Dilemas de Mulheres Empreendedoras em Empresas Inovadoras Nascentes

October 31, 2016 | Author: Lara Filipe Borges | Category: N/A
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Dilemas de Mulheres Empreendedoras em Empresas Inovadoras Nascentes Autoria: Francis Berenger Machado

Resumo do Trabalho O presente trabalho busca avaliar situações e comportamentos vivenciados por mulheres empreendedoras à frente da gestão de empresas nascentes com características inovadoras. Relacionamento com o capital de risco, preconceitos, estilo de gestão, multiplicidade de papéis e equilíbrio entre trabalho e famíla são algumas das questões específicas vivenciadas por mulheres gestoras de seus próprios negócios. Este novo estudo buscou ampliar as questões relevantes sobre a singularidade feminina além de identificar novos dilemas enfrentados pelas empreendedoras mulheres em negócios inovadores nascentes.

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1 INTRODUÇÃO É cada vez mais relevante a participação da mulher empreendedora na economia brasileira. No mercado brasileiro de micro e pequena empresas, considerando-se os setores formal e informal, as mulheres empreendedoras já representam cerca de 50% do total. Segundo Jonathan (2003, p. 2), “Este dado atesta a importância do empreendedorismo feminino no Brasil e é de grande significância econômica e social, posto que tais empresas não só geram empregos como, também, promovem inovação e riqueza, abrindo o caminho para o desenvolvimento econômico sustentado”. Este trabalho avalia características e idiossincrasias da mulher empreendedora no Brasil a frente de empreendimentos nascentes com inovação. Partindo-se deste objetivo, foi realizada uma pesquisa bibliográfica e de campo onde buscou-se avaliar, no contexto brasileiro, alguns dos dilemas vivenciados por mulheres na gestão dos seus empreendimentos. Deve-se observar ainda que, no contexto brasileiro, estudos e pesquisas sobre mulheres empreendedoras ainda são iniciativas pontuais realizados por algumas universidades e institutos de pesquisa. A investigação sobre aspectos práticos e subjetivos da mulher empreendedora em muito contribui para o entendimento da singularidade feminina nesta frente profissional em contínuo crescimento. 2 DESAFIOS DOS EMPREENDIMENTOS BRASILEIROS EM EMPRESAS NASCENTES COM INOVAÇÃO A atividade empreendedora proporciona riqueza à economia, gera novos empregos e atende às diversas necessidades sociais. Segundo o relatório do GEM (2010), entre os 17 países membros do G20 que participam da pesquisa, o Brasil obteve com 17,5% a maior Taxa de Atividade Empreendedora em Estágio Inicial (Total Early-Stage Activity – TEA), superando China (14,4%), Argentina (14,2%), Austrália (7,8%) e Estados Unidos (7,6%). Este índice indica o percentual de pessoas entre 18 e 64 anos com empreendimentos de até 42 meses de existência, representando o dinamismo da criação de novos negócios pela população de um país. A partir da década de 1990, com a abertura da economia no Brasil, o empreendedorismo ganhou impulso e se popularizou. Desde então, o cenário vem mudando favoravelmente à atividade empreendedora, com apoio crescente do governo e da iniciativa privada. A atividade empreendedora brasileira vem registrando índices cada vez mais positivos no que diz respeito ao seu crescimento e grau de maturidade. Com todo este movimento, a opção pelo empreendedorismo tem sido bastante valorizada na sociedade brasileira. Há uma percepção altamente positiva das pessoas que decidem por criar seus próprios negócios, conferindo-lhes status e prestígio. Segundo pesquisas apresentadas no relatório do GEM 2010 e analisadas no Relatório Executivo do Empreendedorismo no Brasil pelo IBQP (2010, p. 99) “empreender é considerado uma boa opção de carreira por mais de 70% da população dos países impulsionados por fatores e pela eficiência”, o que inclui o Brasil. Os fatores motivacionais para se criar um novo negócio têm crescido nos últimos anos. Estima-se que o Brasil possua atualmente cerca de 33 mihões de pessoas desempenhando alguma atividade empreendedora. A estabilidade econômica consolidada ao longo da última década tem favorecido o crescimento das iniciativas empreendedoras com efeito relevante no empreendedorismo por oportunidade. A entrada em vigor da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, em 2007, e da Lei do Empreendedor Individual, em 2008, propiciaram um

