A família Cerqueira César era muito amiga nossa e um dos Cerqueiras, diretor do Estadão, que estava montando a Rádio Eldorado. Fui trabalhar na montagem dos estúdios, de toda a aparelhagem, que ficavam no edifício do Hotel Jaraguá, na esquina da Major Quedinho com a Martins Fontes. A Eldorado tinha naquele tempo outra empresa, a Pró-Música, que colocava um receptor nos supermercados para fazer música ambiente. Pagava-se para ouvir isso. Então, acabei depois trabalhando para montar os receptores, junto com outros técnicos. Instalava os aparelhos e regulava. Eu era um molecão, mas acharam que eu tinha uma voz muito boa e me pediram para fazer teste na Eldorado. Eu fiz, gostaram e me incentivaram a ser um dos locutores. Acharam que eu tinha condições de fazer aquilo. Era um estudiozinho pequeno, tudo escuro, só luz artificial, ar refrigerado, aqueles microfones que pareciam uma alcachofra grande. E eu ficar sentado ali, fechado naquela sala o dia inteiro? Não era pra mim, não! Eu quero ver espaço, quero criar, executar, quero fazer, então não topei. Aí veio a possibilidade de fazer a viagem à Europa, e fui viajar.

Da marmita e bicicleta à primeira lambreta O período da Alta Segurança foi muito difícil para mim, porque eu entrava às 7 horas da manhã no Brooklin, e morava no Jardim Europa, na Rua Artur Ramos. E tinha que chegar lá às 7hs! Eu tinha uma bicicleta Philips, com bagageiro, amarrava a marmita no bagageirinho, que minha mãe deixava pronta de noite. Ela tinha três empregos e ainda fazia a marmita. Eu ia para a fábrica de bicicleta. Tinha um trilho no meio do mato beirando o Rio Pinheiros, mas num trecho precisava passar por uns tubulões, eu punha a bicicleta nas costas. Quando o tempo estava bom, não chovia muito, eu ia

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por ali. Por fim consegui comprar uma motocicleta e depois uma lambreta, o que facilitou muito a minha vida. Ficava na fábrica das 7hs até às 17hs. Voltava para casa, comia alguma coisa e ia para a escola. Muitas vezes ia direto da fábrica à escola, quando tinha alguma coisa para terminar. Havia dias em que eu trabalhava 20 horas. Na época até havia ônibus, mas era preciso fazer várias conexões. Na Avenida Santo Amaro havia linhas de ônibus até o Brooklin, mas para chegar na Santo Amaro eu tinha que tomar mais dois ônibus. Então, demorava muito. Por isso eu preferia ir de bicicleta, que demorava o mesmo tempo ou um pouco menos. Nos dias de chuva era terrível! Em geral eu saía de casa às 5h e meia ou 15 pras 6h. E fazia muito frio. Isso durou alguns meses, até que fui me arribando e comprei uma moto, e depois troquei pela lambreta. Mas eu não tinha aquela coisa da juventude, de usar jaqueta preta, porque eu nunca fui nem um operário típico, nem esse tipo de jovem que usava jaqueta preta. Era uma vida normal.

E a Ford surge no meio do caminho: “Caí das nuvens!” Fiquei na Alta Segurança certo tempo. Terminei o curso de Eletrotécnica e resolvi fazer faculdade. Queria engenharia, já tinha entendido que não dava para ir à Europa. Então cheguei no Sr. Alois e disse: “Olha, Seu Alois, eu tenho um vestibular para fazer e queria pedir duas semanas de férias”. Eu não tirava férias nem nada. Sempre fui muito dedicado ao trabalho. Isso foi em janeiro, porque os exames eram no começo de fevereiro. Pedi duas semanas para dar uma estudada, não havia cursinho. Escolhi fazer uma faculdade de Administração de Empresas, a Esan ― Escola Superior de Administração de Negócios, que foi uma das fundadoras da Pontifícia Universidade Católica, e funcionava na Rua São Joaquim. Foi a primeira escola de administração de negócios do Brasil, fundada pelo padre Sabóia de Medeiros [o jesuíta Roberto Saboia de Medeiros, que depois criou a FEI], mas depois ela se juntou a outras faculdades para fundar a PUC. Eu sou filho da PUC. Meu diploma é da PUC.

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O curso de Administração era baseado em Harvard, muito completo e interessante. Eu não podia fazer Engenharia, que era o dia inteiro. Mesmo que eu entrasse na USP, como iria me sustentar? Como é que a minha mãe iria me bancar? Não dava. Na realidade, eu tinha que ir para um curso noturno, esse era o curso que eu podia fazer. Então, pedi essa licença por duas semanas ao Sr. Alois. Em seguida, num domingo à noite... ― minha casa era muito festiva, tinha sempre muita gente, um entra e sai de primaiada, toda sexta e sábado a gente fazia bailinhos, eram vinte e tantos primos da mesma idade, e cada primo levava um amigo, era uma casa sempre aberta ... Então, nesse domingo à noite eu estava lá, conversando com o Antônio Luiz ― o apelido dele era Bicho ―, que já era formado em Química Industrial, como eu em Eletrotécnica, quando ele falou que trabalhava Ford. Disse que era um ambiente de trabalho maravilhoso. Eu falei: “Puxa vida! Eu conheço tantas indústrias” ― porque isso fazia parte do meu trabalho ― “mas a Ford ainda não conheço, gostaria de conhecer!”. Ele respondeu: “Então vamos! Vamos!”. Marquei com ele de ir lá logo ao dia seguinte, segunda cedo. Então, de manhãzinha, às 8 horas, eu estava no saguão principal da Ford, na Vila Prudente, esperando o Bicho. Peguei minha lambretinha e fui. Aí veio pelo corredor um cara dizendo alegre: “Ô, você aqui, meu amigo!”. Ele me abraçou, fez uma festa danada. “Era você mesmo que eu estava precisando. Rapaz, eu queria muito falar com você! Que legal! Que bacana! Puxa-vida!”. Era o Passos, que tinha sido meu colega de Eletrotécnica, mas não havia conseguido se formar. Achou o curso muito puxado. E a Ford estava procurando pessoas que entendessem de eletricidade, eletrotécnica, para a seção de compras de manutenção. Ele falou: “Vem cá! Vou te levar ali na sala do doutor Mário”. Na porta do homem, estava escrito: “Mister M.X.”. Falar com o ‘MX’!!! Era o Mário Xavier Rabelo, gerente da área de compras de manutenção. Passos falou: “Vai lá falar com o Mário. Se ele perguntar onde compra fios, você responde que é na Pirelli; se perguntar onde compra tal coisa...”, e assim foi me dando dicas. “Pra que isso?”, perguntei. “Vai lá, conversa com ele, depois a gente se fala”, desconversou Passos.

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Fui lá, estava com luvas de couro, que tirei, e as pus no cantinho da mesa. Eu estava com colete, todo elegante. Tinha ganhado do João Ribeiro da Silva, era de casimira inglesa, riscadinho. Estava bem velhinho, mas eu fiquei elegante com aquilo, achava chique. Cheguei à sala do ‘MX’, sentei na frente dele, que começou a me perguntar algumas coisas. Falei que tinha me formado em Eletrotécnica, ele perguntou sobre compras, eu respondi que era melhor comprar na fonte, que era muito melhor do que na revenda, que tinha condições de negociar mais, ter mais garantias etc. Ele pegou um texto que estava na mesa dele e pediu: “Leia isso aqui”. Comecei a ler, ele disse: “Leia alto”. Comecei a ler alto, era um texto em inglês, que falava sobre uma bobina, campo magnético... baba para mim! Ele perguntou: “O que é que você leu?”. “Li isso, assim, assim...”. “Bom. Muito bem!, quando é que você quer começar?”. “Começar o quê?” “A trabalhar com a gente”. Eu caí das nuvens!

“Eu estava no céu. Não tinha 20 anos ainda!” Passos estava me esperando do lado de fora. Então o Sr. Mário, MX, disse: “Leva ele pro Departamento de Pessoal, acerta com ele”. Eu falei: “Mas o que é isso Passos?”. Ele disse: “Cara, você passou. Ele entrevistou mais de cinquenta caras e não aceitou ninguém. Você vai ser comprador da Ford”. Era o cargo mais disputado que havia na empresa. O salário era maravilhoso, era uma empresa deslumbrante para se trabalhar. Você chegava ao corredor, estava todo mundo sorrindo. O curso que a gente fez para entrar na Ford era maravilhoso, eles tinham um Departamento de Pessoal avançadíssimo. Contaram toda a história da empresa, inclusive com filmes. O restaurante era primoroso. E era um cargo bem elevado dentro da Ford, bem reconhecido. Eu estava no céu. Não tinha 20 anos ainda! No trabalho, fiquei responsável por toda a parte de manutenção elétrica e também de parafusos, que é muito complicada, parafusos para fixar matrizes enormes. Um eventual acidente daria um prejuízo fabuloso. Enfim, era encarregado de um setor importantíssimo da Ford.

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Eu gostava de visitar os fornecedores, para saber de quem eu estava comprando. Muitas coisas rotineiras eram mais fáceis, mas para certos pedidos eu ia visitar o fornecedor, ver a fábrica dele, as oficinas, para ter confiança. Eu ia num carro enorme, num Ford Fireline, com motorista de quepe, eu sentava no banco de trás, ligava a rádio Cultura ou a Eldorado e dizia: “Vamos visitar o lugar tal”. Quer coisa melhor para um molecão como eu? Eu podia também requisitar o carro e ir sozinho, dirigindo. Por esses dias em que fui contratado pela Ford, fiz vestibular e passei. Mas com Sr. Alois a história ficou muito delicada. Depois que passei em todos os exames de admissão na Ford, fui lá e disse para ele: “Seu Alois, aconteceu uma coisa que eu não sei nem como explicar... Aconteceu assim, assim, assim...”. O velho ficou puto da vida, chorou. Eu disse: “Eu não posso perder essa coisa”. Ele tinha uma fabriquinha basicamente de fundo de quintal, e um acaso desse na Ford, com um salário muito maior, com todas as mordomias, seguro de saúde, todas aquelas coisas que as companhias dão, representava um desnível muito grande. Ele ficou muito aborrecido comigo, muito chateado. Terminei as coisas que tinha que fazer na Alta Segurança, fiquei à disposição, algumas vezes voltei lá, mesmo depois que estava na Ford, para ajudar em algumas coisinhas. Essa foi a parte mais dura. Aí comecei a fazer a faculdade, o que foi muito interessante para mim. Eu ia de lambreta para Ford, estacionava lá, pegava o Fireline ― um carrão grande, modelo anterior ao Galaxy, e fui trabalhando e estudando... Na Ford eu consegui uma expansão muito rapidamente, fiquei muito querido e reconhecido, porque, como eu entendia bem dessa parte de automação industrial, e também de fundição, quando chegava uma requisição de peça de reposição, eu fazia questão de saber o que era. Então, mandava chamar o chefe da manutenção ou ia até a sala dele, para ele mostrar o que era, como era, por que comprar? Isso foi criando certa respeitabilidade entre um e outro. O chefe da manutenção se chamava Santo. E o chefe dele era o engenheiro Emerson, um cara de cabelo vermelho, meio baixinho, meio invocadinho. Um cara que

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se achava por cima da carne seca, do tipo “eu sou engenheiro aqui, sou eu que mando”. Quando tinha algum problema de manutenção, o Santo vinha: “Carlão, eu tenho um negócio lá que preciso de você”. Eu ia lá, se era na cabine de pintura, regulava aqueles aparelhos, ninguém entendia nada. Eu regulava e punha a linha funcionando. Fui virando uma espécie de recurso para eles. “Enguiçou, chama o Carlão que ele resolve”. Um dia deu uma pane muito severa e o Emerson ficou desesperado, porque não tinha nem ideia de como resolver. O Santo disse: “Vamos falar com o Carlos”. Ele foi à minha sala, meio a contragosto. “Vamos lá, Emerson”, disse a ele. “Mas você vai sair da sua sala?”, ele respondeu sem graça. “Vamos lá...”. E falei pra menina, secretária: “Segura qualquer telefonema aí, que eu vou à fábrica ver uma coisa”. Cheguei lá, resolvi o problema e pus para funcionar. A linha de produção estava parada. Se permanecesse uma situação dessas, o engenheiro de manutenção seria no mínimo demitido. Eu pus para funcionar, ele conservou o emprego e ficou do meu time. Isso já devia ser de 1958 para 1959. A Ford estava aqui havia um tempão, já montava o Fordinho 29 aqui, tinha uma linha de montagem. Também a GM estava aqui havia um tempão, as fábricas é que vieram depois.

Saia justa Um dia pintou uma requisição na minha mesa, de compra de um transformador grande, de alta potência, do tamanho de uma sala. Olhei aquilo e observei que a requisição vinha da fundição, de Osasco. E pensei: “Mas nós temos um transformador desses lá”. Mandei ligar lá e a resposta foi que não tinha mais. Passei a mão no carro e fui conferir. Olhei, vi a plaqueta do transformador, ele tinha a mesma característica, era a mesma coisa. Lá, os fornos eram à indução, e esses fornos precisam de transformador, ele é a alma do forno. Sem o transformador, a fundição para. Então sempre tem um de reserva, eu sabia que tinha. Fui lá e constatei que tinha. Chamei o engenheiro e disse:

― Você está pedindo isso aqui, mas já tem um aí, por que você quer

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outro?

― Eu quero porque quero, aqui quem manda sou eu! ― e me meteu o pé na bunda. Fui lá pro Mister X e mostrei:

― Estão pedindo esse transformador, é um investimento pesado, mesmo para a Ford, mas tem um de reserva lá.

― Deixa comigo que eu vou investigar ― disse. E foram investigar, acharam que o engenheiro queria comprar o transformador para ganhar 20% de comissão, para comprar uma casa. A comissão provou isso e ele foi demitido por justa-causa. Foi uma das cenas mais horrorosas que eu já presenciei. Puseram todo mundo no pátio, os operários, e disseram: “Estamos demitindo esse sujeito por isso, isso e isso...”. Eu estava lá. Eles eram bonzinhos, mas se você pisasse fora da risca... Eu trabalhei na Ford só um ano e meio, mas era muito benquisto. Então percebi que depois dos gerentes ― do MX em compras de manutenção, do doutor João Carlos Dias, que era o gerentão de compras, do Rubel, da área produtiva, do Assis .... ― somente havia americanos na cúpula. Pra eu conseguir alguma coisa ia ter que ficar puxando saco dos americanos, ir às festas deles, não era algo que eu quisesse muito. Mas eu estava adorando trabalhar na Ford.

Adeus à Ford, “quero ter minha própria empresa!” Um dia o Seu Alois começou a me procurar. “Carlos, vem aqui, a gente está com dificuldade, tem isso, aquilo...”. E me ofereceu para eu ficar no escritório da Rua 24 de Maio, que depois fiquei sabendo que não era dele, mas da advogada. Mas ele me disse que me colocaria numa sala, com uma funcionária, e eu me tornaria o representante da empresa, da fábrica, de toda a parte da manutenção e de vendas. Eu abriria uma empresa minha, para ser representante exclusivo, ter a venda exclusiva dela e de toda a parte de manutenção.

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Eu pensei, pensei, e concluí: na Ford eu vou ser uma pequena engrenagem numa máquina muito grande. Agora, aqui eu vou ter a minha própria empresa, vou ser uma engrenagem grande numa empresa pequena, vou depender somente de mim, da minha inventiva, da minha força de vontade, do meu empreendedorismo [que se tornou palavra da moda hoje]. Resolvi então aceitar o convite dele, inclusive porque tinha uma dívida com ele, aquela coisa de “você me traiu”, e aquilo me incomodava bastante. Fui falar com o Mister X. Quando comecei a conversa, ele nem deixou que eu terminasse: “Suma daqui, não quero nem ouvir”. “Espera...”. “Suma daqui!” Passaram uns dias, fui lá de novo, “é a oportunidade que eu tenho”. “Você é louco, rapaz? Está no melhor emprego do mundo, vai pedir demissão???” Passados mais uns dias mais, fui lá de novo: “Seu Mário...”. “Mas você é louco mesmo! É burro! Você quer mesmo?” “Quero.” Aí ele concedeu a dispensa. Fiquei uns dias mais lá, passei o serviço para outros companheiros e caí fora. E retomei na Alta Segurança.

Enfim, o casamento Nessa época eu já namorava a Laura. Eu sempre fui muito bom de bico, de levar as pessoas no bico, então eu a convenci que era melhor sair da Ford, mudar de emprego, iria ter um negócio meu, independente. Como eu queria mesmo, não tinha jeito de dizer não, ela acabou concordando, e eu fui para Alta Segurança. Lá, eu comecei a trabalhar, visitar as empresas, conceber uns projetos, fazer as vendas, tinha a parte da manutenção, que às vezes eu mesmo ia, às vezes pegava um técnico da fábrica para ir, mas eu ficava supervisionando. Só que a fábrica não respondia. Quando tinha o Skrinda, que era o gerentão geral, um rapaz muito inteligente, de um país da Europa Oriental, ele tocava bem a fábrica. Depois ele saiu, então a fábrica não conseguia entregar ou entregava atrasado, falhava na manutenção. Aquilo foi me desgostando. “Que canoa errada que eu fui entrar”, pensei. Eu nunca me arrependo de nada que faço, mas falei: “Não foi uma boa, não acertei dessa vez”. Aí comecei a procurar alguma coisa. Nesse tempo eu me casei. Tinha o es-

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critório na Rua 24 de Maio, em cima. Embaixo havia uma barbearia antiga, os caras faziam a barba com navalha. Fui trabalhar de manhã, na hora do almoço desci lá e disse: “Capricha aí que hoje eu vou me casar”. O cara fez aquela barba, com bastante sabão, aquela coisa toda, então fui casar. Casei-me no civil no dia 2 de fevereiro de 1961, depois me casei no religioso no dia 4 de fevereiro. A minha mulher faz aniversário no dia 8 de fevereiro. Nasceu em 1942. Estava casado, mas ainda estudando na faculdade, morando num predinho perto do Ibirapuera, num apartamento emprestado por minha sogra, e procurando emprego.

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11. A primeira fábrica, o casamento e meu primeiro filho Sabe Bilé, a vida inteira, nunca tive um dia sem sufoco, graças a Deus. Nesse sentido, o ano de 1961 foi muito especial. Eu me casei e vim morar ao lado de onde moro ainda hoje, num predinho, e tinha esse “emprego”, que não era praticamente emprego, porque eu vendia, os caras não entregavam e eu não recebia, tinha aqueles problemas todos. Então eu comecei a procurar alguma coisa pra fazer. O casamento é uma parceria, a Laura tinha que me ajudar. A gente tinha que trabalhar juntos, construir. Não ia esperar construir para depois casar. Então comecei a procurar alguma coisa e outra vez vi num jornal um anunciozinho pequeninho, de uma fabriquinha da Vila Madalena. Peguei minha lambreta e fui lá, na Rua Girassol, que naquele tempo ainda nem tinha asfalto, era um barrão vermelho. No endereço havia um muro de cimento batido, com um portãozinho. Toquei a campainha e veio um espanholzão com um guarda-pó todo sujo, um charutão na boca, aquela baba amarela escorrendo... “Que quieres?”. “Aqui que puseram um anúncio...” “Si, si, como no... Passe, passe, passe...” Ele se chamava Quiles. Eu passei, desci uma escadinha, era tudo mato do lado de lá, meio abandonado. Entrei numa salinha e disse: “Eu queria saber do que se trata.” Era uma fábrica de lustres. Pedi para ver e ele me levou. Passamos por um corredor estreitinho, tinha um almoxarifado. Olhei, tinha um torno mecânico pequeno, um torno de repuxar, uma prensinha pequena, algumas furadeiras... Aí ele me levou mais para o fundo, tinha um puxadinho, uma casinha, onde tinha um forno com fole e uma fundiçãozinha onde ele fundia as peças.

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Perguntei algumas coisas, vi o almoxarifado, fui ao escritório... Perguntei se tinha registro de empregados, livro de compra e vendas, essas coisas. Ficou aquilo de tem mas não tem. Entrei no lugar, meus pelos arrepiaram. “Meu lugar é aqui”, pensei. Tive um input positivo, porque... O produto final, qual era? O lustre, ou seja, um aparelho de iluminação, com fundição de latão e de alumínio, que era a minha praia. Eu era artífice em fundição, e era muito bom no que fazia. Conhecia aquilo lá como a palma da minha mão. E era eletrotécnico. E estava estudando administração de empresas. As três coisas somadas me capacitavam perfeitamente praquilo. “É aqui!”. Quem estava vendendo eram os irmãos Bobadilla pioneiros da venda de lustres aqui. Sua loja tinha uma propaganda marcante: “Ideias luminosas, lustres Bobadilla”. Era deles, do Íbero e do Izer. Eles tinham a loja, mas não tinham fornecedores, então resolveram montar essa fabriquinha com esse Quiles, mas o que o Quiles tinha de competente, tinha de desorganizado, de relaxado. Era um espanholzão velho que vivia aqui mais ou menos sozinho. O Íbero e o Izer eram de Bragança e tinham uma loja de material de construção na Consolação. Um dia eles começaram a vender lustres. O Quiles fazia e deixava lá para eles venderem. Aí o Quiles convenceu os Bobadilla a montarem a fábrica, e ficou sendo gerente dela, empregado dos Bobadilla. Eles, que não eram trouxas nem nada, ficaram um ano e pouco com a fábrica e disseram: “Isso aqui não é nosso negócio, não. Nosso negócio é comprar por um e vender por cinco, não é comprar material, fazer...”. Viram que não era pra eles. Para mim, era o contrário, era o que eu sabia fazer. Era artífice em fundição, eletrotécnico e administrador de empresas. Estava tudo na minha conta. Então comecei a querer comprar a fábrica. Aí, pedi opinião para o meu sogro, José Coppola. Ele não queria, porque na verdade o que o seu José queria era que eu fosse trabalhar com ele. Ele só tinha uma filha e tinha um negócio de couros, Casa de Couros Donnabella, no Vale do Anhangabaú. Era uma casa centenária. E também ele participava de várias fábricas de sapatos, de curtumes, tinha um monte de coisas relacionadas... O que o seu José queria era que eu fosse trabalhar com ele. Fui algumas

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vezes à loja. Era tudo escuro, tudo velho. Ele tinha dois contadores, irmãos gêmeos, bem velhinhos. Falei: “Nossa Senhora! Isso aqui é um baixo astral... Comércio não é muito a minha praia, não estou preparado para isso. Aí eu venho aqui, se eu for bem, vão dizer que foi o sogro que deu, que ajudou. Se eu for mal... ‘Nem pra trabalhar com o sogro ele serve?’. Não dá”. Era uma situação a que eu não queria me sujeitar. Queria ser independente, queria realizar o potencial que eu sentia que tinha. Eu era empreendor, sou empreendedor. Tenho essa coisa de empreender. Eu precisava fazer. Fui falando com o sogro, e ele ia pondo defeitos. Aí os Bobadilla perceberam que eu não tinha onde cair morto, mas tinha potencial. E meu sogro começou a negociar com eles. Ele não querendo, os outros querendo vender e eu querendo comprar... Meu sogro me empurrava de lado e ficava jogando com eles. Chegou a uma condição que dava para eu fazer negócio: pagaria em 12 vezes, com duas promissórias de 50 mil por mês, com carência de 60 dias para começar a pagar. Eram metade para cada um: 50 contos para o Íbero e 50 para o Izer. Doze parcelas. Mas pediram pro meu sogro avalizar. Ele chorou um pouco na rampa, mas acabou topando: “Eu sei que vou perder esse dinheiro, mas quebro esse moleque. Quebro a crista dele e depois ele vem trabalhar comigo direitinho”. Quando fechei o negócio eu disse pro Alois: “Não dá. O senhor me prometeu certas coisas que não deu para cumprir, então...”. A minha mãe tinha convidado o seu Alois e a dona Erna para serem meus padrinhos de casamento no civil. Eles foram meus padrinhos. Depois que eu casei é que apareceu esse negócio da fábrica. E comecei. Comecei com uma fábrica sem ter nada. Uma condição era o Quiles ficar comigo, porque ele conhecia muito de lustres. Ele começou a me ensinar a produção, a me indicar clientes. Como o Bobadilla precisava de mercadorias, ele me encomendava e eu fazia. Mas no primeiro dia que cheguei à fábrica, dispensei o economista, o advogado, o gerente disso, o gerente daquilo... “Não tem mais nada disso. Tudo isso sou eu”.

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Essa estrutura toda era a visão dos Bobadilla. Tinha economista, engenheiro, uns trinta ou quarenta funcionários. Eu reduzi para uns doze.

Tempos duros, mas férteis Aí foi um tempo muito difícil. Eu tinha que sustentar a casa... Casei nos dias 2 e 4 de fevereiro, e no dia 15 de novembro de 61 eu assumi a fábrica. Chamava-se Europa Fábrica de Lustres Ltda. O terreno era de aluguel e eu não tinha nenhuma reserva de dinheiro, era “da mão pra boca”. Era o meu salário... Tinha que pagar escola, ajudar em casa... Assumi a fábrica sem ter nenhum tostão no bolso. Aí entra lá um senhor com um chapelão cinza, mal ajambrado, era um tal de Vasconcelos, que tinha uma loja no Rio de Janeiro. Era conhecido do Quiles. Vai daqui, vai dali, consegui vender para ele uns candelabros. Aí ele: “Já vou deixar metade pago...”. Aquele dinheiro foi um maná! Não tinha estoque, era tudo sob encomenda. Tinha peças que eu derretia para fazer outra. Transformava peças. Com aquele dinheirinho do Vasconcelos eu consegui tocar os primeiros dias. Fiz os candelabros, mandei pra ele, aí começaram a entrar os pedidos do Bobadilla, mas estes eram faturados, 30 dias fora o mês, 60 dias fora o mês. Às vezes eu não tinha dinheiro para acender o forno, então pegava minha lambretinha ia à casa da minha mãe, pegava um dinheirinho emprestado com as empregadas, passava num posto, enchia duas latas de óleo diesel, punha atrás da lambreta e ia para fundição. Enchia o depósito, acendia o forno, fundia as peças, acabava, limava, entregava. Depois ia pegar um dinheirinho, pagava o empregado e depois ia buscar um dinheirinho com ela outra vez. Nunca pedi empréstimo de dinheiro ao meu sogro. Quando ia vencer as primeiras duplicatas que estavam com os Bobadilla, fui falar com meu sogro. Ele me levou a um banco na Rua Aimorés, o gerente era amigo dele. Falou que as duplicatas eram boas, que eu podia descontar... Então eu pegava a duplicata do Bobadilla, levava lá, descontava, pegava aquele dinheiro, pagava todo mundo... Foi assim.

