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December 6, 2016 | Author: Anonymous | Category: N/A
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21 de set de 2006 - peloSIS.Nãosabiaenãoseimporta. “As autoridades americanas estão a esconder o seu envolvimento”. PED....

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Portugal

SOB VIGILÂ EXTREMISMO. MOVIMENTO ISLÂMICO CONTROLADO EM PORTUGAL

O grupo islâmico Tabligh Jamaat, do qual foram seguidores os terroristas dos atentados falhados em Inglaterra, funciona também em Portugal. E está a servigiado pelo SIS Por António José Vilela, Fernando Esteves, Nuno Tiago Pinto e Ricardo Marques

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ois destacados membros da Comunidade Islâmica portuguesa estão a ser vigiados pelo Serviço de Informações e Segurança (SIS). São eles o director do Colégio Islâmico de Palmela, Xeque Rizwan Daud Ismael, e o segundo secretário da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Ismael Lunat. Motivo: pertencemambos aummovimentochamadoTablighJamaat– cujatradução literalé “grupo de pregadores” –, que

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estásobvigilânciadas autoridades francesas, britânicas enorte-americanas. Alémdos cargos que ocupam na comunidade, Rizwan Daud Ismael e Ismael Lunat são, respectivamente, líder espiritual e operacional do Tabligh Jamaat em Portugal. “As estruturas da organização estão sob vigilânciahájáalgumtempo”,disseàSÁBADO umafonte do SIS. Ainstituição só mereceumaioratenção após o 11 deSetembro de 2001. “Chegaram-nos informações dos ser-

viços norte-americanos e ingleses e passámos a dedicar maior atenção às actividades deles em Portugal.” A vigilância passa por controlosperiódicosdemovimentos. Nofim dasemanapassada,porexemplo,IsmailLunat esteve no Reino Unido, numa reunião comrepresentantes dogrupo– oquartel-general da organização na Europa é em Dewsbury. ASÁBADOsoubedestadeslocaçãoatravésdeumafontedoSIS,masopróprioIsmael Lunatconfirmouaviagem. Confrontadocom 21 SETEMBRO 2006

ÂNCIA

“É difícil haverradicais entre nós” Ismael Lunat, dirigente do Tabligh Jamaat, dizà SÁBADO que todos os membros do grupo são investigados ao pormenor

AFP

! O ritual repete-se todas as segundas-feiras

avigilância, o segundo secretário daCIL dissedesconhecê-la.“Masnãomesintoincomodadoporquequemnãodevenãoteme”,afirmou. A SÁBADO não conseguiu entrar em contacto com Rizwan Daud Ismael.

SÁBADO

TABLIGH JAMAAT

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ESTECONTROLOPERIÓDICO estende-seaoutros membros daComunidadeIslâmicaque realizam deslocações frequentes ao estrangeiro, a outros “dez a 12 elementos de segunda linha” do Tabligh Jamaat e ao directordarevistaAlFurqán,YiossufAdamgy,que não faz parte do movimento. Fonte policial garante que as entradas e saídas do País não estãoapassardespercebidasaoDepartamento de Pesquisa e Análise, o órgão do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras especializado

O Tabligh Jamaat reúne-se anualmente na Índia, Bangladeche e Paquistão

(Grupo de pregadores) Organização internacionalque funciona em esquema de pirâmide e em secretismo. O último líderconhecido chamava-se InamulHassan. Morreu em 1995

