O LÚDICO COMO ESTRATÉGIA DE INCLUSÃO

June 5, 2017 | Author: Aurélia Gil Melgaço | Category: N/A
Share Embed Donate


Short Description

1 O LÚDICO COMO ESTRATÉGIA DE INCLUSÃO Juciara Rodrigues Trinca 1 Patrícia Beatriz de Macedo...

Description

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

O LÚDICO COMO ESTRATÉGIA DE INCLUSÃO Juciara Rodrigues Trinca1 Patrícia Beatriz de Macedo Vianna2

RESUMO O objetivo deste estudo foi o de verificar, junto à literatura, a importância do lúdico na sala de aula, como o brincar pode auxiliar no processo de inclusão e também identificar jogos e brincadeiras que servissem de instrumento para o processo de inclusão e alfabetização. Para isso foi realizada pesquisa bibliográfica, para que, através da análise de artigos, livros e outros materiais que abordassem o tema Ludicidade e Educação, fosse possível elaborar algumas conclusões acerca do assunto. Os jogos, brinquedos e brincadeiras são atividades fundamentais da infância, pois o brincar pode favorecer a imaginação, o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da criatividade e da concentração. Ao brincar as crianças não fazem distinções e não destacam diferenças, pelo contrário, criam laços afetivos com seus pares de brincadeira, auxiliando assim, no processo inclusivo. Os resultados da pesquisa apontam para a grande importância do processo lúdico em sala de aula, como promotor de aprendizagens cognitivas, afetivas e sociais, sendo fundamental o professor organizar os tempos e espaços, ocupando o papel de mediador entre a criança e o brincar. Palavras-chave: Lúdico – Inclusão escolar – Brincar ABSTRACT The goal of this study was to check, on literature, the importance of playful in the classroom, how the play can assist on process of inclusion and to identify plays and games that can serve as a tool for inclusion and literacy. For this literature search was performed, to make, through the analysis of articles, books and other materials that addressed the Playfulness and Education theme, it was possible to draw some conclusions about the subject. Toys and games are fundamental activities of childhood, as the play can encourage imagination, the development of language, thought, creativity and concentration. In play children do not distinguish and do not highlight differences, however, create emotional bonds with their peers in play, thus helping the inclusive process. The search results point to the importance of the play process in the classroom as a promoter of learning cognitive, affective and social, being essential the teacher to organize time and space, occupying the role of mediator between the child and play.

1

Licenciada em Pedagogia, com Habilitação para o Magistério das Séries Iniciais do Ensino Fundamental, UFRGS, 2006. Professora dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Contato: 519316.4565. E-mail: [email protected] . 2 Pedagoga. Mestre em Educação. Doutoranda em Educação (UFRGS). Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

161

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

Keywords: Playful – School Inclusion - Play 1 INTRODUÇÃO O presente estudo traz como tema a ludicidade e inclusão, o lúdico como estratégia de inclusão. Todas as sociedades reconhecem o brincar como parte da infância, mas já foi constatado que em todas as fases da vida humana as atividades lúdicas são muito importantes, pois é através delas que o ser humano explora sua criatividade, melhora sua conduta e eleva sua autoestima. O jogo tem como função primordial no ser humano aliviar a tensão interior e permitir a educação do comportamento. De acordo com Soares, (...) o jogo na vida da criança é de fundamental importância, pois quando ela brinca, explora e manuseia tudo aquilo que está a sua volta, através de esforços físicos e mentais e sem se sentir coagida pelo adulto, começa a ter sentimentos de liberdade e satisfação pelo que faz, dando, portanto, real valor e atenção às atividades vivenciadas naquele instante (SOARES, p. 3).