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ambiente mais favorável impulsionando novos negócios. Em números absolutos, apenas a China possui mais empreendedores que o Brasil (IBPQ, 2010). Algumas pesquisas apontam uma tendência de redução na taxa de mortalidade das empresas nascentes brasileiras. Em pequisa realizada pelo SEBRAE (2010) para o estado de São Paulo, a taxa de mortalidade de empresas com 1 ano de vida reduziu de 35% (1998/99) para 27% (2007/08). Para empresas com 4 anos de vida, a taxa de mortalidade passou de 63% (1998/99) para 50% (2007/08). Estes indicadores são bastante animadores demostrando uma melhora na maturidade da atividade empreendedora no Brasil. O principal desafio do empreendedor consiste na capacidade de executar um plano de negócio com recursos escassos e limitados. Dentre as atitudes comportamentais que o empreendedor deve possuir estão o poder de liderança, foco, persistência e alta capacidade de execução. As trajetórias de empresas nascentes, também conhecidas como empresas startups, são bastantes similares independente do seu setor de atuação. Os primeiros anos de um novo empreendimento são os mais difíceis. A esta dificuldade inicial enfrentada pelo empreendedor, a literatura tem chamado de desvantagem da juventude, onde o desconhecimento de fatores ambientais somado a escassez de recursos representam grandes desafios à trajetória de sucesso do negócio (Mizumoto et al, 2010). Fatores como o capital humano do empreendedor, seu capital social e o tipo de prática de gestão adotada são muitas vezes decisivos na sobrevivência do negócio. As empresas menores e mais jovens têm, em geral, maiores riscos de fechamento do que empreendimentos maiores e já estabelecidos no mercado. É nessário que um empreendimento ultrapasse os quatro primeiros anos de existência para que alcance um mínimo de solidez. Com objetivo de melhorar o percentual de empresas que sobrevivam ao longo do tempo, políticas públicas de apoio a novos empreendimento são de grande importância para o fomento da atividade empreendedora sustentável. Atualmente, o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior é o orgão governamental responsável pela promoção, suporte e orientação aos empreendedores de todos os portes. Além disso, organizações como o SEBRAE e Endeavor, entre outras empresas, têm atuado como agentes de desenvolvimento provendo treinamento, consultoria, debates e orientações para criação e desenvolvimentos de negócios. Dentro do cenário de novos negócios, muitos empreendimentos nascentes têm características de inovação em seus produtos e serviços. É comum que empreendores por oportunidade sejam mais propensos a criação de negócios inovadores. A economia de uma nação e sua competitividade está relacionada diretamente com teor inovador das empresas de um país (Schumpeter, 1985). A inovação, além de proporcionar a resolução de problemas, possibilita atender necessidades e expectativas de clientes cada vez mais exigentes (Cajueiro & Sicsú, 2002). Neste sentido, entende-se como inovação todo o processo que envolve a transformação de conhecimento técnico e científico em novas formas de produção, uso e comercialização de produtos. A otimização de recursos de produção, criação de produtos/serviços diferenciados e redução de custos são objetivos permanentemente perseguidas pelas organizações que buscam novas idéias em um ambiente de melhoria contínua. Além disso, empresas inovadoras incorrem em riscos permanentes com alto investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) sem a garantia que o mercado aceitará o produto gerado. Apesar dos maiores riscos existentes neste tipo de negócio, empresas inovadoras criam, em geral, novos mercados possibilitando com isso maiores taxas de retorno sobre os investimentos realizados. Por estes motivos, este tipo de

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empreendimento é bastante atraente para investidores de diversos portes como investidoresanjo, fundos de capital semente (seed capital) ou capital de risco (venture capital). Não diferente dos demais tipos de negócio, os empreendimentos inovadores nascentes apresentam fragilidades estruturais e diversas dificuldades de desenvolvimento em sua fase inicial. O ciclo de desenvolvimento de protótipos e produtos finais para se chegar à etapa de comercialização e consequente geração de receita pode levar de três até cinco anos. Este período de tempo é, por muitas vezes, demasiadamente longo para a capacidade de sustentabilidade financeira dos empreendedores. Como consequência, muitos empreendedores acabam desviando do foco principal do seu negócio para dedicar-se a atividades paralelas que garantam sua sobrevivência no curto prazo. No pior caso mas com bastante frequência, as empresas acabam não conseguindo sobreviver às dificuldades e acabam por encerrar suas atividades. 2 O TETO de VIDRO DAS MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO A expressão “teto de vidro” surgiu na literatura da década de 1980, a partir de uma reportagem do The Wall Street Journal sobre mulheres executivas na organização. O termo indica as “barreiras invisíveis” que dificultam as mulheres na conquista de recompensas salariais justas e oportunidades iguais de desenvolvimento profissional equiparadas ao do gênero masculino. As barreiras construídas a partir de premissas e atitudes preconceituosas nas relações de trabalho dão origem ao “teto de vidro”. A partir de pesquisa realizada, Botelho et al. (2008) apresentam alguns fatores de discriminação de gênero no mercado de trabalho:  Diferença comportamental entre homens e mulheres, com aspectos desvantajosos para o gênero feminino;  Influências de fatores culturais e psicológicos, levando gestores a preferir contratar um homem a uma mulher, mesmo que ambos tenham produtividade idêntica;  Discriminação em grupos e colegas de trabalho – refletida em frases como “não aceito receber ordens de uma mulher”;  Estigma social, não comprovado estatisticamente, segundo o qual as mulheres são menos produtivas do que os homens;  Crença de que mulheres possuem compromissos marginais maiores do que os homens em atividades extra-mercado, como cuidar dos filhos pequenos, fazendo com que seus vínculos com as empresas sejam mais instáveis do que os dos homens. Por sua vez, Sanches e Gebrin (2003) apresentam duas situações como possíveis causas da diferença salarial:  Dificuldades de Inserção no Mercado de Trabalho: a mulher tem mais dificuldade do que o homem para arrumar emprego, ficando também longo período de tempo sem colocação, quando demitidas;  Vulnerabilidade na Inserção: as dificuldades que as mulheres encontram para entrar no mercado de trabalho, refletem na menor qualidade do emprego obtido. Para combater essa situação de desigualdade, um dos caminhos propostos é a negociação sindical. Nos acordos coletivos de trabalho deve-se objetivar obter garantias relativas à equidade de genêro. Em Observatório Social (2004, p.51) também é apresentada esta alternativa mostrando a importância da “negociação coletiva para melhorar as condições de trabalho para todos e criar mecanismos para impedir a discriminação”.