à noite na Mesquita de Lisboa. Muçulmanos de túnica e barba comprida chegam para o encontro semanal do Tabligh Jamaat, um movimento islâmico de pregadores que está a ser acompanhado pelos serviços secretos de vários países. “Somos missionários do Islão e o Islão proíbe-nos de fazer o mal”, explica à SÁBADO Ismael Lunat, de 60 anos, um dos dirigentes máximosdogrupoem Portugal. “Sempre que Anível internacional a vamos para organização é muitas vezes descrita como o exterior ou sendo “terreno fértil” recebemos para a actuação de alguém somos elementos extremis- verificados” tas. Uma possibilidadequeLunatrejeitaporcompleto.“Achomuitodifícil,quaseimpossível,queindivíduosmais radicaispossamentrar.Conheçomuitobemo grupo.NoseiodoTablighaspessoassãosujeitas a uma verificação muito rigorosa do seu passado. Sempre que vamos para o estrangeiro ou que recebemos uma delegação do exterior, somos todos verificados. É preciso terumpassadomuitoricodemissionáriopara terresponsabilidade no Tabligh”, diz. Mas então como explicar o interesse dos serviçossecretos?Ismael Lunatcomeça por distinguiracomunidadeislâmicaportuguesa de todas as outras. “Aqui, somos quase todosportugueses.Nascidosecriados,perfeitamente integrados. A comunidade é muito unida. Lá fora, por vezes, não é assim.” A seguir, o líder dos Tabligh arrisca destacar as semelhanças. “Quando olham para mim, para nós, com asbarbas e as vestes tradicionais, a imagem que as pessoas têm é a de Bin Laden”, lamenta. “Estou todos os dias na Mesquita, as reuniões são semanais. Todos sabem onde estou. Se me querem vigiar, não me importo.” 49

em tratamento de informação e que colaboracom o SIS e aDirecção Central de Combateao Banditismo (DCCB) daJudiciária. “Não nos falta informação”, diz uma fonte da secreta. “A questão é seleccionar informação credível.” Por isso as vigilâncias são espaçadas, de forma a ver se há rotinas alteradas. CriadonaÍndiaem1927,oTablighJamaat tornou-seumdosmaisinfluentesmovimentos islâmicos do Mundo. Hoje estápresente na maior parte dos países, incluindo aqueles ondeacomunidademuçulmananãoésignificativa, como a China ou o Japão. E to-

REUTERS

A acção missionária do Tabligh junto dos fiéis pode ser aproveitada por radicais islâmicos

dos os anos reúnemilhões depessoas naÍndia, Paquistão e Bangladeche. Aorganizaçãotornou-seumalvodaatençãodas autoridades ocidentais poucodepois do 11 de Setembro de 2001. Diversas investigações revelaram que vários suspeitos de terrorismotiveramligações,emalgumafase das suas vidas, ao movimento, que prega o regressoaos valores dos primórdios do Islão. Recentemente, o jornalTheTimesnoticiouqueWaheed Zaman e de Assad Sarwar, detidos naoperação policial britânica que anulou o atentado a diversos voos transatlânticos, a 10 de Agosto passado, eram “seguidores da TablighJamaat”. O jornalThe Guardian refere que dois dos bombistas suicidas – Mohammad Sidique Khan e Shehzad Tanweer –queparticiparamnoatentadode7deJulho de2005,nometrodeLondres,frequentavam a mesquita que é a sede da organização na Europa. Segundo o The Guardian, Richard Reid, o “bombista dos sapatos”, assistia a reuniões daTabligh. E JohnWalkerLindh, o chamado“talibãamericano”,terácomeçado

asuamilitânciaislâmicanaorganização, segundo o The New York Times. Apesar destas ligações, o Tabligh Jamaat não é tido como umaorganização extremistapelasautoridades. Omovimentodescrevese como “apolítico” e “não violento” e garantequeaúnicacoisaquelheinteressaélevaros muçulmanos de voltaparao Islão. Os seus membros– quesedistinguempelas túnicas brancas, usadas no tempo de Maomé, e pelas barbas compridas – visitam madrassas emesquitas,ondepregamoregressoaos valores islâmicos mais puros, que incluema segregação das mulheres e a rejeição do estilo de vida ocidental, como a televisão ou o cinema. Não tentam converter não muçulmanos. Preferemconvenceros muçulmanos a adoptar práticas ortodoxas no dia-a-dia. Quando alguémseausentadamesquitapor algumtempo,chegamairacasadas pessoas saber se está tudo bem e o motivo do afastamento.

EM TODASASCOMUNIDADES, os missionários tablighs convidam os muçulmanos a acompanhá-los em“saídas” detrês aquatro dias ondediscutemos ensinamentos doCorão. Todos os membros dainstituição participamnumamissão de pregação anualacomunidades de outros países, que pode iraté 40dias. É porissoqueos diversos serviços de informações acreditam que o movimento é vulnerável a infiltrações de elementos radicais. Assuasreuniõesserãousadaspormembros de outras organizações como um campo de recrutamento de potenciais terroristas. Os seus alvos são jovens nascidos em países ocidentais e que não se sintam totalmenteintegrados. Alémdisso,os especialistas acreditam que a rejeição dos valores oci-

“Bento XVI foi irresponsável” Na Mesquita de Lisboa, YiossufAdamgy não pára um segundo. Vende livros, discute os atentados e comenta com os fiéis as palavras do Papa Bento XVI ! Oeditorda revista AlFurqándizà SÁBADO

que não está ligado ao Tabligh Jamaat e critica o sucessor de João Paulo II Qual éa sua posiçãosobreoTabligh Jamaat?

