GRUPO DE MULHERES 1 Heloisa J. Fleury

September 2, 2017 | Author: Vera Alencar Meneses | Category: N/A
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GRUPO DE MULHERES1 Heloisa J. Fleury RESUMO Neste texto apresentamos o modelo teórico relacional-cultural desenvolvido pela teoria feminista, discutindo a importância de vínculos para a mulher e algumas semelhanças entre o impacto das pressões sociais no desenvolvimento da identidade feminina e o conceito de núcleo dos papéis de Moreno, apoiando a indicação de trabalho em grupo para o desenvolvimento da mulher. Descrevemos algumas contribuições da psicoterapia de grupo, relativas a temas prevalentes e aos desafios para o terapeuta a cada etapa da evolução do grupo, visando um melhor aproveitamento de intervenções grupais de tempo limitado, destacando as implicações desta limitação para a produtividade do grupo. Destacamos a necessidade de uma base de sustentação relacional para a experiência de intimidade e maior envolvimento, consequentemente para o fortalecimento ou empowerment da mulher, justificando a indicação de grupos constituídos e dirigidos por mulheres. Introdução Grupos constituídos apenas por mulheres fazem parte do cotidiano da maioria dos terapeutas que trabalham com grupos homogêneos focando estágios específicos da vida reprodutiva feminina ou questões de gênero. Na minha experiência, o compartilhamento da experiência emocional nestes grupos criou um clima de intimidade muito favorável para a evolução do grupo e das participantes (Fleury e Abdo, 2005). Grupos de mulheres vem sendo a modalidade de escolha principalmente no tratamento de mulheres em situações de violência de gênero (Meneghel et al., 2005), pela segurança oferecida para a abordagem destas experiências e de suas conseqüências emocionais. Muitas das contribuições atuais da teoria feminista tiveram início no movimento feminista, que há mais de 40 anos estimularam a evolução nos estudos das especificidades da psicologia da mulher. Meu primeiro contato foi na década de 80, quando cursei uma disciplina com Jean Baker Miller2. A ênfase na necessidade feminina de conexões emocionais e a conseqüente experiência de ruptura e solidão provocada por condições ambientais adversas eram temas abordados com um forte componente emocional. Buscava-se a sensibilização da mulher quanto à construção histórica e social de identidades de gênero diferenciadas, tomando a 1

Esse artigo foi publicado em português e inglês na Revista Brasileira de Psicodrama, 2006; 14(1): 121-30 e 251-7 Jean Baker Miller, MD é Diretora do Jean Baker Miller Training Institute do Stone Center do Wellesley Centers for Women, um dos principais centros de estudos nesta área, localizado na região de Boston, Estados Unidos. 2

denúncia da universalidade da opressão feminina e da dimensão política desta questão como formas de intervenção. Mais recentemente, pesquisando sobre sexualidade feminina, encontrei novamente os estudos feministas. Pareceu-me que algumas daquelas posições revolucionárias estavam abrandadas. Embora ainda enfatizando o impacto das pressões sociais, hoje o pensamento feminista traz importantes referenciais teóricos para a compreensão da identidade feminina e de competências identificadas com a mulher, tais como cuidar, alimentar, consciência do coletivo, interdependência, que vêm sendo cada dia mais valorizadas nas relações de trabalho. Neste período, os estudos referentes às várias modalidades de intervenção grupal têm demonstrado resultados promissores da psicoterapia de grupo de tempo limitado. No trabalho com comunidades e na saúde pública, sociodramas e outras metodologias sociopsicodramáticas tematizadas e de tempo limitado estão tendo um reconhecimento crescente. Alguns conceitos da teoria feminista têm contribuído para a teoria e prática da psicoterapia de grupo, principalmente quanto às indicações para a formação de grupos de tempo limitado constituídos apenas por mulheres. Neste texto, pretendo identificar estas contribuições, principalmente os benefícios decorrentes da participação em grupos formados e dirigidos por mulheres. O desenvolvimento da identidade feminina Embora os conceitos desenvolvidos pelas feministas radicais apresentem divergências em alguns aspectos daqueles propostos pelas mais liberais, guarda em comum a busca de modelos teóricos para a compreensão do desenvolvimento emocional e da identidade feminina específicos para mulheres, evitando ou reformulando referenciais baseados na experiência masculina. No referencial psicodramático, é na inter-relação da criança com sua matriz de identidade, caracterizada pelo contexto ambiental, familiar e com componentes sócio-culturais, que um padrão relacional vai sendo estabelecido entre a criança e o mundo externo, favorecendo ou não seu desenvolvimento, de um estado de indiferenciação em relação a si mesma e ao mundo externo para um estado de diferenciação crescente (Moreno, 1993). Valoriza assim um processo de desenvolvimento e interdependência, que continua no inter-relacionamento da pessoa com seu contexto afetivo. A concepção feminista de desenvolvimento emocional também se baseia na experiência relacional, valorizando a vivência precoce de estar-em-relação. Porém, destaca que teorias do desenvolvimento inspiradas na experiência masculina identificam maturidade com a maior