O brincar se manifesta na vida humana desde o nascimento até a vida adulta. Jogar ou brincar são fundamentais na interação do homem com seu meio e com as demais pessoas que participam do mesmo. Desde o nascimento, com as primeiras interações com a mãe, a criança já manifesta a necessidade do brincar. De acordo com Vygotsky (2003) no o início do desenvolvimento infantil, o adulto aparece como o mediador entre a criança e o mundo a sua volta, ajudando-o a estabelecer relações e experiências afetivas, motoras e cognitivas. Essas relações se dão principalmente através do brincar, ato pelo qual a criança experiência situações lúdicas ainda não vividas por ela, desenvolvendo-se. O brincar favorece a imaginação, desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da criatividade e da concentração. É através das atividades lúdicas, dos jogos e brincadeiras que se dá o contato físico e significativo com outros colegas, desta forma é impossível pensar a aprendizagem social e afetiva sem esse convívio, essa interação com o outro, que torna a aprendizagem espontânea e propicia momentos de significativas experiências de vida. Assim, torna-se importante pensar, como o Lúdico pode auxiliar na inclusão e aprendizagem dos alunos com Necessidades Educativas Especiais? Objetiva-se com este questionamento verificar a importância do lúdico na sala de aula, observar Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

162

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

como o brincar auxilia no processo de inclusão e identificar jogos e brincadeiras que auxiliem no processo de inclusão e alfabetização. O presente estudo foi realizado por meio do método indutivo, através de pesquisa bibliográfica. Desta forma, foram lidos e analisados artigos, livros e outros materiais que abordam a temática ludicidade e inclusão, para assim verificar o que já existe na literatura e o que está sendo produzido. A análise foi realizada de forma qualitativa, com base nas seguintes categorias definidas a priori: a. o lúdico em sala de aula b. o brincar no processo de inclusão c. jogos e brincadeiras para potencializar a alfabetização e a inclusão 2 A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR O “brincar” ocupa um importante espaço na infância e no desenvolvimento infantil. É brincando que a criança conhece a si mesma, seus desejos, limitações e aprende a comunicar-se com o mundo. Desta forma, como pensar a escola e principalmente a escola inclusiva sem o “brincar”? Como inserir a criança nesse mundo escolar, diferente? O brincar possui a magia de tornar a escola um local onde o conhecimento pode ser adquirido de uma forma agradável e criativa e na qual as relações afetivas e sociais ajudam na construção da identidade, personalidade e a nos formarmos como cidadãos. Assim, cabe à escola facilitar a aprendizagem e a inclusão, utilizando atividades lúdicas que criem um ambiente alegre, afetivo e familiar no qual as relações humanas e a individualidade de cada um sejam respeitadas. Conforme Moreira e Guidetti: (...) o lúdico tem o poder de incentivar tanto o progresso da personalidade integral quanto de cada uma das funções psicológicas, intelectuais e morais do educando. No mundo escolar tudo é novo e desafiador. Nesse ambiente totalmente desconhecido, o lúdico exerce o papel de mediador e facilitador da aprendizagem (...). (2005, pag. 221)

É também através do brincar que as crianças criam laços sociais com seus companheiros de jogo, ressignificando o mundo a sua volta, criando regras, normas e aprendendo a viver e conviver socialmente, aprendendo a vivenciar limites. Essa relação expressa no brincar permite que a criança mostre seu mundo, seu modo de Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

163

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

vida e ao mesmo tempo vivencie e conheça o mundo do outro, podendo ressignifcar suas experiências. Conforme Fortuna: A brincadeira é uma atividade paradoxal: a um só tempo conservadora e transformadora, assim como reforça relações, concepções de mundo, modos de conhecer e viver, também os cria e recria. Vem daí seu potencial revolucionário, mesmo quando se tenta confiná-la, ordená-la, dominá-la. Rebelde, ela resiste à didatização, mostrando-se tanto mais encantadora e encantada quanto mais livre e espontânea. (2008, pag. 465)

