memória e identidade homoafetiva na contística de miriam alves

June 13, 2017 | Author: Anonymous | Category: N/A
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vidas promíscuas e em muitos casos transmitem AIDS às esposas. (DIAS, 2008, p.3). ..... se dá através do jogo comparativ...

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IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas Universidade Estadual do Piauí – UESPI ISBN: 978-85-8320-162-5

MEMÓRIA E IDENTIDADE HOMOAFETIVA NA CONTÍSTICA DE MIRIAM ALVES Rubenil da Silva Oliveira (UESPI) Elio Ferreira de Souza (UESPI) RESUMO Este artigo se ocupa do estudo da memória e da identidade homoafetiva nos contos – “Minha flor, minha paixão” e “Os olhos verdes de esmeralda” – os quais integram a coletânea de contos Mulher Mat(r)iz: prosas de Miriam Alves (2011), de Miriam Alves. Para isso, tomam-se como teorias fundamentais os estudos sobre identidade homoafetiva de Jurandir Freire Costa (2002), João Silvério Trevisan (2002), Denilson Lopes (2002), Carlos Figari (2007), Luiz Mott (2003) e outros. No que diz respeito à escrita afro-brasileira, estereótipos e sexualidade do negro, Eduardo de Assis Duarte (2008, 2011), David Brookshaw (1983), Frantz Fanon (2008) e outros autores. Nos contos selecionados, a autora demonstra facetas distintas da identidade homoafetiva, no primeiro, demonstra-se a angústia da mulher ao flagrar sua paixão com outro homem em plena relação sexual dentro do carro dela. Já no segundo, a homoafetividade é apresentada a partir da relação entre Julita “Esmeralda” e Marina, as quais são estupradas por policiais como forma de imputar a elas um castigo por não seguirem os padrões da identidade heterossexual. Portanto, há na escrita de Miriam um olhar amplo sobre a condição feminina diante da homoafetividade do seu par e do outro, exprimindo assim um olhar múltiplo e diferente da escrita de outras autoras negras. Palavras-chave: Memória. Identidades homoafetivas. Negro. Escrita feminina. Miriam Alves.

1 INTRODUÇÃO

A escrita do negro brasileiro não é do domínio apenas masculino, embora a primeira mulher a se aventurar nos caminhos da prosa – Maria Firmina do Reis e sua escritura tenham sido esquecidas no seu tempo – compreende-se que as transformações sociais e culturais provocaram mudanças no percurso da escrita feminina. Por isso, a memória, a sexualidade, o cotidiano, os desejos, o corpo e outros traços da identidade feminina passaram a ser narrados a partir de um lugar determinado da enunciação – a voz da mulher negra. Neste lugar, desde a década de 1960, as mulheres negras podem 1

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escrever e falar de si e de outras identidades da mulher negra que ainda hoje são alijadas pelos domínios do opressor masculino, assim compete à obra de Miriam Alves tirar essas mulheres da invisibilidade e do silenciamento. Miriam Alves foi uma das primeiras vozes da literatura afro-brasileira feminina a tratar das identidades homoafetivas da mulher negra e das mulheres negras que convivem com os esposos que vivem a bissexualidade. Desse modo, a escritora procura registrar o seu lugar na enunciação: “Qualquer escritor é a fala do seu lugar. Mayakoviski foi a fala da revolução russa. Não estou dizendo que estou fazendo uma revolução. Mas EU SOU A FALA DO MEU LUGAR” (ALVES, 2011, p. 7). Percebeu-se que a autora ao admitir ser a voz que fala do seu lugar, ela resgata na sua fala o conceito de literatura afro-brasileira dado por Duarte (2008), no qual essa literatura envolve a temática, a autoria, o ponto de vista, a linguagem e o público. Também deixa entrever outro conceito – o de “escrevivências” – dado pela escritora Conceição Evaristo, no qual o lugar da fala é o das experiências extraídas a partir das vivências dos sujeitos e metaforizadas por eles (EVARISTO, 2011). Neste sentido, Miriam Alves ainda acrescenta: “[...] eu vou estar sempre escrevendo essa experiência negra em todos os sentidos [...] narrando a realidade vivencial do negro no Brasil. [...] Essa é a função do intelectual negro, esteja ele em que situação estiver” (ALVES, 2011, p. 7). “Minha flor, minha paixão” e “Os olhos verdes de esmeralda” são contos integrantes da obra Mulher Mat(r)iz, da escritora afro-brasileira Miriam Alves, os quais possibilitam o debate acerca dos gêneros e da homoafetividade do homem e da mulher negros pautados sob as categorias da memória e da identidade. Embora, os perfis identitários que integram a obra da escritora sejam perfis femininos diversificados, o corpus desse artigo tem como base contos que tratam de perfis homoafetivos. No primeiro conto, a prática homoafetiva é vista a partir da personagem masculina e a mulher apenas conta o drama vivenciado por ela após a descoberta da vida dupla que o amante leva. Já no segundo, o tema central é a violência praticada contra mulheres lésbicas por dois soldados. Neste artigo, para dar sustentação à análise da escrita literária e assim, cumprir o propósito deste que é analisar a memória e identidade homoafetiva nos contos “Minha flor, minha paixão” e “Olhos verdes de esmeralda”, de Miriam Alves, é necessário

