O que é que o caipira tem?

August 23, 2016 | Author: Anonymous | Category: N/A
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Quando for viajar para o interior, não espere encontrar os cenários das histórias do Chico Bento; poucas cidades são rur...

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O que é que o caipira tem? Piracicaba, a 200km de São Paulo, é considerada a capital do sotaque caipira, que, de tão característico, é chamado por alguns de dialeto - e tem até dicionário.

Quando for viajar para o interior, não espere encontrar os cenários das histórias do Chico Bento; poucas cidades são rurais. Mas vá familiarizado com o sotaque desse personagem. O sotaque caipira, que tem como principal característica o R puxado, é normalmente associado à cidade de Piracicaba; por isso, é mais conhecido como caipiracicabano. Esse modo de falar ganhou até um dicionário: o livro Arco, Tarco, Verva, escrito pelo jornalista Cecílio Elias Netto, reúne expressões tipicamente caipiras. Existem muitos estudos sobre a origem desse sotaque, mas, segundo Cecílio, a melhor versão explica que ele surgiu da mistura do português arcaico, falado pelos povoadores do interior paulista, com as línguas indígenas encontradas na região. “Originalmente, a maneira de falar não era apenas interiorana, mas sim de toda a província de São Paulo”, explica Cecílio, que estudou muito sobre o assunto para escrever seu livro e é considerado autoridade no tema. Mas não é só em Piracicaba que os habitantes têm o sotaque caipira. Segundo Cecílio, os de Sorocaba, Tatuí, Itu, Capivari, Tietê e Santa Bárbara D’Oeste, entre muitas outras cidades, compartilham o modo de falar – inclusive com cidades de outras regiões do estado, como Bauru, Jaú e Marília. “Em meu entender, Piracicaba virou cidade-símbolo do sotaque pelo fato de ser, historicamente, uma das cidades mais cultas do interior paulista, pioneira em escolas e universidades, como a Esalq e os colégios Piracicabano e Assunção, abrigando um sem-número de estudantes de todo o Brasil”, explica. Apesar do caipiracicabano ser considerado característica de Piracicaba, nem todos os moradores da cidade usam esse modo de falar. A estudante Mariana Zaia é um deles, e diz não saber exatamente porque não tem sotaque. “Eu tenho bastante família fora de Piracicaba que tira um sarro do jeito que a gente fala. Talvez, por causa disso, eu tenha me policiado, inconscientemente, quando criança. Pode ser, também, pelos programas que eu assistia quando pequena, que eram gravados em São Paulo e tinham aquele sotaque”, analisa. Mariana faz faculdade em Bauru, e conta que, quando diz ser de Piracicaba, algumas pessoas se surpreendem. “Dizem que não parece, porque eu não tenho sotaque”. Ela diz, também, que o sotaque caipira é característica principalmente dos bairros mais antigos da cidade, como Vila Rezende e Bairro Alto. “Causos” que o povo conta O sotaque caipiracicabano tem palavras próprias desse modo de falar, que, de tanto serem repetidas, acabaram virando “palavras novas”. É o caso, por exemplo, da expressão arco, tarco, verva, a versão caipira de alco, talco, (Acqua) Velvet que dá nome ao livro de Cecílio. Segundo a história contada na cidade, essa fala surgiu numa barbearia, em que o barbeiro, após finalizar o trabalho, perguntou ao cliente se queria arco ou tarco, e este respondeu verva. No livro que empresta o nome dessa expressão, há várias anedotas relacionadas ao sotaque caipira. Uma delas é a do cinema Águia Branca, que