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Eu tinha muito presente que enquanto eu estivesse devendo pro Bobadilla, ele ia com certeza me dar pedidos. No dia em que não estivesse mais devendo para ele, ele ia cortar os pedidos. Então comecei logo a arrumar outros clientes. Alguns aqui, outros no Rio de Janeiro... Comecei a ter outros clientes, e conseguia vender diretamente para pessoas conhecidas. Um que mudou de casa e precisava de um lustre, um abajur... Passei a vender ali na fábrica mesmo, comecei a pegar alguns decoradores que mandavam fazer peças especiais, fui me virando. Eu era tão sem dinheiro naquele tempo... Um dia eu cheguei em casa, a minha mulher estava toda contente, sorridente da silva: “Olha, venha ver o que eu fiz”. Pôs todas as cortinas novas e todos os tapetes novos no apartamento. “Está lindo, né?”. Só pensei: “E como é que eu pago?”. Foi um sufoco, mas acabei pagando, não briguei com ela. Coitada, o que ela ia fazer? Deus foi bom, acabei pagando, tudo bem. Mas ela não tinha noção do sufoco que a gente estava passando lá.

Poucos dias depois, chega o primogênito No dia 24 de dezembro nasceu o meu primogênito, em 1961. Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Júnior22. Eu quis pôr exatamente o meu nome para eu ter mais responsabilidade, ser mais sério, mais correto... Não tinha que cuidar só do meu nome, tinha o nome do meu filho. Eu queria formar um clã mesmo, depois viria o terceiro, quarto, quinto, dos Carlos Eduardo. Nós comemoramos o Natal no hospital Matarazzo. O médico era o Dr. Domingos Delascio que era o diretor do hospital, o melhor médico de São Paulo. O doutor Ugo, tio da Laura, era médico lá. Então, a Laura teve tudo de primeiríssima. Foi indo, um dia o Dr. Delascio me chamou e disse: “Hoje eu vou dar alta,

Hoje Profº Drº Dom Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Junior, diretor-geral da Faculdade de São Bento e ex-reitor do Colégio de São Bento, em São Paulo. Artista plástico renomado, com carreira internacional e obras nas principais instituições da área, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), Coleção Itaú Cultural e Coleção Santander. Autor de vários livros nas áreas de história, arte e filosofia. Doutor em história pela USP (1991).

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você tem que me pagar”. “Está bom, doutor, eu vou buscar.” Ele não aceitou: “Não, não, não... Eu quero agora”. Argumentei: “Eu não estava nem sabendo desse negócio de alta, é meu primeiro filho, como é que faz?”. Ele nem quis saber: “Se vira, pede pro seu sogro”. Eu não ia pedir, o meu sogro já tinha dito que o filho era meu, eu que me virasse. Enfiei a mão no bolso, tinha um monte de cheques pré-datados, de clientes e um pouco de dinheiro. Ali no corredor mesmo o médico pegou os cheques da minha mão, fez as contas, disse: “Tá certo, vou dar alta”. Eu fiquei tão chateado com aquilo!... Como é que um médico, que devia ser mais humano... Meu primeiro filho... Será que eu vou dar o cano? Não vai liberar minha mulher, não vai deixar minha mulher sair do hospital porque eu não ia pagar a conta? Ele nos conhecia, era médico da minha sogra. Não sei porque essa volúpia de ganhar dinheiro. Mas eu consegui, tinha aqueles cheques pré-datados, do Rio e de São Paulo. Passou a mão naquilo tudo, meteu no bolso e foi embora. Não sei nem a quantia certa...

Incompatibilidade de estilos O Quiles ficou pouco tempo comigo, não deu muito certo o casamento com ele, porque embora fosse uma pessoa com um coração imenso, era espanhol demais, a gente não conseguia se entrosar. Era um homem meio sem compromisso, sem muita ambição... Não deu. Mas ele me ensinou os primórdios da iluminação, do lustre, me deu conselhos que valeram para vida inteira. Por exemplo: “Nunca mostre um lustre no chão. O lustre foi feito para ver pendurado”. Se você vê um lustre no chão pode achar que é uma porcaria, mas se vê no lugar certo... Tem que ter um ângulo de visão. Lustre é feito para ver pendurado. Coisas assim, que ele foi me ensinando, me valeram pro resto da vida. Foi um excelente professor. Mas não deu liga. Eu não conseguia trabalhar com uma pessoa tão desorganizada. Tinha que ser tudo organizadinho, você faz isso, você faz aquilo... Quando terminar isso você faz aquilo... Pensar na frente, não atrás. Tem que prever outros passos na

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produção, na frente, que era minha função. Eu dizia: “Olha pessoal, eu penso o amanhã, vocês têm que pensar o hoje. Quando chegar o amanhã, está tudo resolvido pra vocês caminharem pra frente”. Então eu tinha sempre que pensar o amanhã, e o Quiles trabalhar o hoje, mas ele era tão desorganizado que a coisa não ia.

Começando a crescer Começamos a ter mais pedidos na fábrica, e convidei meu irmão, que era funcionário público do Departamento de Obras do Estado: “Vem aqui comigo, a gente vai indo bem, tem possibilidade de a gente crescer e tal”. Euclydes Fagundes Neto, a gente o chamava de Quido, enquanto eu era o Gordo. Meu apelido era Gordo. Falei para ele não pedir demissão, e sim uma licença. Ele pediu licença e veio trabalhar comigo. Nós fomos trabalhando juntos. Dei 10% do capital para ele. Entrou como sócio com os 10% que eu dei para ele. E mantive o salário dele, maior do que ele ganhava no Estado. Então ele não teve prejuízo nenhum. Quando estava comprando a fábrica, ainda trabalhava na Alta Segurança. Tinha um encarregado lá, o Nelson Gonçalves, que chamei para trabalhar comigo também, antes do meu irmão. Dei 10% da sociedade pro Nelson e garantia um salário maior do que ele ganhava na Alta Segurança. Ele ficou uns tempos lá comigo, aí aconteceu essas coisas que a vida vai ensinando a gente: ele se dava muito bem comigo e eu com ele, sem nenhum problema. Ele cuidava da parte mais industrial, porque eu tinha que comprar, vender, receber, administrar, fazer todo o resto, além de ajudar na fabricação, na parte técnica. Eu conhecia toda a parte de fundição, a parte de usinagem, a parte elétrica, que ele não conhecia. Tudo bem, era uma pessoa em quem eu tinha confiança, que ficava lá o dia inteiro enquanto às vezes eu tinha que fazer coisas fora. Então o Nelson Gonçalves ficou comigo um tempo até que começou a acontecer de a mulher dele começar a falar: “Agora nós não somos mais operários,

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nós somos patrões. Então eu quero sapato novo, quero casaco de pele, quero isso, quero aquilo...”. Começou a pôr um monte de demandas na cabeça dele, e ele não conseguia suportar. Ela começou a dizer: “O cara chega às 8 horas, você chega às 7 horas...”. Mas muitas vezes ele saía às 5 horas e eu ficava lá de noite, até de madrugada. Começaram essas coisinhas da mulher dele, querendo mais do que eu podia dar. Nenhuma empresa podia dar. Ele só tinha 10% da empresa... Então, num momento, a gente conversou, eu comprei a parte dele, dei de novo os 10% que antes eu já tinha dado. Ele saiu, eu pus o meu irmão Euclydes. Isso foi em 1962 ou 63...

Ao vosso reino, nada! Uma vez o Bobadilla precisava muito de uma mercadoria urgente, porque era um projeto que ele tinha que entregar, se não pagava multa. Ele me pressionou muito para atender o prazo, então nós viramos a noite inteira e entregamos a mercadoria no dia 26, que era o último dia para ele entregar ao clientte e cumprir os prazos que tinha. Eu cheguei e falei: “Ô, Íbero, é o seguinte: isso foi uma coisa especial, viramos a noite inteira trabalhando nisso, considere isso como este mês para mim, por favor”. Ele foi duro: “Não, não, não... Regras são regras, não dá pra cortar...”. Argumentei: “Então eu vou perder um mês, por causa de um dia, por ter te ajudado a cumprir seu prazo”. “É isso, a regra é essa”, respondeu. Ele era baixinho, bati nas costas dele e falei: “Tá bom, seja o que Deus quiser”, e fui embora. Quer dizer, eles já eram águias no negócio. Tinha peças que ele falava: “Ah, isso aqui não vende”. Eu ia ver o preço e entendia porque: “Essa peça aqui eu vendi pra ele por mil cruzeiros, e o preço da etiqueta é 13 mil... Ora, quem trabalha com uma margem dessas?”. Eu era muito amigo dele, entrava no estoque, via o que faltava, pegava a assinatura dele e mandava... Eu até administrava o estoque dele... Enquanto eu estava devendo para ele. Aí comecei a ver essas barbaridades que ele fazia com os preços. Tinha várias linhas, cada uma com uma margem de lucro. Eles ficaram ricos, riquíssimos, em muito pouco tempo. Foram os reis do assunto.

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Depois que o Izer saiu, quando o Íbero morreu, deixou o negócio para o filho dele, Antônio Carlos, que era mais um homem de fazenda, de agricultura do que daquilo, não era um homem de comércio. Então ele começou a se especializar em peças de antiguidade, mas também não entendia nada disso, que não era do ramo dele... Na verdade não era um homem do comércio, não era do ramo dele. Até que aguentou muito, pelo nome e tradição da empresa.

Em busca de novos caminhos: a compra de um jornal Nos anos 1960, a Gazeta da Vila Madalena era um jornalzinho bom, muito sério, e vivia ― como todos os jornais ― com muitas dificuldades. Era semanal, com dez mil exemplares de tiragem, circulava na Vila Madalena, Alto da Lapa, Sumaré, uma zona nobre, de casas boas. Era dirigido por um tal de Haroldo, um sujeito até bom, mas muito confuso. Como administrador deixava muito a desejar. Mas era muito esforçado, muito trabalhador. Chegamos a fazer alguns anúncios no jornal, pela zona que ele atuava. Um dia o Haroldo falou: “Você quer comprar o jornal?”. Nós acabamos comprando. Foi uma experiência muito interessante. O período foi curto, porque jornalismo não era o nosso negócio. A Gazeta da Vila Madalena funcionava na esquina das ruas Teodoro Sampaio e Fradique Coutinho, em cima de uma padaria que existe até hoje. Tinha o Haroldo, uma recepcionista e o jornalista ― era obrigatório ter um jornalista responsável ―, que fazia também toda a diagramação. Chamava-se Laerte, um jornalista muito bom, um sujeito magrinho, mas muito esperto, ativo. Ele fazia a diagramação e a gente mandava imprimir na gráfica de outro jornal. Fazíamos a distribuição nesses bairros todos, e o Haroldo vendia os anúncios. A gente fazia matérias também. Cabia a mim fazer o editorial. Aquela era uma época muito rica de ideias, o Brasil estava passando por uma transformação muito grande, e eu fazia os editoriais. Um desses editoriais foi comentado pelo todo-poderoso ministro Delfim Netto.

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O jornal me deu muita satisfação, mas foi efêmero, porque a gente não tinha como tocar o jornal naquelas condições, com muitos custos e de uma forma amadorística. Então, eu saí do jornal e pouco tempo depois ele fechou. Foi um período que gostei muito, porque gostava de escrever. Então, não foi tanto um negócio, mas quase uma coisa de lazer, de diletantismo, bem legal. Naquele tempo eu cheguei até a pensar em estudar jornalismo, para ter habilitação, mas ficou nisso. Um caso até interessante é que uma vez apareceu na fábrica uma senhora, que fez uma bela compra, para a casa inteira. No final perguntei: “A senhora conheceu a gente como?”. “Eu fui embrulhar um sapato para levar no sapateiro e, quando estava embrulhando, vi um anúncio da fábrica.” Então, até para embrulhar sapato, o anúncio funciona. Eu vi como é a força da imprensa. Foi gratificante. O anúncio que a gente publicava no próprio jornal da Vila Madalena se pagava, tinha retorno. A gente acreditava no veículo porque ele tinha retorno. Aquelas casas comerciais da Teodoro Sampaio anunciavam nele. Havia bastantes anúncios. O concorrente era a Gazeta de Pinheiros, que era mais exigente, mais chatinha, queria mais isso e aquilo, pagamento adiantado. Nós, não. A gente publicava e depois ia receber. A gente era mais flexível. Foi uma experiência legal.

Em busca de novos caminhos 2: a fábrica de pistões Meu contador tinha uma fábrica de pistões e resolvi comprar dele. Chamava-se Fanap e ficava na Vila Gomes, tinha tornos e algumas coisas mais. Falei: “A indústria automobilística está crescendo no Brasil. Eu trabalhei na Ford, sei como funciona uma indústria automotiva. Tem fundição... eu conheço. Usinagem... conheço também. Acho que é um negócio bom”. Comprei um terreno na Rua Isabel de Castela, no Alto de Pinheiros, onde hoje funciona um sacolão, construí um galpão, trouxe a fábrica e dei a ela o nome de Embra ― Indústria Brasileira de Êmbolos. A fábrica estava bem montadinha, tinha equipamentos que nós mesmos

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desenvolvemos, torno de lapidar o eixo, um sistema de fundição que nós desenvolvemos... Usei muito a criatividade e a fábrica foi indo bem. Tentei muitas vezes fazer um negócio com uma empresa internacional. Naquele tempo, se usava medidas que chamavam mentalidade milímetro e mentalidade polegada. Mentalidade milímetro era utilizada pelas empresas de origem alemã e de outras partes da Europa, e mentalidade polegada era de empresas de origem norte-americana. Pensei: “Se eu conseguir uma empresa da Europa, que usa o milímetro, os americanos aceitam bem. Se for o contrário, as empresas alemãs não aceitam”. Comecei a procurar contatos na Europa e achei um cara, Walter Krug, um alemão chique, bonito, bom camarada, que tinha sido diretor da Auto Union ― da DKW-Vemag ― e era muito bem relacionado no meio automotivo. Ele serviu como contato entre nós e as empresas europeias. Acabamos fazendo um acordo com a Karl Schmidt, alemã. Fizemos depois o que eles chamam em alemão de forfertrag, um pré-contrato, minuta de contrato, tomamos champagne. Aí tinha o problema de trazer um técnico para cá. Eu estava na Alemanha e pedi para minha prima, Marina do Rego Freitas Toledo, que era cônsul geral do Brasil em Bönn, então capital da Alemanha Ocidental, dar um jeito de permitir que o Berkeley, que era um técnico, viesse para o Brasil. Então as coisas estavam caminhando bem. Eu tinha a Embra, tinha o prédio da Isabel de Castela, com 2.200 metros quadrados de área construída, com máquinas e equipamentos... Aí os advogados começaram: muda uma vírgula aqui, muda uma vírgula ali, muda uma cláusula ali... No final eu ia entregar um prédio de 2.200 metros quadrados, um monte de maquinários e equipamentos, ferramentas, estoque de matéria-prima, estoque de produtos acabados e um market share que a fábrica tinha, que era entre segunda e quarta maior do Brasil no setor. Em primeiro lugar, disparado, estava a Mahle, da Metal Leve, depois nós disputávamos o resto. Tínhamos um market share pequeninho, mas tínhamos. Nós íamos entregar todos os valores para entrar em uma empresa nova na qual faz parte a Adella, de um grupo que é dono até do Deutsh Bank... Vou entrar num grupo fortíssimo

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desses, com uma participação minoritária, de 5 ou 10%, e a empresa vai tomar um empréstimo da Adella, de 5 milhões de dólares ou marcos, não me lembro. Vou transferir todo o meu patrimônio para essa empresa e já entro com essa dívida. Tudo o que eu tenho é sólido, vou entrar para uma empresa que vai receber um capital e ficar devendo esse dinheiro. Segundo a legislação alemã, o prejuízo que eles tiverem no Brasil é descontado no imposto de renda lá. Conclusão: essa empresa podia ficar muito tempo sem dar lucro. Não interessava a ela dar lucro imediatamente. Então eu ia ter todo o meu patrimônio praticamente perdido, ficar com uma participação minoritária cujo sócio era essa imensidão, e amanhã podia dizer: “Vamos fazer um aumento de capital. Cada sócio entra com um milhão de dólares cada um”. Onde é que vou arranjar esse dinheiro? Eu não tenho. Então vou perdendo participação, como cotista. Algum dia em algum momento eu vou querer vender essa participação. Para quem que eu vou vender? Para eles mesmos. Por que preço? Pelo preço que eles quiserem. Eu não construí meu patrimônio, sólido, líquido, para entregar para alemão nenhum. “Quer saber de uma coisa? Vão tomar naquele lugar!” Rasguei o contrato: “Não tem mais negócio”. Mas o negócio era bom e eles vieram para o Brasil. Hoje eles estão em Sumaré com uma fábrica com 1500 funcionários. Estão muito bem. Vieram pelas minhas mãos.

O jogo é bruto Não podendo participar desse negócio, das montadoras, fiquei no negócio da reposição, mas era complicado, porque era tudo de pequenas séries, peças especiais. A gente fornecia para várias montadoras pequenas, a própria Toyota comprava de nós no começo, porque não tinha escala para comprar dos outros. Fábricas de compressores, a gente fazia, motores especiais, pistões enormes, a gente fazia também... Mas não era o miolo do negócio, era o resto. Uma vez eu fui à Metal Leve conversar com o Mindlin. Ele foi muito simpático comigo, me recebeu na sala dele, expliquei todo o assunto para ele, ele falou: “Carlos, é o seguinte. Eu tenho aqui um catálogo, vou assinalar o que eu não quero fazer e você faz, fica pra você. Alguns itens a gente faz um estoque que

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dura o ano inteiro. Quando estiver chegando no fim eu te aviso, pra você entrar nesse nicho”. Tentou me ajudar. Nesse momento, um funcionário abre a sala e joga em cima da mesa um maço de telegramas, e ele lê... “Olha, Carlos, tem isso aqui”. Ele me mostrou um telegrama. A Mercedes simplesmente falou: “Esse título que vence amanhã, de oitocentos milhões, fica automaticamente prorrogado por mais 90 dias, sem juros, sem nada”. Como é que eu aguento um negócio desses? Quebrava naquela hora. Acaba com teu capital de giro. A empresa diz simplesmente que não vai te pagar: “Não vou te pagar juros, não vou te pagar nada”. Se você fala que não concorda, eles não te compram mais, vão pro concorrente. É um jogo bruto, bruto, bruto! Não tem condição. Eles tinham costas quentes, o grupo Klabin e outros, banqueiros, todo mundo atrás deles. Mas eu... Como podia aguentar um tranco desses? Mais um motivo para eu não querer participar daquele negócio. Quando eu levei o catálogo com os pistões fabricados pela Metal Leve, que me passaria, fui ver, tinha coisas como Chrysler 1931... Quantos carros Chrysler 1931 existiam aqui? Só tinha coisas assim. Isso não vale nada! O que adianta eu querer fazer pistão, se não tem mercado? Eu queria fazer Volkswagen, Mercedes, MWM. Cheguei a fazer bastante para a FNM... Tudo isso não adianta. Cheguei à conclusão que devia sair do negócio. O caminho que vi para sair foi o seguinte: peguei algumas máquinas, o essencial para fabricação de pistão, o ferramental e alguns dispositivos especiais. Aí vendi máquinas e tudo mais para um amigo, peguei o dinheiro, paguei todo mundo, indenizei todos os empregados e vendi esse núcleo de fabricação pros meus três gerentes: gerente de produção, gerente de vendas e gerente administrativo, com a condição de que em 6 meses, acho, me entregassem o prédio vazio. Eles concordaram, mudaram para o Butantã, eu fiquei com prédio, que aluguei por uns tempos. Tive vários inquilinos que me deram problemas, inclusive uma frota de táxis, e no fim acabei trocando aquele terreno por uma fazenda em Franca, em Pedregulho, na barranca do rio Grande.

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De Europa Lustres a Comlux A gente deu uma repaginada na fábrica de lustres, que ficou se chamando Europa Lustres, Indústria e Comércio Ltda. Ela durou muitos anos e foi adquirindo status. Os nossos produtos eram muito bons, eram lustres grandes de bronze, de cristal, de overlay, de porcelana... De overlay era uma das poucas fábricas do mundo. Então ela foi ficando cada vez mais elitizada. Se você falar Mercedes, a primeira ideia que vem na sua cabeça é caro. Se falar Volks, é barato. Começou a ficar assim no mercado: “Europa não é pra mim”; “Não, não, não... Europa é de muito luxo, não dá”. A gente fazia muita propaganda, mas começamos a ter dificuldade no mercado, porque era produto que todo mundo queria ter na sua casa mas achava que não dava. Quem não quer ter um Mercedes? Eu quero! Todo mundo quer. Mas não pode ter porque é caro. Com isso começamos a ter dificuldade de vendas, e mudamos o nome para Comlux Iluminação Ltda., que era metalúrgica também. Aí nós fizemos uma proposta diferente: os produtos eram basicamente os mesmos, só que a apresentação era diferente, lançamos produtos com uma linha mais baixa, mais comercial, e retomamos o mercado, foi muito bem.

E chega a hora de parar Fiquei com a Comlux durante muitos anos, mas há algum tempo, uns vinte e poucos anos atrás, eu queria me desfazer da fábrica. Até os anos 80, ela foi que nem um rojão para cima. Depois estabilizou e começou a cair, foi caindo, caindo... Tudo foi difícil. Além da recessão de 1983 e do Plano Collor, o mercado mudou, mudou tudo, mudaram todas as condições. Até 1980 era uma beleza. Depois foi ficando tudo mais difícil, mudou o mercado, houve a abertura das importações, o poder aquisitivo mudou. No auge da fábrica, nós chegamos a ter 240 funcionários, uma parte aqui e outra na fundição, em Diadema. Mas a partir dessa época grande parte das empresas quebrou, sumiram. Nós conseguimos nos segurar. Permanecemos, mas eu queria partir para outra, mudar minha vida, já estava com trinta

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e tantos anos na empresa, já estava meio cheio daquilo, não tinha mais o mesmo élan, a mesma vontade. Queria sair disso. Minha mulher achava que eu ainda era muito novo, bonitão, e de repente eu ficaria sem compromisso... Foi sempre contra, então eu acabei continuando na fábrica, mas sem a mesma força. Quando a gente não põe energia, as coisas não andam. Então a coisa veio meio se arrastando, não ganhando dinheiro, mas também não dilapidando o patrimônio, vinha conservando uma situação. Recentemente, comecei a ficar doente, então pensei: “Tenho que preparar a minha saída. Tenho que partir para outro plano, talvez...”. Foi aí que comecei a querer vender a fábrica. Meu filho não se interessou, minhas filhas também não. Eu não tinha genros para deixar com eles, meus netos eram muito pequenos. Não adiantava continuar. Eu transferi as cotas todas e a fábrica saiu da família.

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12. Protagonismo na vida brasileira: dirigente sindical Como já contei Bilé, comecei a fornecer lustres para o Bobadilla, mas ele, como todo monopolista, porque ele era praticamente o único revendedor, a única casa especializada em venda de lustres, tinha regras draconianas para nós, fornecedores. Daí comecei a conversar com alguns dos meus concorrentes e a vender a ideia que nós podíamos ser concorrentes, mas não inimigos. A gente era do mesmo setor, mas podíamos fazer coisas diferentes, um não concorreria com outro. A ideia era construir um pacto de que eu não copiava uma peça sua e você não copiava uma peça minha. Com isso, cada um ia fazendo uma determinada linha de produtos. E, se estivéssemos juntos, podíamos tentar flexibilizar ou melhorar isso, ter uma massa, um corpo, para se antepor um pouco ao que o Bobadilla exigia da gente, como prazos de pagamento, condições de venda, essas coisas todas. Comecei então a convidar o pessoal para gente se reunir no bar Riviera, na esquina da Consolação com a Paulista. A gente se encontrava no Riviera, de tarde, tomava um chope e conversava sobre essas coisas, no sentido exatamente disso, de formar uma doutrina que nos fortalecesse, para poder pleitear que o Bobadilla baixasse o prazo de pagamento de 90 para 60 dias, flexibilizasse o horário de entregas, essas coisas todas. Daí foi-se formando um pequeno núcleo, até o dia que descobri que tinha um sindicato que éramos obrigados a pagar, por lei. Era o Sindicato de Lâmpadas e Aparelhos Elétricos e de Iluminação do Estado de São Paulo. Entrei em contato com esse sindicato. Marquei uma hora e fui lá. A sede ficava no viaduto Dona Paulina, no prédio chamado Palácio das Indústrias, onde também funcionava a FIESP.