O ato de brincar conduz a imaginação, a fantasia, criatividade, criticidade e a uma porção de vantagens que ajudam a modelar nossas vidas como saber que as crianças não aprendem apenas quando os adultos têm a intenção de ensinar. De acordo com Fortuna, “como brincar associa pensamento e ação, é comunicação e expressão, transforma e se transforma continuamente, é um meio de aprender a viver e de proclamar a vida” (2008, p. 465). A utilização de estratégias educativas criativas na abordagem dos conteúdos estimula a fantasia, ou seja, a arte que possibilita o êxtase, a superação de limites, momentos de prazer e felicidade. As ações do educador junto à criança devem buscar através de alternativas metodológicas lúdicas sua ampla participação e envolvimento no processo educativo gerando

questionamentos, inquietações,

descobertas,

explorando

suas potencialidades e seu desenvolvimento pessoal e social na prática de atividades de seu cotidiano que representam a busca de uma aprendizagem significativa e de qualidade. Mais do que uma conquista cognitiva, o brincar, envolve emoções e afetividade entre as pessoas, conforme Winiccott: É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, a criança ou adulto pode ser criativo e usar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu. (WINICCOTT, 1975)

A criança desde muito pequena é impulsionada pela vontade, nunca para, está o tempo todo brincando, agindo, transformando. O ato de brincar fortalece a vontade, e são as brincadeiras saudáveis que nos capacitam, quando adultos para uma atuação positiva no mundo, como explica Fortuna,

Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

164

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

No mundo do faz-de-conta um outro senso de realidade é experimentado, impulsionando a confiança na possibilidade de transformação da realidade marcada por novo imaginário, novos princípios e novos valores gerados na solidariedade, ousadia e autonomia que as atividades lúdicas podem contemplar. (FORTUNA, 2008, pág. 461)

É brincando que a criança descobre o mundo, vivencia o meio e a brincadeira é encarada muitas vezes como a linguagem da criança. A escola hoje em dia se concentra na aprendizagem precoce de conteúdos curriculares, seja na compreensão da matemática, no treino para a escrita, nas sequências lógicas, do pensamento, esquecendo-se que as crianças são indivíduos racionais, que tem sentimentos e que agem, bem como, que o lúdico pode auxiliar de forma significativa na aprendizagem desses mesmos conteúdos, os quais, normalmente são trabalhados de forma tradicional, em sala de aula, com os alunos enfileirados copiando o que a professora ou professor escreve no quadro. Embora brincar seja um comportamento espontâneo da criança, o adulto deve criar momentos que estimulem à brincadeira e esse papel também é da escola, haja vista todas as pesquisas que mostram o potencial do lúdico no que tange a aprendizagem e desenvolvimento da criança. Conforme Oliveira (2006), para Piaget o jogo está intimamente ligado ao desenvolvimento da criança, é através do jogo que a criança se apropria da realidade a sua volta. Além disso, observamos que o papel ativo da criança nas brincadeiras proporciona um leque de encontro com a alegria, a solidariedade, a união, a criação, a satisfação e também a frustração. O brincar não só proporciona momentos que agradam a criança, pois existem conflitos entre elas e decepções por não conseguirem realizar o que desejavam, porém esses momentos são logo substituídos por outras ações lúdicas que tentam superar a anterior, pois o prazer da brincadeira acaba sendo maior. Conforme Fortuna (2000), as crianças ao brincar interagem com a realidade, com elas mesmas e, ao mesmo tempo levantam hipóteses de renovar e modificar as regras das brincadeiras. Isso pode acontecer em grupo ou sozinha, pois o brincar não quer dizer necessariamente com o outro. Nas diversas formas de brincar que a criança encontra para expressar os seus saberes, sejam eles adquiridos na interação com o adulto ou entre as próprias crianças, é que a cultura infantil se constitui. Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