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A discriminação contra a mulher pode existir de três formas diferentes: direta, indireta e a auto-discriminação. A discriminação direta é baseada em regras e leis como a que impedia a mulher de votar no passado. Atualmente no Brasil, este tipo de discriminação é vetada pela Constituição. Já a discriminação indireta ou não-assumida é praticada no dia-a-dia por intermédio de estereótipos que concedem ao gênero uma maior ou menor habilidade para exercer determinadas funções. As mulheres são vistas como afetivas, calmas, frágeis e inconstantes, o que as impossibilita de realizar atividades incompatíveis com estas características. Pos sua vez, a auto-discriminação ocorre quando as próprias mulheres estabelecem limites para os seus espaços de atuação. Isto impede que determinadas posições sejam simplesmente consideradas nos planos de carreira para certas mulheres. Dentre as diversas formas, a maternidade é o principal fator de discriminação contra a mulher. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos indicam que mulheres empregadas recebem em média 5% menos por cada filho que possui, comparando-se com salários de outras mulheres sem filhos exercendo a mesma atividade (Ridgway & Correll, 2004). Apesar das leis brasileiras protegerem amplamente as gestantes, a possibilidade de engravidar e os cuidados com os filhos ainda são as razões que predominantemente geram atitudes discriminatórias. Neste sentido, para muitas empresas, a mulher só poderá se dedicar plenamente à sua atividade profissional se não tiver filhos ou se eles já forem adultos. Neste caso, ainda poderá haver um fator de rejeição devido a idade avançada. Apesar de todas as dificuldades, a inserção das mulheres no campo do trabalho e em cargos de gestão dentro das grandes empresas vem crescendo no mundo. Alguns dados recentes demonstram este incremento:  3% das empresas presentes na Fortune 500 são lideradas por mulheres (2009);  15% das empresas presentes na Fortune 500 possuem mulheres em cargo de alta gestão (2009);  6% das Top 100 na área de tecnologia são lideradas por mulheres (2010). Em uma outra frente, o preconceito social também encontra-se presente para as mulheres que assumem o papel de empreendedora. Embora o crescimento do percentual de mulheres que buscam a criação do seu próprio negócio como uma alternativa profissional já seja uma realidade significativa na nossa economia, existe pouco acesso ao crédito em instituições financeiras e dificuldades no relacionamento entre mulheres empreendedoras e os fundos de capital de risco. Estes são alguns exemplos dos desafios e obstáculos enfrentados atualmente pelas mulheres empreendedoras. No Brasil, empresas dos setores público e privado, organismos do governo e organizações da sociedade civil, como o Instituto Ethos e o Observatório Social, vêm discutindo estas questões e criando programas para que as organizações promovam a igualdade entre os sexos, reduzam a questão da violência contra a mulher e aumentem a autonomia da cidadã feminina. Neste sentido, alguns resultados positivos já estão sendo registrados. No campo da educação, a escolaridade das mulheres supera a dos homens e elas já são quase metade da população economicamente ativa. Enfatiza-se, portanto, que os objetivos atuais devem ser direcionados ao combate do preconceito e a ampliação das chances das mulheres no mercado de trabalho com equiparação salarial com os homens, oportunidades de assumirem cargos de direção nas organizações e acesso a crédito para alavancagem financeira dos seus negócios em condições de igualdade.

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Neste sentido, Botelho et al. (2008) apresentam algumas considerações sobre o comportamento das mulheres frente a situação de desigualdade: Porém ao abordar a questão das diferenças salariais se faz uma ressalva ao observar que, frequentemente, as mulheres não utilizam sua competência e suas realizações para pressionar por uma remuneração mais elevada. Embora seja possível se deparar com situações onde a mulher ainda é vista como “o sexo frágil”, ou seja, que devido a fatores culturais e sociais não lhe cabe certas tarefas, posturas e posições de destaque é de se admitir que à longo prazo é possível encontrar cada vez mais mulheres empreendedoras defendendo suas verdadeiras identidades, utilizando seus talentos especiais, comprometendo com a tarefa de criar mudanças positivas dentro das organizações e assim disputando cargos e lideranças em várias instituições da sociedade. 3 A MULHER NO PAPEL DE EMPREENDEDORA No contexto brasileiro, constata-se que as mulheres vêm tendo cada vez maior relevância e participação na atividade empreendedora. Em 2009, o relatório executivo do GEM Brasil indicou que pela primeira vez a proporção de mulheres empreendendo por oportunidade superava a proporção de homens na mesma condição (Machado, 2009). O GEM 2010 apresentou que, entre 21,1 milhões de empreendedores brasileiros, 49,3% foram do sexo feminino, representando 10,4 milhões de mulheres. O potencial do empreendedorismo feminino brasileiro é presente nos setores formal e informal da nossa economia. O maior nível de escolaridade em relação aos homens e as mudanças na estrutura familiar, com um menor número de filhos e novos valores relativos à inserção da mulher na sociedade brasileira, são alguns dos fatores que podem justificar esta participação feminina mais significativa na geração de riqueza do país. Nos últimos 30 anos, há uma progressão contínua das mulheres empreendedoras em posições de liderança. Com isso algumas características femininas nesta atividade têm se destacado como um melhor conhecimento do mercado, maior planejamento nos negócios e maior estabilidade à frente de suas empresas (IBQP, 2010). Neste sentido, o desenvolvimento da atividade empreededora das mulheres fortalece o caminho para a criação de um ambiente social propício ao desenvolvimento de empreendimentos com envolvimento de ações do governo, de entidades de fomento e organizações empresariais. As Gerações do Empreendedorismo Feminino O empreendedorismo feminino teve um grande impulso nos Estados Unidos na década de 1980. Antes desta época, o acesso à educação na área de gestão e a capital de investidores eram bem limitados. Esta primeira geração de empreendedoras era caracterizada por mulheres com uma formação mais liberal proveniente da área artística contudo sem preparo em áreas como finanças, marketing e operações. Com pouca experiência em negócios e capital restrito, a maioria dos empreendimentos foram de pequeno porte e baixo retorno financeiro. No final da década de 1980, uma segunda geração de mulheres avançou em áreas que eram de domínio exclusivamente masculino como os setores financeiros, de seguros, de construção e manufatura. Em geral, as mulheres atuavam mais em cargos de gestão de organizações do que a frente de um empreendimento próprio. Mesmo assim, estas mulheres já buscavam desenvolver negócios próprios com maior conhecimento de gestão e experiência de mercado visto que, em média, já possuiam de 10 a 12 anos de experiência no mercado (Moore & Buttner, 1997)