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Lá, encontrei a dona Maria Antonieta Azambuja Neves, uma senhora muito educada. Conversei com ela, queria saber como funcionava, como é que a gente participava. Ela falou com o senhor Nadir Dias de Figueiredo, que era o presidente, e passei a frequentar as reuniões do sindicato. Essas reuniões eram em uma sala em que tinha uma mesa grande, o Nadir sentava na cabeceira e os diretores do sindicato, presidentes das empresas, sentavam ao lado e começavam a discutir os temas propostos. Lembro bem que tinha o Romaná, um espanhol forte, desses falantes, exuberantes, a General Eletric, Philips, Siemens, Silvânia, da CBL, tinha a Sônia Marsicano, vários fabricantes de lâmpadas. E a reunião era explosiva. Saíam brigas homéricas. Eu até floreio um pouco, falando que cada um pegava seu 38, punha em cima da mesa e dizia: “Agora vamos conversar”, porque era uma verdadeira guerra. O Nadir, com aquela sua paciência, o seu jeitão mineiro, ia pondo panos quentes, se ajeitando... Eu saía daquelas reuniões e me perguntava: “O que eu ganhei aqui? A troco de que eu venho aqui discutir filamento de lâmpada, não sei que de lâmpada? Eu não quero saber de lâmpada, quero saber de lustre”. Aí falei com seu Nadir, se ele não permitiria que eu fizesse um grupo só de lustres, porque não adiantava eu ir lá na reunião e ouvir discussão da General Eletric com Phillips, com Siemens... Não interessava nada. E eram gigantes mundiais, também não me interessava isso. Então consegui criar uma setorial de lustres. Comecei a chamar os meus amigos com quem me encontrava no Riviera, para frequentar as reuniões. Fui eu, o Gentil da Munclair, o Adolfo Ronda da Bronzearte, depois convidei o Eduardo Montalto... Fui convidando a turma toda fomos e formando um grupo para discutir as questões de lustres. Esse grupo foi se reunindo, passou a ser interessante, passamos a frequentar o sindicato e, na prática, ter um sindicato. Começamos a ganhar força, ganhar corpo. O Nadir era também fabricante de lustres, o forte da vida dele, no início, era como fabricante de lustre. Então, quem coordenava essa setorial era o Jorge Duprat Figueiredo, filho dileto do Nadir. Ele adorava aquele rapaz. O Jorge era uma pessoa de ouro. Era hors-concours... Era gentil, educado, inteligente, tudo de bom.

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Homem bom, mas negociador duro demais O Jorge era também diretor do DESIN, o Departamento Sindical da FIESP. Era ele quem conduzia todas as negociações trabalhistas da FIESP. O chefe do Departamento era um advogado chamado Benjamim Monteiro. Então o Jorge começou a me convidar para participar dessas reuniões do grupo metalúrgico, o Grupo 14 da época. Pela CLT, as atividades econômicas são reunidas em grupos, e o Grupo 14 era na época o dos metalúrgicos. Era um grupo terrível, os metalúrgicos eram os mais organizados, mais fortes. Era um grupo tremendo, dava muito trabalho. Eu cheguei a participar de algumas reuniões dessas. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo era o Joaquinzão (Joaquim dos Santos Andrade) e o presidente da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo era o Argeu Egydio dos Santos. E o segundo do Joaquinzão era um tal de Magessi. Um italianão, fortão. Tinha cara de mafioso. Imagine um mafioso, era aquele cara. A reunião era feita numa sala que tinha lá, uma espécie de sala de aula. Na bancada ficavam os empresários, uma bancada alta, lá embaixo tinha umas cadeiras onde sentavam os metalúrgicos. Eu sentava num cantinho, porque não queria sentar na zona principal, não era diretor nem nada para sentar lá. Sentava num cantinho e ficava olhando. Quem sentava na bancada principal já ficava de cima, olhando a turma lá embaixo. Já tinha aquela coisa de superioridade só pela localização. A sala era grande, toda escura, de jacarandá, dava um tom tenebroso. E ela dava para o fosso interno do edifício, e não para o viaduto, que tinha mais luz. Era uma sala meio acachapante, você chegava lá e se encolhia um pouco para entrar. Aí sentava o Jorge Duprat Figueiredo e do lado dele sentava o Benjamim Monteiro. Na cadeira em frente (embaixo) sentava o Joaquinzão, e aos lados deles o Magessi e o Argeu dos Santos. O Jorge falava: “Vamos dar início à reunião, porque eu tenho muita coisa para fazer... Assim a gente termina logo. O que vocês querem?”.

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O Joaquinzão dizia a pauta e era sempre assim:

― Redução do horário de serviço. ― Negado. Isso não pode. ― Trinta dias de férias ― Isso não pode. E ficava nisso: “Isso não pode... Isso não pode”.

― Tem mais aquele item que no ano passado nós ficamos de discutir agora.

― Aquele ainda não está no tempo. Acabou a reunião. Vamos embora. Até logo. Aquilo me doía na alma, porque eram reivindicações justas que o trabalhador estava fazendo, e eram tratados daquela maneira... Embora eu adorasse o Jorge, que era um sujeito meigo, humano, fundou uma instituição de seguro de acidente no trabalho, deram até o nome dele, Instituto Jorge Duprat Figueiredo. Era um homem que tinha visão, mas na negociação era duro, duro, duro... E eu ficava mal. Os metalúrgicos iam saindo, ainda era época da ditadura, era aquele ambiente... Conversei depois com o Joaquinzão, com o Magessi ― adorei aquele Magessi, gostei do jeitão dele. Eu não chegava a me identificar como sendo do lado patronal, mas ficava com pena de ver aqueles trabalhadores tão maltratados. Bom, eles desciam, iam lá no viaduto, faziam aquelas manifestações, batendo tambores, buzinando, tocando corneta... Faziam passeata, mas ficava tudo por isso mesmo. Assim começou minha vida sindical. Já tinha o grupo de lustreiros, nós tínhamos nossas próprias reivindicações, mas a coisa foi andando e eu participando dessas reuniões do Grupo 14, que eram só uma ou duas vezes por ano. Algumas vezes a coisa endureceu bastante. Eu me lembro de que fiquei

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lá, varei a noite, comendo sanduíche de presunto com queijo, que a situação estava brava, os metalúrgicos estavam agitados.

Como presidente, inovando no sindicato Um belo dia o Nadir Figueiredo resolve se aposentar, e o Jorge Duprat Figueiredo ficaria como presidente do sindicato. Pediram para eu fazer o discurso de despedida do Nadir. Recebi assim, na bucha. Tá perdido, então truco... Fui lá e falei palavras bonitas para o Nadir, outras para o novo presidente. Foi a despedida do Nadir e posse do Jorge Duprat Figueiredo. E ele começou a me puxar para as negociações. Dali a um tempo, acho que um ano e meio, num jantar na casa do Jorge Duprat ― a casa dele era no Morumbi ―, ele teve uma discussão com a filha, que o aborreceu muito, sobre adoção de filhos. Ele não terminou de jantar, subiu, pôs o pijama e depois o encontraram morto na cama. Teve um infarto fulminante e morreu. Ele era novo, com certeza seria presidente da FIESP, tinha cacife para fazer o que quisesse. E era muito querido. Eu iria trabalhar muito com ele. Aí me chamaram na FIESP, e me disseram que o presidente do sindicato seria eu, para cumprir o resto do mandato do Jorge. Isso foi em 1978. Eu assumi o sindicato e comecei a dar tratos à bola. Uma das primeiras coisas que fiz foi em relação ao nome do sindicato. Ele era conhecido como Sindicato de Lâmpadas, e isso me incomodava, eu não era fabricante de lâmpadas. Então comecei uma prática que não tinha na FIESP. Na época era Sindicato de Lâmpadas, Sindicato de Automóveis, sindicato disso, sindicato daquilo... Falei: “Vamos arrumar uma sigla”. E batizei como Sindilux, que era Sindicato da Indústria de Iluminação. Era uma coisa mais moderna. Aí começou todo mundo a fazer a mesma coisa. Virou moda na FIESP. Hoje é tudo assim: Sindipeças, por exemplo. Foi um sopro de modernidade. Fomos tocando e eu fiz um desmembramento dentro do sindicato, para trabalhar com setoriais, porque as realidades eram muito diferentes de um setor para outro. Lâmpadas era uma discussão, lustres era outra, reatores, transformadores era outra, e assim por diante. Fiz vários grupos, coloquei

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coordenadores e a coisa foi crescendo. Daí veio a mudança para a Avenida Paulista. Facilitou muito para mim. Não havia estacionamento na região do viaduto Dona Paulina, onde ficava a antiga sede. Era muito contramão ir à FIESP. Aqui na Paulista é pertinho e tem estacionamento, tem tudo. Nós, usando do prestígio, conseguimos um espaço até bonzinho no prédio. Um espaço ocupado por quatro sindicatos juntos. Eram quatro sindicatos fundados pelo Nadir Figueiredo: o Sindilux, Sindicato de Tratamento de Superfícies, Sindicato de Vidros e Sindicato de Relógios, que não tinha nada a ver com o Nadir, mas mantinha contato conosco. A gente rachava as despesas, como fazemos até hoje, saía barato manter o sindicato lá. Quando o Jorge morreu e eu assumi, uma das primeiras providências foi ir à FIESP, ainda no viaduto Dona Paulina, cumprimentar o presidente, que na época era o Theobaldo De Nigris. Fui lá, entrei na sala do Theobaldo, de jacarandá-da-bahia, tudo lúgubre, tudo escuro, e o Nadir estava lá. Ele me recebeu, me apresentou o Theobaldo De Nigris, tivemos aquela conversinha amena, e o Theobaldo, muito vivo, sindicalista velho, quis me ganhar, assim como o Nadir, que era considerado eminência parda da FIESP. Ele nunca quis ser presidente, mas durante muitos anos era quem mandava ali. Mal fui apresentado pelo Nadir ao Theobaldo, ele já queria pôr a cangalha em mim, claro. Era um voto importante na Federação das Indústrias. Aí eu saí da sala, veio um gordão, Roberto Ferraiollo, que na época era diretor-secretário da FIESP. “Oi... Tudo bem?”, me levou a uma sala e disse: “Assina nosso livro aqui”. “Que livro é esse?” Ele nem respondeu, só dizia: “Assina aqui”. Fui ver, era um livro de adesão para recandidatura do Theobaldo à presidência da FIESP. Eu disse: “Não vou assinar isso. Estou assumindo o Sindicato agora, não sei nem o que os meus associados pensam. Não vou assumir compromisso”. Ficou aquela discussão: “Assina.” “Não assino.” Repetimos isso até que eu o encarei e disse: “O que é, vai querer, pô? Não vou assinar mesmo!”. Um dia, o Nadir me chama para ir à empresa dele, na Avenida Marginal...

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Quando eu era contínuo levava toda correspondência e periódicos do SESI para lá, agora voltava na firma a convite do presidente. Estacionei meu carrinho, ele estava no escritório. O Nadir usava um guarda-pó branco, me atendeu muito bem, começou com aquela conversinha mineira dele: “Sabe, Carlos, a vida dá muitas voltas, você sabe que a FIESP é muito importante, que também tem as grandes empresas...”. Conclusão: ele estava querendo me levar para o seu lado, passando a mão no fio do meu lombo. Foi muito agradável, muito gentil, saiu da sala dele, desceu todas aquelas escadarias, levou-me até o carro, eu o cumprimentei e fui embora. Mas também não assumi compromisso com ele, porque precisava sentir um pouco mais as coisas.

Cala a boca, Theobaldo! O Theobaldo já era tido como um pelegão, não tinha muita gente contente com ele, mas ainda não tinha uma oposição definida. A coisa foi tocando e, por conta do Jorge ter sido diretor do Desin, e da minha permanência lá, da convivência com o Grupo 14, continuei representando o Sindicato com esse grupo, já agora como presidente, com direito a voto. As coisas começaram a se precipitar, o sindicalismo entrou numa fase mais radical. Isso foi em1978, começaram a estourar greves. Quando foi aquela greve de 42 dias, que parou toda a indústria automotiva, ficou uma situação pré-revolucionária. Era tal a pressão, que o Brasil parecia quase à beira de uma guerra. Como eu era da comissão de negociação do Grupo 14, era representante dos patrões perante os operários, tinha uma posição muito delicada, muito importante. Eu me lembro que o ministro Murilo Macedo convocou uma reunião no Ministério do Trabalho, que era na Rua Rego Freitas. A reunião foi em uma sala muito grande, com uma mesa grande. Murilo Macedo sentou na cabeceira; do seu lado direito o Theobaldo De Nigris; de um lado da mesa sentamos os negociadores, eu era o terceiro ou quarto entre eles, e do outro lado todos os presidentes das empresas. Presidente da GM, da Mercedes, da Ford, da Volks... O ministro começou a fazer o discurso dele, de que precisava achar um meio, porque o país poderia entrar em convulsão. Alguns negociadores se pronunciaram, eu mesmo dei algumas opiniões, aí o Theobaldo De Nigris pediu a

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palavra e começou a falar: “Bla-bla-blá, bla-bla-blá...” O ministro se encheu, bateu com a mão no braço dele e falou: “Agora não, agora não, Theobaldo... Agora é coisa séria, temos que tocar o assunto pra frente”. Quer dizer, mandou o presidente da FIESP calar a boca, em público. Aquilo, para mim, foi um tremendo desprestígio. Naquela reunião houve uma proposta dos radicais: “Manda prender esse Lula aí, porque esse cara não tem jeito. Manda prender e dar um cacete nele!”. Eu levantei a mão e falei: “Olha, se vocês prenderem o Lula um dia, ele vai virar um mártir”. Não deu outra. Prenderam por alguns dias. Não deu outra. Acabou virando presidente da República, né? Depois acabou a greve, acertou-se a situação, mas o Lula cresceu e ficou verdadeiramente dono do pedaço. Começou, então, a surgir uma dissidência da Federação dos Metalúrgicos. O pessoal de São Bernardo começou a se articular mais e ter a indústria automotiva toda na mão, o Lula começou a sobressair. Eles acabaram fundando a CUT. Em contrapartida o Joaquinzão e companhia fundaram a Força Sindical. Começou a história das centrais e aumentaram as negociações. Esse foi um período de grande negociação.

Nem tudo era sério Nessas negociações, nesse período em que vivi isso, aconteceram algumas situações interessantes, até hilárias. Quando não havia acordo, a gente ia para a DRT [Delegacia Regional do Trabalho23], e se não desse acordo ia para o Tribunal, que era na Avenida Rio Branco, no centro. Numa noite escura, estava chovendo muito, eu estacionei o carro numa daquelas ruas, ali perto, num estacionamento. Estava com um guarda-chuva, vi um cara tomando aquela chuva toda e chamei: “Ô, meu. Pega carona comigo. Você vai lá pro Tribunal?”. “Vou.” “Então vamos juntos.” Aí ele se gabou: “Eu sou motorista do Argeu!”. Eu falei: “Que legal. Eu também sou diretor da FIESP”. Foi como se o cara tivesse levado uma descarga elétrica. Olhou espantado e saiu correndo no meio da chuva. Ficou com medo de mim, parece que pensando que eu era o “homem mau”. Eu fiquei pensando: “Será que sou leproso?”.

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Agora SRTE (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego).

Não sei se foi nesse mesmo dia que, depois de muita discussão, fomos ao pleno do Tribunal. E nossos advogados, como o Benjamin Monteiro e o Jaime Gamboa, iriam fazer uma sustentação oral. O Tribunal estava lotado, as ruas todas cheias, uma multidão. Eu tive que ficar lá, porque era da comissão de negociação. O Almir Pazzianotto, advogado dos trabalhadores, começou a defesa dele assim: “Eu sei fazer discursos e os faço...”. E falou bonito mesmo. Terminado aquilo, se chegou a um termo de acordo. Então fomos mandados para a redação desse acordo eu, do lado patronal, e o Almir, do lado dos trabalhadores. Já era a CUT, o início da CUT. Nós fomos para uma salinha e o Almir falou que não ia bater à máquina de jeito nenhum, que eu que batesse. “Eu não sei bater à máquina, não gosto...” “Você bate, que eu não bato.” Ficou naquele bate não bate. O Tribunal fez uma interrupção, acho que de 15 minutos, para redigir o acordo e levar para as partes assinarem. “Então, vamos lá, Almir...” Pus o papel e comecei. Nós tínhamos os termos do acordo, mas era preciso discutir a redação. O Almir, advogado experiente, e eu, nada de advogado. Não sei até hoje porque me mandaram fazer aquilo. Talvez porque achavam que eu era o mais letrado. Comecei a bater e discutir com o Almir. Tinha que discutir cada palavra, cada vírgula, porque se desse alguma redação errada, homologada pelo Tribunal e pelas partes, virava lei. Se aquilo fosse mal interpretado, ia gerar milhares de reclamações trabalhistas. Eu sei que a cada pouquinho, vinham anunciar... “Faltam 5 minutos”, e a gente já estava nervoso... “Faltam 4 minutos”... “Faltam 3 minutos”... O bedel do Tribunal ficava pondo pressão. Mas nós conseguimos, levamos lá, assinaram... Tudo numa boa. Houve outros casos pitorescos. Tudo não passava de uma grande encenação, com um grande artista chamado Lula. Eu vi várias cenas dele que revelam um pouco a sua personalidade. Aconteciam aquelas reuniões plenárias, grandes, da FIESP, e as reuniões de “conchavo”. E era nas reuniões pequenas que a gente acertava os pontos dos acordos. Foi feita uma reunião na FIESP, convidamos o Lula. Eu fiquei ali perto, na porta do elevador, para recebê-lo. O Lula chegou, estava dum

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lado dele o Almir Pazzianotto, do outro lado o Walter Barelli, que era do DIEESE, e o Lula puto da vida, dando um esculacho nos dois, xingando. Nem me deram bola. Eu pensei: “Puxa! O cara é um ditador. Ninguém trata as pessoas assim, ainda mais sendo colaboradores seus, advogados”. Aquilo me marcou. Outra cena que eu vivi muito com ele, foi que esses lugares mais públicos a gente estava evitando. Então resolvemos achar um lugar em Moema, num hotelzinho chamado Merack. Era um hotelzinho pequeno, não sei se ainda funciona. A gente ficava lá num quarto. Tinha uma mesa, sentava o Lula, sentava eu, o Roberto Della Manna, o Nildo Mazzini, mais vários trabalhadores. A porta ficava trancada, e tinha a imprensa toda lá fora. A gente ficava lá, contando causo, contando piada... Tinha um garrafão de pinga, um dava um golinho no gargalo aqui, outro dava um golinho lá, o garrafão circulava. Contávamos piada, dávamos uma olhada no relógio... “Ainda é cedo, vamos ficar mais um pouquinho”. Quando chegava lá pelas 3 horas da manhã... “Agora já tá bom, vamos embora, vamos embora...” O Lula abria a porta, corria aquele monte de repórteres pra cima dele, e ele: “Esses filhos da puta desses patrões... A gente fica aqui até essa hora da madrugada e não sai nada, são uns irascíveis, são isso, são aquilo...”. A gente saía também, mas a imprensa nem queria ouvir nada mais. No dia seguinte saíam no jornal aquelas matérias acabando conosco. E era tudo representação. Uma vez foi muito gozado, também. A negociação estava indo, na FIESP, numa reunião plenária, pública, a imprensa esperava lá fora. Na FIESP tem a bancada da presidência ― presidente e vice-presidente ― e depois tem a bancada dos diretores. Para ficar equânime, sentamos os empresários de um lado e os trabalhadores de outro, nessas bancadas, ficando cara a cara as duas representações. E a plenária estava cheia, lotada! Gente em pé, gente sentada no chão. Vai daqui, vai dali, a FIESP se manifestou: “Agora vamos fazer a nossa última proposta do lado patronal. Se quer, quer... Se não quer, não quer. Se não,

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não tem jeito. Essa é a nossa última proposta. Então vai o Uchôa ler”. Li sob um silêncio absoluto na sala. Se uma mosca voasse, você ouvia. Tinha quase quinhentas pessoas lá, mas num silêncio danado. Chegou no fim: “Pois é, senhores, esta é a última proposta, proposta formal, do Grupo 14 da FIESP pra vocês”. A bancada dos trabalhadores levantou toda, foi embora, todo o plenário foi embora também, sumiu todo mundo, sem falar uma palavra. Aí a imprensa caiu matando. Foram lá perguntar o que houve. “Pô, vocês falaram pro cara mais sério da comissão falar, nós acreditamos que aquela era mesmo a última proposta e fomos embora. A FIESP não queria negociar.” Mas era tudo jogo de cena, e nesse jogo de cena os trabalhadores conseguiram muitas coisas, e as empresas também aprenderam algumas coisas.

Aprendendo a negociar Por conta dessas greves e tudo isso, a FIESP resolveu que ninguém conhecia nada de negociação trabalhista. Era todo mundo ignorante, tanto nós como eles. Então resolveu fazer uma comissão, e eu que era diretor da FIESP seria o coordenador, e mais um pessoal de Recursos Humanos, pessoal da Nestlé, de várias empresas. Formamos um grupo, que foi convidado pela OIT, e fomos pros Estados Unidos, hospedados pelo governo americano, estudar a parte sindical, como funcionava lá. Fomos recebidos em Washington, pelo Departamento do Trabalho deles, depois fomos a várias outras cidades, como Pittsburgh, Boston, rodamos quase todos os Estados Unidos, visitando fábricas e outras coisas. Em vários lugares em que fomos aos Estados Unidos, em campos de treinamento, encontramos muitos sindicalistas também, fazendo cursos. Uma coisa que me deixou muito impressionado é que fomos a uma cidadezinha pequena, chamada Lackawanna (na Filadélfia), onde tinha uma siderúrgica. A siderúrgica fechou, e a cidade literalmente acabou. Nós fomos ver todas as ruínas. Uma bruta duma fábrica fechada, e a cidade completamente abandonada! Então, se o sindicalismo for muito radical, que inviabiliza a empresa, quem sofre é a população. Porque o capitalista tira o dinheiro dele e vai embora,

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mas e a população? Fica sem emprego. Destruiu a cidade, virou uma cidade fantasma. Tenho aquela impressão até hoje. Depois nós viajamos para a Europa, fomos ver como era o sistema sindical alemão, o italiano... Fomos estudar em vários países, ver causas. Na Espanha, o que me interessou muito foi o Pacto de Moncloa, que estava saindo e que elevou a Espanha... Em Madri, a Federação das Indústrias tinha um centro pra treinar os empresários a falar. O trabalhador aprende a se postar, a falar diante das câmaras. O empresário acha que não precisa, chega lá e fala um monte de abobrinhas e entrega o ouro para o bandido, porque não sabe se expressar. Eu vi isso lá e propus que se fizesse a mesma coisa aqui, porque dono de empresa não é obrigado a saber falar. Era a preparação dos empresários pra poder se comunicar com a imprensa. Isso existiu um pouquinho aqui, depois se largou. Em Turim também encontramos muitos sindicalistas, ficamos amigos deles. Depois, numa outra ocasião, nós fomos pro Japão, pra ver como funcionava lá. Com tudo isso eu passei a ter uma visão grande, de relações de trabalho, gestão de pessoas... Então a FIESP, os sindicatos patronais e também os laborais foram se profissionalizando. As negociações hoje são num outro nível, já não se fala tanta abobrinha, a negociação é conduzida de outra forma, para que também não inviabilize as empresas. Melhorou muito.

Ameaça de morte Com toda essa vivência sindical, teve um período que foi bastante complicado pra mim. Um dia eu cheguei à fábrica e tinha uma guarnição da polícia militar lá. Perguntei o que era, chamaram o coronel e ele perguntou: “O senhor que é o Carlos Uchôa Fagundes?” “Sou eu mesmo.” “Podemos entrar?” “Pois não, coronel. Às suas ordens.” “Olha, tá um boato aí, precisamos tomar uma providência. O senhor autoriza o meu pessoal a entrar na fábrica?” “À vontade”. Avisei os gerentes e eles entraram na fábrica. Nós tínhamos dois prédios, nessa ocasião. Um mais novo e um mais velho. Vasculharam tudo. Depois ficavam sempre dois caras do meu lado. “Não bebi nem nada, pra ser acom-

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panhado por dois sordado...” 24 Até pra eu ir ao banheiro eles iam juntos. Aí o coronel me falou que eu estava jurado de morte, que os caras iam me matar. Matar nada! Mas me fizeram uma proteção. Fizeram isso pra me proteger dessas ameaças. Então, às vezes tinha parte de jogo duro nesse negócio, e às vezes não tinha... Na hora da briga, o cara pode ter falado: “Eu mato aquele Uchôa desgraçado”, mas não sei se o serviço de informação chegou a acreditar que aquilo era uma ameaça pra valer e veio me proteger, no que eu fiquei muito contente.

Montadoras pra lá, lustres pra cá Mais pra frente, o Almir Pazzianotto foi ministro do Trabalho, reformulou o Grupo 14 e fez o Grupo 19, atualizando algumas coisas... No Grupo 14 havia sindicatos que nem existiam mais. Mas o número de sindicatos conservou mesmo, 24 sindicatos patronais, que compunham o Grupo 14 e agora o 19. Nessas reformulações, com base em muitas coisas que eu tinha visto no exterior, comecei a propor no próprio Grupo 19 que a gente fizesse também certa divisão interna e formasse alguns grupos dentro do Grupo 19, sem mudar a lei nem nada, de modo que a gente negociasse mais ou menos em separado, porque nós íamos sempre mais ou menos a reboque da indústria automotiva. A indústria automotiva tem uma incidência de mão de obra entre 3 e 7% dos custos de produção. Na verdade ela é uma montadora, pega tudo pronto e só monta. Na fábrica de lustres, a mão de obra representa mais de 45%. Pra você dar 10% de aumento na indústria automotiva, vai impactar o quê? Meio por cento no custo. Mas 10% no meu setor vão impactar 5% no custo. É muita diferença! Eles davam lá e a gente tinha que seguir aqui. Então houve um rearranjo natural daqueles sindicatos. Passou a ter outra organização. Nós ficamos com os sindicatos da indústria de pequeno porte, com maior incidência de mão de obra, que passou a se chamar Grupo 19-10

A propósito disso, há uma música, a Moda da Pinga, cantada pela Inezita Barroso: “Eu bebi demais e fiquei mamada (...) e fui embora de braço dado, de braço dado com dois sordado, oi ai”.

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da FIESP. Eu fui, e acho que ainda sou coordenador do grupo até hoje, nas negociações.