165

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

As

diferentes

formas

de

viver

na

sociedade

possibilitam

vários

conhecimentos culturais, pois estes são múltiplos e passam a ser inseridos no cotidiano de cada um de forma a adaptar-se em cada meio social. A criança não fica imune ao que a rodeia, e a partir do brincar, que se inserem características individuais, ou seja, seu jeito particular de atuar nas brincadeiras, com suas preferências, escolhas, decisões e as diversas possibilidades de brincar que encontra na interação com o outro, “na brincadeira somos exatamente quem somos e, ao mesmo tempo, todas as possibilidades de ser estão nela contidas. Ao brincar exercemos o direito à diferença e a sermos aceitos mesmo diferentes ou aceitos por isso mesmo” (FORTUNA, 2008, pág. 465) Ao brincar a criança coloca em prática as vivências de seu cotidiano como também tem contato com outras informações através da relação com o outro, dando um sentido próprio que seja interessante para ela, produzindo desta forma uma cultura infantil. O brincar sendo constituído espontaneamente ou com regras deve constituir as características de liberdade, prazer e diversão, onde a criança possa adentrar nas brincadeiras de forma participativa usufruindo de novas vivências e experiências. O lúdico traz consigo um grande leque de opções, que deve ser explorado pelo educador como caráter de jogo, fantasia, com o prazer de brincar, fator de interação, socializando os alunos, resgatando brincadeiras e garantindo à criança o direito à brincadeira e à infância. A brincadeira pode ser entendida como uma linguagem infantil onde a criança transforma e cria com os materiais que tem a sua disposição, atribuindo-lhe um novo significado. Interage com experiências já vividas e consequentemente adquirem outras. O brincar proporciona desafios que são confrontados, ampliando a sua imaginação. Conforme SOARES, O jogo é um estímulo tanto para o desenvolvimento do intelecto da criança quanto para a sua relação interpessoal, fundamental para o processo de aprendizagem infantil. Assim sendo, quando jogam ou criam seus próprios jogos, as crianças terão uma compreensão maior de como o mundo funciona e de como poderão lidar com ele à sua maneira. (SOARES, pág. 3)

Assim a importância do brincar no processo de inclusão se dá a partir do momento que a criança ‘brincando’ consegue manifestar seus saberes e Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

166

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

sentimentos através de diferentes linguagens, sendo compreendida e aceita pelos seus diferentes companheiros de brincar, que também terão uma linguagem própria em busca de aceitação. Desta forma, […] o jogo possui grande relevância em função de viabilizar condições para o aprendizado e entre estas se destaca um aspecto fundamental que é a socialização, onde através das quais os indivíduos constroem seu leque de conhecimentos medializadas pelas relações que estabelecem com o meio. (SOARES, pág. 3)

Ao evidenciar atividades interativas e interessantes para as crianças, deixase de lado atividades pouco criativas e massantes que permeiam o ambiente escolar, deixando este espaço mais atrativo e agradável para que a criança sinta-se acolhida e queira fazer parte do mesmo. Assim o brincar assume o papel estimulador, promovendo o desenvolvimento de hipóteses, habilidades e interação social, sendo também uma possibilidade de superação das dificuldades de aprendizagem. 3 O LÚDICO NA SALA DE AULA Segundo Vygotsky (2003), os fatores biológicos (funções psicológicas elementares) são predominantes sobre os sociais (funções psicológicas superiores, as quais diferenciam o homem de outros animais) no início do desenvolvimento humano.

Assim

a

integração

social

torna-se

fator

fundamental

para

o

desenvolvimento do pensamento. Considerando esta teoria, o jogo será o elemento socializador essencial para o desenvolvimento humano, onde a criança será introduzida no mundo adulto pelo jogo e sua imaginação, construindo e expandindo novas habilidades conceituais e novas experiências. Segundo SOUZA, “É através do lúdico que a criança consegue relacionar-se com seu próprio corpo, com o outro e com o mundo, onde o imaginário se transforma em real, provocando-lhe uma sensação de poder e domínio sobre o mundo” (1996, p. 341). Daí a importância do jogo na sala de aula, por promover a aprendizagem, seja ela formal ou informal, já que o jogo, o brincar e a brincadeira acontecem tanto dentro da sala de aula como em outros espaços como a rua, o parque, a casa, etc. Sendo a atividade lúdica tão importante nos diferentes espaços frequentados pela criança, como a rua, o parque, a casa, etc. “faz-se necessário redimensioná-la Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