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Em 1998, a OECD (Organization for Economic Co-operation and Development) promoveu um seminário sobre mulheres empreendedoras onde discutiu-se a importâncias das mulheres à frente de pequenas empresas com destaque para três pontos no papel de empreendedora: a) econômico: gerando ocupações para elas e para outras pessoas; b) social: possibilitando o equilíbrio trabalho e família; e c) político: aumentando a sua autonomia. Diversas são as razões que levam as mulheres a empreender como uma opção profissional. Um dos motivos mais citados refere-se a barreiras encontradas nas organizações que impedem muitas vezes o crescimento e desenvolvimento na carreira das profissionais femininas. A partir desta situação, buscar um negócio próprio proporciona uma maneira de se obter satisfação no trabalho contornando as situações de discriminação do meio corporativo. Pesquisa realizada por Machado et ali (2003) ratifica este motivo e apresenta outros como busca pela realização pessoal em função de limitações da atividade anterior, visão de oportunidade de mercado e conhecimento do setor escolhido a partir de experiência anterior. A Autorealização da Mulher Empreendedora e com Multiplos Papéis A capacidade de atuar em diversos papéis simultanemanete é considerada uma característica do universo feminino. Apesar desta característica ser vista como algo positivo, também é considerada fonte de conflitos e desgastes. Pesquisas indicam que mesmo com as dificuldades em gerenciar diversas atividades e responsabilidades em paralelo, é possível destacar os efeitos positivos para a mulher na sua auto-estima, capacidade de realização e no bem-estar com a sua família. Segundo Jonathan (2005, p. 374), no contexto brasileiro “estudos sugerem que empreendedoras e executivas, respectivamente, atribuem igual importância à realização profissional, à maternidade, ao relacionamento afetivo estável com um par, bem como ao tempo dedicado a si mesmas”. A combinação de trabalho e maternagem tem gerado satisfação, sentimento de realização e bem-estar superior ao de mulheres que não trabalham. Em um pensamento feminino, o sucesso em uma dimensão da vida não significa fracassar em outras frentes. Especificamente para as mulheres que optam por ter seu próprio negócio, as dificuldades do empreender favorecem seu crescimento pessoal na medida em que os desafios que enfrentam fazem com que haja uma busca pelo desenvolvimento de competências necessárias para lidar com as novas situações que aparecem. De acordo com pesquisa realizada por Jonathan (2001), as empreendedoras brasileiras na cidade do Rio de Janeiro buscam alcançar um equilíbrio entre as necessidades vinculadas aos espaços profissional, familiar e pessoal. Contrário a idéia de que a multiplicidade de papéis fragmenta, o envolvimento e conciliação das atividade de teor público e privado enriquece as satisfações e desejos pessoais, qualidade de vida e o bem-estar subjetivo. Neste sentido, Jonathan (2005, p.375) apresenta algumas considerações sobre o sentimento de autorealização das mulheres empreendedoras: Em um estudo comparativo, donas de negócios próprios apresentaram maiores índices de satisfação do que executivas (Korn/Ferry, 2002). Ritmo de trabalho, quantidade mínima de interferência de terceiros e interesses pessoais satisfeitos são as principais fontes de satisfação diferenciada das empreendedoras, que se sentem muito comprometidas com seu trabalho. A maior satisfação das empreendedoras se deve ao ambiente do negócio próprio, que lhes proporciona reconhecimento por realizações e autoridade para fazer decisões de impacto, além de possibilitar o desenvolvimento de novas idéias e competências, e, em

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última análise, a atualização e realização de seus próprios valores e sonhos. Neste sentido, argumentamos que gostar intensamente daquilo que fazem, autonomia no trabalho e poder de decisão são aliados das empreendedoras no exercício dos múltiplos papéis, proporcionando-lhes um sentimento de autorealização. Portanto, evidencia-se que, para as mulheres empreendedoras, o sucesso advém do equilíbrio, mesmo que instável, das diversas demandas provenientes dos seus múltiplos papéis. A satisfação é proveniente muito mais da própria ação na busca por soluções do que pela própria resolução de problemas. A capacidade de adaptabilidade em resposta aos desafios constantes surgidos na atividade empreendedora faz com que as mulheres experimentem um processo de bem-estar contínuo (Jonathan, 2005). Outros fatores de satisfação identificados na atividade empreendedora feminina que podem ser destacados são: autonomia no trabalho, poder de decisão, poder criativo, afirmação dos próprios valores e identificação com a empresa. Mais do que é encontrado nas mulheres executivas, o empreendedorismo constitui um terreno favorável ao bem-estar subjetivo das mulheres (Korn/Ferry, 2002). Apesar destes fatores favoráveis para as mulheres, a atividade empreendedora também é considerada fonte de conflitos e desgastes como a insegurança econômica e o sentimento de grande responsabilidade para com aqueles que delas dependem. Mesmo assim, é observado que ao superar situações adversas, este movimento acaba sendo fonte de satisfação. O Teto de Vidro das Mulheres Empreendedoras O fenômeno do teto de vidro, conforme apresentado anteriormente, diz respeito às barreiras invisíveis enfrentadas por mulheres no mercado de trabalho. Estas dificuldades, existentes na nossa sociedade e cultura, não estão restritas ao papel da mulher como empregada de uma organização mas, também, quando decidem estabelecer seu próprio negócio e criar o seu modelo de equilíbrio família-trabalho. Apesar dos avanços na tecnologia, da intensificação da globalização e das mudanças ocorridas nos cenários político, social e econômico nas últimas duas décadas, ainda se faz presente uma forte influência da divisão do gênero no trabalho. Segundo Botelho et al. (2008, p.7) “essas barreiras podem ser traduzidas em estereótipos, preconceitos e discriminação que elas sofrem ao decidirem se dedicarem a suas empresas, mas podem também ser encontradas na dupla jornada de trabalho, nos conflitos entre seu trabalho e família e na segregação ocupacional por gênero”. Evidencia-se, então, que a opção pelo empreendedorimo também tem sido uma escolha profissional com dificuldades adicionais quando desejada por mulheres. Se por um lado há um grande reconhecimento da sociedade pelas pessoas que escolhem empreender, esta atividade ainda é considerada típica do gênero masculino. Dependendo do setor em que o negócio está inserido, o preconceito se faz mais forte, pois as mulheres ainda estão associadas profissionalmente a carreiras como professoras primárias, bibliotecárias, enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. Um paradoxo pode ser observado em empreedimentos com características de inovação, tecnologia e com base em conhecimento. Neste tipo de negócio, a estrutura organizacional mais apropriada tem como base um modelo menos hierarquizado, com comunicação mais informal e maior empoderamento das áreas, objetivando agilidade e dinamismo na construção coletiva do conhecimento. Apesar destes atributos serem associados ao estereótipo feminino, o caminho das mulheres empreendedoras parece em nada ser facilitados em busca desses