Vitória na FIESP, represália na fábrica Quando foi daquela reunião com o Ministério, que o ministro mandou o Theobaldo calar a boca, aquilo ficou uma indigestão aqui dentro. Então, no Grupo 14 nós éramos 24 sindicatos. Um dia fizemos uma reunião, o Luiz Eulálio Bueno Vidigal, o Roberto Della Manna e eu, lá no nosso sindicato. Nós comentamos naquele dia que não dava mais para a FIESP ser representada pelo Theobaldo De Nigris. Existiam entre nós lideranças jovens ― o Luiz Eulálio, eu, o próprio Roberto Della Manna, o Cláudio Bardella, o Paulo Francini, o Nildo Mazzini, mais uma molecada que estava vindo ― e começamos a articular. O Luiz Eulálio era bom de grana, tinha a Cobrasma e tinha o Cláudio Bardella. Eu, lá no Grupo 14, comecei a cooptar os sindicatos, e formamos uma chapa de oposição. Fomos para a eleição e deu empate, 50 a 50. Dos 101 com direito a voto, um não foi votar. Dali uns dias, foi para o segundo turno e nós ganhamos, 51 a 50. Estava o Luiz Eulálio aqui, o Roberto Della Manna ali, e eu atrás do Luiz Eulálio. Quando deu 51, nós pulamos e nos abraçamos. Na primeira cadeira do outro lado, estavam o José Ermírio de Moraes e o Theobaldo De Nigris. O Theobaldo começou a contestar: “Quero recontagem, e tal”. Quem deu um chega pra lá nele foi o José Ermírio: “Fica quieto, Theobaldo. Eles ganharam a eleição e está ganho”. Foi lá e cumprimentou o Luiz Eulálio, cumprimentou a todos. Foi macho: “Vai querer começar a badernar aqui? Nós temos mais é que pensar em ficar juntos”, aí veio aquele papo de que a indústria é uma só, que tem que ficar junto. Depois da eleição, o meu principal fornecedor era a Multividro, que era uma empresa do Nadir Figueiredo. Pelo sim, pelo não, passei a não mais receber vidro da Multividro. Simplesmente cancelaram meus pedidos, não forneceram mais. Falei: “É assim? Tá bom! Mas isso não vai me derrubar, não!”.

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Mas 80% da minha produção levava vidro. Comecei a avaliar o estoque que eu tinha, em alguns casos de entrega urgente eu pedia pra um colega meu comprar da Multividro e passar pra mim, e fui mudando completamente a linha, tirei de linha todos os vidros que eram da Multividro. Alguns anos depois, fechou a Multividro. Que eles usaram isso contra mim, usaram. É um vale-tudo! No dia da primeira eleição, vi um cara comprar o voto de outro na fila: “Se você votar com a gente, pode passar lá amanhã e pegar aquele pedido de tal coisa”. Era um pedido de dois milhões em moeda da época. O cara votou neles.

Abilux: liberdade sem limites Quando começamos aqueles grupos setoriais no sindicato, que não era a estrutura do sindicato, eu achei que o sindicato, para funcionar, tinha que ter uma carta sindical, que é dada pelo Ministério do Trabalho. Portanto ele sofre fiscalização do Ministério do Trabalho, do Tribunal de Contas etc. Se eu falar uma abobrinha, como presidente do sindicato, o Ministério do Trabalho pode mandar um interventor, e acabou o sindicato ou acabou a minha carreira. Você não pode ter uma atuação ilimitada, é uma atuação um pouco vigiada. Eu achei que nós tínhamos que fazer uma sociedade civil sem fins lucrativos, mas que pudesse falar o que quisesse. Aí fundei, com amigos, a Abilux, que é a Associação Brasileira da Indústria de Iluminação, que como entidade civil fala o que quer, não tem problema nenhum. Se o governo quiser fechar, não tem como. Pode processar, mas e daí? Mas não pode fechar, embargar. Eu posso falar politicamente o que quiser, por isso é que nós crescemos. Nós falamos politicamente, tomamos posição. Algumas posições foram muito delicadas, mas nós assumimos.

Sem querer, porta-voz da FIESP Na FIESP, tem cargo eletivo, que é o cargo na chapa, e tem um outro cargo que a gente pode ter ou não, dos diretores executivos, que são quem toca as

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coisas. Eu sempre tive os dois. Um dos meus pedidos para o Luiz Eulálio era fazer um departamento da micro e pequena empresa. A FIESP tinha aquela pecha de só representar os grandes, não representava os pequenos, era o que diziam na praça. Era um pouco assim. Eu atuava nessa área, primeiramente tive um departamento que cuidava de documentação, essas coisas todas... Mas depois eu peguei o departamento chamado Decad (Departamento de Documentação, Estatística, Cadastro e Informações Industriais), que cuidava de cadastros, estatística e informações industriais, e nesse departamento eu acabei bolando uma pesquisa de nível de emprego. Essa pesquisa passou a ser semanal. Como naquele tempo o crítico, crítico, crítico era o nível de emprego, todo mundo queria saber como estava o emprego na indústria paulista, que era um indicador econômico muito importante pra nós, pro governo, pra todo mundo. O sistema que nós criamos era muito ágil, muito rápido para captar as informações. Todas as segundas-feiras eu apresentava na diretoria a pesquisa sobre o nível de empregos. O presidente, que era o Mário Amato, designava um diretor pra falar ou ele mesmo falava. Como essa pesquisa era um negócio meio especializado, ele não entendia muito do assunto e pedia pra eu falar. Então, às segundas-feiras eu dava uma entrevista coletiva pra toda a imprensa de São Paulo ― todas as rádios, televisões, jornais, revistas, periódicos, imprensa estrangeira etc. Eu falava da oscilação do nível de empregos. Você sabe como é repórter. “Por que caiu o emprego?”. Eu tinha que arrumar alguma justificativa, então acabava dando alguma informação econômica, que eu nem sei se estava muito capacitado pra falar, mas usava o bom senso, com parcimônia. Então fazia uma pequena análise econômica. Com isso eu fiquei muito conhecido da imprensa, muito mesmo, tanto é que eu tinha uma abertura grande...

Mário Amato e alguns casos folclóricos Teve coisas que o Mário Amato disse que se transformaram em folclore. Eu estava junto com ele quando fez algumas declarações. Uma delas foi numa entrevista dada na época do segundo turno da eleição para presidente, entre Collor e Lula. A repórter lembrou a Revolução dos Cravos, ocorrida anos

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antes em Portugal. Ela perguntou: “Senhor Mário, com a Revolução dos Cravos em Portugal, saíram de lá 80 mil empresários...”. Ele vacilou e ela continuou: “E aqui, como vai ser se o Lula ganhar?”. Ele não tinha muito que falar: “Vai ser muito mais, porque o país é muito maior”. Aí apareceu aquela história de que 800 mil empresários sairiam do país. Ele não falou um número, a menina é que jogou um número na boca dele, e ele disse só: “Ah... pode ser...”. Foi isso. Outra frase que ele falou também foi sobre a Dorothea Werneck, que era ministra do Trabalho. A gente gostava da Dorothea, ela ligava sempre pra mim. Às vezes ligava até aqui em casa: “Uchôa, como é que tá aí?”. O Mário Amato fez elogios falou, mas falou: “Apesar dela ser mulher...”.

Duas coisas que eu não repetiria Eu cometi dois erros com a imprensa. Um erro foi que o Salvador Firace teve uma briga muito grande... quer dizer, briga não. A Isabel era uma jornalista muito boa da Folha de S. Paulo, mas era daquelas repórteres meio “cri-cri”. Eu não sei o que ela fez que encheu tanto o Salvador, que ele deu um ‘esbrega’ nela. Aí ela quis mover um processo contra ele, disse que ele estava agredindo a imprensa. Aí eu fui falar com a Isabel pra acalmar a situação e acabou não dando em nada, mas ficou uma situação chata. A segunda situação chata foi em relação à sucessão da FIESP. O candidato natural seria o Carlos Eduardo Moreira Ferreira. Mas a Sônia Racy confundiu dois “Carlos Eduardos”: “Finalmente, luz iluminando a FIESP. Carlos Eduardo Uchôa Fagundes vai ser presidente”. Pedi ao meu assessor que pedisse pra ela fazer uma retratação. Foi a pior coisa que fiz na minha vida. Não devia ter feito nada. A Sônia nunca mais me citou, esqueceu-se de mim completamente, sumiu, nunca mais tive acesso. Mas deu uma notinha.

Valeu a pena? Minhas viagens como sindicalista e dirigente da FIESP não atrapalhavam o funcionamento da fábrica. Eram viagens de uma semana, dez dias. Eu deixava tudo certinho, e tinha gerente de confiança, e a Laura assinava pela firma, também.

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Mas quando perguntam se valeu a pena fazer tudo isso, se eu não poderia me dedicar mais à fábrica, eu posso dizer uma coisa: nunca tirei proveito dessa militância. Fui muito “Caxias”, muito sério. Se não fosse por essa militância, que praticamente não me deu nada, eu teria muito mais tempo para me dedicar ao meu negócio. Mas por outro lado, ela me fez aguentar ficar num negocinho pequenininho por muitos anos. Era uma espécie de válvula de escape. Eu tinha mais energia para dar, e só uma fabriquinha de lustres não tinha como me realizar ali. Então, nesse aspecto, essa militância toda fez a minha vida mais feliz, eu cresci mais.

Coincidências Vale a pena aqui algumas coincidências que fui registrando na vida. Quando fui contínuo do SESI, um menino ainda (naquele tempo não tinha office-boy), trabalhei no D.O.S. ― Departamento de Orientação Social ―, cujo diretor era o doutor Saad, um homem prestigiado lá, muito importante. A chefa do departamento era a doutora Carolina e, o sub-chefe, o doutor Antônio Paulo. Mais tarde, quando me tornei vice-presidente da FIESP, o doutor Saad foi assessor nosso lá. Ele tinha sido meu diretor e depois eu acabei sendo “chefe” dele. Convidei ainda o doutor Antônio Paulo para ser chefe do DEMPI (Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria da FIESP), do qual eu era o diretor25. Ele tinha sido meu chefe e, depois, virei chefe dele. Também há uma história curiosa com o Morvan Dias de Figueiredo. Quando eu estava na faculdade, frequentava muito o centro acadêmico, tinha ligação com os diretores. E o nome do centro acadêmico era Morvan Dias de Figueiredo. Depois, fui seu sucessor no Sindilux. São umas coincidências a que a vida vai nos dando, que acho interessantes. As atividades que eu tive lá neste centro acadêmico foram muito importantes, porque foi em 1962/63, e naquela ocasião havia muitas reuniões da UNE, aquela pauleira toda. Como a gente era de uma universidade católica,

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A experiência no Dempi é tema do próximo capítulo.

não era nem de esquerda nem de direita, era de centro. Mas os comunistas estavam muito fortes. Então, muitas vezes eu participei daqueles comícios do Sindicato dos Metalúrgicos, na Rua do Carmo, ficava lá até de madrugada, eles fazendo discursos. A técnica deles era falar, falar, falar. Quando o plenário estava vazio, colocavam em votação. Aí, quando iam pôr em votação, eu chamava os colegas para não deixar eles tomarem conta de tudo. Foi uma atividade estudantil bastante interessante. E nessa época também estávamos trabalhando muito para o reconhecimento da profissão, porque administrador de empresas não era profissional reconhecido. Fizemos um trabalho muito grande junto ao Estado, à mídia, para conseguir o reconhecimento da profissão. O meu diploma foi um dos primeiros a serem reconhecidos pelo MEC, em 1964. Depois, mais tarde, acabei sendo presidente do Conselho Regional de Administração, que foi criado em função dessa lei que nós ajudamos a fazer, na época da faculdade.

Diploma universitário: uma vitória Finalmente, terminei a faculdade. A festa de formatura foi no restaurante Fasano, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Foi uma festa muito bonita e, enquanto eu estava dançando com a minha mulher, o sutiã dela começou a ficar molhado, porque estava na hora de amamentar meu filho, Carlos Eduardo. Colocamos um lenço em cima de seu vestido e dançamos mais um pouco antes de irmos para casa. A colação de grau foi no Teatro Municipal de São Paulo, na Praça Ramos de Azevedo. Eu estava junto com os meus colegas no palco, suando em bicas debaixo da minha beca negra, por causa do calor dos holofotes. Eu olhava para a plateia, procurando a minha mãe. Quando a encontrei, nossos olhos se encontraram e eu percebi que ela estava muito emocionada, muito orgulhosa, por ter conseguido formar um filho no curso superior, apesar de todas as dificuldades. Quando fui receber o canudo, meus olhos se encheram de lágrimas e meu peito se estufou de contentamento, de satisfação.

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O paraninfo foi o então presidente da Federação e do Centro das Indústrias, doutor Raphael de Souza Noschese, que fez um lindo discurso, adrede preparado pela sua assessoria. Ele se tornou muito amigo nosso, porque era presidente de um Sindicato que compunha o Grupo 14 da Fiesp, depois Grupo 19. Ele sempre nos prestigiou, nos apoiou muito, eu e o Roberto Della Manna, que éramos os coordenadores, nas decisões difíceis que tínhamos que tomar. Raphael foi sempre um grande companheiro e um excelente amigo.

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13. Militância pelo empreendedorismo e a ciência e tecnologia Você sabe, Bilé, que nessas andanças e articulações todas, cheguei a Brasília, acabei tomando parte de um momento importante da vida política brasileira, durante o governo de José Sarney? Essas relações se iniciaram quando Mário Amato foi presidente da FIESP26. Ele teve ideia de promover a formação de uma reserva intelectual para o País. O Brasil vinha crescendo e não estava formando pessoas de altíssimo nível para ocupar cargos de destaque, nos Ministérios, secretarias etc. As universidades acabavam suprindo um pouco essa parte, mas não tinham representação do setor empresarial, produtivo, ou seja, do setor da indústria mais especificamente. Eram poucos que chegavam a isso. Então se imaginou na FIESP estruturar um curso, e isso coube ao nosso Instituto Roberto Simonsen, que havia sido criado para isso havia muitos anos na própria FIESP. Nesse tempo, Ruy Altenfelder Silva era o presidente do Instituto. Eu era diretor da FIESP e fiquei muito entusiasmado com o projeto. Aprovei-o in totum, e fui muito incentivador dele. Cada vez que aparecia a discussão na plenária da FIESP, eu era sempre um dos mais calorosos defensores do curso. Era uma coisa maravilhosa, ele foi montado junto da Escola Politécnica de São Paulo, cujo diretor era o Décio de Zagottis. Décio foi um dos maiores calculistas de concreto do mundo, foi ele quem calculou a barragem de Itaipu, por exemplo, era um homem respeitadíssimo.

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De 1986 a 1992.

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O curso foi estruturado na Poli, mas apresentava uma visão bem ampla. A ideia básica era a seguinte: a gente se forma na faculdade, vai para as empresas, para o trabalho, e nunca mais volta pra universidade. Mas as coisas continuam. A universidade continua, o saber continua, a ampliação da tecnologia vai caminhando e a gente se foca mais naquilo que é imediato no nosso negócio. Então, esse curso teria o condão de abrir a ideia das pessoas, dando a elas uma visão mais ampla, global e atualizada dos problemas mundiais. Como eu era um dos incentivadores, me senti na obrigação de frequentar o curso. “Pô, você fala que é bonito, isso e aquilo, mas você mesmo não vai fazer?” E fui fazer. Era um curso noturno, na Politécnica, na USP, e foi um dos momentos mais felizes da minha vida, porque havia ali a crème de la crème. Os maiores representantes do pensamento brasileiro estavam lá ministrando as exposições. Havia nomes como Ester de Figueiredo Ferraz, Rui Leme, Décio de Zagottis, Celso Laffer, Jacques Marcovitch, José Pastore, entre muitos outros, só gente de altíssimo nível. O curso durou um ano e meio, equivaleria hoje a um pós-doutorado. Durante o curso, os temas eram propostos e nós debatíamos. Eu, normalmente, participava dos debates, com as minhas ideias, era muito interessado em saber, em conhecer mais. O professor Brás Araújo, um mineirinho de Sacramento, um homem especial, estruturava tudo isso. Ele era muito ativo, muito bacana. No curso tinha muitos empresários grandes, famosos. Eu ia para a Poli com uma boa vontade danada! E as aulas passavam sem eu perceber. O saber que estavam nos passando era tanto que a gente ficava inebriado. Aconteceram algumas coisas interessantes. Uma dessas palestras foi ministrada por um professor, o Hélio, mas do qual prefiro não citar o sobrenome. Ele entrou na sala, que era um anfiteatro como se fosse um palco grande, iluminado, e as cadeiras eram inclinadas para cima. Eu sempre sentei no meio, nunca muito na frente nem muito atrás. Ele falou: “Eu vou falar pra vocês... O tema hoje é sindicalismo na América do Norte, sindicalismo nos Estados Unidos. Alguém de vocês conhece alguma coisa sobre isso?”. Eu, modestamente, levantei a mão, e ele perguntou: “O que o senhor conhece sobre sindicalismo na América do Norte?”.

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Eu falei: “Basicamente tudo”. “Ah, então o senhor vem aqui na frente dar aula que eu...” E eu respondi: “O senhor entendeu mal. O que eu quis falar é que sou um expert no assunto e, ao contrário, vim pra aula com interesse de ver se me falta algum conhecimento a mais. Sei que o senhor é competente e estou interessado no assunto”. No final do aula, ele me perguntou: “E aí, faltou alguma coisa?”. “Com todo respeito, professor, o senhor não falou das grandes centrais americanas, entre elas a AFL-CIO27, que é a base do sindicalismo”. Quer dizer, na verdade eu estava dizendo a ele que ele não tinha falado o essencial. “Ah, tá bom, tá bom...”. Aí falou algumas coisas e encerrou a aula. Fui então conversar com ele: “Me desculpe, não estou querendo bancar o fresco, é que eu fiz um curso nos Estados Unidos e estou muito a par disso, que é um pouco meu dever de ofício na própria FIESP”. “Tá bom... tá bom, tudo bem.” E assim encerrou o assunto. Mas com essa intervenção e várias outras que eu fiz, tornei-me um dos alunos mais considerados do curso. Passado um tempo, fui procurado pelo professor Brás: “O doutor Décio quer falar contigo, dá pro senhor ir até Brasília?”. Eu fui, ele estava no gabinete e falou: “Olha, Uchôa, havia um compromisso antigo do presidente José Sarney de remontar o Ministério da Ciência e Tecnologia, e a comunidade científica tem forçado muito. Então, o que o presidente resolveu foi criar primeiro uma Secretaria da Ciência e Tecnologia, da Presidência da República. Isso nos daria a vantagem de a gente poder requisitar funcionários de vários outros ministérios, quem a gente quiser.

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American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations (AFL–CIO).

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Isso com status de ministro. Eu sei que você é administrador, tem experiência, e nós estamos montando a Secretaria, que depois vai se transformar em Ministério, e preciso da sua experiência”. Ele sabia que eu tinha experiência de administrador. Falei: “Eu poderia responder agora, mas gostaria de consultar minha mulher, minha família, porque vai ser uma alteração grande na minha vida”. “Tudo bem. Então você me liga amanhã.” Vim pra casa, conversei bem com a Laura e meus filhos. Era uma oportunidade que eu não queria perder, porque era uma oportunidade de servir ao meu País. Isso foi um ano e pouco antes do fim do governo Sarney28. Eu fiquei no Ministério um ano e meio, mais ou menos, no cargo de secretário de articulação com o setor produtivo.

Uma missão em Brasília: suporte à tecnologia Fui pra Brasília, mas pensei: “Não vou ficar aqui em definitivo, então não vou querer casa funcional”, a qual eu tinha direito. O Décio também não quis casa. Ficamos em hotéis separados. Eu ficava no hotel, deixava minha mala, e voltava. Na sexta à noite vinha a São Paulo, e no domingo à noite, ou no primeiro voo de segunda, voltava a Brasília. Aí a trabalheira era imensa, trabalhei muito no Ministério, porque tinha uma atividade a ser feita, tinha toda a formação das equipes, requisitar funcionários, ligar para os outros ministros... E havia as atividades de rotina do próprio Ministério. O Décio

Seu mandato foi de 21 de abril de 1985 a 14 de março de 1990. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) foi criado pelo Decreto 91.146, em 15 de março de 1985, e segundo informações oficiais do órgão, a medida concretizava “o compromisso do presidente Tancredo Neves com a comunidade científica nacional”. Mas, segundo Carlos Uchôa, o órgão ainda não estava estruturado quando chegou o convite para que fosse secretário de articulação de uma nova secretaria da Presidência da República, que depois se transformaria, no futuro, no próprio Ministério. Assim, em maio de 1989, Uchôa foi nomeado pelo presidente José Sarney para o cargo de Secretário da Secretaria de Articulação com o Setor Produtivo, na Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia, depois transformada em Ministério da Ciência e Tecnologia, cargo que ocupou até 15 de março de 1990. 28

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falou pra mim: “Toda a parte produtiva você cuida. Eu não quero saber disso aí”. Naquele tempo, o governo federal instituíra o CDE ― Conselho de Desenvolvimento Econômico, do qual eu participava representando o ministro, o Ministério da Ciência e Tecnologia. O presidente era o Roberto Cardoso Alves, o Robertão. Eu sentava ao lado dele, e ao meu lado sentava o Maílson da Nóbrega, o Antônio Carlos Magalhães, toda aquela turma conhecida dos ministérios. Eu tinha sempre uma voz muito ativa no CDE. Eu atuava, na verdade, como um secretário executivo do Ministério. E estava subordinada à minha gestão a FINEP29, um banco de financiamento de estudos, além do CNPq30, que paga as bolsas dos pesquisadores das universidades brasileiras. A nossa atitude, ou seja, o nosso ideal ― meu, do Décio, do professor Brás ―, era o de dar ênfase e mais apoio à tecnologia, porque o saber pelo saber não leva a nada. O saber só tem valor quando se transforma em bens para a comunidade, para a população. Esta área sempre foi muito discriminada. Os nossos institutos, nossos cientistas, sempre reclamaram de falta de verba, e com muita razão. Então, queriam pegar todas as verbas para a ciência pura, e não para a ciência aplicada, que seria a tecnologia. Trabalhamos para mudar um pouco essa mentalidade, porque o pesquisador que fica trancado num laboratório, pesquisando, pesquisando, pesquisando, e descobre alguma coisa importante, e isso não será útil pra humanidade, não valerá nada, se permanecer apenas lá! Essa era a nossa ideia. Lembro-me uma vez que convoquei uma reunião de todo o CNPq, vieram todos, era numa mesa grande, e eu estava na cabeceira, na condição de ministro. De um lado sentou o Clodowaldo Pavan, que presidia o Conselho e também da SBPC31. Ele era um homem muito político, muito falante. Eu expus nossa ideia e quiseram me matar. Eu saí vivo daquela reunião, mas corri 29

Financiadora de Estudos e Projetos.

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Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

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Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

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risco de vida. Eles entendiam que estávamos falando em tirar dinheiro da pesquisa. Mas não era isso, estávamos dizendo que tínhamos que acrescentar mais dinheiro para fazer também o desenvolvimento tecnológico. Mas isso foi se acertando. Depois, na própria Finep, começamos a dar outra orientação, de fazer projetos de tecnologia, não só de ciência. Isso foi uma atividade importante. Outra atividade que promovemos, e que eu acho importante, é que o Brasil precisava comprar um computador de grande porte, especialmente para previsão climática e atmosférica, e as grandes potências não queriam deixar de forma nenhuma. Pois com esse computador, teoricamente, poderíamos até fazer a bomba atômica. E isso era vetado internacionalmente. Nós tivemos que fazer uma tremenda de uma triangulação, um negócio como se fosse um esquema de 007, para comprar esse computador. Compramos e instalamos no INPE32, que também era subordinado a nós. Está instalado lá até hoje, funcionando, e com isso nós melhoramos muito as nossas previsões do tempo. Foi um grande avanço, especialmente para a nossa agropecuária, a segurança de voo, foi fantástico. Na verdade, nós não fizemos a bomba porque não era nossa intenção fazer. Depois isso repercutiu bem nos fóruns internacionais. Ajudou o Brasil no conceito mundial.

O apoio também à indústria nacional No Ministério, eu participava também das reuniões dos secretários, onde eram discutidos e aprovados sistemas para ir para o plenário do CDE. Eu lembro de que estava numa dessas reuniões e entrou um projeto da Phillips, querendo fazer tubos de cinescópios no Brasil. Era um projeto bem embasado, a fábrica seria em Manaus. Quando o projeto entrou em pauta, um funcionário do Ministério da Fazenda, que nem se sentava à mesa, saiu correndo e foi telefonar. Eu percebi. Os demais começaram a discutir e de repente chegou um cara esbaforido, do Ministério da Fazenda, e começou a falar: “Como eu não conheço esse projeto vou pedir vistas”.

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Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, localizado em São José dos Campos.

Pedir vistas significava: “Vamos embarrigar porque eu não quero que a Phillips tenha esse projeto aprovado”. Ele era contra ou tinha outros interesses. Aí falei: “Olha, colega, o senhor pode pedir vistas, isso é um direito de qualquer um dos nossos conselheiros. Só que eu acho que é um absurdo, uma falta de consideração, o senhor vir aqui na nossa mesa dizer que não conhece esse projeto que está circulando há tanto tempo e, por isso, vai pedir... Isso é uma demonstração de incapacidade”. Desandei com o cara, ele foi se abaixando e disse: “Então reconsidero”. Tinham esses lobbies fortes. Se tivéssemos pessoas desinteressadas desse tipo de coisa participando das reuniões, agilizaríamos bem mais os processos. Fizemos, na verdade, um trabalho muito grande para salvar toda a indústria têxtil naquele tempo. Ela estava toda sucateada e organizamos um programa aprovado pelo CDE, para rejuvenescimento da indústria têxtil, com instalação de teares a jato, mais modernos etc. Precisávamos facilitar a permissão da importação desses equipamentos, obviamente sem pagar tanto. A importação era dificílima, não se podia importar nada! Tinha que liberar. Aí conseguimos uma redução de tarifas, taxas, para poder fazer isso. Talvez aí entrasse o BNDS33 fazendo financiamento, mas o importante era a permissão. Com isso, a indústria tomou fôlego e foi competitiva durante muito tempo. Hoje está com problemas com chineses, mas isso é outra coisa.

No balanço final, um bom trabalho No Ministério eu viajava muito para outros Estados, fazendo conferências, reuniões nas universidades. Depois, quando o presidente Sarney assinou decreto transformando a Secretaria da Presidência da República em Ministério, ele passou a ser o Ministério da Ciência e Tecnologia, que existe até hoje, e a estrutura dele é mais ou menos a que montamos. Então, nós fizemos um bom trabalho. 33

Hoje BNDES.