167

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

no processo educativo, para possibilitar à criança um espaço de aprendizagens significativo, atraente e o mais próximo possível de sua realidade” (Souza, 1996, p 339). O lúdico na escola não pressupõe apenas objetivos cognitivos, mas uma série de capacidades e aptidões que conforme Haetinger são: “respeitar limites (...); socializar (...); criar e explorar a criatividade (...); interagir (...); aprender a pesquisar” (HAETINGER, 2009, p. 9). O lúdico deve valorizar todo o potencial da criança, ajudando-a a desenvolver-se afetivamente e cognitivamente, valorizando assim, o movimento, as relações, a solidariedade, a auto-gestão, emancipando-a como ser humano, pensante, dono de uma identidade única em constante relação com o outro, criando e transformando o mundo ao seu redor. O uso do lúdico em sala de aula deve ter por objetivo estimular o crescimento, o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social e não apenas promover a competição entre os alunos levando-os a derrotas e vitórias, ou conforme Antunes, “todo jogo pode ser usado para muitas crianças, mas sobre a inteligência será sempre pessoal e impossível de ser generalizada.” (ANTUNES, 1998) Quando nos propomos a desenvolver atividades lúdicas, como o brincar, jogos, músicas, entre outros, precisamos ter objetivos claros de onde queremos chegar e que conteúdos e habilidades pretendemos

desenvolver. Assim o

planejamento é essencial, prevendo material, duração dos jogos e atividades, espaços necessários e estágios de desenvolvimento dos nossos alunos. O professor deve atuar como investigador, observando as reações, relações e descobertas de seus alunos durante a atividade lúdica. Conforme SOARES: …é preciso que o educador, além da prática tenha também uma base teórica para que possa se sustentar na aplicação do lúdico, pois na prática pedagógica é sempre importante utilizar um recurso didático com uma explicação científica comprovando sua eficácia empírica. (pág. 16)

A intervenção do educador também é de suma importância, onde o mesmo será o mediador, responsável em proporcionar desafios e estimular a reflexão, ajudando o aluno a expressar as suas ideias e estruturar novos conhecimentos, possibilitando

ao

aluno

“descobrir,

vivenciar,

modificar

e

recriar

regras”

(HAETINGER, 2009, p. 8).

Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

168

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

Sendo a ludicidade uma necessidade do ser humano, o professor não deve apenas entender a utilização do lúdico em sala de aula como mera diversão, mas como um facilitador da aprendizagem, do desenvolvimento pessoal, social e cultural, contribuindo assim, para a construção de conhecimentos, para a socialização, comunicação e expressão plena dos alunos. […] o jogo, compreendido sob a ótica do brinquedo e da criatividade, deverá encontrar maior espaço para ser entendido como importante instrumento no processo educacional, na medida em que os professores compreenderem melhor toda a sua capacidade potencial de contribuir para com o desenvolvimento da criança. (SOARES, p. 16)

O professor deve ter consciência de que os jogos auxiliam na educação integral do indivíduo, pois proporcionam além da investigação e problematização das práticas culturais do seu cotidiano, uma reflexão sócio-histórica de sua cultura. O jogo pode trazer informações fundamentais a respeito da criança, suas formas de pensar e agir. Observando esses aspectos o professor terá subsídios para mediar as relações dessa criança com seus colegas, para ajudá-lo em seu desenvolvimento físico-motor, linguístico, cognitivo e moral. 4 JOGOS E BRINCADEIRAS POTENCIALIZADORES DA INCLUSÃO Para que a atividade lúdica seja trabalhada em todo o seu potencial em sala de aula, não basta apenas brincar com os alunos ou deixar brincar, mas é preciso planejar todos os espaços e tempos, é preciso traçar metas, objetivos, é preciso observar e mediar as atividades. Conforme Haetinger (2009), os principais objetivos de jogos e brincadeiras em sala de aula são: 1. trabalhar aspectos emocionais; 2. rever limites; 3. desenvolver autonomia; 4. aprimorar a coordenação motora; 5. aumentar a concentração, a atenção e o raciocínio; 6. desenvolver a criatividade. O professor precisa também estar atento ao desenvolvimento de seus alunos, para que as atividades propostas estejam de acordo com cada nível de Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