causou confusão com os moradores de Piracicaba. Eles liam Agúia (agulha em caipiracicabano; veja mais exemplos no box) Branca e não entendiam a proposta do lugar; acabou falindo. Outra história contada na cidade e no livro é do piracicabano que foi a uma reunião importante na capital. Durante o almoço, tentando disfarçar o sotaque, pediu ao garçom que lhe trouxesse outro galfo. A explicação dessa troca de letras fica por conta de Cecílio: “Uma das características é o L retroflexo, substituído, ao final e no meio de muitas palavras. Por exemplo, salto vira sarto, sol vira sor, e assim por diante”. A gramática do caipira Entre as mudanças que ocorrem na fala do caipiracicabano está o desaparecimento do S final das palavras (é comum ouvir nói fomo em vez de nós fomos; o I em nói aparece por conta da fala corriqueira). Mas, quando a palavra seguinte começa por vogal, esse S desaparecido reaparece com som de Z, e as palavras se juntam (por exemplo, não se fala nói amamo, mas nóizamamo). Além disso, é comum conjugar verbos na terceira pessoa do plural de forma gramaticalmente equivocada, como nós é, nós fala (e não nós somos, nós falamos). Uma característica interessante é que os verbos no imperativo são conjugados da maneira certa, o que normalmente não ocorre na fala corriqueira. Por exemplo, se algum piracicabano te pedir para olhar algo, ele dificilmente dirá olha isso, mas sim olhe isso – e com o E final bem destacado. Segundo a professora de Lingüística da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Maria do Carmo Corrêa, no caso do sotaque caipira, ocorrem dois tipos de variações da língua portuguesa: a diatópica (por regiões; ou seja, é a formação de sotaques regionais) e a diacrônica (alterações que a língua sofre com o passar do tempo). “Os piracicabanos, ao que me consta, não criam palavras; apenas, algumas vezes, as utilizam com significados que não são os mais divulgados pela mídia”, explica. É o caso de forfé, que tem origem no francês forfait, que é uma regra de hipismo; no caipiracicabano, significa confusão, bagunça. O sotaque carregado, unido com as palavras únicas criadas pelos falantes dele, pode dificultar a comunicação com pessoas de outras regiões. Mas nada que o diálogo não resolva. A estudante Nathália Bottino, que nasceu e cresceu em São Paulo, tem alguns amigos da região de Piracicaba e já teve que pedir ajuda para entender algumas expressões, como fórdo cabo (que é fora do cabo com o sotaque bem marcado; fora do cabo, outra expressão tipicamente piracicabana, significa maluco). “Com o tempo e a convivência, acostumei”, conta. Mas não é todo mundo que tem a paciência de Nathália, o que faz com que os moradores do interior do estado ainda sofram muito preconceito apenas por falaram de um jeito diferente. Desse preconceito, surgem os casos de pessoas que têm o sotaque caipira e o disfarçam por achar feio ou por causa da profissão (radialistas, por exemplo). Existem até cursos com essa finalidade. “Esse sotaque é condenado pela mídia e por habitantes de algumas outras regiões; porém, essa condenação não tem motivação lingüística, e sim social”, analisa a professora Maria do Carmo, que faz uma ressalva: por motivos profissionais, considera aceitável abandonar o sotaque; por motivação própria, diz que é “como renegar

seu passado”. Já Cecílio, piracicabano orgulhoso, é mais sucinto em sua opinião: “Abominável é o preconceito, qualquer forma dele”. Vale lembrar que a fala, assim como a dança e a música, entre outras manifestações, é traço da cultura de uma região – e, como toda forma de cultura, deve ser respeitada. O sotaque caipira, embora seja desprezado por alguns, também tem seu valor para a cultura brasileira: faz parte do grande mosaico formado por diferentes sotaques, que, juntos formam o idioma do Brasil. 

BOX:

Mini-dicionário do dialeto caipiracicabano Confira algumas palavras comuns no dia-a-dia do interior de São Paulo e seu significado

Abrigo – agasalho; de ônibus: terminal rodoviário Agricolão – rapaz que é estudante da Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e filho de fazendeiro. Buraqueá - espiar Cáxara – caixa Coió – bobo Filá – comer Garapa – caldo de cana Ingambelá – enrolar, enganar Jacu - cafona Lasquera – interjeição que indica raiva, irritação Leviana – mulher de peso leve Nefruxo – nariz escorrendo Num da pé – perigoso, arriscado Ô ô! – interjeição que indica surpresa Sartá de banda – desistir de algo por ter medo Uns par – vários Vurto – pessoa importante Xacra – chácara

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