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compreender os conceitos de memória, identidade e homoafetividade. A memória, aqui, ocupa a ideia de lugar central na formação das identidades individuais e coletivas através da qual se permite a compreensão das lutas dos homoafetivos como contraponto a não dominação das suas consciências e comportamentos pelos heterossexuais (LE GOFF, 1990). Já a identidade é uma construção social flexível por força da ação temporal, conforme preceitua Hall (2014) e Bauman (2005). Por último, a categoria homoafetividade é entendida como mais ampla que o termo “homoerotismo” defendido por Costa (2002), uma vez que essa acepção defende e nomeia “uma política, uma ética e uma estética da homoafetividade” (LOPES, 2002, p. 37). Sendo assim, entende-se que “uma política da homoafetividade busca alianças para desconstruir espaços de homossociabilidade homofóbicos ou heterofóbicos, ao mesmo tempo em que pensa, num mesmo espaço, as diversas relações entre homens (ou entre mulheres), como entre pai e filho, entre irmãos, entre amigos, entre amantes” (LOPES, 2002, p. 37). É nessa perspectiva de contraposição à normatização das identidades sexuais a partir do padrão heterossexual que se busca um novo olhar para as práticas homoafetivas do sujeito negro apresentado na contística de Miriam Alves.

2 MEMÓRIA, IDENTIDADE E HOMOAFETIVIDADES NA ESCRITA FEMININA

Se hoje as mulheres podem se sentir empoderadas, porque foram reconhecidas no espaço público, em outras épocas as mulheres e seus discursos foram invisibilizados, vistos como subversivos por contrariar a ordem social imposta pelo poder masculino. Neste sentido, a escrita feminina assume a ideia de que para romper com a ideologia dominante, elas precisavam sair da condição de dominadas e, encontrou na linguagem a força da qual elas careciam. Ressalta-se que a escritura da mulher negra carrega a voz dada nos estudos da escritora indiana Gayatri Spivak – a ideia de que o subalterno seja ele mulher ou homoafetivo ou ainda quando reúnem em si essas duas podem deixar a condição de dominados desarticula a conjuntura do projeto imperialista (SPIVAK, 2010). O pensamento de Spivak (2010) ao contestar o projeto de dominação do imperialismo leva o leitor a lembrar do período em que as mulheres, negros e

