Amendoeira: sua história e influencia cultural

March 8, 2017 | Author: Luciano Canto Ventura | Category: N/A
Share Embed Donate


Short Description

1 Amendoeira: sua história e influencia cultural por Adriano Vasco Rodrigues * A amendoeira é uma á...

Description

Amendoeira: sua história e influencia cultural por Adriano Vasco Rodrigues *

A amendoeira é uma árvore oriunda do Cáucaso. Acompanhou, ao longo dos milénios, na sua progressão migratória, do Médio Oriente para o Ocidente Ibérico, o homem, que deixou de ser recolector, para se tornar agricultor e sedentário, esta marcha da expansão e distribuição da amendoeira fez-se de acordo com as características climáticas mais favoráveis, potencializadas na Bacia do Mediterrâneo. Por vezes, em regiões aparentemente hostis, progride maravilhosamente, favorecida pelos microclimas de tipo mediterrâneo, que persistem no interior, como acontece na nossa região do Alto Douro e Trás-os-Montes. Na Antiga Grécia e, particularmente, na Ática, encontrou uma das áreas mais propícias para a sua reprodução expandindo-se pelas colónias gregas e, tão intensamente, que ali se tornou espontânea. Os navegadores gregos espalharam-na pelas ilhas do mediterrâneo, pela Magna Grécia e Península Itálica, pelo sul da França, distribuindo-se em seguida pelos territórios que, em nossos dias, são Espanha e Portugal. Mas, não parou aqui. Bordejou o mar Mediterrâneo e floresceu no norte de África. Ainda hoje pesa na economia Marroquina. No período clássico, grandes escritores gregos a tornaram como fonte de inspiração, pelo que se perpétua nas obras de Teofrasto e Dioscórides, onde apareceu com o nome de amygdalás, palavra grega depois traduzida para o latim, amygdalus, a qual viria a entrar como referência formal na Anatomia Humana, gerando a nomenclatura “amígdala”. Os Sírios chamaram-lhe Ah-mygdalá com o significado de árvore formosa. A sua cultura intensificou-se a tal ponto na Lídia, que deu lugar à Mygdónia, a terra das amendoeiras (situa-se na Ásia Menor). Quando, mais tarde, os árabes, na sua rápida expansão para Ocidente, atingiram esse território, apelidaram-na de Al-Mendála. Romanos, Visigodos, Muçulmanos, cultivaram-na na Península Hispânica e transmitiram-na com a Reconquista Cristã, aos Leoneses, Castelhanos, Aragoneses, mais tarde conhecidos com o nome de Espanhóis. Consideraram-na uma árvore tão viril que lhe deram um nome masculino, almendro, ao contrário dos portugueses, que, seduzidos pela cor branca florida, ou rosada, a compararam à delicadeza feminina, chamando-lhe amendoeira.

Para os Espanhóis, a resistência da sua madeira, comparável à masculinidade robusta, deu lugar a um vigoroso provérbio: Al almendro y al villano, palo en mano… Que explicam assim: - De las personas ruines solo se saca partido tratandolas con energia, asi como se saca fruto del almendro vareándolo. A formosura da amendoeira, para os portugueses, é símbolo de amor e, por isso, entrou no cancioneiro popular, com ritmo suave e animador das causas: A flor da amendoeira É a primeira do ano, Também tu, minha menina, És a primeira que eu amo! Tal como outrora na Lídia, a intensificação da cultura da amendoeira em Espanha e Portugal e regiões do Mediterrâneo, deu nascimento a aldeias, vilas e cidades. Assim, lembramos em Espanha, a vila de Almendral, no distrito de Badajoz, perto da Olivença Portuguesa, sob domínio espanhol. Há outra vila chamada Almendral mas situa-se na região de Toledo e ainda uma aldeia, Almendral, no município de Zafarraya, em Granada. A raiz do vocábulo “almendro” proliferou, dando, em Espanha, outros topónimos: Almendralejo, cidade da província de Cáceres, fundada em 1284, por lavradores vindos de Mérida, que era, no tempo dos romanos, a capital da Lusitânia. Perto de Burgos cresceu a vila de Almendres e, no distrito de Múrcia, o aldeamento de Almendricos, que lembra os nossos amendruques, amêndoas verdes, de casca tenra. Em Portugal, contam-se pelo menos, uma dúzia de povoações nascidas da cultura da amendoeira. Vamos enumerá-las: Almendra, no concelho de Vila Nova de Fozcoa. Conserva o topónimo herdado do Português arcaico, por assimilação da palavra árabe. Outras povoações mostram nomenclatura do Português mais evoluído. Amêndoa, aldeamento de Mação; Amendoais, em Tunes próximo de Silves; Amendoal, na Guia, concelho de Albufeira; Amendoeira, em Trás-os-Montes, no concelho de Macedo de Cavaleiros. Este topónimo repete-se em três povoações do Algarve: no Azinhal, concelho de Castro Marim; em Colos – Odemira e associado a Amendoeira