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Quando estava terminando o mandato do presidente Sarney, eu procurei o Décio de Zagottis e falei: “O nosso trato é que eu ficaria até o fim do mandato. Como ele está terminando, eu quero minha exoneração”. “Ah, espera mais um dia, vai virar o governo, vamos ver o que vem aí”, disse o Zagottis. “Não, ministro. Eu não vou continuar no governo. Pra mim, essa estada aqui foi extremamente difícil. A fábrica ficou um pouco largada, acumularam-se algumas dívidas.” Demorei uns 12 ou 15 anos para pagar as dívidas que se acumularam na fábrica em São Paulo, durante o período em que estive em Brasília, e deixar tudo em ordem de novo. Foi um sacrifício imenso da minha parte, da minha família. “Então eu não quero continuar aqui. Vou ficar aí como funcionário?” Saiu no Diário Oficial minha exoneração a pedido, e com isso eu não tive indenização, aviso prévio etc. Eu também não estava interessado em indenização, o que interessava é que eu estava com o dever cumprido. Até hoje eu tenho amigos lá. Cada vez que eles vêm aqui ou a gente vai lá, eles fazem muita festa, têm muita admiração pela nossa passagem por lá.

Resistência aos lobbies, às hierarquias Essa foi uma experiência de ver o governo por dentro, que me serviu também bastante. Muitas vezes tinha contato com o próprio Sarney, porque eu estava um cargo abaixo do ministro e, quando ele viajava, eu é que ficava tomando conta. Existe toda uma história sobre o presidente Sarney, mas pessoalmente ele transmite uma aura de força, de seriedade, de idealismo, muito grande. Enquanto estive no Ministério, não vi nada que pudesse dizer dele, que tenha sido desonesto ou feito algo de má forma. Ao contrário, eu tive várias vezes que expulsar lobbistas do Ministério. Eles enchem tanto o saco. Tive que chamar segurança para pôr cara pra fora. Os funcionários eram assediados, então eu tive que proibir a entrada de lobbista no Ministério, mas nunca soube, nunca vi nada errado nesse tempo que estive dentro do governo. Às vezes tem jantares, festas, que a gente vai e acaba conhecendo todo mundo.

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Engraçado é que havia lá um sentido de hierarquia muito forte e quebrei um pouco isso. Em Brasília, nos ministérios, tudo com D.A.S., a escala dos D.A.S. no meu tempo era até 5. Nós éramos D.A.S. 4, havia os que eram 3. E o D.A.S. 4 só fala com D.A.S. 4; D.A.S. 5 só fala com D.A.S. 5; mas eu falava com o ministro, falava com o Robertão, com o Maílson, ligava para eles e eles me atendiam. Em Brasília, até hoje tem essa hierarquia. Uma coisa de louco, que precisa ser mudado, é preciso desenvolver ali espírito de equipe, que tínhamos no Ministério. Minha porta nunca foi fechada, estava sempre aberta. Eu não tenho nada pra esconder! Mas era uma trabalheira intensa. Dizer que funcionário não trabalha, não é verdade. Eu entrava às 7 e meia da manhã e saía às 10 e meia ou 11 horas da noite. Tem muito trabalho! Isso se você quiser pegar, naturalmente. Se não quiser vai embananar, né?

Corrupção Os funcionários bons se pelam de medo de entrar em mutretas, têm horror a isso. Eu acho que muitos são 100% honestos, corretos. A equipe que eu reuni no Ministério era fabulosa. Tinha comunista, mas comunista mesmo, vermelhão! Não importa a sua convicção, o que importa é que seus conhecimentos eram bons para mim. Eles somaram com a gente, ficou legal. Sobre a corrupção, o que posso dizer é que existem os funcionários de carreira, esses são 100% bons. Mas de outro lado cada ministro, cada deputado, tem direito de levar assessores especiais. E muitos desses assessores nem saem de casa. Moram nos seus Estados e ficam lá mesmo. Então é mamata. Mas é um direito que o político tem. Veja, com 40 ministérios, cada um com seus assessores... Em nosso caso, o professor Décio levou apenas a mim, o Brás e a secretária dele. Só três de São Paulo. E era cargo efetivo, para trabalhar, não era para ficar passeando, não! Nós levamos o Ministério nas costas. Era outra visão. Poderia ter levado um entourage, que é o que muitos costumam fazer, mas nós não.

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Experiência com as incubadoras Como já contei antes, houve uma época em que fui oposição à candidatura do Theobaldo De Nigris à presidência da FIESP34. Alguns de nós, presidentes de sindicatos de empresas, formamos um compromisso com o Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, de formar um departamento das micros e pequenas empresas, porque a FIESP era tida só como defensora das grandes empresas. Isso ficou em pauta. Elegemos o Luís Eulálio para a presidência35 em oposição ao Theobaldo, tornei-me então tesoureiro na primeira nova gestão, depois, na segunda, fui diretor de outros departamentos. Aí fundamos o Departamento da Micro, Pequena e Média Indústria da FIESP (DEMPI). Juntaram dois ou três departamentos e fiquei como diretor titular. Esse departamento tinha como função treinar, assessorar e dar consultoria especialmente às pequenas empresas. Tínhamos assessores, consultores, que visitavam as empresas. Então desenvolvi uma ideia que ouvira pela primeira vez no curso da Poli, das incubadoras. Era uma coisa muito inovadora naquele tempo. Resolvemos fazer uma experiência piloto, foi montada uma primeira incubadora em Itu, depois começamos a fazer um trabalho na Capital e a expandi-las também ao Interior do Estado. O que é a incubadora de empresas? Na verdade, é conseguir um espaço em possa se instalar empresas nascentes, em nosso caso, fábricas, porque representávamos e tínhamos que privilegiar a indústria. Existem hoje incubadoras de comércio, de serviços, de artes, o conceito se ampliou bastante. Nosso trabalho era conseguir um espaço físico e adaptá-lo para receber pequenas empresas. Normalmente, conseguíamos esses espaços junto a prefeituras, a clubes de serviços, junto a parceiros locais. Muitas dessas incubadoras foram conseguidas das estações abandonadas de estradas de ferro, com seus galpões enormes, largados. Então, dávamos um trato naquilo, a prefeitura entrava com mão de obra. Uma das experiências mais interessantes foi a

34 O período era final dos anos 70, começo dos 80, época de emergência de um novo sindicalismo de trabalhadores no País, especialmente do segmento metalúrgico, químico e bancário. 35

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Que ficou à frente da entidade de 1980 a 1986.

incubadora de Garça. O prefeito era o José Alcides Faneco, um sujeito muito ágil, esperto, e resolvemos fazer a incubadora lá. Sua estação, encravada dentro da cidade, estava toda abandonada, era um prédio grande, da Fepasa36. Tivemos que fazer um comodato com a estatal para uso desse prédio. A prefeitura estava interessada nisso, porque o prédio era então um covil de bandidos, mendigos, indigentes, tudo no meio da cidade, cheio de mato. O prefeito deu uma reformada no prédio, asfaltou em volta, ajardinou, ficou um lugarzinho lindo. Implantamos doze boxes e uma área comum para secretaria, refeitório, ambulatório, sanitários, vestiários. Assim é como funciona uma incubadora, com instalações comuns a todos. Já as áreas individualizadas, dos boxes, eram para a produção basicamente. Elas tinham de 80 a 150 metros quadrados, com esse espaço o cara fazia milagres! Selecionávamos na cidade ou na região os empreendedores que fariam parte do projeto, porque às vezes o cara quer fazer, mas não tem meios. Ele tendo espaço, vai conseguir fazer. E depois, as equipes da FIESP, SESI e SENAI davam treinamento, faziam acompanhamento e auditoria, desenvolviam planos de negócios. Na verdade, essas indústrias nascentes eram, muitas delas, terceirizadas de outras empresas. Lá em Garça mesmo, a PPA37 terceirizou a fabricação de alguns itens para ex-funcionários montarem uma linha de produção na incubadora. Qual era, então, a ideia básica do benefício para o município, para a comunidade? Imagine: em Garça mesmo, um município então basicamente agrícola, ganhou 12 novas indústrias! Nesse período, muitos municípios acabaram implantando distritos industriais, outros ajudaram a comprar um terreninho para um empreendedor fazer sua fábrica. Então, promovíamos a industrialização do município e uma diversificação industrial. Por exemplo: no caso de Birigui e de Jaú, que é só tinham indústria de calçados. Se falisse todo um segmento, acabava a cidade. Portanto, queríamos diversificar, introduzir outros setores industriais na cidade e contribuir para a estabilização econômica, do emprego.

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Ferrovia Paulista S.A., estatal posteriormente privatizada.

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Indústria de automatizadores de portões, que já completou 30 anos.

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O projeto era maravilhoso, além de barato. Um projeto em que a nossa grande atitude, da FIESP, era de articulação, de convencer as pessoas, as forças vivas do município a encamparem essa ideia. Primeiramente tínhamos que conseguir o local. Aí nós abríamos uma espécie de concorrência para a cidade inteira, anunciando: quem quiser instalar sua indústria, nós damos lugar. Os caras vinham e nós fazíamos uma triagem: “O que você quer fazer?”. “Quero fazer chinelo.” “Tudo bem...”. Estudávamos as condições do cara, o potencial do mercado, o que a gente chama de potencial do negócio. Às vezes, havia pleito de se fabricar uma pequena máquina, um aparelho; às vezes, de tecido, garrafa pet. Estávamos abertos a qualquer tipo de negócio, mas sempre, de alguma forma, direcionados nem tanto ao produto em si, mas à pessoa, se era empreendedora ou não. Você pode dar um monte de ouro para uma pessoa não empreendedora, que ela perde tudo e não faz nada. Mas se você dá um grama de ouro a um empreendedor, ele multiplica aquilo. O importante para nós era se ele tinha esse espírito empreendedor. O resto a gente basicamente dava, que era o treinamento, conhecimento, todo o resto.

Jogo de ganha-ganha Na incubadora, como era um projeto da FIESP, SESI, SENAI e SEBRAE, os bancos financiavam mais facilmente, porque a taxa de mortalidade dessas empresas era muito baixa, então o risco do banco era pequeno. Assim, o cara tinha mais facilidade de conseguir financiamento. Era um jogo de ganha-ganha. Também a cidade ganhava, porque aumentava o emprego direto na indústria. E a indústria sempre recolhe muito imposto, então gerava renda, e havia ainda diversificação do parque produtivo, além da formação de líderes. Alguns produtos, que são líderes mundiais, como o celular Nokia, começaram em incubadora. A incubadora tem esse poder. No meu tempo à frente deste projeto na FIESP, chegamos a instalar 36 incubadoras no Estado inteiro. O número médio era de 12 empresas por incubadora, mas em Rio Claro, por exemplo, montamos 22. Veja a amplitude disso tudo! Se cada empresa emprega 5 ou 10 trabalhadores a cada dois anos, que era o tempo de permanência da empresa na incubadora, quantos empregos são criados? Tudo isso é riqueza. Esse projeto me encantou muito. Selecionávamos um contador para fazer a contabilidade de todas as empresas, e

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cada uma delas pagava um tantinho. Era como se cada empresa pagasse um condomínio, dividindo as despesas. Agora, nós fizemos uma metodologia para que isso desse certo, o que foi muito importante. Eu trabalhei muito com o pessoal nosso do Departamento (DEMPI), que me ajudou muito, como a Conceição e Sueli Mangia. Nós conseguimos fazer praticamente uma tecnologia própria de funcionamento da incubadora. A ideia era conhecida quase que mundialmente, mas a metodologia prática, com todos os procedimentos, nós é que fizemos, até com ISO-9000, pra ter tudo bem certinho. O procedimento deu muito certo, era testado e muito pouco burocratizado. Uma metodologia de sucesso.

Palestra na China a convite da ONU Depois saí do Departamento e a FIESP acabou se desinteressando e passou isso para o SEBRAE, que está tocando até hoje. Mas nessa época nós tínhamos demanda para 92 incubadoras no Estado de São Paulo, um número bastante significativo. Por conta desse projeto, viajei para os Estados Unidos, para vários lugares, a ideia era conhecer as incubadoras deles e adaptar essas experiências a nossa realidade. Chegamos à conclusão que a nossa metodologia era muito superior às deles, e muito mais pragmática, realística, e dava muito mais resultados. As incubadoras deles eram mais apêndices de universidades, como se fossem uma extensãozinha da universidade. A nossa não! Era incubadora pra valer, para formar empresa mesmo, empresário, pra formar empreendedor. Com todo esse “bububu” que fizemos, a ONU me convidou para fazer uma uma apresentação desse projeto na China. Aí fui para Beijing, depois a palestra era em Tianjin. Fui lá a convite da ONU, para fazer palestra sobre as incubadoras para os chineses. Naquele tempo a China ainda era muito fechada, a gente tinha que andar com seguranças por todo lado, e era muito paparicado, pajeado pelo pessoal da ONU. Com isso nós fomos visitar também algumas coisas deles lá. Iniciativas deles. A experiência das incubadoras da FIESP passou a fazer parte do rol das experiências bem sucedidas da ONU. Foi multiplicada para muitos outros países. E tudo isso começou aqui, com esse grupinho. Eu, a Conceição, a Sueli, entre muitos outros.

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China Na China vivemos alguns episódios pitorescos. Uma vez, enquanto eu estava dando a conferência, em inglês, a minha mulher se encheu e resolveu dar uma voltinha. Ela saiu, era num hotel, a segurança não queria deixá-la sair, mas ela disfarçou, saiu e foi caminhar na rua sozinha. Deu o maior bochicho, diziam que ela não podia sair sozinha. A China na época era muito fechada. O pessoal todo de preto. Só tinha bicicleta, os automóveis eram poucos. E ela era loira, todo mundo saía na rua para vê-la. As criancinhas ficavam admiradas olhando pra ela. Ela se divertiu milhões, deu uma volta pelo bairro, e os seguranças atrás, com medo dela se perder. Uma vez passamos em frente a um restaurante e na vitrine tinha uma bela cobra enrolada. Quando nós passamos na volta, já não tinha mais. Comeram a cobra. Foi uma viagem muito interessante. Éramos hóspedes da ONU e convidados do governo chinês, então havia muitas cerimônias, muitos jantares, uma comidarada! E tinha um licor que eu nunca provei coisa mais horrível que aquilo. A minha mulher é chata pra comer. Punham as coisas no prato dela, ela não comia, passava pro meu. Eu fui comendo o meu e o dela. Chegou a um ponto que eu falei: “Não dá mais”, porque foi uma coisarada danada. Tem umas coisas deles que são muito gostosas, mas tem outras que não dá pra encarar, não. Até que a Laura descobriu um McDonald’s, estava começando o primeiro em Beijing. Aí ela tirou a barriga da miséria. Já havia alguns hotéis modernos na China, o nosso era bem moderno. Mas na Praça Tiananmen, por exemplo, uma vez nós vimos uma correria danada. O pessoal ainda tinha medo do exército. Chegou o exército e foi aquela correria. Ficamos em Beijing uns dias na ida e também na volta. Aí tinha as excursões, fomos à muralha, a uma gruta com estátuas de terracota de todo um exército, chamados os Guerreiros de Xian. Fomos à Cidade Proibida, à Praça Tiananmen, tudo que tinha pra ver, vimos. Mas Tianjin era uma cidadezinha menor, mais feia, nós vimos pouca coisa lá. Havia muita pobreza. Miséria não, mas pobreza.

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14. De menino pobre a homem bem-sucedido Aqui, Bilé, chegamos num ponto em que gostaria de somar tudo aquilo que foi conquistado depois de todas essas andanças e experiências. Comecei a formar meu patrimônio pessoal e familiar com a fábrica de lustres. Chegamos até a iluminar o Carnaval de São Paulo, uma ousadia para a época. É uma dessas coisas que acontecem. Eu tinha um vendedor, e não sei porque ele foi inventar de vender iluminação para o Carnaval de São Paulo, que naquele tempo era feito na Avenida Tiradentes. Quem era a executora do projeto era a Anhembi Turismo, uma empresa da prefeitura. Falei: “Vai lá, veja o que você consegue”. Ele foi fuçando, fuçando, houve uma concorrência e nós ganhamos. O trabalho consistia em fazer a iluminação da Avenida Tiradentes, num nível adequado, que desse uma boa imagem de televisão e tudo mais. Tudo bem. Discriminamos o projeto, as luminárias, os cabos etc. E tive que comprar tudo, porque eu não fabricava aquilo. Mas assim que nós ganhamos a concorrência veio um cara, por sinal morador de Pinheiros, e disse: “Vem cá, você ganhou a concorrência. A gente também estava na concorrência. Pra nós era muito importante ter ganhado a concorrência, porque é uma questão de honra, a gente já fez outros anos, queria fazer este ano também, e tal, porque isso, porque aquilo...”. Quis me convencer a desistir. Eu disse: “Olha, meu amigo, não adianta. Eu já ganhei. E ganhei a concorrência é pra fazer”. “É, mas tal e não sei quê...” Conversa vai, conversa vem, ele falou: “Eu te dou um milhão de cruzeiros agora pra você abrir mão da concorrência”. Falei: “Eu ganhei a concorrência por oitocentos mil, porque você quer me dar um milhão!!?”. Com oitocentos eu ainda ia ter que comprar todo o equipamento, fazer todo o trabalho, fazer

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tudo isso. Que negócio. Não vou fazer. E ele: “Como? Você é louco? Você vai ganhar um milhão agora sem ter que fazer mais nada!”. Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que eles tinham combinado de ganhar a concorrência por treze milhões. Treze milhões! E eu pé duro, estraguei o esquema! Os caras ficaram anunciando que iam me matar, iam me pegar. “Faz o que você quiser!”, eu disse. Mas fiz o serviço, que foi muito elogiado pelas empresas de televisão, disseram que a avenida nunca tinha tido uma iluminação tão boa no Carnaval. Eu fiquei na avenida, acompanhei todo Carnaval. Se queimasse uma lâmpada, eu mandava um molecão subir no poste e trocar a lâmpada na hora. A noite inteira. Aí vi o Carnaval mesmo, outra experiência que valeu a pena. Ver as escolas desfilando na avenida é uma coisa impressionante. Dentro da avenida junto com elas, do lado de dentro da passarela! Com o que eu ganhei nessa concorrência, 800 mil, construí um prédio comercial na Rua Girassol. Então, quanto de dinheiro aqueles caras iriam ganhar?! Falei: “Não entro mais nisso não”. Não dá. É roubo atrás de roubo. Caí fora.

O sonho de ter sete fazendas Quando me separei do meu irmão, na fábrica de lustres, o único sócio que eu tinha era minha mulher, Laura, que sempre foi muito companheirona, me apoiou em tudo o que eu quis fazer na vida. Se hoje eu tenho alguma coisa, em grande parte devo a ela. Eu sempre tive como certo lema uma questão que eu falava: “Eu tenho que fazer dívida pra poder pagar”, porque se eu tivesse dívida ficava louco pra pagar. Detesto dívida, então ia arrumar um meio de pagar. Ia me virar para pagar. Como a gente não tinha nada, tinha que fazer dívida, comprar alguma coisa a prazo, pra “rachar cano” e pagar. Então, a minha vida foi um pouco assim, dentro da estrutura que eu tinha. Sempre trabalhei para a família e fazendo dívida para poder pagar. Não dívida de jogo, nada disso. Eu comprava um terreno, investia no capital, pegava aquele terreno e dava de entrada num maior, e assim eu fui fazendo.

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Foi assim, de um negócio pra outro, comprando um terreno e vendendo, comprando outro maior, que eu construí certo patrimônio. O meu desejo era ter sete fazendas, como o meu pai chegou a ter. Fui trabalhando, trabalhando, trabalhando. Mas eu tinha um sonho, que era comprar a Fazenda Morro Grande, a fazenda de meu avô materno em que também fomos criados, aonde íamos muito durante as férias. O dono mais recente era o Darcy Bartman, que chamavam de Capitão. Um caboclão metido a importante, meio vermelhão, de olhos azuis, chapéu branco, com um modo durão de falar. Fui lá falar com ele: “Oi, Darcy, tudo bem? Tá vendendo a fazenda?”. “Vendendo eu não tô, mas se der tanto eu vendo.” Vamos dizer que foi assim: “Se der 100 eu vendo”. “Mas tanto não vale, eu dou 70.” “Setenta eu não quero.” E eu nem tinha os 70. Passava mais um tempo, ia juntando daqui, juntando, dali, até que chegou um dia em que eu havia comprado um terreno no quilômetro 13 da Rodovia Raposo Tavares, no Jardim Bonfiglioli. Era uma montanha cheia de mato. Peguei um topógrafo que trabalhava na Melhoramentos, um alemão, e fiz dois platôs grandes, bonitos. O terreno tinha 24 mil metros quadrados. Eu pensava: “Vou fazer uma fábrica aqui, vou mudar a fábrica, vou crescer” . Comecei a fazer a planta da fábrica e a imaginar o negócio como seria, uma fábrica grande. Uma noite veio um estalo: “Pra que você quer uma fábrica tão grande? A sua fábrica é de equipamento leve, não tem nenhum equipamento pesado, que dependa de uma instalação especial, um alto forno ou coisa assim. Então, quando você precisar de mais espaço é só mudar para um galpão maior”. Até então, nosso maior problema na fábrica eram as vendas, não o espaço. “Se não estou conseguindo vendas suficientes pra lotar essa fabriquinha aqui, por que eu vou fazer uma fábrica muito maior? Uma fábrica desse tamanho vai depender de guarda, segurança, vigilância, de manutenção, de jardineiro, que aqui eu não preciso, não tenho nada disso. Então, eu vou aumentar violentamente meus custos, e se eu já tenho dificuldade pra vender, vou ter mais dificuldade ainda! Então, negativo! Não vou querer isso aí, não.” Vendi o terreno. E continuava falando com o tal do Darcy Bartman. Mas

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ele aumentava o preço: “Agora é 120”. “Isso não vale, eu te dou 100”. Ficou assim, nessa história, a compra da Fazenda Morro Grande. Até que um dia, era uma terça-feira, eu já tinha vendido o terreno da Raposo, estava com o dinheiro depositado no banco, liguei pra ele e disse:

― Vamos acertar o negócio da fazenda. O dinheiro está no banco, vou pagar o que você quer, mas quero a fazenda.

― Ah, não, não dá mais. ― Não dá por quê? ― Não dá porque eu já vendi! ― Vendeu nada, rapaz! Para de lorota! ― Vendi sim. Vendi de papel passado. ― Puxa vida! Agora que eu tenho dinheiro, não posso comprar a Fazenda Morro Grande ― fiquei aborrecido.

Fazendão e Fazendinha: enfim, fazendeiro Nesta mesma semana, na quinta-feira, apareceu um caboclinho na fábrica e disse:

― O senhor é o doutor Carlos? ― Sou eu mesmo. ― Fui eu que vendi a Fazenda Morro Grande. ― Seu filho da p... Como vai vender a fazenda que eu queria comprar há tanto tempo?

― Não, não, não... Eu tenho outra muito melhor pro senhor comprar.

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Eu disse que não, ele continuou:

― É uma fazenda muito melhor, tudo terra-roxa. ― Mas onde é que é? ― É lá na região mesmo. 38 ― E como é que é a fazenda? ― É assim, assim, assim... Eu estava com o dinheiro no banco e pensei: “Vamos lá”. Marquei: “Vamos lá no sábado”.

― Então o senhor me pega lá em Rio Claro. Peguei o endereço da casa dele. Naquele tempo eu tinha um Galaxy branco, bonito. Meus filhos Laurinha e Carlinhos estavam viajando, estavam na Europa com a avó materna. Estávamos eu, a Laura e a Paolinha [a caçula] aqui. Entramos os três no carro e fomos embora. Chegamos lá na casa dele, em Rio Claro, aí ele aplicou o golpe em mim:

― Vamos com meu carro, porque se for no seu, vai sujar tudo de lama. Vamos no meu. ― Era um fusquinha. Entramos no fusquinha e fomos lá. Chegou lá, passamos em Ipeúna, subiu a serrinha, o fusquinha nem chiou na serrinha Chegou na fazenda, um mundão! Terra-roxa, uma casa colonial antiga, terreiro de café todo ladrilhado. Vi um poste com transformador, então tinha energia elétrica. Tinha água encanada. E era um casona colonial mineira, daquelas esparramadonas. Cerca com mourão de concreto, pasto de capim gordura, e era época da florada, ele tinha tirado o gado, estava lindo aquilo lá! Um tremendo dum lago. Fomos dar uma volta em torno da casa, havia um pomar com mangueiras centenárias, grandes. Lembrei-me da minha infância: “Vou trepar nessas mangueira aí”, fui me entusiasmando. Região compreendida entre as grandes divisas de Piracicaba e Rio Claro, além de pequenos municípios vizinhos.

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Fomos dar uma volta, passando pelo espigão, por dentro de um pasto.

― A fazenda pega daqui lá, lá, lá... ― dizia ele. Eu fui seguindo. “Que fazendão.” Voltamos à sede pra tomar uma água, minha mulher já ficou brava, porque um cara pegou um veadinho campeiro que estava num engradado, Laura brigou com ele pra ele soltar. Era um caboclo que morava lá, João Paraguaio. Falei pra Laura: “O que você acha?”. Ela: “Muito bonito. Que bom!”. A gente tinha se dedicado muito tempo a correr pelo interior todo, visitando fazenda, querendo comprar. Uma tinha um problema, outra tinha outro. Ela sempre via um defeito, nunca achava uma que gostasse. Quando foi nessa, “que lugar bonito!”. Voltamos com o corretor, que se chamava Orlando de Souza. Entramos na casa dele, ele deu um cafezinho, uma garapinha pra gente tomar.

― Então, doutor, como é que fica? ― Vou falar como é que fica, me dá um papel aí. Eu tinha trocado lustres com um apartamento na Alameda Santos. Eu barganhava, dava lustres, pegava apartamentos, fazia rolos. Deixei a proposta escrita num papel de pão, a lápis ainda: “Eu entro com o apartamento tal, patati, patatá...”. Ele disse: “Tá bom, vou falar com o homem, depois eu aviso o senhor”. Voltamos e, quando foi na outra quinta-feira, apareceu ele na fábrica novamente com o Antônio Maniero ou Toninho Maniero, que fora dono da pinga Três Fazendas. Ele tinha vendido a empresa e comprado fazendas. Essa fazenda era dele. Depois ele comprou outra em São José do Rio Preto, e queria vender a que vimos, para ficar com uma só. Depois de cinco minutos de papo, falei para Dona Ana, a secretária:

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― Bate um recibo assim, assim, assim... Fui ditando, ela foi escrevendo na máquina, assinamos tudo direitinho. Dei um cheque de sinal e combinamos já de passar a escritura ― escritura de compromisso, primeiro ― porque tinha um prazo para pagar. Quando foi no sábado, voltei à fazenda, já para tomar posse. Foi como comprar banana num supermercado. “Pá-buf!” Um negócio tão fácil! Eu tinha perdido a fazenda que queria comprar, a Morro Grande, que adoraria ter comprado, e acabei comprando esse fazendão! Na verdade, eram duas fazendas: Fazenda São José da Glória, que a região inteira conhece como “Fazendão”, e a outra era a Fazenda São Joaquim, a “Fazendinha”, no município de Ipeúna. As duas juntas somavam quatrocentos alqueires.