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homoafetivos tiveram suas vozes silenciadas. Por isso, ao possibilitar às minorias sociais o poder de expressão suscita o nascimento de uma nova ideologia na qual estes sujeitos aspiram a um novo projeto – o reconhecimento das suas identidades. Nesta perspectiva, somam-se as memórias individuais e coletivas, uma vez que a “memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades” (LE GOFF, 1990, p. 476). Embora a memória seja elemento exponencial na construção da identidade de um grupo social ou sujeito, verifica-se que a história da literatura silenciou e com isso fomentou o processo de invisibilidade daqueles que eram diferentes, a fim de não oferecê-los como modelos para as gerações posteriores. Entretanto, essa ideia não é expressa somente nas sociedades tradicionais, pois a história sempre “haverá de recriminar o que é desigual, haverá de generalizar para tornar equivalente, sempre haverá de enfraquecer a diferença dos móveis e dos motivos” (NIETZSCHE, 2008, p. 35). Com isso, entende-se que o filósofo não pretendeu apenas que os modos de vida dos oprimidos fossem reavivados pela memória, mas ressaltar que a construção de novas identidades também não iria se esquecer dos “estereótipos negativos” (BROKSHAW, 1983) com os quais eram identificados os diferentes. As diferenças demonstram que as identidades são singulares ainda que expressas dentro de uma mesma estrutura social, pois mesmo tratando das mulheres negras, elas se diferenciam quanto à sexualidade e modos de vida. Por essa razão, convém afirmar que as identidades seguiram o curso da história social, além de terem sido transformadas e fragmentarem “as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais” (HALL, 2014, p. 9). Ao considerar o excerto, compreende-se que os perfis homoafetivos dos contos de Miriam Alves incorporam essas mudanças nas quais as identidades são móveis e readequadas conforme os papéis dos sujeitos na esfera social. No contexto das identidades homoafetivas há diversos termos que servem para nomear os sujeitos que assumem amar pessoas do mesmo sexo, sendo comuns ao masculino – gay, veado, bicha, homossexual, fresco, boiola – para as mulheres – fanchona, roçadinho, machona, sapatão ou sapata, ladies e lésbica (TREVISAN, 2002).

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Todavia, essas identidades não significam que há um terceiro gênero, há somente dois – o masculino e o feminino – e a não obediência aos papéis sexuais impostos sob a ordem heterossexista não implica, portanto, em novo gênero. Por sua vez, os contos de Miriam Alves trazem o emprego desses termos, em “Minha flor, minha paixão”, por ter personagem masculino homoafetivo/bissexual há os termos “gilete”, “veados” e “gays” e em “Os olhos verdes de esmeralda” o tratamento masculino “boyzinho” e “sapata” como identificadores da homoafetividade feminina. Em “Minha flor, minha paixão”, verificou-se que há nomeação vaga para identificar as personagens – a mulher, a qual narra os acontecimentos a partir do viés memorialístico; um homem, a quem ela chama de lindo, minha flor, galã; o Grandão, que vive a relação homoafetiva com o anterior e; uma Senhora, com quem a narradora dialoga sobre suas angústias. A não nominação das personagens serve de estratégia para ocultar as identidades individuais e assim sugerir que as experiências vividas são múltiplas, podendo ser vividas por outros sujeitos sociais, uma vez que a literatura afrobrasileira é conceituada como uma representação metafórica da vida social baseada nas “escrevivências” dos sujeitos. Os sujeitos homoafetivos masculinos foram distribuídos em “três grandes grupos: os gays, as travestis e os bofes” (MOTT, 2003, p. 59), por sua vez, o primeiro grupo é dividido em quatro grupos: “os enrustidos, os assumidos, as bichas fechativas e os militantes” (MOTT, 2003, p. 60). Essa divisão dá origem a novos subgrupos, os quais tomam como referência os papéis e comportamentos assumidos por eles na sociedade. Por isso, no conto “Minha flor, minha paixão”, a personagem homoafetiva a qual é foco dessa análise é casada, e mantém uma relação extraconjugal com o Grandão, é categorizada como enrustido, uma vez que dentro desse grupo “há os bissexuais que são casados e que levam uma vida dupla, procurando gays, michês ou travestis para suas transas esporádicas” (MOTT, 2003, p. 61). A primeira imagem da homoafetividade passa quase despercebida aos olhos do leitor, porque não há indícios dos motivos que levam o Grandão a esmurrar o carro da mulher do amante. Isso faz o leitor perguntar-se: Se ele era um louco, diante de um surto? Eram eles inimigos? Porém, o comportamento de “minha flor” deixa perceber que havia alguma razão para o que acontecia, como relatado pela narradora: “Meu lindo estava muito emocionado, pedia para eu não sair do carro, não dar ouvidos ao homem