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objetivos. Um grande desafio feminino tem sido, portanto, “quebrar” estes tantos tetos de vidro também presentes para as empreendedoras. A partir deste crescimento, novas dificuldades têm aparecido frente aos desafios da profissional feminina. Em pesquisa realizada com empresas brasileiras de alta tecnologia conduzidas por mulheres, Jonathan (2003) apresenta algumas características que as desfavorecem no desenvolvimento dos seus próprios negócios:  Mulheres empreendedoras têm enfrentado dificuldades na captação de recursos de instituições financeiras e de investidores anjos. O difícil relacionamento entre o capital de risco e as mulheres é apontado em diversas pesquisas como a apresentada por Brush et al. (2001). Algumas das razões que justificam este distanciamento dos investidores é o interesse das mulheres por áreas pouco atrativas para ganhos acelerados, como comércio e serviços. Outra razão é dada por um perfil comportamental feminino em valorizar muito os relacionamentos interpessoais e por possuir uma atitude mais conservadora na gestão dos seus negócios;  Com relação à visão de sucesso de negócio, o crescimento apenas no sentido financeiro é insuficiente na visão que predomina entre mulheres. A auto-realização é um dos valores encontrados nas mulheres empreendedoras assim como o equilíbrio entre aspectos pessoais, familiares e profissionais;  O estilo de gestão feminino possui características singulares como estruturar suas empresas de maneira simples, horizontalizada e com muita descentralização. Além disso, mulheres tendem a exercer uma liderança interativa e cooperativa, valorizando a participação da equipe. 4 PESQUISA, RESULTADOS E ANÁLISE A pesquisa de campo quantitativa e qualitativa objetivou avaliar o grau de relevância de alguns dilemas vivenciados por mulheres empreendedoras em empresas nascentes com inovação. Buscou-se repostas para as seguintes perguntas:  Quais dilemas as mulheres empreendedoras vêm enfrentando na gestão dos seus negócios?  Quais dilemas são característicos das empreendedoras em negócios nascentes com inovação? A amostra da pesquisa foi realizada por conveniência delimitado-se um grupo com 14 empreendedoras de empresas consideradas nascentes, com até 3 anos de existência, e que tivessem alguma característica de inovação. A partir destes requisitos, foram selecionadas empresas que faziam parte do Programa PRIME (Primeira Empresa Inovadora) da FINEP e de empresas incubadas no Instituto Gênesis da PUC-Rio. Este critério de seleção foi considerado adequado pois em ambas situações as empresas deste universo têm características de inovação e até três anos de criação. Desta forma, foi possível garantir uma amostra intencional constituída por empreendimentos inovadores nascentes e liderados por mulheres. A coleta de dados das pesquisas ocorreu em dois encontros realizados na PUC-Rio no mês de fevereiro de 2011. Cada encontro contou com a participação de 7 mulheres empreendedoras. No encontro, cada participante respondeu a um questionário fechado e estruturado com 11 questões e participou de um debate, mediado pelo pesquisador, com aproximadamente 90 minutos de duração.

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Perfil das Empreendedoras Participantes A partir das respostas dos questionários aplicados às participantes, foi possível consolidar informações por intermédio de uma análise quantitativa identificando o perfil da amostra. A segui, algumas conclusões:  As empreendedoras atuavam em sete distintos setores de negócio: Joias e Acessórios (5), Saúde/Estética/Nutrição (3), Design (2), Audio e Video (1), Consultoria (1), Moda (1) e Serviços especializados (1);  50% das participantes tinhasm dois ou mais filhos;  86% tinham curso superior ou pós-graduação;  64% das participantes se dedicavam mais do que 30h/semana ao empreendimento;  86% tinham participação na sociedade do seu empreendimento acima de 30%. Com base no discurso das empreendedoras participantes foi realizada uma análise qualitativa de forma que os temas discutidos foram agrupados e estão apresentados a seguir. A fim de ilustrar os tópicos que emergiram na análise, algumas opiniões mais significativas e parte do discurso das participantes foram transcritos. Nestes casos, a empreendedora é referenciada anonimamente com indicação do setor da sua empresa, número de filhos e se pertence ao grupo de empresas do PRIME ou de empresas incubadas no Instituto Gênesis. Sobre Dificuldades das Mulheres em Iniciar e Conduzir um Empreendimento As participantes afirmam que mulheres são respeitadas e admiradas socialmente pela opção de empreender, principalmente por outras mulheres. No entanto, essa admiração se estabelece a partir do momento em que o negócio se torna mais sólido. Durante a fase inicial do empreendimento, há um grande ceticismo com relação ao comprometimento e objetivo que a mulher tem com seu próprio negócio. Esta postura com relação às empreendedoras, pode se revestir de uma atitude desqualificadora, como ilustrado a seguir: “As pessoas encaram os negócios iniciados pelas mulheres, independente da inovação que elas carregam, como sendo uma coisa qualquer que elas podem fazer, como um luxo, não é o caso, o perfil mudou, tem muita gente séria, homem ou mulher” (E1, jóias e acessórios, 2 filhos, PRIME). Já E7 (jóias e acessórios, sem filhos, PRIME) acha que dificilmente a mulher “brinca quando abre um negócio”, e que mesmo havendo uma cobrança social menor com relação ao sucesso do negócio, as mulheres não estão lidando com seus negócios como um passatempo. Por sua vez, E1 (jóias e acessórios, 2 filhos, PRIME) sugere haver um sentimento de inferiorização das pessoas quanto ao tipo de negócio que uma mulher pode optar. Além disso, no grupo foram citadas a existência de barreiras em negócios vistos, inicialmente, como masculinos, como depõe uma das participantes: “Para mulher, eu acho que tem mais dificuldade, as portas se abrem lentamente, eu tenho sentido esta dificuldade, mesmo com minha formação como engenheira e desenvolvendo um produto com inovação tecnológica,... tenho que lidar com uma parte hidráulica, tubulações... mas eu sinto que quando eu vou às compras pra comprar estes detalhes, estas conexões, eu sinto que eles dão uma caçoada.” (E2,saúde, 2 filhos, PRIME). De maneira complementar, E3 (moda, 1 filho, PRIME) afirma que mesmo na área de moda ela ficou muito preocupada em ter seu negócio encarado com a seriedade devida e não apenas como uma brincadeira “de menina que gosta de moda”. Disse que ter um homem como sócio acabou ajudando-a no sentido de dar mais credibilidade ao seu empreendimento. Afirma que 10