169

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

desenvolvimento e possibilite novas aprendizagens e apreensão da realidade. Caso contrário a brincadeira, jogo ou atividade lúdica perde seu valor e objetivo e, mal compreendida pela criança, deixa de ser interessante, perdendo seu valor pedagógico. Oliveira (2006) descreve a classificação dos jogos, de acordo com a perspectiva piagetiana, da seguinte maneira: •

jogos de exercícios: aqueles que acompanham quase todo o desenvolvimento

da criança, representam as primeiras experiências motoras. •

jogos simbólicos ou faz-de-conta: no brinquedo a criança se propõe a realizar

coisas, resolver problemas que ainda não são possíveis na vida real. •

jogos de construção: situam-se num período de transição entre os jogos

simbólicos e os de regra, meio caminho entre o jogo e a organização do pensamento. •

jogos de regras: possível após um certo desenvolvimento da inteligência,

característico do individuo socializado. Cabe assim, ao professor, observar o nível de desenvolvimento dos seus alunos para propor atividades que contemplem as necessidades e aptidões de cada criança. Através dos tipos de jogos classificados por Piaget (1978) já se pode iniciar um planejamento com objetivos específicos para cada aluno. Observar e mediar as relações lúdicas entre as crianças é a forma mais simples e eficiente de identificar que tipo de jogo será eficiente para a situação de aprendizado. Além da classificação dos jogos pelos níveis de desenvolvimento, conforme a teoria de Piaget, Haetinger (2009) sugere também outra classificação para os jogos “que abrangem a relação existente entre eles e as características de expressão que proporcionam” (pág. 27). Os jogos seriam classificados nos seguintes grupos: 1. 2. 3. 4. 5.

jogos artísticos; jogos expressivos; jogos sensitivos; jogos recreativos e brincadeiras; jogos desportivos. (HAETINGER, 2009, p.27-28)

Priorizando a organização das atividades lúdicas e recreativas por objetivos a serem trabalhados, Haetinger (2009) acredita no desenvolvimento de todas as Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

170

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

habilidades e competências dos nossos alunos dentro da escola. Conhecendo a estrutura e as diferenças que existem entre os jogos o professor terá mais facilidade de planejar a sua ação pedagógica pautada no brincar. 4.1 JOGOS ARTÍSTICOS São os jogos que envolvem práticas artísticas, podendo ser plásticas, teatrais ou musicais. Nestas atividades o professor deve utilizar materiais variados como gravuras, desenhos, tinta, escultura, dobraduras, massa de modelar, máscaras, fantoches, improvisações teatrais, mímicas, caracterizações, músicas, instrumentos musicais, etc. 4.2 JOGOS EXPRESSIVOS São as atividades que valorização a expressão corporal e sensorial. Estes jogos exigem o conhecimento do corpo e da estrutura corporal, assim como também ajudam nesta construção. As atividades devem envolver a dança, diversos ritmos e jogos de movimento. 4.3 JOGOS SENSITIVOS Os

jogos

sensitivos

são

importantes

para

o

desenvolvimento

da

concentração e atenção. Baseiam-se em atividades de relaxamento, biodança, massagem. Permitem a aproximação do outro e o controle de impulsos. 4.4 JOGOS RECREATIVOS E BRINCADEIRAS São os jogos que fazem parte do nosso cotidiano desde o nascimento. Aqueles que realizamos mediados por objetos reais ou não, que podem ser realizados em grupo ou individualmente e que pressupõe descobertas do ambiente a ser explorado. Podem variar desde as brincadeiras de roda até jogos mai estruturados, como damas ou xadrez. 4.5 JOGOS DESPORTIVOS Os jogos desportivos são aqueles que caracterizamos por haver uma competição, mas que desenvolvem habilidades motoras, físicas e sociais. Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