Vários suspeitos de terrorismo estiveram no Tabligh Jamaat em Inglaterra e nos EUA

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dentais criacondições derevoltacontraasociedade europeia e norte-americana. O director do Centro de Estudos francês da Índia e da Ásia do Sul, Marc Gaborieau, vai mais longe: “O Tabligh Jamaat não é inteiramente apolítico porque o seu objectivo éaislamização dasociedade. Tambémnão é pacifista e nunca condenou a violência. Está provado que o Tabligh é um caminho para aderir a movimentos mais radicais no Paquistão, Afeganistão, França e Inglaterra.”

Emborasejaumestudioso e divulgador do Islão, não faço parte desse grupo. Por vezes, posso não estar de acordo, mas não sou contra. Defendo a divulgação islâmica, publicamente, paramuçulmanos e não muçulmanos, e mais à luz do espírito do que à letra da Sharia. As palavras de Bento XVI abalaram o mundo islâmico. A reacção é justificada?

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PORTUGAL

As palavras do Papaderamaos extremistas islâmicos um novo inimigo, que até agora ficara quase sempre de fora dos seus discursos mais irados: o Cristianismo. Não haja dúvida de que foi uma irresponsabilidade grave de Bento XVI e que a solução terá de ser diplomática. As reacções violentas são condenáveis. 21 SETEMBRO 2006 SÁBADO

O mais polémico dos muçulmanos Mohamed YiossufAdamgy, responsável pela revista da comunidade islâmica, foi filmado e fotografado pelo SIS. Não sabia e não se importa Ricardo Marques e António José Vilela

PEDRO ZENKL

! YiossufAdamgy, responsável pela revis-

ta AlFurqáneautordedezenasdelivrosdedicados ao Islão, teve os seus movimentos seguidos de perto pelo SIS. Durante algum tempo, chegou a ser filmado e fotografado nasviagenssemanaisquefazia entreLisboa, onde mora, e Portimão, onde até há dois anos era dono de uma pensão. “Nunca senti que estivesse a ser vigiado, mas é natural. Toda a Europa tem dezelarpela sua segurança e até acho correcto que Portugal zele pela nossa”, explica à SÁBADO. “Não tenho nada a esconder. Sou frontal nas minhas atitudes, não sou cínico nem hipócrita e sempre condenei qualquer acto terrorista”, adianta. Ainda assim, Adamgy sabe que é apontado

se na hipótese de as autoridades americanas estarem envolvidas nos atentados. “Fui oprimeiromuçulmanoa condenarosataques. por muitos como “fundaOquedissenatelevisãofoi mentalista”.“Sófaltachaque, cinco anos depois, eu marem-meterrorista”,diz. e muitas pessoas estamos “Há 30 anos que falo, discutoeescrevosobreoIslão.Mas “As autoridades a ficar convencidos de que as autoridadesamericanasestãoa não desço de nível.” americanas esconderoseuenvolvimentona Aúltima intervençãopública foi tragédia de11 deSetembro”,diz feita no passado dia 11 de estão a à SÁBADO. Setembro, no programa Prós e esconder o seu As palavras valeram-lhe inúmeContras da RTP1. Em discussão envolvimento” rascríticas. “Já estou habituado estavam os ataques terroristas de 2001, mas acabou por ser um documen- a ser apontado devido às minhas opiniões.” Nas dezenas de livros que editou e artigos tário – Loose Change, Conspiração Interna, que traduziu há títulos como O Islão não é a de Dylan Avery–a fazer subir o tom entre os convidados. O filme – que a RTP exibiu qua- fontedoterrorismo, masasuasoluçãoe passagens como: “Deus, fonte de todo o conhetro vezes em nove dias: a 8 de Setembro, às cimento, avisa-nos do Seu castigo se as pes23h30,naDois;a10,demadrugada,naRTP1; ea 14, às24h, ea 17, às19h, na Dois–baseia- soas cometerem actos homossexuais.” PUB

