ESTUDO DE CASO NA COMUNIDADE DO CATALÃO: TURISMO ALTERNATIVO COMO FORMA DE POTENCIALIZAR SEUS ATRATIVOS

August 27, 2017 | Author: Walter Salgado Dinis | Category: N/A
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Revista Eletrônica Aboré - Publicação da Escola Superior de Artes e Turismo Manaus - Edição 05 Dez/2010 ISSN 1980-6930

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ESTUDO DE CASO NA COMUNIDADE DO CATALÃO: TURISMO ALTERNATIVO COMO FORMA DE POTENCIALIZAR SEUS ATRATIVOS Jéssica Salgado da Fonseca1 Selma Paula Maciel Batista2

RESUMO Focado no segmento do turismo alternativo, o artigo traz como proposta a possibilidade de potencializar os atrativos da comunidade do Catalão no município de Iranduba, habitada por cerca de noventa famílias que em habitações flutuantes sobre o rio Rio Negro, criam na paisagem uma especificidade tipicamente Amazônida. Pela localização próxima ao encontro das águas e o Porto do Ceasa, sem o entendimento ou conhecimento da comunidade é comum a presença de visitantes em pequenas embarcações observando o local. O referencial teórico pautado nos conceitos de desenvolvimento local (BROSE,2000) e gestão participativa (BENI, 2007) darão subsídios para uma abordagem com foco no segmento do turismo alternativo com base no desenvolvimento sustentado. Para a investigação se adotou a metodologia da observação participante com o uso de formulários para obtenção de dados socioeconômico, para o entendimento da dinâmica e modo de vida da população se utilizou entrevistas abertas e, para compreender e mensurar o grau de expectativa dos comunitários para com o empreendimento turístico, se realizou uma oficina de enfoque participativo com o uso da técnica de moderação METAPLAN. PALAVRAS-CHAVE: Turismo alternativo, Comunidade flutuante, Desenvolvimento local.

ABSTRACT Focused on the segment of alternative tourism, this paper a proposal as the possibility of enhancing the attractiveness of the community in the Catalan town of Iranduba, inhabited by about ninety families in houses floating on the river Rio Negro, in the landscape create a special typically Amazon . Located close to the meeting of the waters and the port of Ceasa without understanding or knowledge of the community is common to have visitors in small boats watching the place. The theoretical framework guided by the concepts of local development (BROSE, 2000) and participatory management (BENI, 2007) will provide subsidies for an approach focusing on the segment of alternative tourism based on sustainable development. To research the methodology adopted is participatory observation with the use of forms to obtain socioeconomic data for understanding the dynamics and mode of life and open interviews were used to understand and measure the degree of expectation of the community towards the resort, held a workshop on participatory approach using the technique Metaplan moderation. KEYWORDS: Alternative Tourism, Community fluctuating, Local development

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Bacharel em Turismo pela Universidade Estadual do Amazonas – UEA, Especialista em Turismo e Desenvolvimento Local pela UEA. [email protected]

Mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia. [email protected]