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que, fora de si, parecia fazer uma cena de ciúmes” (ALVES, 2011, p. 45). As denúncias de que existia alguma relação entre eles ficam implícitas, na emoção, no instante em que ele pede à mulher para que não saia do carro, nem dê ouvidos ao que o outro dizia e, sobretudo em “parecia fazer uma cena de ciúmes”. O fato de um homem ser casado numa união heterossexual não impede que ele tenha uma relação homoafetiva, muitos optam por serem enrustidos e bissexuais porque temem enfrentar o preconceito da família, do trabalho e da sociedade. Neste sentido, declara-se: A discriminação contra a homossexualidade leva à busca de ocultação da identidade sexual - homossexuais virilóides ou enrustidos -, levando a assumir uma dupla personalidade, o que vem muitas vezes a acarretar sérios problemas psíquicos. Embora incorporando uma natureza homossexual, adotam uma postura e se comportam como heterossexuais, o que leva, muitas vezes, à bissexualidade. Se acabam casando e tendo filhos, a tendência é o fracasso da união, e, tentando manter na clandestinidade a tendência homossexual, acabam levando vidas promíscuas e em muitos casos transmitem AIDS às esposas. (DIAS, 2008, p.3).

O pensamento da autora acerca dos motivos que levam os sujeitos homoafetivos a se comportarem como heterossexuais dialoga com pensamento do decano do Movimento Gay da Bahia: “O motivo por que continuam ‘na gaveta’ varia de pessoa para pessoa: ou porque vivem com a família e os pais não aceitam; ou porque o patrão é preconceituoso e se souber vai mandar embora; ou porque se os irmãos da igreja descobrir vão expulsá-lo etc. etc.” (MOTT, 2003, p. 61). Contudo, embora ele esconda da mulher a sua vida dupla, ela acaba por flagrá-lo com o outro durante o ato sexual, no carro dela, em um lugar ermo: “Aproximei-me devagar, olhei pelo vidro. Ah! Quis morrer, perdi o fôlego. O meu galã, minha flor, minha paixão, transando com aquele homem alto que me desacatou. Ele fazia o papel de mulher” (ALVES, 2011, p. 46). Mediante o excerto verifica-se que a descoberta da traição leva a mulher ao desejo de morte não apenas porque era traída, mas porque esta acontecia com outro homem e dentro do carro dela, ainda o marido sendo o passivo, a mulher da relação. A partir dessa compreensão sobre o desempenho dos papéis de masculino e feminino, no Brasil, vê-se que os estranhamentos, davam-se em relação àquele que exercia o papel sexual de passivo, pois o outro, o que “come” não perdia a identidade masculina (FRY; MACRAE, 1983). Essa regulação da binariedade de papéis sexuais nas relações

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homoafetivas é superada quando apresentada a teoria queer1 como “uma nova política de gênero” pela filósofa estadunidense Judith Butler (MISKOLCI, 2012). Neste sentido, a proposição do queer dialoga com Hall (2014) e Bauman (2005) para quem a identidade é movediça, não fixa, além de não se apegar a uma estrutura definida, se liquidifica, é capaz de se construir e desconstruir como marcas do sujeito da pósmodernidade. A decepção da narradora faz com que ela questione a identidade homoafetiva do marido e ainda teça conjecturas sobre a mesma, conforme visto em: Se ele é gilete2? Não, para mim ele é veado mesmo. Olha não me leva a mal, não tenho nada contra os veados. Sabe, os gays que se assumem, se aceitam como são e escolhem viver a vida deles. Há até os que encontram companheiros e passam a conviver bem. Não fazem os outros sofrer. Não tenho nada contra. Mas minha flor, meu galã me traiu. Usou todo o meu dinheiro para montar casa para o Grandão. Mentiu, fingiu ser o que não era. E lá estava ele, transando no meu carro e fazia mais de mês que não me procurava na cama. Ah! Senhora, minha vista escureceu. Esmurrei o carro com toda a força da minha raiva. Eles se assustaram. O Grandão saiu correndo, levantando as calças. Talvez, no escuro, tenha pensado que era a polícia. Sabe, a polícia, às vezes, dá umas batidas por lá para assustar os casais de namorados. (ALVES, 2011, p. 46).