PORTUGAL

Atéagora,não háindicação dequeo ramo português da organização tenha influência deextremistas. O TablighJamaatinstalou-se em Portugal em 1979 e ganhou peso na Comunidade Islâmica de Lisboa onde se reúne todasassegundas-feiras–hoje,dizoSIS,conta com cerca de 500 elementos. Num artigo publicado na Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Abdool Karim Vakil (filho) diz que o Tabligh representa a “maior força de dinamizaçãodoIslãoentremuçulmanosemPortugal”. Ainfluênciados tablighs portugueses estende-se ainda aos países lusófonos e ao SuldeEspanha. “Masoseurigorosotradicionalismo, traduzido naprescrição do próprio vestuário,naestritaseparaçãoentreossexos, numa atitude de distanciamento em relação àsociedadeexterior, representaumfactorde rupturanatendênciahistóricaparaaintegração na atitude dos muçulmanos em Portugal”, admite Abdool Vakil (filho).

OFINANCIAMENTO daorganizaçãotemsido umdos pontos mais importantes davigilânciadoSIS. “Oenviodemissionáriosparatodo o Mundo sai caro à instituição, que é avessa aregistos financeiros e bancários”, diz fonte da secreta. “Tudo funciona à base do sistemainformaldetransferênciadedinheirohawala.” Com este método é possível depositarumaquantia,porexemplo,noPaquistão, para ser levantada noutro país pela pessoa indicada. O sistemafuncionaàbase dahonra e não há registos. “É difícil saber o que se passa e pode haver infiltrações”, salienta a fonte. O xeque David Munir discorda. “As viagens dos tablighs são pagas pelos próprios”,garanteolíderreligioso,quenãopertenceàorganizaçãomasassisteaosencontros às segundas-feiras na Mesquita de Lisboa. Opinião contrária tem Marc Gaborieau: “A políciafrancesadescobriuque o Tablighpagou viagens à Índia e ao Paquistão a jovens muçulmanosdesempregados.”Omovimen-

PEDRO ZENKL

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O Xeque David Munirpreside à oração das sextas-feiras, o dia sagrado para os muçulmanos

to parece terenormes recursos financeiros e estará por detrás da construção de uma “aldeiaislâmica”(com50milm2)pertodocomplexo olímpico de Londres paraos Jogos de 2012. O espaço incluiráamaiormesquitada Europa,comcapacidadepara10milpessoas. Todos os inquéritos sobre terrorismo em Portugalestão naSecção Centralde CombateaoTerrorismodaDCCBdaPJque,em2003, investigoudoisprocessos,menosumdoque

Residentes em Portugal dos países suspeitos do SEF Afeganistão 5 A.Saudita 23 ! Argélia 148 ! Barém 16 ! Burundi 2 ! Colômbia 483

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Egipto E. Árabes ! Filipinas ! Iémen ! Indonésia ! Irão

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127 2 387 2 23 603

Iraque 152 Jordânia 87 ! Koweit 18 ! Líbano 190 ! Líbia 51 ! Omã 0

Palestina 0 Paquistão 1385 ! Qatar 2 ! Congo 388 ! Coreia Norte 19 ! Ruanda 30

Síria 84 Somália 1 ! Sri Lanka 21 ! Sudão 16 ! Suriname 5 ! Vietname 11

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no ano seguinte. Em nenhum deles foram feitas detenções. Foram vigiados um argelino suspeito de pertencer àorganização fundamentalistaEn-Nahada,transferênciasbancárias dePortugalparaEspanhaquesejulgavam relacionadas com o atentado de 11 de Março, em Madrid, e um paquistanês com ligações a uma organização extremista. Pelo menos um dos processos de movimentações bancárias estáno Departamento CentraldeInvestigaçãoeAcçãoPenaldoMinistério Público. O relatório de 2005 do Eurojustfalade nove casos emPortugal, quase todos pedidos deinformações depolícias europeias. Segundoorepresentanteportuguês no Eurojust, José Lopes daMota, este ano as autoridadesinformaramainstituiçãode“três investigações” . Contudo, diz quePortugalé “marginal” em termos de terrorismo. # * Com Jaime Martins Alberto 21 SETEMBRO 2006

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