capacidade para separação, autonomia, independência, auto-suficiência, dificultando a valorização de algumas características femininas (Jordan et al., 1991). Formularam um modelo teórico relacional-cultural, que reconhece a necessidade humana de relacionamentos que promovam crescimento, considerando a experiência de perda de vínculos de sustentação uma das principais fontes de problemas psicológicos. Neste referencial, a mulher se reconhece predominantemente pela capacidade de criar e manter vínculos, sendo o relacionamento entre mulheres uma importante fonte de significados e de sustentação. No entanto, esta necessidade de vinculação para a sensação de self (Jordan et al., 1991) pode intensificar algumas características da identidade feminina. Jagguar e Bordo (1997) identificaram em nossa cultura concepções de feminilidade que consideram a mulher como nutridora emocional e física. Espera-se da mulher o desenvolvimento de uma economia emocional voltada para os outros, considerando voraz e excessivo o desejo de auto-alimentação ou auto-cuidados. Pressões sociais podem levar a menina a acreditar que sua identidade caracteriza-se pela ausência de raiva e de necessidades próprias, tornando o sentimento de raiva ameaçador para sua identidade como mulher e para sua feminilidade. Exceto nos cuidados com os filhos, caracterizados como interesse por uma outra pessoa, a mulher tende a suprimir sistematicamente a raiva, aumentando a sensação de fragilidade e comprometendo sua auto-estima. Este mecanismo pode expressar-se através de sintomas psicológicos ou somáticos, mais frequentemente através da depressão, além de influenciar sua maneira de lidar com conflitos (Jordan et al., 1991). No desenvolvimento da identidade de gênero, pode desenvolver uma percepção de si mesma com uma divisão baseada nas características atribuídas aos dois gêneros, reconhecendo como masculinos seus aspectos voltados para a busca de autonomia e como femininos aqueles mais afetivos e dependentes. Esta condição, segundo Cohn (1996), pode ser acentuada pela desvalorização e conseqüente dificuldade em reconhecer muitas de suas características femininas, criando no desenvolvimento da mulher uma profunda sensação de que falta algo, de não estar completa. As feministas manifestam um interesse crescente pelo tema da tensão entre mulheres, considerando a oportunidade de aprendizagem e cooperação entre elas uma importante estratégia terapêutica, por favorecer o reconhecimento de sentimentos em relação à própria mãe e filhas. Nesta perspectiva, um passo para gostar e valorizar a si mesma pode ser aprender a gostar e a valorizar outras mulheres (Reed e Garvin, 1996).