No fragmento fica evidente a não aceitação da mulher ao fato de ter vivido com um homem que ela acreditava ser heterossexual e ao surpreendê-lo com outro, ela recusa a ideia de que ela tenha uma identidade bissexual “gilete, identificando-o como “veado”. Ela ainda procura justificar-se dizendo não ter nada contra os homoafetivos assumidos, a recusa é forçada, sobretudo, pela dor da traição, pelo fato de ela não aceitar as identidades como mutáveis. No último período, a narradora evoca a lembrança do Código Penal de 1891, o qual previa que as práticas homoafetivas em locais públicos ou ermos eram consideradas criminosas e deveriam ser repreendidas pelas forças policiais (GREEN; POLITO, 2006).

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Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário. Mas a expressão também se constitui na forma pejorativa com que são designados homens e mulheres homossexuais... Queer representa claramente a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada, e, portanto, sua forma de ação é muito mais transgressiva e perturbadora (LOURO, 2013, p. 39). 2

Forma popular para designar a identidade bissexual, nesse caso, corta dos dois lados.

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Em “Olhos verdes de esmeralda”, a autora aborda o amor entre duas mulheres, Julita (Esmeralda), a qual recebe essa identidade devido ao seu par de olhos verdes e Marina, iniciado nos tempos de estudante e continuado após as duas terem se graduado e começado a trabalhar. Ao final do primeiro ano de vida em comum, a amizade evolui para um amor irresistível, inseparável e secreto. Quem se declarou? Não se sabe, foi um ir acontecendo e pronto. Passaram a ficar mais tempo em casa. O amor ultrapassou os tempos de estudantes. Final do curso, voltaram à casa dos pais. Firmaram-se profissionalmente. (ALVES, 2011, p. 63).

Conforme o fragmento notou-se que o relacionamento afetivo-amoroso entre duas mulheres segue o que Gilligan (1982) chamou de “ética do cuidado”, pois as relações seriam mais duráveis por elas se preocuparem em atender às necessidades uma da outra. Nessa perspectiva, a construção da identidade feminina lésbica está associada ao cuidar da sua parceira, orientando suas vidas em função do desejo e da necessidade daqueles que estão ao seu lado (MILLER, 1986). Desse modo, afirma-se a presença do estereótipo de que na relação amorosa entre duas mulheres há a fidelidade enquanto as práticas homoafetivas do universo masculino seriam marcadas pela promiscuidade dos casais. A solidariedade, cumplicidade e afeto entre os casais homoafetivos femininos rompem com o ideário que elas procuram somente o sexo, conforme se percebe em: Perdida em pensamentos, engatou, desajeitada, a primeira e fez cantar os pneus no asfalto molhado. Viu-se seguida por uma viatura policial, sinalizando para que encostasse e parasse. Pensou: “Droga, logo hoje!”. Parou. Distração ou instinto, segurou a mão de Marina, acariciando-lhe a perna com carinho protetor. (ALVES, 2011, p. 65).

Outro estereótipo da identidade homoafetiva feminina é o comportamento discreto que elas têm, conforme visto em: “Ninguém da família desconfiava da verdade da amizade que as uniam, elas acreditavam nisso. Mantinham-se discretas, não moravam juntas para evitar constrangimentos” (ALVES, 2011, p. 63). Entende-se que esse comportamento é um meio para evitar o preconceito e a homofobia no meio social, inclusive nas famílias. Contudo, a discrição pode ser quebrada quando há o desejo, exprimindo assim que além da cumplicidade e proteção, o amor é completado pelo erotismo dos corpos.

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Ao parar no farol vermelho, Esmeralda, atraída pelo olhar apaixonado da mulher, não resistiu e a beijou demoradamente. O farol abriu. Ela dominada pela emoção, envolvida pelo beijo que adoçou seus sentimentos com substâncias afrodisíacas, antes de cambiar a marcha, apertou com carinho a entrecoxa de Marina, que murmurou um ai sensual, apaixonado e entregue. Imaginou-se beijando, apalpando, já no elevador do condomínio da garagem até o oitavo andar, sem riscos de serem surpreendidas. Neste horário, o edifício está silencioso, os condôminos recolhidos, os porteiros dominados pelo sono e as câmeras de vigilância desligadas. (ALVES, 2011, p. 64).