sente mais segurança quando o sócio apresenta a empresa do que quando ela o faz. Destaca que quando busca algum apoio institucional de empresas e parceiros, na cultura vigente, o papel do homem como sócio acaba passando seriedade e confiança. Por outro lado, algumas participantes apontaram haver uma falta de respeito com relação a como mulheres são tratadas por empresas de serviços e instituições financeiras como, por exemplo, bancos. Muitos prazos de entregas de serviços não são cumpridos sem nenhum tipo de satisfação parecendo haver um desrespeito maior quando a mulher empreendedora é a cliente, como citado por uma das participantes: “Meu pai tinha uma empresa e eu trabalhei muitos anos com meus pais e quando meu pai estava a frente de qualquer negociação de prazo era resolvido. Quando cabia a mim eu não resolvia. O tempo passou e eu venho tendo esse problema.” (E4, estética, 3 filhos, PRIME). A questão é reforçada por E5 (consultoria, sem filhos, PRIME) que diz que, por se sentir desrepeitada com gerentes de banco, teve que adotar um perfil de comportamento diferente para se adaptar às situações do dia-a-dia da empresa: “[sendo] mulher, 1,53m e cara de 18 anos, eu comecei carinhosa, gentil, falando numa boa e fui aprendendo a engrossar a minha voz. Você não quer nem agir daquela forma mas é a questão da sobrevivência.” Finalizando, E8 (áudio, sem filhos, PRIME) diz ter no mesmo banco contas para pessoas física e jurídica. Comenta ser mal atendida quando trata de assuntos relativos à sua empresa, já tendo até trocado três vezes de gerente, diferentemente do atendimento que recebe quando é relativo a sua conta pessoal. Acha que pode haver algum tipo de tratamento diferenciado para pior. “Não é que a pessoa não vai te levar a sério, é meio sutil mas ela te dá uma olhadinha e solta algumas coisinhas [sobre alguns comentários do gerente de banco]...” Preconceito Familiar em Relação à Opção pelo Empreendedorismo Uma das questões debatidas nos encontros refere-se a quanto as famílias, sejam representadas por pais ou marido, apoiam a mulher quando ela opta pelo caminho profissional do empreendedorismo. Esta questão dividiu as opiniões, como pode ser visto nos depoimentos a seguir. E3 (moda, 1 filho, PRIME) informa que seu pai foi funcionário do Banco do Brasil e a família sempre desejou que ela fizesse concurso público. Sua opção por seguir a carreira de moda foi vista com reticência. Atualmente, apesar de já ter uma carreira bem sucedida como empreendedora, ainda passa por crítica familiar. Ela ainda afirma que a família achava que a opção por ter seu próprio negócio seria um fator impeditivo para ter tempo suficiente para seus cuidados pessoais ou se dedicar devidamente à maternagem Por sua vez, E6 (design, 2 filhos, PRIME), casada há 26 anos, informou que quando decidiu sair da condição de funcionária da empresa para ser empreendedora, não recebeu apoio do marido. Ilustra isso, ao dizer “meu marido falou pra mim: você tá maluca? Você tem um potencial enorme, o que você vai fazer?”. A questão fica evidente também na fala de E8 (áudio, sem filhos, PRIME) que conta, quando decidiu largar um emprego de consultora de negócios para ser empreendedora na área musical, passou por “um descrédito de parte da família e dos amigos”. Por outro lado, para evitar a adversidade familiar, a empreendedora pode não revelar sua condição à família , como evidencia E9 (serviços especializados, sem filhos, Instituto Gênesis)