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1 INTRODUÇÃO

Com o crescimento da prática do Turismo no mundo, convencionou-se o chamado “Turismo de Massa”, onde a procura por um determinado destino, geralmente, o de sol e praia, são maiores. Ao mesmo tempo em que essa prática trouxe impactos positivos, como uma economia alternativa para a cidade, trouxe também impactos negativos, dentre muitos, citamos a poluição do meio ambiente e o intenso processo de aculturação, contribuindo para a perca de identidade dos moradores locais. Contrapondo ao turismo de massa, visando fugir do caos urbano, da correria das grandes cidades, o homem volta-se para o campo, buscando através do contato com a natureza um refugio. Prática que motivou o surgimento de novos segmentos no turismo, como: Turismo de Natureza, Turismo Ecológico, Ecoturismo, e diversas outras modalidades, todas oferecendo um contato com a natureza. Apesar do crescente fluxo de turistas em cada um destes segmentos, não se garante na escala do lugar o desenvolvimento local. Conceitos estudados por BROSE (2000), na perspectiva de uma abordagem de gestão participativa e que consiste, segundo que cada pessoa ou um grupo de uma sociedade tenha poder de decisão acerca de como estruturar melhor suas vidas, sem deixar de considerar a liberdade de escolha de gerações futuras, ressaltando assim a dimensão da sustentabilidade, a busca pela equidade social, com desenvolvimento econômico e participação popular. Ações desenvolvidas de dentro para fora, em um processo endógeno registrado em pequenos territórios e contingente humanos, responsáveis pela promoção de um dinamismo econômico e melhora da qualidade de vida da população. Este artigo focado no conceito de turismo alternativo de base comunitária, busca identificar como a prática econômica e a natureza podem contribuir para o desenvolvimento sustentável na comunidade do Catalão. E se é possível trabalhar com um turismo alternativo potencializando os elementos naturais e culturais. A comunidade do Catalão é composta noventa e seis famílias que moram em casas flutuantes, cenário típico do interior amazônico, e quanto a estes tipos de moradias torna-se ainda mais específicos, pois não são ribeirinhos – aqueles que vivem a margem do rio – e sim, de fato, uma comunidade flutuante – localizadas no meio do rio e sem terra firme ao redor.

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São casas construídas com a madeira de assacu, única madeira existente na região amazônica própria para permitir a flutuação deste tipo de moradia.

2 DESENVOLVIMENTO LOCAL

O desenvolvimento local está associado, normalmente, a iniciativas inovadoras e que mobilizem a coletividade, articulando as potencialidades locais. Para Buarque (1999) Desenvolvimento local é um processo endógeno registrado em pequenas unidades territoriais e agrupamentos humanos capaz de promover o dinamismo econômico e a melhoria da qualidade de vida da população. Representa uma singular transformação nas bases econômicas e na organização social em nível local, resultante da mobilização das energias da sociedade, explorando as suas capacidades e potencialidades específicas. (BUARQUE,1999, p.10)

No contexto da comunidade do Catalão as potencialidades existentes para o turismo estão no cenário amazônico – cercado pela vegetação - em quem estão inseridos e no modo de vida dos comunitários. Apesar de o desenvolvimento local fazer grandes apelos a conteúdos internos, este sofre influências e pressões do meio externo, seja elas positivas ou negativas, e por ser tratar de um processo endógeno suas decisões (principalmente econômicas) também serão refletidas no âmbito regional e nacional. Brose (2000) em “O que é Desenvolvimento Local?” traz alguns modelos de desenvolvimento que foram construídos ao longo da história, O inicio da discussão de desenvolvimento têm como elemento principal erradicar a pobreza no mundo e partir daí foi traçado vários debates a cerca do melhor modelo de desenvolvimento. Destaca-se Romão(1991) com um modelo produtivista de desenvolvimento, que no seu ponto de vista não obteve o resultado esperado, pois este não reverteu o processo de concentração de renda e diminuição da pobreza entre os brasileiros e conseqüentemente não proporcionou uma melhor distribuição regional de desenvolvimento. Estendendo esta discussão para esfera internacional, o argumento utilizado para explicar a pobreza e a fome no mundo, por exemplo, é a falta de alimento e por isso é necessário uma agricultura forte, embasada na valorização do homem do campo. E, não nos

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moldes dos EUA cuja produção se pauta em uma agricultura de base patronal, mecanizada com um grande incentivo dos recursos públicos e intenso uso de agroquímicos. No entanto a solução para tal problema é mais complexa, pois apenas investimentos tecnológicos, mão-de-obra assalariada e incentivos públicos, não bastam - é necessário um trabalho de fortalecimento da democracia e mudança de postura política. Para haver um desenvolvimento, não basta um país apenas estabilizar a economia é preciso também que se invista no social, ou seja, investir na qualidade de vida da população, isso implica em ter acesso a saúde, educação, lazer, condições de gerar renda e uma boa infra estrutura urbana. Em Brose (2000, p.30) destaca-se a idéia de desenvolvimento humano onde se entende que para o indivíduo ter qualidade de vida é necessário criar possibilidades de escolhas para que estes possam optar pela melhor forma de como estruturar suas vidas, sem comprometer a sustentabilidade dos recursos para as gerações futuras.