do Campo, Alcaria Ruiva, Mértola, Amendoeira da Serra, também em Mértola e, no plural, Amendoeiras, em Alcaria Ruiva, igualmente no concelho de Mértola. Curiosamente, também o cultivo da amêndoa amarga deu nascimento a uma povoação, no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, que é Vilar de Amargo, perto de Almendra. Porquê, Vilar de Amargo? E não Vilar de Amarga? A região de Riba Côa, na Idade Média, antes da integração no território português, pelo tratado de Alcanises, recebeu influências linguísticas castelhanas-leonesas. Amendoeira Amarga, em castelhano diz-se Almendro Amargo. Vilar de Almendro Amargo resultou, em Vilar de Amargo, que persiste, não já como vilar, isto é pequena quinta rural com habitação permanente, mas numa povoação com importância, no referido concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Falamos das amendoeiras amargas. Convém referir que há espécies do género Amygdalos Lineus. Esta é a amarga. Seria muito interessante mas concerteza muito maçador e fastidioso, caracterizar cientificamente várias espécies, e descrevê-las nos mais ínfimos pormenores. Os primeiros estudos científicos feitos com base em análises químicas sobre a amêndoa, devem-se ao cientista alemão König, nos começos do séc. XX. As variedades mais tradicionais são: amêndoas doces (amygdalae dulces); amêndoas amargas ( amygdalae amarae); amêndoas molares ( amygdalae fragilis) e amêndoas anãs, a nana de lineus. A partir das diferentes variedades, o homem criou espécies híbridas, procurando adaptá-las aos terrenos e aos climas. Uma particularidade interessante da amendoeira é a da floração que aparece antes das folhas, com gemas especiais. O clima é uma condicionante do seu cultivo e daí, a distribuição irregular, por exemplo, no concelho da Meda. Reparte-se por zonas de transição, rareando nas terras altas. A amendoeira prefere o clima mediterrâneo, embora seja muito resistente a temperaturas baixas. Porém a floração não resiste ao frio, que impede a produção frutifica. A amêndoa gela a zero graus (0ºC). A cultura das amendoeiras evoluiu muito a partir da segunda metade do séc. XX, principalmente desde que os Americanos introduziram as plantações na Califórnia. Não é nosso objectivo desta tratar dos aspectos científicos e técnicos da cultura da amendoeira, mas sim o seu reflexo na etnografia e tradições locais. A título de curiosidade, notamos para o interesse que os velhos manuais e as velhas técnicas agrícolas do cultivo desta árvore poderão oferecer aos actuais produtores, até como base comparativa.