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que vive um momento de transição, uma vez que atualmente trabalha em uma empresa multinacional, porém já tem uma empresa em operação constituída com um sócio. Diz que ainda não comunicou claramente para sua família o seu real plano pois há um entendimento comum de que empreender é uma atividade de alto risco, sem garantia de estabilidade. De maneira semelhante, E5 (consultoria, sem filhos, PRIME) esclarece que vem de uma familia onde os pais eram ex-funcionários de uma empresa pública, tendo sempre recebido orientação para tentar passar em concursos públicos. Contudo, ainda como estagiária, decidiu se desligar de uma multinacional para ser empreendedora com negócios na área social. Ela revela o preconceito familiar, relatando um episódio com seu irmão “Ele olhou assim para mim e perguntou quando que eu iria começar trabalhar de verdade. Olha, aquilo me corroeu por dentro”. Acrescenta, ainda que inicialmente, seus pais não levaram muito a sério a opção e somente após ela ter percorrido algumas etapas com trabalho em ONG e criando seu próprio negócio, é que ganhou credibilidade e respeito profissional da sua família. Ao contrário dos depoimentos anteriores, E7 (jóias e acessórios, sem filhos, PRIME) tem uma opinião um pouco distinta, achando que este preconceito está mais relacionadas à área de atuação. Na sua área, acha que sempre teve incentivos da família e colegas. Preconceito de Instituições Financeiras face a Mulheres Empreendedoras As participantes da amostra ainda não passaram pela experiência de captar crédito no mercado finaceiro. Nenhuma empresa tinha recebido aporte financeiro de qualquer tipo de investidor até o momento da pesquisa. As empreendedoras não se mostraram preocupadas com possíveis dificuldades ou preconceitos que possam existir na busca por recursos financeiros. Nenhuma participante entende que o investidor enxerga a mulher empreendedora como uma aposta de risco maior. Porém, algumas observações no debate apontaram para uma percepção da mulher como sendo mais cautelosa, não se colocando em zona de risco, diferentemente do homem visto como mais ousado. Desse modo, E4 (estética, 3 filhos, PRIME) afirma que nunca teve problemas na captação de recursos de orgãos públicos que fomentam pesquisa como CNPQ e FAPERJ, porém ainda não teve a experiência de buscar outros tipos de recursos financeiros para a sua empresa. No entanto, E8 (áudio, sem filhos, PRIME) está no momento em negociação com um investidor e percebe que ao longo da negociação o investido subestima sua capacidade de conhecimento na área financeira, levando-a a afirmar “Eu sinto um pouco essa questão, um certo olhar, arrogância, dizendo ‘você não tem experiência suficiente, como você sabe essas coisas de planilha?” Já E10 (jóias e acessórios, dois filhos, Instituto Gênesis) parece se fortalecer face a um possível preconceito das instituições finaceiras ao dizer que a mulher tem aprendido com o tempo e, com isso, vem ganhando mais confiança para se relacionar melhor com o mercado financeiro. Significado do Crescimento do Negócio e o Perfil de Risco Feminino Houve uma predominância de opiniões das participantes de que mulheres aceitam crescer com maior cautela, mesmo que desta forma signifique crescer a uma taxa menor. Neste sentido, parece haver uma diferença entre os gêneros, percebida pelas próprias empreendedoras, na qual em homens prevalece uma visão de crescimento mais rápido mesmo que para isso signifique arriscar mais. É o que pode ser observado nos depoimentos a seguir:

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E8 (áudio, sem filhos, PRIME) diz: “eu acho que sou mais cautelosa, eu acho que o homem ele é mais agressivo na hora de fazer a empresa, de montar uma estrutura mas ao mesmo tempo eu acho ele pouco menos inovador... a mulher é mais resistente”. E5 (consultoria, sem filhos, PRIME) também concorda que o homem é mais agressivo, objetivo, impulsivo e pragmático. Entende que a mulher planeja melhor tentando enxergar o todo e, por isso, caminha mais devagar. E11 (jóias e acessórios, dois filhos, PRIME) afirma: “O homem se arrisca mais”. “Eu acho que você tem um período de tempo que você começa o seu negócio e você mesma está acreditando para saber se aquele é o seu negócio... se aquele negócio é pra você, enfim, são vários fatores que você mesma está averiguando... naquele momento você vai devagar e sempre... você tem que identificar os seus projetos e saber quais são os riscos, infelizmente você vai ter riscos mais altos, riscos menos altos, você escolhe o projeto que te dê o risco e conforto, saúde e qualidade de vida.” E1 (jóias e acessórios, 2 filhos, PRIME). Observou-se, ainda, que foi também consensual a opinião de que investidores, visando retornos maiores, buscam empreendedores com maior propensão à riscos para buscar retornos maiores e com uma dedicação quase que total aos seus negócios. Algumas participantes disseram que, em caso de necessidade de investimento de capital de risco, buscariam outro tipo de investidor, alguém com uma expectativa menos agressiva de retorno em curto prazo. Os Múltiplos Papéis da Mulher A capacidade de a mulher assumir múltiplos papéis simultaneamente é ratificada pela quase totalidade do grupo pesquisado. Este comportamento já não surpreende os homens que já enxergam esta característica como algo natural. Dentre os papéis exercidos pelas mulheres, o espaço da família sempre é preservado, como ilustrado a seguir: “A melhor característica da mulher para mim é conseguir administrar muitas coisas ao mesmo tempo, os filhos, a casa, o seu trabalho... E no nosso caso, da mulher, eu acho que a gente vai ter uma barreira para transpor, mas a gente nunca quer deixar de lado a nossa família, mas isso tudo tem sido vencido.” (E6, design, 2 filhos, PRIME). A Expectativa Feminina sobre a sua Qualidade de Vida Há uma discordância sobre se o empreendedorismo proporciona uma melhor qualidade de vida à empreendedora. Há opiniões de que em um empreendimento próprio se trabalha muito mais intensamente. Neste sentido, E9 (serviços especializados, sem filhos, Instituto Gênesis) comenta sobre o valor dado pela mulher à sua qualidade de vida e o quanto ela se questiona quando não consegue ter o mínimo que considera razoável: “a mulher não se aliena disso, a mulher se culpa, reflete isso mais do que o homem... a mulher quer ter um papel com o filho, quer ter um papel com o trabalho e eu não sei se ela escolhe empreender para ter qualidade de vida... a mulher o tempo inteiro se questiona” E3 (moda, 1 filho, PRIME) ratifica esta opinião: “O homem é mais qualidade e menos quantidade e a mulher quer qualidade e quantidade... Acho que essa coisa de ter um excelente resultado financeiro para o homem é mais importante, [para mulher] tendo um bom resultado financeiro e uma boa qualidade de vida ela fica mais feliz. No caso dela ganhar muito dinheiro, esse ano vendi pra caramba, mas não passei muito tempo com a minha família, estou um lixo, não me cuidei ... A mulher se acaba mas ela não vai fazer isso.”