E dinheiro pra tocar a fazenda? Eu sempre tive meus negócios bem separadinhos. O que é fazenda é fazenda, o que é fábrica é fábrica, o que é família é família. Mas uma condição que a gente vai criando por ser empresário é que você acaba tendo algumas facilidades. Quando eu comprei o Fazendão, não tinha dinheiro para pôr vaca. Todo o dinheiro que tinha eu pus para comprá-la. Não havia como comprar gado. Um dia eu visitava minha prima Tereza em Rio Claro, estava no portão conversando com o marido dela, o Sérgio, passou um cara, cumprimentou a gente e seguiu em frente. Aí o Sérgio chamou: “Vem cá, vem cá”. E falou pro cara: “O meu primo acaba de comprar uma fazenda assim assim assim”. Aí ele: “Ah, é? Puxa! Até conheço a fazenda. A fazenda é boa e pá-pá-pá...”. Brinquei: “A fazenda é boa, tem pasto, mas eu não tenho dinheiro pra pôr gado”. “Vai lá no banco que eu te arrumo cem mil contos agora mesmo.” Fui lá, fiz os acertos na hora, já era cliente do Banco do Brasil, já tinha cadastro e tudo. Comprei uma vacada de leite e pus na fazenda, foi assim que eu comecei. Mas paguei tudo direitinho ao banco e falei: nunca mais vou querer

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esse negócio de financiamento. Financiamento eu tenho na fábrica. Lá tem aquele rolo, tira de um, põe em outro. Paga aqui, aumenta aqui, empina ali, desempina aqui. Mas na fazenda eu não queria mais isso. E assim foi.

Um Uchôa criando gado tabapuã de uchoa Do outro lado dessas duas fazendas tinha a do Frota. Aí comecei a negociar com o Chico Parisi e com o Joaquim, que era o sócio dele. O corretor Orlando de Souza, o mesmo que me vendeu o Fazendão, chegou um dia na fazenda, eu estava lá, e o negócio estava entabulado. Acertei as condições com o Joaquim para comprar a fazenda vizinha, que era mais duzentos alqueires, eu ia ficar com seiscentos alqueires, tudo juntinho, três fazendas grudadas. Vai daqui, vai dali, eu disse: “Traz meu talão de cheques que eu já vou fazer um cheque”. Abri o talão de cheques e comecei a preencher o sinal, o tonto do corretor cortou: “E minha comissão, quem é que vai pagar?”. Falei: “Cala a boca, Orlando, depois a gente vê isso”. “Não, não, não... Eu quero saber da minha comissão. Quem é que vai pagar?” Quem tem que pagar a comissão é o vendedor, não o comprador. Em qualquer tribunal ele vai ganhar isso. Eu sei que ficou uma discussão lá, o Joaquim acabou levantando e indo embora, e eu acabei não comprando a fazenda do Frota. Já estava assinando o cheque. Também não era pra ser. Aí contratei um cara velho da região, senhor Nestor Costa, um caboclão que já tinha sido administrador do Fazendão. Em sua época ela produziu muito café, bebida especial, porque era a mil metros de altitude, e terra-roxa, para o café era uma beleza. No meu tempo já não tinha mais café. O senhor Nestor trabalhou lá vinte e poucos anos. Tinha aquele pasto todo e depois eu comecei a trabalhar com gado, criei gado de raça, criei tabapuã de uchoa, que é um gado mocho, bonito, grande. É uma espécie de nelore mocho, achei bacana um Uchôa criar gado uchoa. Comecei a participar daquele negócio de exposição, disputar taça, ganhamos várias taças, mas era muito oneroso. Acabava que o gado dos criadores mais antigos valiam dez e o meu, melhor

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do que o deles, não valia um. Era questão de grife, de mercado. “Ah, esse troço não é pra mim.” Então saí fora disso e ficamos no gado mais comum.

Gado leiteiro, quem ganhava era só a Nestlé Eu tive gado leiteiro, que também foi uma experiência muito desagradável, porque a gente fornecia para a Nestlé, e ela era uma péssima parceira. Eu ganhava pouco no leite. Ela pegava o leite, levava até São Pedro e depois trazia de volta até Rio Claro, e eu pagava o frete. Da minha fazenda a São Pedro, depois de volta até Rio Claro. O que eu tenho com isso? A minha fazenda era metade do caminho. E muitas vezes chegava o leite e eles mandavam um bilhetinho: “Leite fora do padrão”. O que é leite fora do padrão? “Me devolva o leite! Vou dar pra porco, fazer queijo.” Mas não devolviam e não pagavam. E me cobravam também uma assistência veterinária, que nunca apareceu lá. Nunca apareceu um veterinário da Nestlé lá. Cobravam mais isso, mais aquilo, descontavam isso, descontavam aquilo. Aí eu pegava o cheque da Nestlé e levava na Cargil pra pagar ração. Concluí que estava brincando de criar bezerrinho preto e branco. Não dava lucro. Dava prejuízo. Quem ganhava era só a Nestlé. Chegou um dia em que resolvi parar com tudo isso. “Não aguento mais esse negócio.” Pus anúncio n’O Estado de S. Paulo e fui para a fazenda na sexta-feira. Já no sábado bem cedinho, apareceu um homem lá:

― O senhor anunciou uma vacada aí? ― É, anunciei sim. ― E o quê que a vacada é? ― Tá aí no curral, acabando de tirar o leite agora. O cara deu uma olhada.

― A vacada é boa, quanto o senhor quer? ― perguntou. ― Quero tanto.

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― Tá comprado. Vou buscar o caminhão pra carregar. ― Tá bom, espero o senhor aqui. Saiu com a caminhonete dele e foi embora. Daqui a pouco chegou outro cara:

― O senhor anunciou essa vacada aqui?. ― Anunciei, sim. ― Eu queria dar uma olhada nela. ― Olhar até o senhor pode, está saindo do curral, ainda está no piquetinho ali. Ele olhou e disse:

― Ô, vacada boa! Vamos fechar negócio? ― O senhor desculpe, mas eu não posso. Já passou um amigo aí, foi embora, buscar caminhões pra buscar, a vacada não é mais minha, é dele.

― Ele deixou algum papel, alguma coisa? ― Não. Não deixou nada. ― Como é que ele é? ― É assim, assim, assim... O cara entrou na caminhonete e saiu correndo atrás do outro, parou o sujeito no meio da estrada e comprou a vacada dele ali mesmo. Veja que eu estava dando a vacada, porque estava ‘por aqui’ com ela, mas me livrei daquele negócio.

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A breve experiência com criação de tourinhos Depois disso comecei com gado mais rústico, mas não dava também. Fazer queijo e vender na cidade. Tira o queijo, tira a manteiga, não dava. Comecei com gado de corte. Entrei no nelore e no tabapuã. Aí pensei: em vez de vender um bezerro por mil, eu vou vender um tourinho por cinco mil ou oito mil, compensa mais. Então vou produzir tourinho. Mas pra produzir tourinho, o que é preciso? É preciso registro na ABCZ (Associação Brasileira de Criadores de Zebu), além de todos os controles. Cada vaca tinha uma ficha. Quando nascia um bezerro, anotava, depois carimbava, fazia exame de brucelose, exame de não sei quê, uma assistência veterinária danada, trabalhava bem o bichinho, e na hora de vender, não tinha grife. Quem eu era? Não era conhecido no mercado. Então vendia quase pelo preço de corte, com um custo muito mais alto. Concluí: não é pra mim, esse negócio. Eu não moro na fazenda. Se morasse na fazenda, ainda seria.

Sete fazendas pra quê? Além da fábrica de lustres, eu tinha a fábrica de pistões, e quando meu irmão me deixou, comecei a investir noutras coisas. Bom, já contei aqui a história da fábrica de pistões. Dela me restou o prédio onde hoje funciona o sacolão da Rua Isabel de Castela, na Vila Beatriz, zona Oeste de São Paulo, perto da fábrica de lustres. Mas troquei esse prédio do sacolão por outra fazenda, agora em Franca, que era do Dr. Clóvis Novaes. É uma fazenda muito bonita. Chegávamos nela por uma estradinha que vai para a Usina de Estreito, no Rio Grande, e, chegando bem no portão da usina, pegávamos uma estradinha à esquerda, e já era a fazenda. Ela pegava um riozinho que desembocava na represa. Tinha o formato de um dente, de uma ferradura, tudo em água era sua divisa. Só tinha uma cerquinha de separação. Quer dizer, tinha uma entrada por terra, o resto era cercado de água, como uma península na barranca do Rio Grande. Um lugar lindo de morrer. Mas tinha terra fraca, de cerrado. Um problema. Ali se explorava muito a pedra mineira, tinha uns barrancos de pedra mineira. Uma coisa chata é que

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tinha vários ranchos na beira da represa, e era uma situação um pouco desagradável. Seus ocupantes eram invasores, mas eu já tinha comprado com eles lá dentro. Começar uma guerra de tirar um, tirar outro, não ia dar. O que eu fazia era ficar de olho, se algum queria vender eu tentava comprar o rancho dele e demolir. Mas foi uma coisa que também não deu certo. Então aquilo era uma coisa que me incomodava na fazenda, mas eu cheguei a desmatar, formar e tudo. Era uma fazenda de 503 alqueires. Boa, bem grande.

A quinta fazenda Comprei outra fazenda ainda, belíssima. Essa se chama Fazenda Panorama, em Buritis, comarca de Unaí, no norte de Minas, perto de Brasília. Era longe, mas “menos” que a de Franca, que ficava a quatrocentos quilômetros. Era duro pegar um fim de semana, ir ao Fazendão na região de Rio Claro, depois ir a Franca, voltar aqui e estar disponível para trabalhar segunda-feira. Isso também foi um pouco porque eu quis vender a de Franca. A de Buritis, não. Ia a Brasília de avião e alugava um carro no aeroporto. A setenta quilômetros de Brasília está a cidade de Formosa, de lá, andava mais uns cinquenta. A fazenda ficava a uns 120 quilômetros de Brasília. Então dava para ir de manhã, percorrer a fazenda, fazer o que tinha que fazer, voltar, pegar o avião e vir jantar em casa. Era bem cômodo nesse aspecto. Mas depois não deu muito certo e acabei largando dela. Então consegui cinco, não sete fazendas, que estão hoje em nome de meus filhos. Parei. O número de fazendas não interessa. Essas fazendas que a gente ainda tem estão bem cuidadas, bem estruturadas, são modelo. Mas fazenda nunca rende o que precisa render.

O que é meu, é nosso A minha vida sempre foi muito aberta, muito participativa. Nunca fiz nenhum negócio que eu não contasse em casa, que não se discutisse. Alguns negócios eu deixei de fazer porque eles foram contra, outros negócios eu fiz porque eles deram a ideia. Nesse aspecto, sempre tive a porteira aberta, não tenho nenhum problema de falar das coisas com meus filhos, nem eles

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comigo, nem com minha mulher. Nesse aspecto foi sempre uma vida muito harmoniosa. Agora, às vezes, havia opiniões um pouco diferentes. Mas no aspecto patrimonial, fui fazendo essa mobilidade, essa coisa toda, com muito cuidado sempre de não entrar nos problemas, no comprometimento do patrimônio da família. Eu e a Laura o conquistamos com o nosso trabalho. Foi com o nosso suor que isso tudo apareceu. O dinheiro é feito redondo, é para rolar mesmo, mas se não tiver um pouco de juízo, torra-se tudo.

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15. Laura, a família e as novas gerações Gostaria, Bilé, que você tivesse chance de conhecer Laura. Quando a encontrei no Clube Pinheiros, fiquei encantado por ela, sinto um amor muito grande por Laura até hoje. Nós estamos juntos há cinquenta e tantos anos, ela tem os defeitos dela e eu, os meus. Nossa grande sabedoria foi aprender a não brigar, porque quando o casal começa a brigar, não para mais. Nós aprendemos que a gente pode evitar brigar. Quando um quer brigar, o outro “apanha” e fica quieto. Quando esse outro quer brigar, “bate”, o primeiro “apanha” e fica quieto. A gente foi sempre nessa vida. Discussão? Pouco. E claro, mulher pensa de um jeito e homem de outro. Mas nos baseamos sempre na lealdade, amizade, amor, no respeito de um pelo outro. E de muito carinho também. Ela é muito carinhosa, muito preocupada etc. A Laura fez uma doação mesmo, eu acho, porque ela é uma moça muito inteligente, extremamente competente. Ela poderia ter sido uma grande profissional no que ela quisesse. Ela foi até o terceiro ou quarto ano de Psicologia, poderia ter ser sido ótima nessa área, ou em outra. Ela tem uma boa base, estudou a vida inteira no Colégio Dante Alighieri, melhor escola de São Paulo, então tem uma boa formação, fala várias línguas perfeitamente, tem um currículo grande, conhece quase o mundo todo, a gente viajou muito. É uma mulher que poderia ter uma vida própria só dela, e se abdicou, praticamente se dedicou à família. Não sei se ela tem algum problema dentro dela por isso, mas ela doou sua vida por nossa família. Enquanto eu saía pra trabalhar, malhando daqui, dali, ela cuidava das crianças. A Laura nunca foi dona de casa, mulher que gosta de lavar roupa, arrumar a cozinha. Não é o negócio dela, não! Ela não gosta, faz porque precisa fazer. Ela odeia isso. Até há pouco tempo, para lavar uma xícara ela chorava. Não foi criada pra isso.

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Os avós queriam que ela fosse uma princesinha, e na verdade ela é mesmo, uma baronesinha, como seria o título dela hoje, pois seus pais eram italianos e faziam parte da família dos barões Coppola. Nesse aspecto, ela sempre foi muito legal. O que tivemos que fazer foi uma aliança para sempre. E aí o que nós constituímos? Quando fomos nos casar, combinamos que seria com comunhão total de bens. No casamento civil, quando o juiz de paz falou “regime de comunhão total de bens”, o avô dela, seu Eugênio, ficou bravo: “Não, não é isso, não!”. Eu disse: “Se não for assim, eu não caso”. Ficou chato da minha parte. Minha sogra entrou no meio e acabou sendo assim. Por que é que eu queria casar com comunhão de bens? Porque eu estava fazendo um pacto eterno com a minha mulher. Eu não queria nada dela. Eu queria viver a minha vida com ela, que ela fosse dona da minha vida e eu da dela. Quer dizer, nós somos uma sintonia fina. Então, nunca o patrimônio dela veio pra mim ou para o meu nome, até hoje. Eu não quero isso. O que é nosso é o que nós construímos. E com isso nós tivemos uma “uma sociedade marital” muito perfeita. A gente brinca até hoje: “O que é da mamãe é da mamãe, o que é do papai é da família, é nosso”. O que é dela, é dela. O que é meu, é de todo mundo. Isso para mim é ótimo. Sempre gostei que eles pensassem assim. Então, no decorrer da vida, o que a gente queria? Nós nos preservamos para ter a primeira relação na lua de mel. Por mais severo que meu sogro fosse, por mais cuidado que tivesse, claro que a gente podia ter arrumado um minutinho e dado uma escapada, não é? Mas nós não queríamos. Queríamos começar uma vida do jeito certo, e não de qualquer jeito. Não no casa-descasa, casa-descasa. Com isso, foi muito sólida a nossa união.

Lua de mel em Bariloche Minha vida foi sempre de dureza. Eu nunca tive reserva financeira, mesmo porque eu tinha que fazer dívida para poder pagar. Então estava sempre devendo. Mas o que fosse coisa para família, eu nunca deixei faltar nada. Minha sogra, Dona Lydia, ajudou muito, seu José, meu sogro, também. Ti-

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vemos uma linda lua de mel em Bariloche, eu e a Laura. Foi uma viagem maravilhosa. Fomos de avião até Buenos Aires. Era a primeira vez que a Laura andava de avião, olhou as comidinhas. Era aquele Douglas DC-3 que jogava, jogava, jogava. Eu ameaçava “jogar tudo para fora”, ela olhou e disse: “Você não vai comer? Então eu como o seu também”. Ela estava adorando. Em Buenos Aires, fomos dançar nas boates, em uma delas, na Avenida Corrientes, uma vez, parou todo mundo para ver a gente dançar. Não sei até hoje se a gente estava dançando tão bem ou se estava dançando tão mal que eles pensaram: “Vão chutar as nossas pernas”. Estávamos na terra dos tanguistas, já pensou? De Buenos Aires seguimos a Bariloche. Ficamos num hotel na beira do lago, e a gente dormia no sótão. Éramos novos. A mulher do lugar dizia: “Esses caras não têm problema de escada”. Todos os dias, vinha o ônibus de excursão, parava na porta e ficava esperando, porque a gente se atrasava sempre. Quando entrávamos nos ônibus, batiam palma gritavam: “Los niños, los niños!”. Éramos “los niños”, bonitinhos. A Laura era bonita, eu era mais ou menos, formávamos, então, um casalzinho lindo. Voltamos de navio. Foi uma lua de mel maravilhosa, uma viagem completíssima. Compramos um ursão de pelúcia para Laura, todo branco. Um dia, fomos tomar café e quando voltamos o urso estava de anágua, sutiã, toquinha. A camareira havia feito uma brincadeira com a gente. Depois, sempre que podíamos, viajávamos juntos. De algumas vezes que ela não pôde viajar, ela ficou de bronca até hoje. Mas ela também fez algumas viagens que eu não fui, e estou meio bronqueado até hoje. Quer dizer, eu cheguei a ver algumas coisas que ela não viu, e ela viu algumas coisas que eu não vi. Então foi uma vida sempre harmoniosa, sempre em família. Se tirar a família, sobra o quê? Vi muitas vezes pessoas que ficaram livres no mundo, mas livres sem amar, sem viver, sem ter histórias, sem ter uma recordação útil. Olha agora o que eu estou passando. Se não fosse a minha mulher, como é que eu faria?

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Um princípio: não levar problemas pra casa Quando nasceu meu filho ― eu já narrei isso ― foi no primeiro ano do nosso casamento, pouco mais de nove meses depois. Dia 24 de dezembro39. Foi pouco mais de um mês depois de comprar a fábrica, em 15 de novembro. Se eu ainda estivesse com a fábrica, em novembro de 2013, estaria completando 52 anos com ela. Casar, comprar fábrica, ter filho, tudo no mesmo ano!!? Esse trabalho todo que eu tive na fábrica foi pesado, árduo, mas nunca que fosse de amargura, loucura, algo que eu levasse para dentro de casa. Eu sempre procurava separar os problemas da fábrica, do trabalho, que eu resolvia lá; aqui, em casa, não quero nem falar dessas coisas. Sempre, quando entro em casa, largo os problemas do portão pra fora. No passado eram difíceis as comunicações, telefone, tudo isso. Então tinham alguns vendedores da Bahia e de outros lugares que, vez ou outra, resolviam ligar para minha casa, fora de horário, para saber de algum pedido ou não sei o quê. Eu era muito malcriado com eles: “Não adianta você ligar pra minha casa, eu não tenho a pasta de pedidos aqui, não tenho informação pra te dar aqui. Eu tenho doze horas à sua disposição lá na fábrica. Liga na fábrica. Se quiser ligar aqui pra bater um papo, conversar, trocar umas ideias, tudo bem, mas de negócio, falamos na fábrica. Aqui eu não falo”. Eu nunca recebi ninguém em casa para tratar de negócios, queria separar uma coisa da outra. E com isso, também, não contaminava a relação, a mulher acabava não sabendo de tantos detalhes sobre as dificuldades. Muitas vezes ela via eu me levantar, sentar na beira da cama e coçar a cabeça. Mas amanhecia o dia e eu ia enfrentar as bestas-feras que tinha por aí. Acho que essa foi sempre a nossa vidinha.

Meus sogros e meus filhos A minha sogra e meu sogro sempre foram muito bons comigo. Eles me adoravam, porque eu tratava muito bem da Laura, gostava muito dela, gosto ainda. Isso também fez com que o ambiente fosse agradável.

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Ver notas 7 e 22, respectivamente nas págs. 64 e 137.

Eles só tinham a ela, filha única. Então, quando chegaram os netos, a vida deles tomou outra dimensão. Meu sogro chamava: “Neto! Neto!”. Adorava o neto, trazia confetinho, chocolatinho, tudo para agradar a ele. Foram dois avós esplêndidos para os meus filhos. Fato curioso é que cada filho que nasceu, nasceu de uma forma. O Carlinhos, por exemplo, deu muito trabalho pra nascer. Minha mulher ficou em trabalho de parto durante 14 horas. Então você vê. Um molecão franguinho que nem eu era, era duro ficar sentado na porta esperando 14 horas para nascer um filho! Ela estava sofrendo, mas de alguma forma se encontrava sedada. Mas para a gente, do lado de fora, que estava esperando para saber o que seria, foi muito desesperador! Naquele tempo a gente não entrava na sala de parto. Tinha que esperar no corredor mesmo. Quando se abriu a porta, trouxeram, em uma cesta de vime, um moleque com uma esfoladura embaixo de um olho. Ele foi tirado a fórceps. Aquilo era uma loucura, arrebentava a mulher inteira. Então, o primeiro filho foi muito assim, traumático. Mas tem outra lembrança do Carlinhos, gozada! Um dia cheguei em casa, ele estava num berreiro danado. Minha sogra chorando, minha mulher chorando, empregada chorando, todo mundo chorando, e o bebê se esgoelando. Perguntei: “O que foi?” Aí cheguei pra ele, pus a mão na sua barriga, e perguntei: “E aí, amigão, por que você está chorando?”. “Eeehhh.” Olhou pra mim e começou a dar risada. Peguei-o no colo e todo mundo parou de chorar. O que foi que aconteceu ali, eu não sei ainda! Outra vez veio o médico aqui, um médico velhinho, pediatra. O menino estava com febre e ele: “Ai meu Deus do céu, o que será isso? O que a gente faz agora?”. Eu falei: “Oi, doutor, quando a gente tinha muita febre assim, a mamãe dava um banhinho morno na gente”. “Ô, é isso mesmo!”. E eu vou ensinar o médico? Ele estava apavorado também. Aí deu um banhinho, a febre recuou. Essas coisas acontecem. A Laurinha já nasceu quase de “surpresa”. Era dia de ir ao médico. “Vamos dar uma passadinha no médico, depois a gente já vai comer uma pizza e volta pra casa”, disse a Laura. Nessa “passadinha no médico”, ele examinou e disse: “Não vai sair daqui, não, vai ficar internada”. Aí fica aquela correria.

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A gente não estava esperando. Estava no tempo, mas... Vim correndo pra casa, peguei a Dona Lydia, arrumamos uma mala de qualquer jeito, voltamos para o hospital, e encontrei a seguinte cena: minha mulher deitada na cama, uma enfermeira do lado dela, gordona, já meio velha, falando: “Segura, segura, não deixa nascer, não deixa nascer!”. Eu perguntei: “Como é que é?”. “Não deixa nascer, senão o doutor fica bravo comigo.” Falei: “Como é que é?”. Me deu um acesso de fúria, agarrei o braço da mulher, dei uma chacoalhada bem forte: “Pega o telefone e liga agora, já para o médico”. Um instantinho depois ele chegou, com calça por cima do pijama, acudiu Laura, a neném nasceu, uma bela menina, linda de morrer. Com a Paolinha já foi um pouco diferente. A minha mulher teve vários sangramentos, ficou uns três meses de cama. E Paolinha veio um pouco prematura, nasceu pequeninha mesmo, vermelhinha, cabelo branco, branco, branco. Todos eles tinham cabelo branco, olhos verdes. A Paolinha, olhos marrons. Voltando do parto, como minha mulher tinha passado mal na gestação, decidimos não ter mais filhos. Eu não queria de jeito nenhum pôr em risco a vida de minha mulher. Então não tivemos mais filhos. Foi como um aviso: “Chega, tá bom demais!”. Eu queria ter tido cinco filhos, mas para mim seria fácil. Os três filhos que tivemos são uma dádiva de Deus, cada um é de um jeito, mas os três são maravilhosos. São inteligentes, competentes, perfeitos. Só têm sido motivo de orgulho para nós, todos eles. E nos deram dois netinhos, Giuliana e Lorenzo, que são a flor da nossa vida. E veio um bisnetinho aí, nascido em 2014, sou bisavô. Uau! É uma vida abençoada!