171

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

Proporcionam vivências amplas e são muito valorizados em nosso universo cultural, como o futebol e o vôlei. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os jogos, brinquedos e brincadeiras são atividades fundamentais da infância. O brinquedo pode favorecer a imaginação, o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da criatividade e da concentração. Fica assim evidenciado o potencial lúdico para a inclusão e alfabetização. Podemos sim, incluir, socializar e ensinar nossos alunos de uma maneira mais atrativa e eficiente, porém não existem formulas prontas de como ser lúdico. Existe a vontade e a pesquisa, para que cada vez mais saibamos sobre este rico instrumento auxiliar para a aprendizagem. Não apenas os alunos estão em aprendizagem constante, mas os professores também. E o professor é a peça chave para a concretização de tudo isso. Só depende dele e do seu esforço o aprendizado feito com carinho e dedicação, as ações lúdicas como recurso pedagógico de aprendizagem e inclusão, pois brincando as diferenças passam a ser um recurso e não uma situaçãoproblema. Há uma variedade imensa de atividades, jogos e brincadeiras que podem ser desenvolvidas com crianças com necessidades educativas especiais, basta o professor estar atento para as necessidades e níveis de desenvolvimento de seus alunos e ainda possuir uma sensibilidade para buscar uma maior integração do grupo, fazendo com que a hostilidade dê lugar à afetividade e a competitividade dê lugar ao companheirismo. REFERÊNCIAS ANTUNES, Celso. Jogos para a Estimulação das Múltiplas Inteligências. Petrópolis: Vozes, 1998. FORTUNA, Tânia Ramos. Papel do brincar: aspectos relevantes a considerar no trabalho lúdico. Revista do Professor, Porto Alegre, 18(71): 9-14, jul.set. 2002 __________. O brincar, as diferenças, a inclusão e a transformação social. Atos de Pesquisa em Educação – PPGE/ME FURB, v.3, nº 3, p. 460-472, set./dez. 2008.

Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

172

Revista Pós-graduação: Desafios Contemporâneos http://ojs.cesuca.edu.br/index.php/revposgraduacao

GUIDETTI, Josieli e MOREIRA, Ariane. Lúdico: alfabetizar brincando. In: ANTUNES, Helenise S.. Trajetória Docente: o encontro da teoria com a prática. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, Departamento de Metodologia do Ensino, 2005. HAETINGER, Max; HAETINGER, Daniela. Jogos, Recreação e lazer. IESDE: São Paulo, 2009. OLIVEIRA, Eunice Eichelberger de. Piaget, Vygotsky e Winnicott: relação com jogo infantil e sua aplicação na área da psicopedagogia. Disponível em: http://www.abpp.com.br/artigos/61.htm. Acesso em: 14.05.2012. PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. SOARES, Jiane Martins. A Importância do Lúdico na Alfabetização Infantil. Disponível em: http://www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=1869. Acesso em: 14.05.2012. SOUZA, Edson Roberto. O lúdico como possibilidade de inclusão no Ensino Fundamental. Disponível em: http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/ article/view/5856. Universidade Federal de Santa Catarina. Revista de Educação Física, Esporte e Lazer. Acesso em: 14/05/2012. VYGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2003. WINNICOTT D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Rua Silvério Manoel da Silva, 160 – Bairro Colinas – Cep.: 94940-243 | Cachoeirinha – RS | Tel/Fax. (51) 33961000 | e-mail: [email protected]

REVISTA PÓS-GRADUAÇÃO: DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS v.1, n. 1, jun/2014

173

View more...

Comments

Copyright � 2017 SILO Inc.