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Os resultados indicam, também que o papel de empreendedora traz alguns problemas adicionais no que diz respeito ao relacionamento familiar. Alguns fatores citados são: empreendimentos estabelecidos dentro da própria residência, muito trabalho levado para casa e alto nível de preocupação e obrigações de um negócio que é de sua responsabilidade. A contradição em relação à questão se evidencia na medida E12 (jóias e acessórios, dois filhos, PRIME) acha que a opção profissional pelo empreendedorismo é mais determinada por características do perfil do sujeito do que pela busca de qualidade de vida. E8 (áudio, sem filhos, PRIME) afirma se sentir mais feliz atualmente do que na época em que trabalhava em uma multinacional, sem achar contudo que possui uma melhor qualidade de vida. Por sua vez, E5 (consultoria, sem filhos, PRIME) acha que a opção por acelerar o crescimento da empresa em prejuízo a qualidade de vida relaciona-se com fatores como a idade da empreenededora e a questão da maternidade. Caso ela tivesse filhos, não abriria mão da sua qualidade de vida. Esta é uma colocação com a qual E9 (serviços especializados, sem filhos, Instituto Gênesis) também concorda. Por fim, E7 (jóias e acessórios, sem filhos, PRIME) também acredita que a mulher valoriza sempre qualidade de vida e as relações familiares, afirmando: “eu não quero que a empresa me atropele, eu não quero que ela cresça a ponto daquilo me sugar de uma forma que eu não tenha qualidade de vida”. 5 CONCLUSÃO Este estudo teve como objetivo investigar os atuais dilemas que mulheres empreendedoras vêm enfrentando na condução dos seus negócios e, em especial, os dilemas vivenciados por empreendedoras em negócios nascentes com inovação. Na pesquisa realizada, buscou-se identificar situações e comportamentos específicos dentro deste universo. A análise dos resultados identificou uma situação de especial dificuldade para as mulheres que decidem abrir seus próprios negócios. Parece haver um preconceito que rotula determinados negócios como sendo de características femininas. Em geral, estes negócios estão associados a modelos de rentabilidade limitada e baixo nível de maturidade de gestão. Como tais características não se aplicam a negócios inovadores, há indícios de que o preconceito se transveste em um descrédito em empreendimentos deste tipo liderados por mulheres. Esta barreira é agravada com o estigma social de que a produtividade feminina é inferior a dos homens (Botelho et al, 2008). Parece que a admiração à iniciativa feminina só surge quando o negócio atinge fases mais sólidas. Neste sentido, poder-se-ia perguntar se o apoio familiar, que também parece se manifestar tardiamente, não seria mais importante na fase inicial da empresa onde as dificuldades são maiores e os riscos mais críticos. Uma característica bem destacada do perfil feminino de empreender relaciona-se à capacidade da mulher exercer múltiplos papéis, a partir de uma orientação direcionada a sua autorealização e qualidade de vida. Avaliando a importância que as mulheres atribuem à realização profissional concorrentemente a outros papéis, como de mãe, esposa e com espaço para cuidar de si (Jonathan, 2005), a pesquisa corrobora este comportamento na busca por este equilíbrio. Um outro ponto relevante diz respeito à percepção que as próprias empreendedoras têm acerca de uma diferença entre gêneros no que diz respeito aos objetivos para o crescimento dos seus empreendimentos. A gestão masculina é orientada predominantemente a uma estratégia de

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crescimento rápido com foco exclusivo em resultados financeiros. O entendimento de crescimento para mulheres considera outros fatores como relacionamento social e clima organizacional. É importante ressaltar também que há entre as empreendedoras um consenso de que homens são mais agressivos no estilo de conduzir seus negócios do que mulheres, sendo esta diferença justificada em função das mulheres se preocuparem com seus outros papéis. Tal preocupação se evidencia, na medida em que, mesmo em empreendedoras de perfil mais agressivo, é possível observar que elas conseguem encontrar tempo para cuidados pessoais e com a família. Em geral, as mulheres empreendedoras parecem preservar a qualidade de suas vidas em harmonia com a atividade empreendedora. A opção por empreender não significa garantia de ter uma qualidade de vida melhor se comparada à condição de assalariada. Se, por um lado, as empreendedoras se beneficiam da possibilidade de melhor gerenciar os seus compromissos, de outro, precisam frequentemente investir muito mais horas diárias do que quando eram empregadas, sendo esta uma condição que se agrava nas empresas nascentes. Segundo Jonathan (2003), uma das características femininas que desfavorecem seus empreendimentos é o seu relacionamento com o capital de risco. Os resultados sugerem que, na ótica das empreendedoras, os investidores, ao avaliarem os empreendimentos visando neles investir, dão preferência ao estilo masculino de apresentar os negócios, estilo esse que privilegia os assuntos financeiros. Um dilema surgido na pesquisa de campo e não presente explicitamente na pesquisa bibliográfica realizada, refere-se ao ceticismo da família em relação às mulheres que decidem optar por abrir seu próprio negócio. Como anteriormente sinalizado, isso resulta em uma falta de apoio de pais e filhos que muitas vezes é necessário e importante ao sucesso do empreendimento. Este dilema específico pode ser objeto de novas pesquisas, de modo a possibilitar uma investigação mais detalhada. Com isso, será possível avaliar se esta situação pode de fato ser considerada como mais um “teto de vidro” a ser enfrentado pelas mulheres empreendedoras. Por fim, a análise final dos resultados desta pequisa ratifica que características das mulheres empreendedoras, seus dilemas e barreiras existentes também se fazem presentes nos empreedimentos femininos inovadores nascentes. É importante destacar que a amostra por conveniência apresenta limitações que recomendam que novas pesquisas sejam realizadas. A importância cada vez maior das mulheres na economia brasileira torna relevante e necessária uma preocupação acadêmica maior em pesquisas com foco no empreendedorismo feminino. Neste sentido, buscou-se com este trabalho apresentar mais um olhar sobre as mulheres empreendedoras e seus desafios. 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Botelho, L. et al. Um olhar através do teto de vidro: relatos das mulheres empreendedoras de empresas baseadas no conhecimento sobre os primeiros anos de seus negócios. XIX Congreso Latinoamericano Y Del Caribe Sobre El Espirito Empresarial. Florianópolis – SC, 2008. Brush, C. G., Carter, N. M., Greeene, P. G., Hart, M. M. e Gatewood, E. J. (2000) Women and equity capital: An exploration of factors affecting capital access. Disponível em: http://www.babson.edu/entrep/fer/XI/XIA/XIA.htm. Acessado em 21 de junho de 2011.

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