3 TURISMO ALTERNATIVO

Nesta perspectiva do desenvolvimento humano proposto por Brose(2000) é que se potencializa o turismo alternativo como opção de geração de emprego, uma economia diversificada, melhoras na infra-estrutura, no transporte e na fixação da população no interior. Por turismo alternativo, para Hitchok (1993), entende-se que, Este deve ser sustentado nos princípios do diálogo com a população local para que esta esteja ciente dos seus efeitos, estabelecer princípios sólidos que garantam a preservação do ambiente, além de serem sensíveis à cultura local e fazer com que o turismo alternativo gere uma oportunidade aos menos favorecidos na participação dos lucros. (HITCHOK 1993, p.73)

Por isso a metodologia de enfoque participativo, combinado com um tratamento político nas negociações dos interesses da comunidade, visa identificar as potencialidades da comunidade para esta prática. E para que o segmento de turismo alternativo seja realizado com excelência é importante a existência de uma gestão participativa, que para Beni (2007, p.143) consiste em [...] aliar as comunidade às ações que combatam a exclusão social, valorizem suas histórias e permitam que a identidade local seja reconquistada, e trabalhar uma conscientização de que forma podem contribuir para o bem-estar da sua comunidade.

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Ressalta-se também a necessidade de se identificar quais os anseios de base local, para que possam ser trabalhadas de forma conjunta (comunidade e estado) e multidisciplinar, e assim gerar subsídios para a sua inserção no processo regional de desenvolvimento.

4 METODOLOGIA DE ENFOQUE PARTICIPATIVO

Baseado no conceito de turismo alternativo é que se buscou trabalhar na comunidade Lago do Catalão, primeiramente levantando dados do local na perspectiva de traçar o perfil dos moradores, e saber quais suas percepções e relação com o local em que vivem. Para tal, foi realizado um trabalho de inventario através da aplicação de um formulário socioeconômico e entrevista com a líder da comunidade e os moradores. Em seguida foi realizada uma oficina com a participação destes atores3 com o objetivo de identificar se a comunidade reconhece no limite do seu território o potencial para o turismo. No dia 23 de abril de 2010 foram aplicados dezoito formulários, contendo quatorze perguntas com o objetivo de identificar o perfil socioeconômico dos moradores, e cinco perguntas com o objetivo de favorecer ao pesquisador a percepção da relação da comunidade com seu entorno. No universo de 96 famílias, os dezoito questionários foram aplicados de forma aleatória A entrevista com a líder da comunidade, a senhora Raimunda Pereira Viana permitiu obter um levantamento histórico do local. Segundo informações, a comunidade pertence ao município de Iranduba distante 39 km de Manaus. Nossa comunidade foi registrada em 1994, com muita luta e esforço, conseguimos nos mobilizar para registrar, no papel está registrada como Associação Comunitária Nossa Senhora Aparecida Lago do Catalão, mas todo mundo conhece como comunidade do Catalão. (Líder comunitária Raimunda Viana, entrevista concedida em 23 de abril de 2010)

Para avançar na investigação, se utilizou a técnica da oficina de enfoque participativo, realizada no dia três de junho de 2010 na sede da escola, com a participação 27 comunitários, entre 16 adultos e 11 crianças uma oficina de enfoque participativo através da técnica METAPLAN, usando recursos de tarjetas, favorecendo a visualização. Para Cordioli a metaplan caracteriza-se pelas:

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Termo utilizado para referir-se aos envolvidos na atividade turística.