O fragmento revela que apesar de se manterem reservadas havia momentos em que o desejo sexual era latente entre as duas e, nessas ocasiões, entregavam-se ao amor que as unia. Todavia, esse amor foi interrompido, quando à frente, não percebem a presença de uma blitz, sendo perseguidas pelos policiais e, ao ver que eles as seguiam pararam o carro. Por sua vez, a abordagem policial é truculenta e homofóbica, uma vez que eles tinham percebido uma troca de carícias entre elas. “A carteira?” Esmeralda apresentou os documentos. “Correto. Porque o boyzinho acelerou ao ver a gente? Tem culpa no cartório ou tem medo de macho de verdade?” O tom das palavras ameaçava, prenunciava a violência. Ela apressou-se a responder temerosa, afirmando não ter visto a viatura policial, só estava seguindo seu caminho. Mal terminou a frase, o sargento, que esperava um motivo para pegá-las, não tendo, foi assim mesmo. Retirou-a do carro, colocou-a no camburão e, ali mesmo, passou a violentá-la. “Não gosta de homem, não é? Vou fazer você gostar! Nunca conheceu um, não é...? Você vai sentir o que é bom!” Gritava ele brutalmente. (ALVES, 2011, p. 65).

Evidencia-se que a abordagem dos policiais vai além do comum, que seria pedir os documentos e aplicar uma multa pela infração de trânsito cometida. Mas ao perceber que se trata de duas mulheres negras e homoafetivas eles usam da violência sexual como forma de puni-las, valendo-se do juízo de valor do senso comum de que a mulher lésbica não aprendeu a gostar de um homem e, por isso, precisa ser violentada para vir a gostar. E, após, estuprarem Julita (Esmeralda), fazem o mesmo com Marina, além da violência sexual, a psicológica, pois enquanto uma era estuprada, a outra era obrigada a assistir a tudo. Essa atitude espúria e fóbica é legitimada pelo juízo heterossexista, nesse sentido, esclarece-se que: A fobia é a presença latente desse afeto sobre o fundo do mundo do sujeito; há organização, formação. Pois, naturalmente, o objeto não tem necessidade de estar presente, é suficiente que ele seja: ele é uma

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possibilidade. Este objeto é dotado de intenções más e de todos os atributos de uma força maléfica. No fóbico, há prioridade do afeto em detrimento de todo pensamento racional. (FANON, 2008, p. 137).

Para Fanon (2008), a violência praticada pelos policiais é justificada por algum trauma que eles possam ter vivido em alguma fase das suas vidas, por essa razão, a homofobia é organizada e as intenções do ato justificadas pelo mesmo. No caso, compreende-se que a não aceitação da liberdade do sujeito expressar o seu desejo por quem ele quer parte da construção das ideologias de gênero que cada um aprende durante o seu processo de aprendizagem, ou seja, o estupro da mulher homoafetiva consiste numa lembrança daquilo que eles aprenderam. Além da fobia, a linguagem de baixo calão, a interrogação e a exclamação utilizada reforçam a ideia de que o crime de homofobia praticado continuará impune: “Suas negras nojentas, sapatas filhas da puta, não gostaram? Vão reclamar no inferno!” Dizem que, quando o sofrimento é muito, o espírito se ausenta para amenizar a dor. Quando o horror acabou, ficaram ali na varanda um bom tempo, desamparadas, enquanto clareava o dia. Sem reação, abraçadas, compartilhavam angústia e revoltas mudas perante tudo. Um processo correndo sem testemunhas, o vexame do corpo de delito e... A vida continua. (ALVES, 2011, p. 66).