Um passo para a eternidade Num desses feriados compridos, numa sexta-feira, resolvemos ir a Campos do Jordão com a família toda: eu, minha mulher, os três filhos e os dois netos. Alugamos um hotelzinho pequeno, no meio de uma floresta de araucárias. O hotel era muito bem instalado, o serviço era excelente. Coincidiu que era

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época de pinhão. Muitas vezes a gente escutava um pequeno estouro e em seguida um barulho como o de chuva, dos pinhões caindo no chão. Numa manhã, depois do breakfast, resolvemos catar pinhão no meio do bosque de araucárias. Lembro que levamos saquinhos plásticos e fomos catando pinhões. A minha netinha Giuliana, esfogueada, corria de um lado para o outro, sobre a relva, e o meu netinho Lorenzo corria atrás dela, também catando pinhões. Os dois estavam coradinhos, bonitos, alegres, vinham com aquelas mãozinhas cheias de pinhões: “Vovô, vovô, este serve? Este serve?”. Então eu escolhia os mais graúdos, mais bonitos, punha num saquinho e eles continuavam correndo para buscar mais pinhões. Guardei os saquinhos no porta-malas e, no sábado seguinte, fui à Ceagesp e comprei dois sacos de substrato e saquinhos de plásticos de trinta centímetros, para poder plantar os pinhões. Aí, convidei o Lorenzo e a Giuliana para encherem os saquinhos e aproveitei para contar a eles a história da gralha azul, lá do Paraná. Ela pega os pinhões e enterra para comer mais tarde. Como a gralha não consegue comer todos ou esquece alguns, esses pinhões germinam e de cada um nasce uma araucária, formando uma floresta. Nós colocamos esses saquinhos bem arrumados na varanda da cozinha do apartamento da minha filha Paola e incumbimos o Lorenzo de regá-los todas as tardes. Não demorou muito, começaram a surgir os brotinhos de pinheiros, as plantinhas foram crescendo, nós fizemos um desbaste, escolhendo as mudas melhores, tirando as mais tortas e as mais fracas, deixando só as mais perfeitas. Quando elas atingiram uma altura de mais ou menos trinta a quarenta centímetros, num sábado fui para o Fazendão com o Lorenzo. Ele era ainda pequeno. Lá chegando, pedimos para fazerem as covas beirando a cerca do fundo do pomar, formando uma fileira de árvores para proteger a sede. Eles fizeram as covas, o Wilson Bueno cortava os saquinhos com um canivete, o Lorenzo e eu colocávamos nas covas e a enchíamos com aquela terra

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vermelha muito fértil, muito boa, e lembro daquelas mãozinhas gordinhas apertando a terra com muita seriedade. Depois, essas árvores tiveram um desenvolvimento muito grande, cresceram... A primeira delas nós plantamos bem no alinhamento da casa, e ela representava Jesus Cristo. As outras doze representavam os seus apóstolos. Era como uma forma de proteção. E elas produzirão muitos pinhões que servirão de alimento para muitos pássaros, como papagaios, maritacas e tuins, e também para pequenos roedores como pacas e cotias e outros bichos como quatis e macacos que perambulam pelo mato. Aí se realiza o ditado: “Para um homem ser eterno tem que ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore”.

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16. A minha última batalha A última batalha (27/12/12) A morte caminha na minha direção com passos firmes, e eu, na direção contrária, com passos claudicantes, na medida das minhas forças e na velocidade que minhas muletas permitem. Inexoravelmente ela me alcançará, assim como a você e a todos os viventes, pois esta é uma regra básica da natureza – tudo que vive um dia morrerá, no ciclo da vida e da morte. Não me entregarei, lutarei até o último minuto, meu derradeiro suspiro será um canto de glória pela longa jornada percorrida, pelo amor a esta vida, pelas obras realizadas, mas, sobretudo pela magnífica descendência deixada. Ao passar para o céu infinito, tenho a certeza que não estarei sozinho. Jesus estará comigo. Um passo além Meu corpo é biológico Sepultado ou cremado ele se reciclará Ajudando a mãe Terra a gerar “vida”. Minha alma é eterna e para a eternidade ela retornará. E eu? Quem sou? Para onde vou?

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Será que serei aquela fumacinha branca que se desprende do corpo de quem morre? Será que essa fumacinha branca vai se reunir com muitas outras, formando uma enorme nuvem branca diáfana que se insere em toda parte? Meu corpo se reciclará? Minha alma se eternizará? Meu espírito se reunirá com Deus. É. Prefiro pensar assim.

Bilé, em 7 de setembro passado completei 76 anos. E em toda a minha vida tive sempre uma dicotomia. Não queria que toda a tradição de meus antepassados impedisse de eu ser uma pessoa simples. Esse foi o grande mote da minha vida. Minha mãe tinha uma grande alegria. Minha casa estava sempre em festa. Meus primos podiam fazer algumas coisas que a gente não podia, mas íamos a festas nas casas deles, às vezes com uma roupinha mais simples, sapato furado embaixo, mas engraxadinho em cima. A gente convivia. Era uma vida dicotômica, mas isso nunca nos deixou infelizes. Essa era uma força da alma da minha mãe. Agora, neste momento, em que acabo de ser eleito outra vez para o Sindaesp, para mais quatro anos, e também para a ADM, pelo mesmo período, eu falei para o pessoal: “Olha, enquanto eu tiver forças e possibilidade, vou fazer tudo o que eu puder”. Claro, tenho dificuldade de locomoção, mas nas áreas externas os outros diretores representam a entidade, tudo bem. Na área diretiva mesmo, eu estou usando a minha experiência, trabalho muito por telefone, por e-mail, acho que não estou faltando ainda com as entidades às quais pertenço. Tenho projetos para os próximos quatro anos. Essa sensação de ser útil, de estar presente, é muito importante. Essas últimas eleições foram de chapas únicas nas duas entidades, mas puxa, fui eleito à diretoria com 100% de presença do colégio eleitoral e 100% dos votos!

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Isso dá força pra gente, de representatividade. Isso é o que move a gente pra frente. Então a doença, esperamos que ela vá ter o desenvolvimento dela, mas Deus é quem sabe. Como veio, ele poderá levá-la embora e a gente ter uma sobrevida maior. O meu corpo está inteirinho, não tenho nenhum problema de saúde, faço regularmente todos os exames de colesterol, triglicérides, diabetes, aquela monteira de exames, e está tudo “enquadradinho” e perfeito. Quer dizer, de um ponto de vista, sou uma pessoa sadia. Só que a doença vai me corroendo todo dia, cada dia um pedacinho. Mas há outra uma canção que cantávamos também com os escoteiros, que era assim: “O corpo vem em cascalho, mas a alma vem feliz”. Então, eu posso estar cansado, mas me mantenho ocupado e estou muito feliz.

Quem somos No meio da multidão somos anônimos No meio da imensidão somos únicos Na imensidão do amor devíamos ser anônimos No meio da multidão devíamos ter um único amor.

Oi Bilé, chegamos até aqui, mas ainda não te contei um segredo, que quero agora aproveitar e falar, é um segredo muito importante para mim. Você sabia que eu sempre quis na vida ser um escritor, um poeta? Por isso pensei em ir para a Sorbonne e fazer lá um curso de Sociologia. Terminado o curso, minha intenção era andar pelo mundo, conhecer novos países, novas regiões, costumes, culturas, novas pessoas, e com isso, eu estaria também conhecendo novas comidas, músicas, religiões. E eu iria então escrevendo meus livros, na medida em que eu fosse tendo essas vivências, dos vários lugares que eu pudesse percorrer do mundo.

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Esse era o meu sonho, até que um dia, numa tarde bonita, eu encontrei a Laura no Clube Pinheiros, e acabei mudando todos meus planos, fiquei por aqui, me dediquei ao trabalho e à construção de uma família. O tempo foi passando, e fui me envolvendo na criação de meu trabalho, de meus filhos, de minha família, até que um dia tio Chicão chegou com uma resma de papel sulfite, me entregou, dizendo assim: “Toma, quer escrever, escreve!”. E aquela resma de papel foi para mim certo incentivo. Mais tarde ele me convidou para fazer parte da Academia Paulistana de História e depois para frequentar a Ordem dos Bandeirantes Mater. Nessas duas academias, como membro ativo em uma e como frequentador na outra, ele foi meu padrinho, e elas se reuniam uma vez por mês no Terraço Itália, numa reunião almoço, onde meu tio normalmente ficava na mesa da diretoria, e eu, a cada vez, sentava em uma mesa diferente para poder ter uma diversidade de conversa. Era habitual que nesses encontros muitos acadêmicos falassem sobre determinado tema, que depois iria ser discutido por todos os demais. Havia uma discussão acadêmica muito interessante, e aquele saber, aquela cultura, tudo isso me encantava muito. Frequentei-as durante alguns anos, até comecei a escrever um livro, “Xerê e eu”. Xerê era um macaquinho que encontrei agarrado ao cadáver da mãe, no meio da floresta. Ele estava com os olhinhos esbugalhados, com muito medo, muito fraquinho. Peguei o Xerê, que era um mico, e cuidei dele. Dei-lhe logo um pouco de água, depois fui dando umas frutas, e fui cuidando dele. Xerê ficou então muito meu amigo, eu chamava de Xerê, porque era um macaquinho muito vivo, entusiasmado, curioso das coisas, então parecia xereta. E para não falar xereta, resolvi chamá-lo de Xerê. Ele ficou comigo, eu estava nesse tempo no sertão sozinho. Assim comecei a escrever esse livro em torno de Xerê, falando das vicissitudes, dos complexos, das dificuldades, da forma de pensar, dos rancores e das revoltas de um jovem adolescente. Então, era essa a intenção e Xerê era como um alterego para mim, assim como você agora, Bilé, surge como minha principal interlocutora nesta obra atual. Conversava com Xerê, mas esse livro não caminhou naturalmente muito, porque acabei descobrindo que, embora eu seja muito organizado e possa determinar hora para fazer tudo direitinho e

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programar a vida, eu não conseguia chegar e dizer: “Bem, todas as quintas-feiras, das duas às cinco, eu vou escrever”. Porque não é assim que funciona. Escrever não é isso, é aquela coisa em que vem a intuição, a inspiração, aí você tem que se entregar para essa inspiração. Tem que representar as pessoas, viver os personagens, sentir os dramas de cada pessoa, viver palavra por palavra daquilo que você escreve, é uma entrega total, aí não tem hora, não tem dia, não tem família, não tem trabalho que você tenha que interromper para que essa inspiração se realize. Então, cheguei à conclusão de que eu não poderia ser esse escritor pleno, porque eu não poderia estar com essa dedicação. O livro ficou parado, inconcluso, acabei não indo mais às academias. E quando cheguei a um momento da vida em que poderia me dedicar mais a escrever, apareceu a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) e eu tive que mudar toda minha vida de novo, quando aprendi uma coisa muito importante: que quando a gente não tem tempo, a gente tem ânimo e realiza muitas coisas. Quando a gente tem tempo, a gente não tem ânimo, e aí não realiza nada. Com o problema da ELA, tive que reformular tudo. Passei a ter muito tempo, mas eu não tive nenhum ânimo para escrever. Então, Bilé, um dia eu pensei, se eu não consegui escrever um livro, pelo menos eu poderia escrever uma história, a história da minha vida, e foi isso que eu fiz até agora, mesmo encontrando muitas dificuldades em minhas mãos para escrever. Aqui eu tenho que desenhar cada letra, uma por uma, para formar as palavras. Mas enquanto eu ainda pudesse pronunciar, ter voz inteligível, eu resolvi que gravaria algumas coisas. Assim eu fiz este livro. Mas você vai me desculpar Bilé, porque eu não contei tudo. Há muitas outras coisas que eu poderia te contar, mas acho que está de bom tamanho. Eu agradeço a sua paciência. E quero dizer o seguinte: sempre que acampávamos com os escoteiros, era costume fazermos o fogo do conselho, que era uma fogueira armada numa clareira na mata, ou muitas vezes na praia. E ali a gente se sentava em volta da fogueira, contávamos casos, fazíamos esquetes, cantávamos e tudo o mais. E sempre na última canção, que era para encerrar com chave de ouro aquela jornada, nós cantávamos:

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Fim do dia,



foi-se o sol

Lá do céu,



das colinas,

do mar... Vem a noite,



tudo em PAZ!

DEUS NOS GUARDE!

FIM

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Anexos Galeria de Fotos e Árvore Genealógica

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Carlos Uchôa bebê e os pais Domiciano Uchôa Fagundes e Margarida do Rego Freitas. Em São Paulo (data estimada: anos 30)

Reprodução de tela da sede antiga da Fazenda Marilena, Lupércio (SP). Autor desconhecido / Anos 30

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Carlos Uchôa no colo da babá na Fazenda Marilena, final dos anos 30. Na foto, à esq., a irmã mais velha, Maria Helena, e ao centro, o irmão Euclydes

Os irmãos em foto de novembro de 1940, na Fazenda Marilena. Ao fundo, Maria Helena. Da esq. para a dir., Carlos Eduardo, Stella e Euclydes

Carlos Uchôa (em pé, à dir., na frente) com primos, tios e irmãos em 1947, na Rua Santa Ernestina, em frente à casa de sua tia Maria e tio Chicão

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UMA AVENTURA NO ARAGUAIA, 1949

Imagens extraídas de vídeo copiado de filme Super-8, produzido pelo sertanista Francisco Brasileiro (Ele aparece na foto à dir., abaixo, segurando um jacaré que foi pintado pelos filhos e sobrinhos, e depois solto no rio. Junto, Carlos Uchôa). Disponível em http://youtu.be/9a6hj1vbuqY

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Use o QRCode para acessar o vídeo pelo smar tphone ou tablet.

JAMBOREE 1957 Grupos de escoteiros embarcam para a Inglaterra, com destino a um encontro comemorativo do centenário de Baden Powell, no Sutton Park, em Londres Carlos Uchôa está em pé, o segundo da esq. para a dir., usando caxangá (chapéu típico dos marinheiros). Acompanha grupo que viajou ao Jamboree

No embarque, no porto de Santos. Na imagem, Carlos Uchôa é o terceiro da esq. para a dir.

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Carlos Uchôa, à esq., ao lado da guarda da rainha em Londres Imagens extraídas de um diário manuscrito que faz parte do acerto histórico do 1o Grupo Escoteiro “São Paulo”. Para mais informações, consulte o site www.gesp.com.br e conheça o “Museu Virtual”

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CASAMENTO 1961 União de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes e Laura Coppola Uchôa Fagundes - SP

Na foto com toda família, em pé, na primeira fileira, da esq. para a dir., os sogros Giuseppe Coppola e Lydia Nannini, Carlos Uchôa, Laura e a mãe Margarida.

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Formatura em Administração pela PUC ESAM, em 1963

Carlos Uchôa (à dir.) no estande de sua fábrica, a Europa Lustres, na Feira UD, no Parque de Exposições do Anhembi, em São Paulo (início dos anos 70 / Álbum de família)

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Como diretor da FIESP, sentado à esq. na foto. Reunião da Bancada Patronal do Grupo 14 da entidade com os metalúrgicos (em outubro de 1979). Participaram do encontro, representando os empresários, Benjamin Monteiro, Alberto Villares da Nova Gomes e Claudio Robles

Sentado no canto direito da foto (com óculos), o empresário acompanha o então presidente da FIESP, Luís Eulálio Bueno Vidigal (sentado à sua frente) em Comissão da entidade que visitou o Estado de Pernambuco, a convite do então governador Marco Maciel. A ideia era promover o fomento industrial da região

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Em jantar com a esposa Laura, ao receber uma entre muitas comendas com as quais foi homenageado pelo desenvolvimento da indústria nacional e, em especial, da micro e pequena empresa

Carlos Eduardo Uchôa Fagundes (à dir.) recebe os cumprimentos do então ministro do Trabalho, Murilo Macedo, acompanhado da esposa Laura

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Carlos Uchôa em 1984, em Nova York, em viagem a convite do governo dos EUA em que foi conhecer a experiência do sindicalismo norte-americano

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No centro da mesa, Carlos Eduardo preside reunião FIESP

Em visita a Nova Orleans (Estados Unidos), em 1990, participando de congresso sobre micro e pequenas empresas

Carlos Uchôa com a esposa Laura (à sua esq.) e as filhas em estande da empresa da família, a Comlux Iluminação, em SP, no ano de 2000

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Festa junina em 1996 na Fazenda São José da Glória (Fazendão). O empresário ao lado da filha Laura e da neta Giuliana, observados pela esposa Laura

Carlos Uchôa com os netos Lorenzo e Giuliana Carlos Uchôa e Laura, em 2013

A família em viagem em 2013. Na frente, à esq., a irmã Maria Stella, ao lado da esposa Laura. No meio, o filho Carlos Eduardo, o neto Lorenzo. Na parte de trás, a filha Laura e a neta Giuliana

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FAZENDÃO Fazenda São José da Glória, município de Ipeúna (localizado entre as cidades de Águas de São Pedro e Rio Claro, região central do Estado de SP)

Carlos Uchôa abraça a esposa (à esq.) e filha, ambas Laura, acompanhado da filha Paola (à dir.), dos netos Giuliana e Lorenzo, e do filho Carlos Eduardo

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COMEMORAÇÃO DOS 80 ANOS DO SINDILUX

Festa do Dia da Iluminação e entrega do Prêmio Abilux - Projetos de Iluminação 2013. Dia 22 de outubro de 2013, no salão de festas da FIESP, em São Paulo Fotos: Raffaele Sgueglio

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Árvore genealógica RAMO MATERNO Avô João Evangelista do Rego Freitas + Edméa Ribeiro dos Santos Camargo de Andrade (e Vasconcellos) = 9 filhos, entre eles Margarida Maria do Rego Freitas (mãe de Carlos Eduardo) e Maria de Lourdes do Rego Freitas (Tia Lulu). Já Augusta Ribeiro dos Santos Camargo de Andrade (Tia Sinhá) era irmã de Edméa

RAMO PATERNO Avô Euclydes de Almada Fagundes + Adélia de Souza Queiroz Tamandaré de Mendonça Uchôa = 4 filhos, entre eles o Pai Domiciano

NOVA UNIÃO: DOMICIANO + MARGARIDA = 5 filhos Maria Helena, Euclydes, Carlos Eduardo, Maria Stella e Maria Margarida

CARLOS EDUARDO UCHÔA FAGUNDES + LAURA Filhos Carlos Eduardo, Laura Maria e Paola Maria Netos Giuliana e Lorenzo Bisneto Ramiro

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Reflexões, Poemas e Contos de

Carlos Eduardo Uchôa Fagundes

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Maneco Leite e seu sordado (16/01/06) Manoel Leite era caboclo de tradição. Tinha até primo importante, capitão do Movimento dos Caras Pintadas, comandante da Constituinte Cidadã de 1988. Ulysses era mesmo muito importante. Maneco morava num sítio quase no centro de Piracicaba, no Picicá-Mirim. Tinha muitos irmãos, mas cabia a ele levantar no meio da noite para tirar o leite das vacas, encher as garrafas que eram cada uma de cor e tipo diferente (cerveja, pinga, álcool e refrigerante), umas brancas transparentes, outras verdes, outras em âmbar e até azuis. Terminada a ordenha e terminado o trabalho de encher as garrafas, Maneco arrumava todas na carrocinha, e o leite que sobrava levava no latão. Partia para a cidade antes do dia amanhecer e entregava de porta em porta o leite na garrafa de cada freguês. Nas garrafas não tinha nome, mas Maneco tinha que saber que o freguês tal deveria receber o seu leite nas suas garrafas verdes ou de outra cor, e se era uma ou duas ou três, e onde deveria deixá-las: na porta, na janela, no peitoril da varanda, à mostra ou escondidas. Dona Lourdes queria as suas duas garrafas azuis amarradas com uma palha de milho na grade de sua janela, porque o Heitor, seu gatão branco e preto, de olhos verdes, e ronronantes, adorava leite. E, muitas vezes, derrubava as garrafas para beber o leite esparramado pelo chão. Maneco tinha que fazer isso em silêncio, porque a dona Lourdes não gostava de ser acordada. Às vezes alguns clientes esperavam Maneco passar para pedir-lhe mais três conchas de leite para a canjica ou duas conchas para o bolo, ou ainda cinco conchas para os sobrinhos que vieram passar o fim de semana (para Maneco, todos os dias eram de trabalho). O que sobrava no latão, Maneco levava para a padaria, que começava a abrir. Só que aí recebia em dinheiro, era contar as conchadas, multiplicar pelo valor e receber o total (Maneco não sabia fazer isso). No fim do mês, Maneco corria a freguesia para receber, e recebia o que queriam lhe pagar. Como lembrar de quantas garrafas, de quantas conchadas a mais?

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Além de pouca cultura, pouco estudo, Maneco tinha problema nas pernas e problema na fala. Era difícil entender o Maneco! Cansado dessa vida, Maneco arrumou sua trouxa e se mudou para o sítio no alto da serra do Itaqueri. No rancho à beira da nascente, fincou sua vida, cuidou das vaquinhas e tomou o seu leite, porque não tinha para quem vender. Tinha uma porcada solta e uma galinhada esparramada no terreiro, uns pés de fruta em volta da casa e uma pequena roça de arroz e milho, que plantava com arado de burro na coalheira. Às vezes caçava umas juritis, uns nhambus ou mesmo uns jacus, outras vezes caçava um tatu, um veado campeiro ou uma paca. O tempo foi correndo e o Maneco já quase velho sentiu falta de mulher, e se casou com uma jovem que se dispôs a ir morar com ele na roça. Teve dois filhos: o Waldo e a menina. O “Wardo” era seu companheiro, seu “sordado”. Maneco era um homem muito vivido, muito conhecedor das coisas do mundo, vinha sempre à fazenda para um dedo de prosa, mesmo porque era “bão proseá” com o doutor. Nós o recebíamos como amigos e gostávamos muito das suas estórias, dos causos que ele passava, embora seu jeito fanho de falar, e seu sotaque piracicabano muito pronunciado, dificultasse por vezes o nosso entendimento. Minha mulher tinha um potro pampa ― pampa de baio e alazão ― que nasceu na fazenda, tomou mamadeira, ficou da família. Bastava ela sair na varanda e chamá-lo, ele vinha galopando, ela abraçava o seu pescoço e ele relinchava de prazer. Quando ela ia em direção ao paiol, ele a escoltava com aquele olhar maroto, sabendo que ia ganhar um presente. Ela escondia a espiga de milho nas costas e ele enfiava o focinho por entre seus braços e, virando a cabeça, abocanhava a espiga de milho que era dele e que ela tinha escondido. O potro pampa comia a espiga de milho e saía galopando, corcoveando, agitando o rabo e relinchando. Às vezes patinava a terra porque queria agradecer e demonstrar que estava feliz e era amado.

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Numa tarde, numa linda tarde, estávamos sentados na varanda ouvindo uns causos do Maneco Leite quando ouvimos um relincho dolorido. Minha mulher pulou da cadeira e gritou: “É o Pampa”. Lá vinha ele trotando com a mão esquerda levantada. Maneco, mesmo enxergando pouco, mas conhecedor, disse: “O potro quebrou a pata dianteira. Corremos todos, minha mulher o abraçou pelo pescoço e o Pampa com seus olhões opacos disse-lhe que estava com medo, que estava sofrendo muito. Não sabíamos o que fazer, e então perguntamos ao Maneco. Ele disse: “O cavalo quebrou a mão, e isso não tem cura. O melhor que têm a fazer é dar uma machadada na cabeça dele e aliviá-lo de muito sofrimento”. Nossa reação foi imediata, descarregamos toda a nossa raiva no pobre do Maneco, que montou na sua eguinha baia e foi embora. Chamamos veterinário, entalamos a mão do potro, demos injeção, fizemos atadura e o colocamos numa baia especial, com comida e água, passávamos boa parte do dia e da noite com ele, colocando cobertores, dando remédios, conversando com ele e até rezando por ele. Não teve jeito. Numa manhã bem cedo, quando ainda a neblina ofuscava o sol nascente, encontramos o Pampa morto. Tinha razão o Maneco. Poderíamos ter evitado tanto sofrimento para aquele lindo cavalinho pampa. Um dia, depois do almoço, chega o Maneco, todo esbaforido, montado na sua eguinha baia, com seus arreios muito velhos e sem barrigueira, puxando pelo cabresto de corda um burro pelo-de-rato com um menino em cima. Maneco foi logo gritando, antes mesmo de passar pela porteira: “O dotô taí?”. Felizmente eu estava. Saí na varanda e ele me disse: “É cobra, dotô, cascavé pegô meu minino”. Corri, desapeei o garoto e perguntei aonde a cascavel tinha aferroado. Ele me mostrou duas marquinhas vermelhas como mordidas de pernilongo, acima do tornozelo direito, mas já na cela. Perguntei há quanto tempo, ele me disse que já faziam mais ou menos duas horas, e que estava doendo muito.

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Não pus nenhum torniquete, nenhuma atadura e não dei nenhum analgésico. Coloquei-o na caminhonete e voamos para Rio Claro, levantando um poeirão pelas estradas e quase desabando da serra, pelas curvas feitas em alta velocidade. Finalmente chegamos à Santa Casa. Pela minha condição de fazendeiro (possível benemérito da instituição), consegui entrar com o Maneco, maltrapilho, e seu filho “Wardo” na emergência. Colocaram o rapaz numa cadeira e mandaram esperar, que o médico já estava vindo. Maneco gemia: “Não posso perdê meu ‘sordado’! Não posso perdê meu ‘sordado’! É o único que eu tenho, não posso perdê. Valha-me Nossa Senhora”. O tempo passava e o médico não vinha. Fui ver o “sordado” e percebi que ele já não estava enxergando, que o veneno estava completando o seu efeito e que a morte era eminente. Fiquei louco! Saí pelo hospital à caça do médico e, agarrando-o pelo braço, obriguei-o a atender o Waldo. Quando ele o viu, se apavorou, mandou levá-lo para a U.T.I., aplicou-lhe doses reforçadas de soro antiofídico, tomou todas as providências médicas disponíveis, e ficamos eu e ele ao lado da cama do “sordado” até que ele desse sinal de melhora e que os remédios estavam fazendo efeito. O doutor me disse que não tinha sido avisado que tinha um caso tão grave esperando por ele, e que graças a Deus a vítima era um caboclo, um sertanejo, e que por ter sido picado por vários tipos de insetos e arranhado por vários tipos de espinhos venenosos, tinha desenvolvido anticorpos, e que se fosse um de nós não teria sobrevivido. Waldo ficou no hospital mais uma semana, garanti à Santa Casa que todas as despesas seriam pagas, mesmo porque o Maneco tinha posses. Por isso ele teve um tratamento adequado. Maneco não arredou pé da cama do seu único “sordado” durante todo o tempo. Ao final, estava molambento como nunca e muito fedido, mas radiante, porque seu exército de um único “sordado” não tinha sido derrotado. A mãe do Waldo nunca veio ao hospital. “Muié é pra ficá dentro di casa.”