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62 [...] técnicas de moderação e de visualização móvel (fichas coloridas) no trabalho com pequenos grupos. Foi desenvolvido a partir dos anos 70, por uma empresa de consultoria alemã orientada para a capacitação de executivos de empresas - Metaplan GmbH. Esses instrumentos foram desenvolvidos em uma época em que a sociedade passou a exigir maior espaço para a participação nas tomadas de decisão e orientação dos processos segundo os desejos e necessidades de todos os diferentes grupos envolvidos. Para assegurar essa maior demanda por participação, foram desenvolvidos métodos e instrumentos que efetivamente pudessem viabilizar esse propósito. (CORDIOLI 2001, p.25)

A oficina realizada era com enfoque participativo, ou seja, todo conhecimento e serem discutidas seria junto com os moradores. Segundo Cordioli (2001) apud Krap-Pitz (1998) “o enfoque participativo pode ser entendido como uma aproximação sistemática a processos de grupos buscando mobilizar seus potenciais e fornecer-lhes instrumentos para melhorar as suas ações pelas contribuições dos participantes e em que se manifesta e incorpora o meio socioeconômico e cultural de cada situação.” 5 CATALÃO – RESULTADO E ANÁLISES . Catalão é uma língua românica originada do latim, falada atualmente por 10 milhões de pessoas, principalmente nas províncias de Barcelona, capital da Espanha. Na etimologia da palavra, catalão que dizer o espanhol que busca sua independência. Apesar de ser registrada no ano de 1994, não há conhecimento do ano em quem ela passou a ser ocupada. “Cheguei aqui no ano de 1989, mas já existiam moradores aqui, sei que os primeiros a chegar aqui foi o seu João Borges”. (Líder comunitária Raimunda Viana, 2010) Atualmente existem 96 casas e o total de 331 moradores e estas não possuem um sistema de destinação dos dejetos, a água que recebe os dejetos é a mesma utilizada para tomar banho e cozinhar. A comunidade dispõe também de cinco pontos comerciais, identificados como “mercadinhos” e uma escola com ensino fundamental até o 1º ano do ensino médio, e para continuar os estudos, para aqueles que têm condições, vêem a Manaus. O lazer dos moradores está nos jogos de futebol (homens, mulheres e crianças) que, geralmente, ocorrem em Manaus em uma quadra na Vila da Felicidade (bairro situado ao lado do Porto do Ceasa). Através do questionário, podemos avaliar a procedência desses moradores e sendo a maioria (17%) do município de Carauari, e a motivação para tal mudança está na proximidade com a Capital e ao mesmo tempo ser um local tranqüilo. Outra questão pontuada foi a cerca do nível de escolaridade, sendo que 50% dos entrevistados nunca foi a uma escola, tal informação torna relevante a implantação de um projeto turístico na comunidade.