No psicodrama, o contexto sócio-cultural é expresso na dimensão coletiva dos papéis. Com base na compreensão de Knobel (2006) do conceito de núcleo dos papéis proposto por J.L.Moreno, a singularidade de cada mulher reflete-se em seus diferenciadores individuais dos papéis sociais, que são ancorados nos denominadores coletivos próprios de sua cultura. Desta forma, a identidade feminina ancora-se numa dimensão sócio-cultural. Na medida em que os denominadores coletivos do papel são socialmente determinados, segundo esta autora os participantes de um grupo reconhecem estes elementos não só como próprios mas também como apropriados. A partir destas colocações podemos caracterizar o grupo como um facilitador da abordagem terapêutica de questões relacionadas à identidade feminina. O empowerment feminino Um dos principais focos da teoria feminista refere-se ao desenvolvimento de recursos pessoais na mulher, processo que denominaram empowerment. No Brasil, foi traduzido para “empoderamento”, condição relacionada a mudanças nas relações de poder entre homens e mulheres, essencial no fortalecimento de mulheres que vivenciam violência de gênero (Meneghel et al., 2005). Como esta palavra não existe em português, lamento não ter sido traduzido por “apoderamento”, que me parece expressar mais apropriadamente este conceito derivado de poder, entendido no pensamento feminista como a capacidade de mover-se ou de produzir mudanças (Miller, 1991). Não significa exercício do poder, mas o fortalecimento da auto-estima e dos recursos pessoais para apoderar-se da construção da identidade e de significados. Surrey (1991) refere-se a um modelo alternativo de poder, caracterizado por relacionamentos que promovem mutualidade, envolvendo a experiência de um poder que emerge da interação, suplantando a dicotomia ativo/passivo, sendo que esta vivência constrói conexões e fortalece o poder pessoal de todos os envolvidos. Valoriza a dimensão relacional e o contexto possibilitando a emergência destas condições pessoais. Definiu empowerment psicológico como a motivação, liberdade e capacidade de agir na busca de algo, envolvendo a mobilização de energias, recursos, forças e poder de cada pessoa num processo mútuo e relacional. Ocorre inicialmente na relação mãe-filha e, posteriormente, com pessoas significativas de seu ambiente, baseando-se na mutualidade no relacionamento, expressa em envolvimento mútuo, atenção e interesse, empatia e fortalecimento mútuo. O reconhecimento da importância do compartilhamento e da mutualidade para o desenvolvimento feminino têm levado a uma valorização crescente de grupos compostos apenas

por mulheres como um espaço para a construção coletiva de novos posicionamentos na vida. Promovem, entre outras condições, espaços seguros para a identificação de semelhanças e diferenças, enfrentamento de conflitos, expressão de sentimentos de raiva, transformando as participantes em agentes da própria transformação, condição própria do empowerment. Psicoterapia de grupo de tempo limitado As intervenções grupais podem ser processuais ou de tempo limitado, aplicadas em contexto psicoterapêutico ou não. Na saúde pública brasileira, terapias tematizadas de curta duração têm tido uma valorização crescente, podendo ter função psicoterapêutica, psicoeducativa ou de desenvolvimento pessoal e/ou grupal. J.L.Moreno, baseando-se em suas experiências de vida, desenvolveu as bases de uma proposta essencialmente de pesquisa dos inter-relacionamentos humanos e de ação na transformação social. Marra (2004) contextualizou o pioneirismo de Moreno ao romper com concepções individualistas, propondo uma pesquisa participativa e interventiva que estimula o desenvolvimento grupal e cultural através da ação. O foco está no fenômeno vivido, numa perspectiva relacional e intersubjetiva, possibilitando que a experiência grupal seja o catalizador da transformação. Neste sentido, grupos de mulheres favorecem a abordagem tanto dos aspectos individuais como a ancoragem sócio-cultural dos papéis femininos, abrindo perspectivas para novos referenciais pessoais. A conquista do conhecimento através de um processo participativo desenvolve recursos para aprender sobre o próprio processo de aprendizagem. A ação e interação entre os participantes do grupo propiciam novas possibilidades de comunicação, estimulando a crítica, a disponibilidade para vivenciar novas práticas e, principalmente, criar uma nova visão do mundo. Desta forma, a situação grupal promove conhecimento, socializa recursos individuais, apóia sistemas e media situações entre os participantes, ampliando o foco de uma dimensão individual para as relações intersubjetivas dos participantes. Desenvolvem-se vínculos de apoio e sustentação para os participantes, assim como a trama social favorece a abordagem das dificuldades apresentadas, propiciando uma construção coletiva de novos significados, ampliando as práticas, as possibilidades relacionais e as identidades individuais (Marra, 2005). Intervenções de tempo limitado não se propõem à resolução de todas as questões emocionais. Colaboram, porém na abordagem de temas como comprometimento pessoal,

tolerância à perda, constituindo-se intervenção de escolha na promoção de saúde e no empowerment de mulheres. I.