A título de exemplo, lembramos o que os antigos faziam para lutar contra o frio que atacava os amendoais. Hoje recorre-se a aparelhagens apropriadas como, por exemplo, as estufas a gás, muito usadas na Califórnia, para provocarem aquecimento evitando a perda de produção. Dantes, os agricultores recorriam a nuvens artificiais para alterar a temperatura. Colocavam no terreno do amendoal, braçadas de palha, mato, giestas, rosmaninho, restolho, tudo empapado em alcatrão e, durante a madrugada, no momento mais frio, lançavam-lhe o fogo, evitando ateá-lo às arvores. Criavam assim, uma densa nuvem de fumo, evitando o congelamento e dando tempo a que o sol, com os seus raios, viesse a actuar sobre as árvores. Desde a mais remota antiguidade, a amendoeira, influenciou o homem e deu lugar a tradições. Os judeus apreciavam-na muito. Aarão, que foi o primeiro dos grandes sacerdotes hebreus, irmão de Moisés e de Miriam, tinha como todos os pastores e homens livres, um cajado, ou bastão. Curiosamente era um pau de amendoeira. Aarão homem pacífico e conciliador, intervinha nos conflitos dos judeus, acalmando-os e harmonizando-os. Aconteceu, certa vez, ao cair da noite e ao abrigar-se na tenda, fincar, no chão, à entrada, o seu cajado. No espaço apenas de uma noite, este cobriu-se de flores de amendoeira, produzindo uma amêndoa. O resplendor desse prodígio deu origem à amêndoa mística, que entrou na teologia cristã, representando uma enorme aureola em forma de amêndoa. Passou a envolver a imagem da Virgem Maria. Artistas, pintores e escultores, dos mais diversos períodos da história da arte cristã, cultivaram esta motivação, tendo-se distinguido na escola de Florença, durante o Renascimento, Mestre Lázaro, como um dos melhores artistas que trataram o tema da amêndoa mística, de que se fizeram inúmeras reproduções. Não só na liturgia a amêndoa é apreciada como também na alimentação, na Medicina, e nos cuidados com a beleza, tema para os especialistas tratarem. Lembramos o interesse que as amêndoas doces da Torre de Moncorvo têm na História e economia daquele concelho. Historicamente, a sua produção artesanal remonta ao tempo em que os Judeus ali mantinham uma importante comunidade. A tradição continuou quando se converteram em Cristãos novos. As amêndoas cobertas são preparadas numa ampla bandeja de cobre, com bordos, recebendo calor brando que derrete o açúcar com que se cobrem. Antes da divulgação do açúcar recorriam ao mel. Em Jerusalém, mantém-se esta prática, utilizando bandejas análogas às da Torre de Moncorvo.

Recordamos as partidelas de amêndoa, feitas ao serão, em Longroiva, trabalho de inter ajuda, que privilegiava a solidariedade, reforçava a amizade e permitia o convívio entre jovens e idosos. Cantava-se, ouviam-se adivinhas, havia abraços como castigo ou como prémio e criavam-se novos compadres e novas comadres. Normalmente, a partidela da amêndoa decorria numa loja no rés do chão da casa, iluminada com gasómetros. As pessoas sentavam-se nos toldes da apanha, ou em pequenas bancos redondos fazendo roda, tendo à sua frente bases de pedra tosca, sobre a qual apoiavam a amêndoa para partir. Para martelar, tudo servia desde que fosse de ferro e se ajeitasse à mão. Até as velhas e pesadas chaves antigas e os guilhos de abrir lenha. Em Felgar, Torre de Moncorvo, eram mais cuidadosos recorrendo aos ferreiros, que aplicavam um tubo de ferro num pequeno cabo de madeira, usado como cabeça de martelo ( o partidor). O endocarpo da amêndoa contém uma semente, a amêndoa propriamente dita. Raramente aparecem duas no mesmo endocarpo. Quando, durante o serão da partidela, alguma ou alguns dos participantes encontrava duas sementes encaixadas uma na outra em plano convexo, comia uma e dava a outra a pessoa do seu agrado. Ao mesmo tempo, enganchavam os dedos mindinhos e exclamavam: - No raminho de bem querer, compadres até morrer. E passavam a tratar-se de compadres. No último dia da partidela havia dança e os donos da casa ofereciam guloseimas, acompanhadas de vinho fino. As famílias mais pobres varejavam e apanhavam a amêndoa, recorrendo à inter ajuda dos amigos. Ao longo do ano, esta árvore não dava cuidados, adaptava-se a todo o terreno, mesmo em locais pedregosos mais desconfortáveis. Só recusava os terrenos argilosos húmidos. Há muitas variedades de amêndoa. As mais agradáveis ao paladar são as do Douro. O espectáculo das encostas, com as amendoeiras floridas nestas nossas terras do Alto Douro e Trás-os-Montes, é único no Mundo e justifica promover o turismo, dando a quantos desejarem, o prazer de apreciar a verdadeira beleza natural.

*Professor e Historiador

View more...

Comments

Copyright � 2017 SILO Inc.
SUPPORT SILO