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Sobre o transporte próprio (canoa ou rabeta) 67% das moradias possuem, o fato de terem transporte próprio – alguns com boa capacidade de carga - sinaliza uma autonomia com relação a investir em um projeto de turismo alternativo de base comunitária. A respeito de quem contribui para o sustento da casa verificou-se que a maior contribuição 83%, vem do casal, o filho ao casar não é um agregado da família, este constitui seu próprio lar. Dos 83% que sustentam a família, 67% são autônomos e o mesmo índice – 67% - trabalha na própria comunidade. O que sinaliza já haver uma base de relações sociais estabelecidas, com foco na extração e comercialização da madeira e pesca. Com a implantação do turismo, esta realidade poderá ser mudada Sobre a renda mensal dos moradores resultou que 56% recebem um salário mínimo, reforçando a importância do turismo para o desenvolvimento local. Foi questionado sobre quais famílias recebiam o beneficio do governo bolsa família e o resultado foi que 78% recebiam, a partir desta informação podemos entender que a política pública que deveria ser realizada pelo estado se resume em um elevado número de famílias que recebem o bolsa família, contribuindo para a permanência de um estado de falta de iniciativa da população. Visando uma perspectiva de hospitalidade, investigou-se sobre a quantidade de pessoas e o tamanho das casas. A média de moradores é de 4 e 5 pessoas e os cômodos fica na média (53%) de 3 cômodos, o número de cômodos ressalta a idéia de que são raras as casas que possuem mais de uma família, tornando-se assim mais fácil uma possível acomodação de turista na própria casa dos moradores oferecendo ao turista maior contato com o dia a dia do caboclo. Para entender a relação que os moradores têm com o meio em quem vivem, 100% dos entrevistados afirmaram gostar de morar no Catalão e sobre o que mais gostam, 59% alegou ser a tranqüilidade, 18% a falta da violência, 9% a possibilidade de pesca e plantio, 5% ser próximo a capital e família, e 4% ter água em abundancia, estes são pontos fortes que poderão ser potencializados na perspectiva do turismo na comunidade. E sobre o que não gostam, 54% apontou a falta de empregos e oportunidades como o maior fator negativo, é um ponto fraco que poderá ser minimizado a partir da implantação da atividade turística com enfoque participativo. E ao final foi perguntado o que na opinião deles poderia ser melhorado no Catalão, 63% acredita que poderia ser construído um centro comunitário que abrigasse um espaço para a produção de artesanato e visitação turística, gerando assim um meio de renda alternativo

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para os moradores, 21% vêm à necessidade de um posto de saúde e 16% aposta na melhoria da escola com melhores materiais, merenda escolar e professores. Observa-se que está claro para os moradores as suas necessidades básicas e a forma como suprir e que um dos caminhos para geração de renda está no turismo. Utilizando técnicas de observação pode-se perceber que o Catalão está inserido em um cenário tipicamente amazônico, cercado por paisagem natural e segundo os moradores, o local costuma receber visitação turística diariamente, mas estes não têm retorno financeiro destas visitas, pois geralmente são turistas hospedados em hotéis de selva em Iranduba e turistas que partem do Porto do Ceasa com guias particulares, que realizam passeios até o encontro das águas e apreciação das vitórias-régias, e os guias costumam estender a visita até o Catalão, mas essas visitas não são feitas de forma acordada com os moradores. Através da pesquisa conclui-se que a relação dos moradores em seu espaço vivido ultrapassa as linhas do abstrato, por conhecer de forma intima, eles se identificam com a paisagem dando possibilidade para agregar valor como um produto turístico. Além disso, eles têm consciência do seu potencial para o turismo e tem uma idéia de que forma este pode ser trabalhado – construção de um centro comunitário – mas faltam-lhes informações técnicas para atingir este objetivo. No primeiro momento, para sensibilização, foi exibido um vídeo produzido pelo Ministério do Turismo, com foco no Programa Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), desenvolvido na comunidade indígena mucuxi. Em seguida o moderador questionou: sobre o que fala o vídeo? E se é possível pensar em um projeto assim para o Catalão? As contribuições foram escritas na lousa e, entre as respostas se obteve: “eles estavam falando de turismo na comunidade indígena”. Em seguida, o moderador lançou a pergunta norteadora: É possível pensar um projeto assim para o Catalão? Todos responderam que sim, após este momento a sala foi dividia em quatro equipes e foi pedido que criassem um nome para cada equipe. Em seguida se abriu com uma pergunta: O que é Turismo? Após a socialização das respostas se explicou o conceito de atrativos. Abrindo-se para a pergunta seguinte: Quais atrativos existem na comunidade? Os resultados estão expressos no quadro abaixo. NOME DA EQUIPE

CONCEITO DE TURISMO

Quinteto fantástico e a surfista prateada

É a forma de mostrar nossa cultura, através da pesca e artesanato

ATRATIVOS IDENTIDIFICADOS Natureza e Frutas

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Tupinambá

É o conhecimento de outras culturas

A comunidade flutuante; encontro das águas; Pesca; Artesanato; Comida típica; Viveiro de Pirarucu; Plantação sob a água.