Composição e preparação para a experiência grupal

Objetivos claros são essenciais para a constituição de um grupo terapêutico, na medida em que direciona a seleção de participantes que possam se beneficiar da experiência e favorece o planejamento da melhor modalidade de intervenção. O terapeuta prepara-se para a experiência grupal definindo as diretrizes principais do grupo a se constituir. Especialmente em terapia de tempo limitado, a preparação anterior do participante visa confirmar a indicação para atendimento nesta modalidade, avaliar as expectativas e fantasias relativas à participação no grupo e esclarecer os objetivos da proposta e os detalhes do contrato (dia, hora, local, honorários, número de sessões, etc.). A criação e/ou fortalecimento de um vínculo com o terapeuta é essencial nesta etapa. Gunzburg (2005)2 destaca a importância de abordar os aspectos envolvidos no papel de membro ativo no grupo, cabendo ao terapeuta transmitir o conceito de grupo como um laboratório vivo de relacionamentos, onde novos comportamentos podem ser testados através da ação principalmente entre os participantes. A preparação para o grupo tem a importante função de aumentar a adesão ao trabalho, condição importante para a coesão grupal. II.

Etapa inicial do grupo

Com a lei sociogenética, Moreno identificou três estágios na tendência de evolução dos grupos de estruturas mais simples para outras mais complexas: isolamento orgânico, diferenciação horizontal e diferenciação vertical (Fleury, 1999). Constitui um referencial importante na direção de grupos, tanto na evolução da experiência grupal como na direção de cada sessão. Nos dois estágios iniciais, os participantes aproximam-se e buscam reconhecimento através da identificação de semelhanças, tendendo a ignorar diferenças e os primeiros indícios de conflitos, pelo receio da emergência de sentimentos de raiva e de confrontos. A proposta sociopsicodramática valoriza a experiência vivida na sessão grupal, onde as queixas principais certamente irão se manifestar. Gunzburg (2005)3 recomenda uma participação 3

Gunzburg M. The FIT modern group model: three keys to creating successful short-term groups. (Apresentado ao Annual Meeting of the American Group Psychotherapy Association; 2005; Nova York, EUA).

ativa e otimista do terapeuta, facilitando conexões emocionais que permitam trazer a queixa para o aqui e agora dos relacionamentos no grupo. Considera ser esta uma condição essencial para a criação de um clima emocional que permita ao grupo assumir a função de agente terapêutico de mudanças. Um aspecto da participação feminina em grupos refere-se ao papel que as mulheres desempenham na criação de um ambiente seguro e acolhedor, pela facilidade em vincular-se e expressar emoções. Favorecem a evolução do grupo e a coesão grupal, na medida em que emoções como carinho, pesar, medo, vergonha, consideradas “femininas” tendem a ser mais facilmente expressas (Bernardez, 1996b). O objetivo principal nesta etapa é portanto favorecer a experiência de compartilhar sentimentos em ambiente que valide a vivência pessoal, contribuindo para a constituição e evolução do grupo, assim como o desenvolvimento dos recursos pessoais dos participantes. III.