Mesmo diante do horror sofrido Julita (Esmeralda) e Marina continuam solidárias uma à dor da outra, a princípio, inertes, mudas, pois não esperavam pelo ato covarde praticado. Isso traz à lembrança inquietações ainda não respondidas – Quantas mulheres lésbicas, no Brasil, independemente da sua etnia, já tiveram seus corpos violados por força da ordem heterossexista? É natural, vilipendiar, abusar do corpo do outro para que ele deixe de lado a sua identidade sexual? – essas inquietações deixadas nas entrelinhas do texto literário de Miriam Alves são relatos de “escrevivências”, portanto, metáforas da realidade social de muitas mulheres negras e lésbicas que reforçam uma questão retórica – Até quando a homofobia será praticada aos olhos inertes da sociedade e os processos das queixas-crimes continuarão engavetados nas salas de algum Juizado? 3 CONCLUSÃO

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O lugar onde se vive, as experiências vividas e ouvidas servem de matéria para a demarcação do “EU” na escrita literária feminina negra, é um reforço à lembrança do leitor das identidades silenciadas pela história. Por isso, tomou-se para esse estudo o conceito de literatura afro-brasileira dado por Duarte (2008), no qual essa literatura é aquela que envolve a temática, a autoria, o ponto de vista, a linguagem e o público – alvo. Também por se acreditar que a produção contística de Mulher Mat(r)iz, de Miriam Alves carrega a voz das “escrevivências”, isto é, a voz da mulher negra, não quer ela relate experiências autobiográficas, mas que na sua obra estão inclusas as vozes de outras mulheres negras das quais ela se apropria, construindo assim metáforas da realidade social. Mulher Mat(r)iz (2011), de Miriam Alves, é uma coletânea que reúne onze contos, os quais foram escritos em mais de vinte anos de dedicação da autora à escrita da prosa literária e também do seu engajamento nas lutas político-sociais do negro brasileiro. Por essa razão, ratifica-se o valor que as “escrevivências” assumem no seu trabalho, é a voz da militância da mulher negra que luta arduamente pela afirmação das múltiplas identidades da mulher negra na sociedade. Nessa atmosfera pluralista das identidades femininas, o artigo pretendeu a análise do elemento memória como traço na formação das identidades homoafetivas a partir da mulher que sofre por ter o esposo homoafetivo e da violência contra a mulher negra homoafetiva. A não nominação da mulher e das outras personagens, sendo os homens conhecidos por adjetivos que os identificam em “Minha flor, minha paixão” é entendida como estratégia argumentativa não para invisibilizar os sujeitos da narrativa, mas para torná-los comuns. Neste sentido, a descoberta da mulher de que o homem a quem ela ama, vive uma relação extraconjugal com outro homem, além de prover o outro de tudo, tirando para isso de dentro da casa ou não correspondendo com o seu papel de “o homem da casa” é angustiante e desesperadora. E a linguagem empregada no conto leva o leitor a aceitar os argumentos da mulher, inclusive, o fato de ele não tolerar que ele seja bissexual “gilete”, por isso ela o chama de “veado”, assumindo assim a ideia, atualmente, aceita pelos estudiosos gays de que qualquer homem que mantenha relações sexuais com outro é também homoafetivo. “Olhos verdes de esmeralda” é a metaforização do amor homoafetivo entre duas mulheres com todos os estereótipos tipificadores da natureza dessa relação, não como

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negativação dessa identidade sexual, mas de valorização do afeto entre elas. Afeto esse que nem mesmo diante do ato homofóbico praticado por policiais desaparecera, uma vez que após o acontecido elas continuam juntas compartilhando a mesma dor. Desse modo, a autora deixa ao leitor a responsabilidade de ligar as pontas da realidade à ficção – buscar na memória a imposição da ordem heterossexista na qual os homens queriam dominar o corpo das mulheres, inclusive das lésbicas, no sentido de demovê-las da sua identidade sexual. Então, percebeu-se ao longo da análise que a memória é elemento crucial na formação das identidades individuais e coletivas dos diversos grupos sociais e ainda dos indivíduos enquanto sujeitos da sua história. Para isso, o eu é lugar de onde se deve partir a enunciação, pois todo o processo de construção das identidades se dá através do jogo comparativo entre as ações do eu e do outro.

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