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Maneco, homem velho, casou-se com mulher nova e era extremamente ciumento: “Muié minha é só pra eu vê”. Nas raras vezes em que fomos à casa do Maneco, ele nos recebia como reis, não sabia o que fazer para nos agradar. Éramos recebidos na varanda, de vez em quando Maneco entrava na casa e voltava com um bule de café adoçado, numa bandeja com uma toalha de crochê imaculadamente limpa e umas xicrinhas de porcelana decoradas com flores rosa. Tínhamos certeza de que sua mulher estava nos olhado pelo vão da porta e se deliciando com a nossa prosa. Maneco morreu de velho, praticamente cego, fanho e coxo, mas conservou suas terras e sua família, o “sordado” cresceu, ficou um homem forte e trabalhador. Até hoje me lembro do Maneco dizendo: “É, é... Dinhero no meu borso é quanto mai é quanto mai”. O dinheiro era até fácil de entrar, mas muito difícil de sair, por isso ele juntou e juntou... Mas não levou, deixou tudo para o “sordado”.

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Bororó (28/02/06) Tori! Tori! Sai da casinha pra morrê! Tori! Tori! Sai da casinha pra morrê! Tomou um tiro de 38 na barriga, caiu sentado no chão, com a borduna na mão e os olhos esbugalhados de dor e de medo. Ali mesmo estrebuchou. Seus companheiros bororós, com medo do clarão e do estampido fugiram mato adentro. Velho Ângelo ficou com muita raiva. O tiro furou o mosquiteiro e agora ele estaria à mercê das muriçocas, piuns, borrachudos e pernilongos que iriam infernizar o resto de sua noite. Desde pequeno andei pelos sertões. Pelas matas, pelas encostas de serra e pelos cerrados. Andei a pé, em lombo de burro, puxando cangalha, tocando tropa. Andei de piroga nos riachos e de barco nos grandes rios. Vaguei pela nação dos Xavantes, dos Canoeiros, dos Javaés, dos Txucarramães, dos Anhambiquaras, dos Carajás e dos Bororós. Sempre que dormíamos em lugares ermos armávamos nossas redes em círculo, o mais alto possível, e acendíamos uma fogueira no meio. De manhã era comum encontrarmos rastros de onça pintada que havia nos visitado à noite. Corria uma crença de que os bororós semiaculturados, mas ainda muito ferozes, acreditavam que não podiam matar cristão (tori-branco) dentro da casinha (cobertura de filó branco que se colocava por cima da rede, para evitar o ataque de mosquitos) porque sua alma estava protegida dos maus espíritos.

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Sem título Sexta-feira, 03/03/06, 16h30, um lindo dia de verão. Saio mais cedo do escritório para ir ao encontro da minha mulher, minha filha e meu neto, na praia. Chego em casa, tiro o paletó e a gravata, a camisa, a calça, o sapato e as meias pretas e finalmente a cueca, ficando por alguns momentos do jeito que mais gosto: nu, completamente livre de qualquer indumentária. Visto uma camisa polo branca, uma cueca limpa e a minha calça de algodão bege claro, de amarrar, calço minha sandália de couro e parto no carro de reserva. Um pouco antes de chegar ao começo da rodovia dos Imigrantes, paro num posto na Rua Fagundes Filho. Mando completar de álcool, verificar a frente e calibrar os pneus com 28 libras. Dirijo-me para o caixa, entrego o cartão e digo “crédito”. Enquanto aguardo o processamento, sou abordado por um senhor baixinho, grisalho e bem vestido. Usava uma camisa de linho clara, uma calça cáqui, mocassins marrons, da mesma cor da cinta, óculos Vouarnet e um relógio com pulseira de ouro, e disse-me: “Por favor, posso lhe perguntar onde o senhor comprou essa calça?”. Com a maior simplicidade, disse a ele que a calça era formidável, extremamente confortável e muito prática. Ele insistiu mais uma vez: “E o onde o senhor a comprou?”. Levantei um pouco o braço e, apontando, falei: “Numa lojinha lá no Paraíso”. Ele olhou bem para mim, repetiu o gesto que eu havia feito quando lhe exibia minha calça e falou: “Esta eu comprei em LONDRES, viu!!!”. Virou as costas e saiu pisando duro.

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A campânula (introspecção e transcendência) (20/12/05) Convidei minha companheira a jogar o jogo da introspecção durante o jantar. Com a sua aquiescência, baixou como demência ou ilusão uma campânula fosforescente e iluminada que englobou a nossa mesa e nos isolou de tudo e de todos. Não podíamos ser vistos e não podíamos ver quem estava do lado de fora. Aqui dentro era tudo lindo e maravilhoso, não nos faltava nada, o ar era fresco e a iluminação suave. A campânula nos dava uma sensação de segurança e intimidade, o silêncio nos permitia pensar. Realmente nos sentíamos felizes. Dentro da campânula não existe o ontem e o amanhã, só o hoje. Não tínhamos referências do passado, compromissos, acordos, vínculos, dívidas, nada, nenhum laço que nos obrigasse a nada. Estávamos livres. Tampouco tínhamos promessas para o futuro. Devíamos viver e desfrutar o “aqui e agora”, sem pensar no passado ou no futuro. Isolados de todos e no silêncio agradável do ambiente, nos olhamos nos olhos, bem no fundo dos olhos, por um tempo enorme, e pudemos perceber a luz fantástica que um olhar apaixonado emana para a alma e o coração a um só tempo. E no exato momento, a emoção é muito forte. A pele se arrepia e os olhos lacrimejam. Nesse momento sublime, muitas coisas não serão ditas, mas entendidas. Muitas emoções serão sentidas, experiências serão vividas, e, se acontecer que o sêmen introduzido no âmago do ser germinar, surgirá um novo ser que não sou eu e nem você, será um pouco eu e você, mas único, novo, individual, sui generis. Será ele, só ele, e este fenômeno da natureza sempre será inexplicável, será a um só tempo a imanência e a transcendência cuja única explicação é a verdade inexorável da existência de Deus.

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O sonho (relato) (13/08/12) Combinei com um amigo de montar uma fábrica. Um dia ele me disse que o pai tinha uma loja de tintas e que lhe pediu para fazer algumas entregas, e perguntou se eu gostaria de ir com ele. Eu disse que sim. Fomos num carro antigo, tipo Belina, marrom escuro, já bastante desbotado. Fizemos a primeira entrega sem problemas, mas na segunda não encontramos o endereço e resolvemos ir até à loja perguntar como localizá-lo. A loja era numa rua larga e ficava recuada, deixando a parte da frente para estacionamento. Quando chegamos, seu pai já nos esperava. Pedimos as explicações e eu disse ao meu amigo: “Então vamos”. Mas o pai dele disse: “Ele vai e você fica”. Achei o pai bastante jovem. Tinha um cabelo preto todo encaracolado, cheio de cachinhos que lhe cobriam as orelhas. Seu rosto era arredondado. A pele branca rosada e seu semblante transmitiam bondade e paz. Vestia um terno bastante estranho, de um tecido grosso, cinza escuro com pintinhas brancas, pie-de-poule, bem justo no corpo e abotoado na frente, debaixo até em cima, com grandes botões cor de caramelo. A gola era arredondada e em volta do pescoço tinha um lenço de seda preta franzida, o que lhe dava uma aparência bem elegante. Convidou-me para andar com ele e saímos por uma estrada de terra branca, em larga e bem terraplenada, só que ele preferia andar pela calçada, que era menos perigoso que o meio da estrada, embora a calçada estivesse muito mal conservada, não passando de uma trilha. Ele ia à frente, tirando os galhos, os ramos secos, afastando os espinhos e me ajudando a pular os buracos, até que chegamos num trecho onde a trilha calçada passava por um trecho de mata dos dois lados, a terra era vermelha e descia uma ladeira ao lado da qual estava caída uma grande vara preta, da grossura de uma garrafa e uns quatro metros de comprimento. Ele pegou a vara por uma das pontas com as duas mãos, ergueu-a e a atirou como se fosse uma lança no trecho de mato

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do lado direito, dizendo: Um rei ou um rato Lugar de pau é no mato A vara caiu fincada no mato, num ângulo de 45 graus e eu pensei que ela servirá para ajudar os bichinhos a subirem nas árvores. Durante a caminhada, conversamos bastante sobre a fábrica e ele me nominou cinco pessoas suas conhecidas e de confiança, descrevendo suas habilidades e competências. A fábrica iria ser em Rio Claro. No final da ladeia de terra vermelha e no meio do mato reencontramos a estrada de terra branca, bem lisa, começando a entrar na cidade. Disse eu, então: “Olha como eu estou andando bem e não estou nem um pouco arfante, minha respiração está normal. Quanto será que caminhamos?”. E ele me disse: “Dois quilômetros. Então – acrescentou – o problema da fábrica ser em Rio Claro é com você”. Aí eu disse: “Não tem problema nenhum. Adoro Rio Claro, passei parte da minha infância lá, e se for preciso eu me mudo para lá. Ademais estamos a apenas uma hora e quarenta e cinco minutos de São Paulo”. Ele me descreveu com minúcias que tipo de autopeças iríamos fabricar e quais eram os clientes. Obrigado, meu anjo!

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João de Campo Benzedor (14/01/06) João de Campo morava numa casinha simples, em cima da serra do Itaqueri, bem no espigão, com vista ampla para o mundão que se descortinava por todos os lados. Casinha simples, de duas águas e um cômodo só, piso de terra batida, parede de tijolo barreado e telhas de barro, feitas no joelho. A um canto, um fogão a lenha e um banco de madeira tosca, que servia de mesa. As poucas panelas eram penduradas na parede, numa espécie de cabide feito de madeira. No outro canto tinha um catre feito de varas de pau e um colchão de palha de milho em sacos de aniagem. Em uma das águas foi feito um puxado que seria um alpendre ou uma varanda, e tinha uma tábua fixada no chão com quatro estacas na altura do umbigo, que fazia as vezes de balcão. Num canto dentro da casa tinha uma bilha de barro e uns garrafões de água que João de Campo pegava no bicão que jorrava da nascente. Em volta da casa tinha quatro araucárias (pinheiros) centenárias tão altas e tão grossas que nem dois homens conseguiam abraçar. João catava os pinhões e os guardava num jirau junto ao telhado da sua casa, e os ia consumindo ao longo do ano. João pertencera à senzala da fazenda dos Frotta e, escravo alforriado e sem família, construiu sua casinha aos pés das araucárias e pôs lá uma vendinha para vender cachaça branquinha que mandava vir do alambique. Jurou que não ia mais trabalhar, que eito de roça, nunca mais, nem mesmo para comer. E assim foi vivendo. A última vez que contou sua idade, estava com 103 anos, e a carapinha ainda nem estava toda branca, só uns fiozinhos. Na venda do João de Campo, se vendia cachaça da branquinha que pingava do alambique e também da misturada com mil ervas, sementes e raízes que João preparava, pra tirar quebranto, mau-olhado e tantas coisas mais. Tinha com semente de fava sucupira para tirar dor no corpo, com carqueja para o fígado, com losna para o estômago... Para qualquer mal, João tinha um preparado ou uma reza na sua língua banto, que ninguém entendia.

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Nos dias santos, João fazia uma reza que acudia todo o povaréu da região. Era Santo Antônio, São João, São Pedro, Nossa Senhora Aparecida, São Benedito... Puxava o terço, fazia benzimento, contava causos, dava conselhos, ouvia lamúrias, apartava brigas e... vendia muita pinga. João benzia de tudo, de quebranto, mau-olhado, inveja, desamor, picada de cobra, chifrada de boi, coice de mula, estrepe no pé, quebradura e queimadura, mas o que ele era melhor era com as cobras. Muitos fazendeiros, sitiantes ou mesmo arrendatários recorriam às benzeduras do João, quando as mortes por picadas de cascavel ou jararaca aumentavam muito no seu rebanho, especialmente nos anos de muita chuva. Bastava aparecerem duas ou três vacas mortas que os proprietários recorriam ao João de Campo para benzer aquele pasto, aquela fazenda ou aquele sítio, pedindo para as cobras deixarem aquele lugar e irem para a furna, que era uma enorme reserva de Mata Atlântica, onde era o seu lugar. João não precisava ir ao local, bastava descrevê-lo e ele fazia o benzimento na hora. Quando as mortes diminuíam, porque as cobras foram embora ou porque ficaram mansas, os que pediram um benzimento levavam um presente para o João de Campo, que podia ser uma saca de arroz, cinco litros de feijão, uma saca de açúcar, um suã de porco, uns frangos gordos ou um quarto de boi. De tudo, o que João gostava mais era a carne de boi, e, como já não tinha mais bons dentes, fazia uma “cardaça” que ia consumindo por vários dias e que era especialmente boa nas noites de frio que degustava sozinho, na beira do fogo. A “cardaça” era um ótimo alimento porque João picava a carne bem miudinha e, junto com a gordura e os nervos, deixava cozinhar horas e horas a fio, até quase derreter. Aí adicionava um pouco de fubá, cebola, alho, pinhão, sal e algumas ervas aromáticas. Tudo isso se tornava uma espécie de gelatina que ele guardava num pote grande, de ferro fundido, com tampa. Na hora de consumir, fervia uma panela de água, adicionava uma porção da “cardaça” e bebia de colher, ainda bem quente. Um dia, João de Campo sumiu. Ninguém, nunca mais, soube do seu para-

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deiro. Não deixou vestígio, simplesmente sumiu. Morou naquele lugar mais de cem anos e sumiu. Os clientes da venda do João de Campo continuaram a consumir as branquinhas, as temperadas e os pinhões cozidos, até que tudo terminasse e, como ninguém aparecia para cobrar a conta, ela nunca foi paga. Como as mercadorias terminaram, também a clientela sumiu e o mato começou a tomar conta da vendinha do João de Campo, que com o tempo virou tapera e morada de juritis e jaracuçus. Muita estórias foram contadas do sumiço do João de Campo. Diziam que ele, tendo exagerado no consumo da branquinha, saiu numa noite de lua e foi até à beira do paredão da serra, que tinha mais de trezentos metros de altura, e saiu voando para nunca mais voltar. Outros contavam que, com vontade de comer um pouco de carne, que ele gostava tanto, saiu numa noite escura para caçar um tatu e, quando enfiou a mão no buraco para puxar o bicho pelo rabo, não era tatu, mas uma cascavel que enfiou-lhe as presas cheias de veneno – porque já estava há vários dias sem comer – diretamente nas veias do seu pulso. O veneno fez efeito imediato e, cego por esse efeito, João caiu paredão abaixo e nem os corvos quiseram comer seus restos. Outros contavam que São Benedito veio buscar seu mais devoto e fervoroso crente, o nego João de Campo, que depois de tantos e tantos anos sem deixar de mencionar o santo em nenhuma de suas rezas, merecia ir com ele para o céu. Até hoje, na região, se fala de João de Campo, da vendinha do João de Campo, e que nunca mais haverá um benzedor e contador de causos tão bom como o João de Campo.

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Furazoio (22/01/06) Desesperadamente, Juca chamava a Marica: “Me acuda pelo amor de Deus, me acuda, me acuda”. Tinha a mão direita tapando o olho direito e o rosto todo ensanguentado. Gritando e chorando, dizia repetidas vezes: “Ele furou meu zoio, ele furou meu zoio...”. Todo dia bem cedinho, mal o sol despontava no horizonte, o Juca, levando no ombro a Lurdinha, sua enxada de estimação, a lima com cabo de sabugo de milho presa nas costas, atravessada na cinta, e a matula que a Marica lhe preparava, saía pela porta da cozinha de taipa, coberta de sapé, atravessava o pátio, descia pela trilha até o ribeirão, vadeava-o e tornava à trilha morro acima, pelo meio do mato, até chegar a uma banqueta de terra plana e muito fértil, onde tinha sua roça. Plantava arroz, milho entremeado de feijão. Nas leiras de mato derrubado, plantava pepino e abóbora. No meio do arroz semeava quiabo e melancia. Juca tinha muito orgulho da sua roça e cuidava dela com muito carinho, pois ela garantia o seu sustento e da sua Marica. Tinha uma casa simples, mas com muita fartura. Uma noite deu uma tempestade violenta, até balançou o rancho. O ribeirão encheu e transbordou, inundando as várzeas. Juca estava ansioso para ver o que tinha acontecido com a sua roça, e assim que clareou o dia lá foi ele morro acima, mas a tempestade havia derrubado uma árvore bem em cima da sua trilhazinha. Juca não tinha nem foice nem machado, mas quebrando uns galhos e entortando outros conseguiu passar. Depois traria o machado para cortar os galhos. No outro dia foi para a roça como sempre, encontrou a árvore caída, deu um jeitinho e passou, pensando que deveria se lembrar de trazer o machado para cortar aquele galho que era perigoso, com espinhos que poderiam furar seus olhos. Juca continuou indo todos os dias para a roça, bem cedinho, como sempre. Almoçava às nove horas, ao meio-dia ― hora do sol quente ― tomava café e

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descansava um pouco na sombra, e às três horas voltava para casa, ainda com tempo de tratar dos animais, e às cinco horas jantava. Junto com a Marica, ficava de coque no terreiro, apreciando o pôr do sol, para depois ir dormir. De tanto passar pela árvore caída, Juca já nem a percebia mais. Ia chegando, dando um jeitinho e passando para o outro lado. Até que um dia, distraído, o galho malvado lhe furou o “zoio”. Nota do autor: Costumo contar esse causo como um conselho a quem está iniciando uma nova atividade ou um novo emprego, para que observe e anote sempre as suas primeiras impressões, porque passados alguns dias, nos acostumamos com as coisas e já não notamos mais nada, perdendo assim uma ótima oportunidade de promover mudanças e inovações (fenômeno da psicoadaptação).

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A Brisa (05/11/09) Queria ser a brisa solta que corre pelos campos perfumados. Queria ser a brisa cálida que despenteia seus cabelos louros e pinta de rosa seu rosto alvo. Queria ser a brisa que sobe as encostas das serras semeando os manacás. Queria ser a brisa que esparrama o canto da passarada e traz o gorjeio do sabiá. Queria ser a brisa que enfuna as velas do barco que singra os oceanos com destino à liberdade. Queria ser a brisa quente que te aquece nas noites de inverno e a brisa fresca que te refresca nas tardes quentes de verão. Queria ser o Zéfiro

― deus grego da brisa da primavera ― para fazer jus à sua divindade de beleza e eterno AMOR

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Sem título No galope da loucura quero estar perto do teu coração.

Na distância da solidão não quero ser um ermitão.

Sempre junto e sempre perto, todo início tem um fim, todo fim tem um início.

Eu sou como a tâmara do deserto: seca por fora, doce por dentro.

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A estrela (12/05/13) Eram 7h da manhã e eu já estava na sala de embarque do Aeroporto de Congonhas, para pegar o voo das 7h15 para Brasília. Era uma quarta-feira e uma linda manhã de primavera. Tinha várias reuniões, começando com a das 9h30 no Ministério da Indústria e Comércio. Reservei a passagem de volta para as 18h26, porque queria chegar para o jantar. Estava já em frente à porta de vidro que dá acesso à pista, quando uma mulher bastante nervosa e trêmula segurou no meu braço e me disse: “Por favor, ajude-me, a turba quer me pegar”. Olhei para trás e vi um grupo de pessoas agitadas. Ela era um pouco mais alta que os meus ombros, tinha as costas largas, seios fartos e cabelos compridos. A aeromoça abriu a porta de vidro e nos convidou a ir para o avião. Atravessamos o pátio de braços dados, pedi a ela que subisse na frente que eu iria atrás para protegê-la. Embarcamos e nos sentamos nas primeiras cadeiras, ela na janela e eu no corredor. Atrás dela sentou-se sua dama de companhia, que pelo seu porte ereto, seus cabelos curtos pintados de loiro avermelhado, seu semblante austero, mais parecia uma policial ou guarda-costas. Pedimos à aeromoça um copo com água e açúcar ou um calmante. Ela me contou que tinha trauma de público, porque muitas vezes que fazia shows ficava traumatizada. Falei pra ela: “Eu vi um show seu, maravilhoso, lindo, quando você estava vestida de branco num palco, toda iluminada, cantando o Hino Nacional. Fiquei muito emocionado. Foi uma apresentação fabulosa”. Ela falou que depois dessa apresentação ficou muito popular e o público chegava a ela cada vez mais. “Era horrível, aqueles caras me cantando, depois aquela massa de gente enorme pula em cima da gente, um te aperta, um te beija, outro te cutuca, outro puxa o cabelo... Nem sempre eles são cheirosos, muitas vezes são suarentos, fedorentos, cheirando a bebida, cheirando a álcool, várias vezes são drogados, então eu fiquei traumatizada”.

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Por isso, quando ela via movimento de fãs enlouquecidos, entrava em pânico e por isso pediu minha ajuda, naquele momento. Aí começamos a conversar sobre vários outros assuntos e o comandante anunciou: “Atenção, senhores passageiros. Estamos pousando no Aeroporto Internacional de Brasília. O tempo é bom, 22 graus, e agradeço por terem optado por nossa companhia”. Desembarcamos e eu a acompanhei até o saguão principal onde estava uma torcida enorme, com faixas os dizeres: “Bem-vinda”, “Querida”, “Nossa Estrela” etc. O pessoal começou a cantar, ovacionar, ela foi em direção a esse público e eu fui procurar o meu motorista. Entrei no carro com uma sensação muito gostosa, por ter voado pelos céus do Brasil em companhia de uma estrela, Fafá de Belém.

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O matador de onças Se non e vero è ben trovato Morava na fazenda São José da Glória, em Ipeúna, um casal muito interessante, que era o Edevaldo e a Nilda, e eles vieram do Paraná. Ela era filha de italianos, uma moça bonita, loirinha bem clara, de olhos bem azuis. Quando morava no Paraná, ela se casou com um baiano, um sujeito pardo, rude, bem forte, chefe de turma, que era muito malvado, muito ruim pra ela e para as outras pessoas. Com esse baiano ela teve dois meninos. Esses meninos saíram clarinhos, mas com cabelos cacheadinhos, belas crianças. O marido a obrigava a trabalhar na roça, carpindo café, mesmo grávida. Quando a criança nascia, ela levava um pano para a roça, limpava debaixo da saia de um pé de café e punha a criança lá, enquanto ela carpia em volta. Depois mudava a criança para outro pé de café e assim ela ia cuidando da criança e se obrigando a carpir café. Na época da colheita era a mesma coisa. Tinha que colher, peneirar, fazer todo o trabalho que o café dá. Esse sujeito, como chefe de turma, era muito ruim, muito bravo. Acabou que ele foi matado. Num acerto de contas enfiaram uma faca na barriga dele. A Nilda, então, ficou sozinha e acabou conhecendo esse Edevaldo, um rapaz loiro, filho de italianos, bem apessoado. Casou-se com ele e teve mais dois filhos. Uma beleza de crianças, loirinhos, de olhinhos azuis, bem diferentes dos outros irmãos. Eles se mudaram do Paraná para São Paulo, foram de um lado pra outro e acabaram chegando a essa fazenda São José da Glória. Ali eles tinham uma situação mais ou menos boa, eram caseiros, a fazenda era grande, e a obrigação deles era tomar conta da sede, do pomar, aquelas casas todas. Eles cuidavam daquilo tudo. Estavam bem. Um dia, de tardezinha, o Edevaldo pegou os quatro filhos – os dois dele e os dois enteados – e foi, como faziam muitas vezes, a um campo de futebol que era uma parte plana do pasto, um pouquinho retirada da casa. Ficaram brincando de jogar futebol e, quando o Edvaldo percebeu vi-

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nha vindo uma onça parda, suçuarana. A onça deu com ele, parou um pouco e o Edevaldo falou: “E agora, o que é que eu faço?”. Abriu os braços, pôs as crianças atrás dele, ficou na frente deles como se fosse uma galinha com os pintinhos escondidos debaixo das asas. A onça ficou olhando para ele, se preparando para investir, e ele rezou: “Meu Deus do céu, o que eu posso fazer? Não tenho nada pra fazer aqui, agora. Me acuda! Me acuda!”. Foi quando ele viu a bola no chão, um pouco à sua frente. Ele era canhoto e chutou a bola com toda a força. A bola pegou na cara da onça, que ficou um pouco aturdida com aquela bolada, e foi o que eles precisavam: pegou os dois filhos pequenininhos no colo e foi com os outros dois correndo pra casa. Ficaram dentro de casa espreitando se a onça vinha ou não vinha, por fim pegou a espingarda e foi dar uma olhada, a onça tinha ido embora. No sábado, ele foi ao culto e contou ao pastor. O pastor achou que aquilo era um milagre: “Como Deus é bom! Como Deus é poderoso! Como Deus é forte! Salvou essas crianças”. A onça iria, sem dúvida, pular em cima daquelas crianças e pegar pelo menos uma delas. Como o pastor falou no púlpito, inclusive, resolveu contar sobre esse chute que parecia um canhão, publicou na internet, nas redes sociais, só que dizia que o chute matou a onça. Isso rodou pela internet toda, teve muitos acessos. Um dia chegam lá na cidadezinha duas pessoas procurando o tal Edevaldo. Conversa daqui, conversa dali, eles eram olheiros da seleção brasileira e queriam conhecer o sujeito que tinha um chute que matava uma onça. Falaram com ele e o convidaram para ir para o Rio de Janeiro, fazer uns testes lá, e realmente ele tinha uma potência fora do comum na perna esquerda. Era um jogador comum, sem grandes méritos, mas esse chute interessou muito a eles. Então colocaram esse Edevaldo para fazer gols. Ele ficou muito bom em chutes fortes. Chutava de um lado, chutava de outro, punha bola colocada, punha a bola onde queria. Então passou a jogar no time. Sempre

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que tinha pênalti era ele quem cobrava. Ele chutava e, quando o goleiro ia se movimentar a bola já tinha entrado. Com aquela potência de chute, fez muitos gols. Houve uma ocasião que tinha uma disputa por pênaltis. Puseram o Edevaldo e, com aquela responsabilidade toda, lhe veio à mente aquela cena da onça. Pensou: “Deus me ajude, que eu tenho que acertar esse chute”. Encheu o pé, deu uma bolada, o goleiro encaixou a bola, mas o chute era tão forte que o goleiro caiu de costas dentro do gol. O juiz deu o gol. O goleiro ficou caído lá no chão, vieram enfermeiros e viram que ele quebrou duas costelas, tal a força do chute. Com isso, o Edevaldo ficou bem de vida, comprou uma casa na cidade e um sítio, ficou morando na cidade e pôs as crianças para estudar num colégio bom, mudou completamente a vida dele. Essa é a historinha que eu queria contar hoje.

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