Fortalecimento e término do grupo

A expressão de sentimentos como raiva, frustração, assim como de necessidades pessoais, assumindo riscos e buscando relacionamentos com mais significado e honestidade são ingredientes importantes para a evolução do grupo e dos participantes para o estágio de diferenciação vertical. Estas condições tornam a etapa final a mais difícil delas, por envolver além destes componentes, a dor da separação provocada pelo término do grupo. Nesta modalidade de intervenção, a noção do término é também um instrumento de mudança. Assim, o grupo deverá acompanhar esta questão e ser estimulado a lidar com questões essenciais relacionadas ao tempo. O terapeuta deve afirmar claramente esta limitação, sinalizando quando o processo chega ao meio e identificando a cada sessão quantas restam e a data da última delas (Mackenzie, 1996). Recomenda que o terapeuta estimule, no meio do processo, a avaliação de como estão no momento as questões mais importantes do início do processo. Mackenzie (1996) identifica alguns temas próprios desta etapa: insuficiência do tempo, com um possível subtema de rejeição, expresso pela sensação de desvalia; perda e luto; necessidade de lidar com a própria vida. Na medida em que todos estão relacionados com autoestima, sua abordagem favorece o reconhecimento de atitudes da pessoa consigo própria, podendo aumentar a sensação de auto-eficácia. Destaca que a consciência do tempo e as pressões existenciais na etapa final promovem maior envolvimento, produtividade, coesão e emoção intensa. Enfatiza a posição existencial de aceitação de responsabilidade individual, associada ao fortalecimento da auto-eficácia. Alerta porém que estas e outras condições expressando trabalho

intenso não devem levar ao aumento do número de sessões. Acredita ser importante para o terapeuta sua própria consciência da realidade da morte e da inevitabilidade da perda, condição necessária para abordar estes temas, tornando a limitação de tempo uma oportunidade para explorar temas essenciais da condição humana, acelerando e concentrando o processo terapêutico. Mulheres em psicoterapia de grupo de tempo limitado Grupos constituídos apenas por mulheres seguem as diretrizes básicas de uma psicoterapia de grupo, com algumas particularidades para um melhor aproveitamento. Cohn (1996) identifica nestes grupos, um contexto social que favorece a experiência de novos modelos de reconhecimento, diferentes daqueles definidos socialmente, podendo emergir uma profunda compreensão do ser mulher. Na etapa inicial, o foco é no desenvolvimento da confiança e no reconhecimento dos impedimentos para ela. Oakley (1996) enfatizou a necessidade feminina de estabelecer uma base relacional no grupo, através do compartilhamento de experiências semelhantes, da busca de aprovação e vínculos com as participantes do grupo e com o/a terapeuta. A criação destas condições favorece a sensação de estar conectada às demais. Considerando a importância de vínculos que confirmem a experiência feminina, assim como a forma de cada uma expressar sua subjetividade, uma atuação mais diretiva do terapeuta na identificação da universalidade de alguns sentimentos compartilhados no grupo favorece a criação da cultura relacional do grupo, constituindo um pré-requisito essencial para o compartilhamento. Bernardez (1996a) identifica nesta etapa uma necessidade muito grande de modelos femininos assertivos e que se colocam com competência e presença viva, exigindo do terapeuta reconhecimento dos aspectos culturais deste fato, o que favorece que responda também com firmeza e empatia. Lesser (2000) identificou confiança e vergonha como os dois temas prevalentes nesta etapa, perceptíveis pela generalidade do conteúdo que as mulheres trazem, expressando provavelmente sua preocupação com a aceitação pelo grupo. Recomenda que o terapeuta mencione como as pessoas costumam antecipar sentimentos de vergonha, facilitando o compartilhamento das preocupações iniciais, validando sentimentos e colaborando para que desenvolvam habilidades de vinculação e fortalecimento do contexto relacional.