Tementes a Deus

Um local que tem atrativos e está organizado

Casas flutuantes; Criação de pirarucu; Crianças indo a escola de canoa.

As gostosas

É um meio de sobrevivência

Vitória Régia; Encontro das águas; Plantação sob as águas; Peixes; Flutuantes

Fonte: Dados obtidos com a oficina de enfoque participativo

Baseado nos resultados obtidos com a oficina se pode perceber que de uma forma empírica, o conhecimento sobre turismo dos comunitários não se difere muito do que se aprende na academia.

Foto: Jéssica Salgado.

Quanto aos atrativos, foram enumerados treze itens e destes, eleitos quatro prioritários. O primeiro artesanato, o segundo pesca, em seguida a gastronomia (comida) e por último o pomar flutuante. Apesar destes atrativos elencados, a comunidade em si já é um atrativo e para se consolidar como ponto turístico é necessário uma infra-estrutura básica e turística. Apesar de não haver conhecimento técnico, ao serem questionados como transformar a comunidade em um ponto turístico tipicamente amazônico, citam como primeira prioridade a organização do artesanato. Embora não tenham efetivamente a produção deste, entende-se que

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para eles, o artesanato seria um ponto de convergência entre o turista e um ponto de partida para as demais atividades. Paralelo à dinâmica com os adultos, foi realizada uma atividade com as crianças onde foi solicitado que desenhassem alguma coisa ou lugar que os turistas gostariam de ver na comunidade. As figuras mais freqüentes foram os peixes, o tracajá – espécie de tartaruga, em abundância na região – vitória régia (planta aquática) e os modelos de casa flutuante. Como o reproduzido na imagem abaixo, onde os corações desenhados sinalizam o sentimento das crianças com relação ao espaço vivido. Atrativos que poderão ser valorizados para potencializar o turismo no Lago do Catalão como alternativa econômica para o desenvolvimento local.

Foto: Jéssica Salgado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através do estudo, por meio da realização da oficina junto aos comunitários se verificou que talento e potencial existem. No entanto falta, para esta localidade, uma atuação efetiva dos órgãos públicos ligados ao turismo. Pela proximidade do Lago do Catalão ao limite do espaço urbano de Manaus, pensar um projeto turístico para esta localidade seria uma alternativa com foco no desenvolvimento local e valorização dos atrativos existentes. Outro fator relevante com o estudo foi identificar o potencial da metodologia de enfoque participativo com uso da técnica Metaplan. Método que, se levado ao “pé da letra”, aplicado

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com o tempo necessário para que a comunidade absorva a proposta e se sinta segura para expor suas demandas, torna-se sem dúvida uma ferramenta com poder de garantir a exposição de propostas, de fato, voltadas à realidade da comunidade. Contemplando desta forma práticas para a construção de uma proposta que garanta para o Amazonas um turismo em bases sustentáveis.

REFERÊNCIAS BENI, Mario Carlos. Turismo de base local: Identidade cultural e desenvolvimento regional / Giovanni Seabra (organizador) – João Pessoa: Editora UNIVERSITÁRIA / UFPB, 2007. BROSE, Markus. Fortalecendo a democracia e o Desenvolvimento local: 103 experiências inovadoras no meio rural gaucho / Markus Brose – Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2000 Globalização e desenvolvimento local sustentável. In: BUARQUE, S. C Metodologia de planejamento do desenvolvimento local e municipal sustentável. 2.ed. Recife: IICA, 1999. CORDIOLI, Sergio. Metodologia participativa: uma introdução a 29 instrumentos / Markus Brose (Org.) – Porto Alegre: Tomo Editorial, 2001, - 312p.

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