Em grupos de mulheres, muitas das vivências relacionadas a conflitos dificilmente são identificadas, sendo necessário um contexto que traga segurança para sua abordagem. Embora alguns críticos considerem que o grupo fica mais superficial quando os conflitos são evitados, Cohn (1996) identifica neste processo de evolução próprio destes grupos, um paralelo com o desenvolvimento do eu feminino, refletindo a importância da vinculação e do acolhimento. Bernardez (1996a) propõe que o terapeuta aborde desde o início qualquer indício do sentimento de raiva, facilitando o reconhecimento de que o temor deste sentimento é comum em mulheres, tendo raízes no processo de socialização cultural. Esta abordagem facilita também que o terapeuta demonstre não estar ameaçado pela raiva, podendo abordá-la livremente. Avanços de uma posição de observadora, trazendo comentários genéricos, para uma nova posição de participante ativa, colaborando na identificação das questões emocionais permeando a experiência relacional são indícios importantes de evolução do grupo e das participantes. Um objetivo importante é o desenvolvimento de auto-empatia, como um eu interno desempenhando uma função materna de acolhimento e permissão para uma atuação mais criativa nos relacionamentos. Jordan (1991) propõe o conceito de auto-empatia para facilitar a compreensão do processo de desenvolvimento específico de mulheres. Refere-se a um estado motivacional ou atitude de não julgamento e abertura, considerando e valorizando as próprias experiências, com prontidão para uma compreensão afetiva e cognitiva de si própria, condição necessária para mudanças em mulheres com auto-estima muito comprometida. Fedele (1994) apontou três paradoxos relacionais que devem ser abordados pelo terapeuta em grupos de mulheres: 1. oscilação entre o desejo por vínculos gratificantes e a necessidade de manter estratégias para permanecer fora de vínculos pelo medo de seus sentimentos não serem compreendidos; 2. similaridade e diversidade, cabendo ao terapeuta criar um contexto seguro para permitir que elas simultaneamente compartilhem e desenvolvam empatia pelas suas diferenças; 3. conflito no vínculo, cabendo ao terapeuta encontrar formas de facilitar que elas discutam sentimentos de raiva sem julgamento crítico. Estas condições favorecem que o grupo vivencie o desencontro em contexto de conexão e de relacionamentos empáticos, possibilitando o reencontro. No contexto terapêutico é essencial validar experiências relacionais de empowerment, facilitando que as mulheres identifiquem em si mesmas esta condição e aprendam a criar novos contextos relacionais em que possam se colocar com maior tranqüilidade (Surrey, 1991). Oakley (1996) propôs um último estágio de desenvolvimento nos grupos de mulheres, que denominou de mutual empowerment. Para que este estágio seja atingido, esta autora considera necessário que o terapeuta seja também uma mulher, porém com condições pessoais que

permitam valorizar o ser mulher, explorar e modelar questões relacionais, estar presente e genuinamente conectada com o grupo, acreditando e valorizando o potencial das mulheres desenvolverem catalizadores para as mudanças. Sugere desta forma que a terapeuta precisa de recursos pessoais que promovam disponibilidade para transformar a experiência grupal numa oportunidade de envolvimento, além de disponibilidade afetiva para ser ela também uma agente de transformação no grupo. Perspectivas futuras Com a demanda cada vez maior por intervenções grupais focais e com grupos homogêneos, as possibilidades de fortalecimento pessoal oferecidas por grupos constituídos apenas por mulheres poderão otimizar os recursos metodológicos disponíveis. A indicação para estes grupos vem sendo ampliada, pelo reconhecimento de que promovem condições propícias para o desenvolvimento da identidade feminina. Este espaço para a descoberta das semelhanças, das diferenças, das formas próprias de aproximação e conhecimento do mundo, estimula o fortalecimento individual e grupal. Os objetivos básicos da teoria feminista como a valorização e a criação de redes de sustentação afetiva, a potencialização da mulher nesta perspectiva de poder para produzir mudanças e recriar as possibilidades disponíveis em suas vidas, são muito semelhantes ao projeto socionômico elaborado inicialmente por Moreno. Há uns 20 anos, localizei na Biblioteca do Wellesley College, onde se localiza o Stone Center do Wellesley Centers for Women, uma coleção admirável de obras antigas, tanto de Moreno como de outros psicodramatistas da época. Na ocasião, imaginei a possibilidade destas feministas terem se inspirado também no psicodrama para suas formulações teóricas. Possivelmente somaram contribuições para o desenvolvimento teórico. Hoje, tomando como pressuposto a importância do contínuo aprimoramento do psicodramatista contemporâneo, acredito que a teoria feminista poderá nos estimular a novas reflexões, trazendo contribuições para uma prática compromissada com as inúmeras demandas da contemporaneidade. Referências bibliográficas Bernardez T. Conflicts with anger and power in women´s groups. In: DeChant B, editor. Women and group psychotherapy: theory and practice. New York: Guilford; 1996a. p.176-99.

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